quarta-feira, abril 19, 2017

canto três

o dia ainda vai curto, a lua está cheia, os lençóis são duas faixas de seda que se enroscam nas pernas macias de inês. as lágrimas correm pela almofada branca, o coração aperta e o sono não chega. ela relembra cada palavra que trocaram nessa manhã cinzenta. um telefonema, dois e-mails, três mensagens e um adeus que não devia ter chegado antes do fim do amor. pedro sempre foi boa pessoa. tinha olhos claros, cabelo noite, o dom da palavra e um coração de poeta. sempre se apaixonou facilmente mas nem era por mal. aliás, antes isso do que roubar, dizia. pedro escrevera a paixão deles em versos decassílabos, tal e qual a história dos mais belos príncipes e princesas. mas, agora, era só isso que restava a inês, uma triste amalgáma de sílabas contadas que não contavam mais. inês queria ligar-lhe, queria tentar outra vez. só mais uma vez. esta vez. inês pega no telefone, marca o número dele, o telefone toca, toca, toca. agora é tarde, pedro é morto.

adraga

o carreiro para o mar insiste em ser deles desde a primeira vez que o cruzaram. descem rápido com o vento na cara, com os olhos semicerrados do sol que acaba, a trautear a música velha que passa na rádio. lá longe, a areia ainda é calor, as ondas ainda se quebram, e as dunas ainda dormem abandonadas. é primavera em cada vendaval de fim de tarde e ela vive nos dedos que se enrolam nos cabelos dele. são irrequietos caracóis dourados, tão doces como os beijos de uma criança. toda a praia é feita de silêncios, todo o amor é feito de palavras mudas. o carro para no fim da estrada, a lua rasga o céu laranja e eles escrevem um sorriso apaixonado.

quinta-feira, março 30, 2017

Meio intelectual, meio de esquerda

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinquenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinquenta anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando frequentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
 – Ó Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, frequenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo frequentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto frequentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que frequentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente frequenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinquenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
– Ó Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

António Prata in Estadão

segunda-feira, março 27, 2017

a vida não é uma brincadeira

pára com isso! já te avisei mil vezes, que parvoíce!, gritou-lhe. peter baixou a cabeça e sussurrou algumas palavras. era sempre assim. ele sempre louco, sempre a rir, sempre criança. a vida não é uma brincadeira, peter pan. a vida tem dias tristes, contas para pagar e silêncios pesados. peter  cresceu sozinho, entre palavras escritas e ausências notadas, entre telefones desligados e choros convulsos no quarto do fundo, lá fundo. a escola trouxe-lhe amigos, noites de copos, mulheres e paixões. tudo intenso, tudo vivido, e, contudo, o quarto do fundo ficou sempre lá. ficou sempre no fundo. peter pan não queria crescer, queria amar como nos livros da casa da avó, queria beijar a noite toda, queria tudo. peter quer tudo menos ser crescido. é uma seca. e quando há seca, mete-se água. atirou-lhe água. novamente. pára com isso! já te avisei mil e uma vezes, que parvoíce., gritou-lhe.

quarta-feira, março 22, 2017

onze da noite

o telefone não toca. passa das onze e ela não disse nada. a casa mal respira e ele sente-se só. a criança ressona no quarto do fundo, deve ser das alergias. sai à mãe. o telefone não toca. ele sabe que precisa dela, muito. ele quer agarrá-la pela cintura de princesa, pedir-lhe desculpa olhos nos olhos e beijá-la. um beijo longo e intenso, como no cinema, como não dão há muito. o telefone não toca. não deve ser nada de grave, ela só precisa de espaço e de tempo para ultrapassar este problema. todos precisam. enche o copo outra vez, sabe bem, sabe a baunilha, sabe ao perfume dela. são tão doces estas recordações que quase parecem verdadeiras. o telefone não toca. ele sussurra umas palavras perdidas no seu tom rouco, lambe os dedos sangrados do copo estilhaçado, e espreita o calendário imóvel que garante que o amanhã não lhe falhará. ele tem a certeza de que ela já não volta. daí a uma hora passarão três anos do acidente e ele sabe que ela já não volta. fecha os olhos, ouve o silêncio, não quer acordar, só quer adