sexta-feira, janeiro 05, 2018
“É falta, claro que é mão”. O derby visto entre couratos e imperiais na roulotte do Manelito
“O resultado não espelha o futebol jogado, mas há noites assim.”
“Claro que o resultado interessa e hoje estamos mais perto do nosso objetivo.”
O futebol é feito de clichés e todos os que gostam dele sabem que é melhor ganhar do que perder, preferencialmente jogando bem e tendo um jogo sem casos. Mas também todos sabem que há muita coisa que faz parte do futebol que acontece fora das quatro linhas. Ele são e-mails, vouchers, polvos, torresmos & couratos. E também todos sabem que a imperial é a 1€ em todas as roulottes. Se não sabem, deviam saber.
[continua aqui]
terça-feira, dezembro 05, 2017
bairro do amor
a casa estava vazia, estava sempre vazia. os quadros estavam tortos e, provavelmente, nunca estiveram direitos. nunca nada esteve direito naquela vida, que não era dela. nunca foi. a casa estava vazia. a porta fechou-se devagar. devagar, devagarinho. a mala caiu, os sacos do supermercado diário rasgaram-se e duas tangerinas rebolaram perdidas. lá se foi meio jantar. não valia a pena acender as luzes, ligar o rádio, tirar a roupa. deixou-se cair no sofá, rodeada pelo silêncio desta casa, da anterior, e da próxima. o telefone vibrou, as piadas repetiram-se no chat do dia, e as contas acumularam-se no e-mail. eram assim as noite a noite duma mulher só. e só ela sabia que devia ter comido uma canja no café em frente, que devia ter ido ao cinema da moda, que se devia ter apaixonado pelo colega da contabilidade. devia. ela sabia. ela sabia que devia começar a sua história numa página em branco. ela sabia que devia. que devia existir um alfarrabista no bairro do amor.
segunda-feira, novembro 20, 2017
lago falkner
domingo, novembro 19, 2017
lago machónico
sábado, novembro 18, 2017
lago lácar
aquele sol de fim de tarde a entrar pela janela velha e suja sempre foi o mais parecido com o seu brasil distante. elisa gostava de se sentar ao piano e tocar duas ou três músicas. aliás, eram quase inaudíveis inícios de músicas. as músicas não deveriam ter fim para elisa. a sua vida pelo contrário acabara há 32 anos quando deixou o rio e amarou de amores naquele lago. elisa seguiu o seu gringo de voz rouca e palavras apaixonantes e perdeu para sempre aqueles encontros fortuitos em copacabana e nas casas dos amigos do pai. da bossa nova ao tango vai uma diferença tão grande como o oceano sem fim e o lago curto. elisa nunca ultrapassou a dor pela esquerda e cada dia o seu coração ficou mais vulcânico. cada visita estrangeira era um postre doce que ela não queria que acabasse. ela era toda uma explosão por acontecer. elisa apaixonou-se por todos os cariocas que por ali passaram e, contudo, nunca terminou nenhuma daquelas valsas de amor. elisa era a insensatez de um piano numa terra de surdos. e um dia tudo viraria lenha fácil. estava escrito na natureza, no correr da cachoeira, na neve que queima. foi ontem. foi ontem que o silêncio crepitou pela última vez.
sexta-feira, novembro 17, 2017
lago escondido
quinta-feira, novembro 16, 2017
lago villarino
"gonçalo! com c, no com z. soy brasileiro." realmente o seu sotaque era, no mínimo, esquisito. via-se que não era daquelas bandas. mas o que deixara carmen mesmo deslumbrada eram os seus negros cabelos e uns penetrantes olhos cor de mel. "tiene algo para cenar antes de dormir?" claro que não tinha, as contas estavam demasiado apertadas para ter comida pronta sem a certeza de que alguém fosse aparecer. mas por aquele rapaz faria tudo. até um bolo de noz, e deus sabe o preço a que isso sai. "gonzalo, querés..." "gonçalo..." "si, tu querés un tostado con huevos revueltos?" "claro! parece-me perfeito! e diga-me sinceramente, o que faz uma mulher tão hermosa perdida no meio da montanha?" carmen estremeceu. vacilou tanto que teve de se agarrar ao fogão, fazia tempo que não a elogiavam, fazia tempo que um homem-mesmo-homem não a via. respirou fundo, na esperança de parecer indiferente ao elogio, e confessou que o hostal era da família. ou o que restava dela: carmen. "estoy sola hace mucho tiempo, ya no lo sé vivir de otra manera, gonzalo." "gonçalo! mas e o amor,... nem sei o teu nome, desculpa. devia ter perguntado." "carmen." "como a de bizet? isso é increíble." carmen, a mulher do lago, não a outra, cruzou a sala, passando perigosamente perto de gonçalo e foi buscar três vinis. três vinis de carmen, a outra. passou-lhos para a mão e confessou que sempre teve inveja da sua fogosidade. na resposta, gonçalo puxou-a contra si, apertou-a com força e sussurrou-lhe ao ouvido, num brasinhol excitante: "o fogo aparece quando há amor." carmen enruberesceu, ficou com os calores, sem voz e só conseguiu dizer: "lo fuego, lo fuego... los huevos!!!" tudo queimado e um fumo intenso por toda a sala. carmen estava doida, isto nunca acontecera, isto não podia acontecer. "Esto no podería pasarse", conseguiu ainda dizer antes de se perder naqueles braços fortes. nessa noite não houve huevos, tostado ou palavras desnecessárias, só o carinho e o sexo de que carmen precisava e não ousava sequer pensar. as horas foram passando e ela só queria que aquela noite não acabasse nunca, que partilhassem o nascer do sol, o pôr do sol, e o resto da vida também. carmen e gonzalo soava tão bem. carmen acabou por adormecer no peito dele e, pela primeira vez em anos, dormiu profundamente. mas as manhãs à beira lago são sempre geladas e a solidão do inverno é ainda mais gélida. nessa manhã de domingo, carmen não tinha gonçalo, gonzalo, amor, ou futuro, restava-lhe apenas uma sala cheia de fumo e uma dormida por pagar.
quarta-feira, novembro 15, 2017
lago espejo
el amanecer, de carlos di sarli. a música deles a passar no rádio que pedrito comprou lá para casa há mais de 30 anos. eram novos, tinham sonhos. e os sonhos tinham pernas para andar. hoje não têm nem sonhos nem pernas. pedrito perdeu-as num aparatoso acidente na estrada descontrolada de quem vem de espejo chico. vinha rápido, ansioso, perdido de amores. calculou mal a curva, caiu de coração ribanceira abaixo. eva lembra-se de tudo desse dia. do beijo baunilha dessa manhã, do café quente por beber, da vestido flor que esvoaçou até à porta, dos óculos tortos do polícia que apagou as luzes. dez pesados anos se passaram até eva se deixar conquistar pelos diabetes. chocolate em chocolate até ao sofá final. de frente para a janela, de mãos dadas, de silêncios repletos e a canção deles a ecoar pela casa fora. pedrito e eva lado a lado, como sempre, para sempre.
terça-feira, novembro 14, 2017
lago correntoso
faz sexta-feira três semanas que ninguém entra na herdade de cecília. turistas, perdidos, ou conhecidos. o luiz, dos correios, não tem correspondência para entregar ou contas para lhe cobrar. o miguel, do peixe, deve andar por outros lados ou a filha ficou pior. o ed, o cómico careca dos três cabelos, desistiu de lhe tentar vender aquelas roupas velhas. cecília nunca gostou especialmente de nenhum deles, porém deu por si a pensar na falta que lhe fazem nesta noite fria. o inverno ainda vai a meio, mas este ano está a ser excecionalmente rigoroso e ela não sabe se terá lenha até ao fim. o tabaco acabou há três dias, o vinho acabará no fim de semana. tudo acaba. e, contudo, do que sente mesmo falta é daqueles três. a montanha é agreste, sempre foi, e cecília uma cinquentona abandonada pela vida desistiu há muito de fazer amigos. habituada a virar-se por si só, virou montanha. talvez seja do inverno, mais rude do que outros, mas ela sacrificava já, sem pensar duas vezes, um cordeiro dos seus para ter um homem a quem dar a mão e ver o lago gelado.
terça-feira, outubro 17, 2017
O Estado sou eu
Uma das maiores certezas dos grandes incêndios é que estes põem a nu uma série de fragilidades e falhas: da prevenção/deteção dos primeiros fogos, das limpezas das matas, da ineficácia das primeiras respostas, da evacuação de feridos, crianças e idosos, do evitar do descontrolo do fogo, até à falta de uma comunicação clara e eficaz do governo, proteção civil e demais cargos locais. Está tudo errado, ou quase tudo.
O discurso durante e na fase de rescaldo é, tendencialmente, igual e previsível: ainda é cedo para tomar uma posição / não queremos apontar o dedo a ninguém / a culpa é de x e y / eram condições climatéricas anormais. E, contudo, está repleto de razão. São múltiplas as explicações e as responsabilidades do Estado, dos privados, do passado e do presente. E também é verdade que vão morrer mais pessoas! A revolução não se faz num dia. E é fundamental perceber que é necessária uma revolução nas florestas e no interior de Portugal. A crítica que sempre foi feita aos perigos da desertificação tinha também em si um alerta: um interior abandonado é uma bomba à espera de explodir. Ou arder, ou inundar.
Confesso que desconfio sempre dos "protestos silenciosos", das "manifestações apartidárias", dos "abaixo-assinado pelo direito do povo a...". Estes pensos rápidos da alma pouco mais nos dão do que um alívio momentâneo, quase nunca representando uma alteração dos cenários criticados (e criticáveis). Vivemos na era do like/dislike, da indignação fácil e da culpabilização ainda mais fácil. É justo. Mas isso não chega. A vida e, sobretudo, a política não se fazem apenas na praça pública e/ou redes sociais. Quantos dos que vão descer a avenida, reunir-se em frente à assembleia, assinar um abaixo-assinado, ou mesmo botar um like enraivecido, votaram nas últimas eleições, participaram numa assembleia local nos últimos tempos, conhecem o Plano de Pormenor da sua zona de residência (e a forma como ele mudou ao longo dos anos). Quantos dos indignados são os primeiros fãs do jardim, praia ou centro comercial que foi roubado à terra ou ao mar. Queremos tudo mas não olhamos a meios. E insistimos em não compreender que terra, fogo e água ganham sempre. Resta-nos, por isso, acautelar estes cenários catastróficos. E depois do caos, ajudar quem realmente precisa. O apoio localizado que surge de movimentos populares orgânicos é tão importante como as principais medidas governamentais. Se resolve o problema numa grande escala? Não, nem deverá ser essa a solução final. O objetivo é responder rapidamente e com grande precisão àqueles que de repente se viram privados de casa, comida, roupa e que, muito provavelmente, viram as suas futuras fontes de sustento arrasadas.
Discutamos então as soluções para evitar que os eventos recentes se repitam. Algumas pistas: reformular todo o sistema de emergência, dos seus meios e procedimentos; financiar a profissionalização dos bombeiros; reflorestar o interior com árvores autóctones; numa época de evidentes alterações climáticas, fará sentido termos uma fase Charlie exclusiva a uma época do ano? agilizar a comunicação entre organismos públicos centrais e locais, bombeiros, Proteção Civil, IPMA, etc.; expropriar os terrenos dos privados que claramente se mostrem incapazes de os limpar e acautelar potenciais incêndios. Este último ponto é, provavelmente, o mais delicado já que significa passar para o Estado uma grande parte dos terrenos florestais deste país. Os dados existentes apontam Portugal como sendo dos países com menor percentagem de floresta na mão do Estado. Terá o país capacidade financeira e meios para controlar e cuidar de todos esses terrenos?
As pistas que lanço aqui são poucas e resultam do meu perfil urbano. Sim, o meio de onde vimos marca o nosso olhar e, por isso, a ajuda de todos é fundamental. E mais necessária ainda é a dos que vivem nos locais afetados, e não a dos que vivem fechados entre gabinetes e corredores. Aos segundos exige-se respeito por quem sofre, por quem viu destruído o seu passado, presente e futuro. A demissão de ministros, responsáveis da Proteção Civil, não é um fim. Talvez nem seja um meio. O que se consegue com a remodelação de cariz político destes sujeitos tem muitos poucos efeitos práticos, mas dá uma imagem forte. Uma mudança de figuras nestas estruturas não devolve as áreas ardidas, as vidas perdidas, nem evita um cenário idêntico nos próximos tempos. Mas passa uma imagem que algo tem e vai ser feito. Ganha-se igualmente tempo e paz social para discutir com inteligência as soluções necessárias para um futuro diferente no interior do país (e na sequência disso nas florestas).
O Estado sou eu ou são os outros? Somos todos. E o chavão «agir local, pensar global» faz cada vez mais sentido. Temos de compreender que é hora de agir numa escala micro e macro: da reciclagem ao reordenamento do território, da criminalização de políticos à dos agentes económicos privados; da exigência de um real partido ecologista às políticas educativas que alertem para os riscos de desrespeitar o ambiente; de um discurso nacional que seja coerente com as práticas individuais de cada um na sua casa. O Estado somos todos. E todos somos vítimas e responsáveis pelos crimes que ocorreram, ocorrem e ocorrerão nas florestas e interior de Portugal.
quinta-feira, setembro 21, 2017
o largo da igreja
quarta-feira, setembro 20, 2017
um risco no vinil velho
terça-feira, setembro 05, 2017
laranja de abril
o laranja fim de tarde insiste em romper pela casa fechada a sete chaves. é o sol que aquece a sala e mostra a sara que nem tudo é vento frio no nascer da noite. a mala fica pousada logo à entrada, os sapatos atirados corredor fora, a malhinha que se deixa pousar a um canto. é a casa de família que precisa de pessoas para ser, é a família que precisa de casa para acontecer. sara, a solitária, diz o quadro senhorial que preenche a parede antiga. pode ser um cognome, pode ser um triste fado. abre as janelas, aceita a luz, entra o ar. liga o rádio e enche a casa de música. são melodias antigas, se a filha estivesse ali diria que são coisas da avó. talvez, talvez o tempo tenha parado naquela casa relógio. sara espreita o frigorífico. um nada branco que se abre. e depois se fecha. cai um íman. cai uma fotografia. cai o calendário: abril, mês das chuvas, da páscoa e da morte. são os meses que insistem em não passar. a morte sempre ali, sempre aberta no calendário espalhado, e o tic tac do relógio ecoa. as lágrimas são sempre salgadas, dizem, as de sara são amargas. são uma amarga laranja de abril.
jorge luis
quarta-feira, abril 19, 2017
canto três
adraga
quinta-feira, março 30, 2017
Meio intelectual, meio de esquerda
– Ó Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, frequenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo frequentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto frequentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que frequentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente frequenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinquenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
– Ó Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?
António Prata in Estadão
segunda-feira, março 27, 2017
a vida não é uma brincadeira
quarta-feira, março 22, 2017
onze da noite
o telefone não toca. passa das onze e ela não disse nada. a casa mal respira e ele sente-se só. a criança ressona no quarto do fundo, deve ser das alergias. sai à mãe. o telefone não toca. ele sabe que precisa dela, muito. ele quer agarrá-la pela cintura de princesa, pedir-lhe desculpa olhos nos olhos e beijá-la. um beijo longo e intenso, como no cinema, como não dão há muito. o telefone não toca. não deve ser nada de grave, ela só precisa de espaço e de tempo para ultrapassar este problema. todos precisam. enche o copo outra vez, sabe bem, sabe a baunilha, sabe ao perfume dela. são tão doces estas recordações que quase parecem verdadeiras. o telefone não toca. ele sussurra umas palavras perdidas no seu tom rouco, lambe os dedos sangrados do copo estilhaçado, e espreita o calendário imóvel que garante que o amanhã não lhe falhará. ele tem a certeza de que ela já não volta. daí a uma hora passarão três anos do acidente e ele sabe que ela já não volta. fecha os olhos, ouve o silêncio, não quer acordar, só quer adormecer e esfumar-se naquele último cigarro. o telefone não toca. e já passa das onze.
quinta-feira, março 16, 2017
monday, monday
dicionário sentimental
sábado, janeiro 07, 2017
nem tudo acaba com uma morte
7 de janeiro de 2017 - ainda não é o último dia. ou estará na hora?
sábado, novembro 26, 2016
quarta-feira, maio 11, 2016
tesouro maldito
terça-feira, maio 03, 2016
terça-feira, janeiro 12, 2016
terça-feira, dezembro 15, 2015
o jacinto
sexta-feira, dezembro 04, 2015
Dias bonitos
Ninguém sai, aparentemente. E o homem prossegue, certificando ser um bom negociador, o que, explica, quer dizer "ser mais mafioso que os mafiosos." Os mafiosos, sabe-se de livros e filmes, fazem ofertas "irrecusáveis". As aspas em "irrecusável" advêm da essência do ser mafioso: a ameaça e a coação. Crimes, portanto. A dada altura, o homem diz àquelas pessoas que vão na sua maioria ser despedidas e têm de assinar um papel em que prescindem do pré-aviso. É que o pré-aviso, aduz, implica pagar mais um mês de salários, e esse dinheiro não existe. Devem pois acreditar nele e prescindir disso: será a única forma de os despedidos poderem receber as indemnizações, as quais só serão pagas se os que ficam se dispuserem a trabalhar num projeto que ainda não sabem qual é. Há pessoas, poucas, que timidamente questionam. Quantos vão ser os "dispensados"? "Dois terços." É possível não assinarem nada já? "Não, todos têm de assinar, ou acaba tudo aqui". No fim, o homem pede palmas para os acionistas que investiram no projeto e saíram "para não perderem mais dinheiro". Palmas há. E depois, quando ele diz que "vai descansar um bocado", há mais. Palmas.
Sabemos isto porque o homem mandou gravar o plenário - di-lo no início da conversa - para, supostamente, as pessoas poderem "levar para casa e ouvir". A seguir, a gravação foi colocada no site da empresa. Não sabemos se foi pedida aos trabalhadores autorização para tal; não se percebe qual o objetivo. Quiçá o homem tem orgulho no que fez; deve tê-lo, porque, como refere várias vezes, a mulher e filhos estão ali, a assistir.
Isto, que parece mentira, não se passou numa empresa têxtil, nem no Bangladesh. Passou-se numa redação em Portugal. A do Sol e i, jornais que vão fechar este mês. Quem ali estava eram, portanto, jornalistas. E o homem, que se chama Mário Ramires, já foi jornalista também. Jornalistas - esses profissionais dos quais se exige que saibam duvidar, perguntar, sindicar todos os poderes, resistir a pressões, ser independentes, pugnar pelo bem público e pelos direitos das pessoas e só se guiarem pelo seu código deontológico e a sua consciência. Heróis de fábula, em suma - ou que pelo menos façam por distinguir o certo do errado, o legal do ilegal, não aceitando a primeira patranha. Ocorreu isto na mesma semana em que a TV do Correio da Manhã passou imagens dos interrogatórios do ex ministro Miguel Macedo e do ex diretor do SEF Manuel Palos. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. E se calhar é, num mundo em que estas coisas acontecem e tanta gente - a começar pelos jornalistas - parece achar normal.
Fernanda Câncio, in DN 04.12.15
terça-feira, dezembro 01, 2015
quarta-feira, novembro 25, 2015
pedro, o feliz
terça-feira, novembro 24, 2015
casa de pó
terça-feira, outubro 20, 2015
com duas pedras de gelo
segunda-feira, outubro 19, 2015
Luaty e a vergonha Angola-Portugal
2. Não há número que diga tanto sobre um país como a taxa de mortalidade infantil. Angola tem a pior taxa de mortalidade infantil do mundo: 167 crianças em 1000, o que quer dizer que uma em cada seis crianças angolanas morre antes dos cinco anos (Unicef). Quando a taxa de mortalidade infantil de um país é alta, isso é uma urgência. Mas quando ela é a mais alta do mundo num país dominado por uma oligarquia milionária isso é uma espécie de crime por negligência na forma continuada. E não faltam dados contundentes sobre o statu quo em que essa espécie de crime acontece, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (calculado a partir da esperança de vida, taxas de escolaridade e rendimento nacional bruto). No último relatório, que abrange 187 países, Angola está em 149.º lugar. Ou seja: em Angola, segundo maior produtor de petróleo da África subsariana, oficialmente uma democracia presidencialista com a qual Portugal tem estreitíssimos laços económicos, vive-se pior do que em quase todo o planeta, incluindo países em guerra, ditaduras, catástrofes. E a estes três números (mortalidade infantil, desenvolvimento humano, produção de petróleo) podemos acrescentar mais dois para completar a mão: o Presidente e líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, está há 36 anos no poder; e a sua filha Isabel dos Santos é a mulher mais rica de África, com 3,2 mil milhões de dólares.
3. Foi neste país que, a 20 de Junho passado, a polícia do regime deteve sem mandato 15 jovens que estavam numa casa de Luanda a discutir a situação política. Tinham dois livros com eles, Da Ditadura à Democracia, de Gene Shar, e Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura — Filosofia política da libertação para Angola, do jornalista angolano Domingos da Cruz. Os 15, incluindo Domingos, foram acusados de preparar um golpe de Estado. Ao fim de quase quatro meses, continuam presos, sem culpa formada e sem julgamento. Vários fizeram greves de fome, um deles, Luaty Beirão, não desistiu. No dia em que escrevo, quinta-feira, 15 de Outubro, Luaty está sem comer há 25 dias. Terá perdido cerca de 20 quilos, não consegue beber água, foi posto a soro no hospital-prisão, tudo isto enquanto a polícia do regime reprimia vigílias de solidariedade e protesto. Luaty é um activista com experiência, foi preso logo a 7 de Março de 2011, dia-símbolo para o levantamento dos jovens angolanos inspirados pela Primavera Árabe. Entre 2011 e 2015, viu o regime desdobrar-se em raptos, espancamentos, tentativas de suborno, ameaças a familiares, perseguições políticas, tudo para tentar combater activistas. A posição de Luaty é clara: manter-se em greve enquanto os 15 estiverem presos, contra a lei, mesmo a lei de Angola. Visto que Angola, descontando censura, prisões arbitrárias, raptos, espancamentos, suborno, ameaças, perseguições e repressão, é oficialmente uma democracia. Os observadores internacionais nem têm achado prioritário observar as eleições angolanas. Como Luaty diz, na entrevista que o PÚBLICO transcreveu e disponibilizou em vídeo, primaram pela ausência.
4. Foi bom ter visto, esta quarta-feira, em Lisboa, centenas de pessoas que fizeram o contrário, estiveram lá, na vigília convocada pela Amnistia Internacional, com a cara de Luaty, e dos outros 14 (Osvaldo Caholo, Afonso Matias, Albano Bingobingo, Nelson Dibango, Sedrick de Carvalho, Domingos da Cruz, Inocêncio António de Brito, Arante Kivuvu, José Gomes Hata, Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, Fernando Tomás, Nuno Álvaro Dala, Benedito Jeremias e Chiconda ‘Samussuku’). Bom ter visto lá angolanos como Rafael Marques de Morais, José Eduardo Agualusa, ou Kalaf, a cabo-verdiana Mayra Andrade, e tantas dezenas tão jovens ou muito mais do que aqueles que estão presos. Era uma pequena multidão com música, palavras e imagens. Mas não sei onde estavam, nem o que pensam, angolanos que estiveram tanto tempo presos pelo que pensaram e escreveram, como Luandino Vieira. Gostava de saber.
5. Enquanto Luaty, cidadão angolano e português, pode morrer a qualquer momento nestas circunstâncias, o Governo português tem, naturalmente, questões a debater, equacionar e mesmo ponderar, na sua relação com o Estado democrático de Angola, e portanto, até à hora de fecho desta crónica, que se saiba, fez exactamente zero. “Considera o Governo de Portugal a possibilidade de apresentar uma queixa junto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e de todas as demais instâncias internacionais competentes devido à violação de direitos humanos essenciais por parte do Estado angolano neste caso concreto afectando um cidadão português?”, foi a pergunta de Pedro Filipe Soares, deputado do Bloco de Esquerda. Através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, a resposta do Governo português, até à hora de fecho desta crónica, era: “Nós estamos a acompanhar a situação do ponto de vista humanitário, visto tratar-se de uma matéria interna de Angola no que diz respeito ao problema da averiguação se existe ou não existe uma infracção de carácter penal, e nisso não nos imiscuímos.”
6. A declaração de Machete foi feita segunda-feira. Terça, o Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa este voto: “1. Exprimir solidariedade a Luaty Beirão, sua família e amigos; 2. Exprimir solidariedade para com todas pessoas detidas no dia 20 de junho; 3. Recomendar a imediata libertação das pessoas detidas no dia 20 de junho; 4. Remeter este voto aos órgãos de soberania e aos grupos parlamentares representados na Assembleia da República; 5. Remeter este voto à Embaixada de Angola em Portugal.” Pois, o PCP votou contra. E não só votou contra, como resolveu contrapor um voto que diz assim: “Apelar às autoridades angolanas, no quadro do respeito da sua soberania e ordem jurídico-constitucional, a consideração da situação humanitária de Luaty Beirão.” Ricardo Robles, do Bloco, argumentou: “Não é uma situação de cariz humanitário. É uma questão política. Ele é um preso político e está em risco de vida. Um preso político é um preso político. Em Angola, na China, em Cuba, nos Estados Unidos, na Turquia ou na Palestina. É um preso político e devemos respeitá-lo, porque houve tantos presos políticos no Partido Comunista Português e tanto respeito que eles merecem.” Mas o efeito, no PCP, foi exactamente zero, em consonância com a posição do Governo PSD-CDS. Para um partido que tanto preza a coerência, que desonra à sua própria história, a milhares e milhares de comunistas que deram tudo pela liberdade.
7. Uma das coisas que Luaty diz no vídeo que o PÚBLICO pôs online esta semana é que um filho não é responsável pelo pai. Ele, Luaty Beirão, é filho de João Beirão (entretanto falecido), um próximo de José Eduardo dos Santos a ponto de ter dirigido a poderosa Fundação Eduardo dos Santos. Luaty tomou outro caminho; depois de estudar em França e Inglaterra, onde se tornou politicamente activo em manifestações e ocupações, fez uma viagem a pé de Lisboa a Luanda, com dois quilos de frutos secos e cem euros no bolso; conheceu parte de África, lentamente e sem rede; e de volta a casa manteve uma intervenção constante como rapper e activista. O extremo oposto do que aconteceu com a verdadeira filha do regime que é Isabel dos Santos, dez anos mais velha. Não só Isabel parece dormir bem com todos aqueles números sobre Angola, como a sua fortuna tem crescido inversamente às estatísticas dos miseráveis. E, como a Forbes detalhou numa investigação conjunta de Kerry A. Dolan, uma veterana da revista americana, e o incansável jornalista e activista angolano Rafael Marques de Morais, a presidência do pai favoreceu o império da filha. Isabel tem fama de trabalhar sete dias por semana para não deixar em mãos alheias o património conquistado, é um talentoso caso de estudo, alguém disse mesmo que Harvard devia estudar o talento dela. Também está bem posicionada em Portugal: Galp, BPI, NOS, BIC. Cada um faz da sua vida o que faz. O melhor que posso esperar é que esta noite Isabel dos Santos não durma assim tão bem e José Eduardo dos Santos menos ainda, e quando esta crónica sair Luaty esteja em liberdade, com todos.
Alexandra Lucas Coelho in Público

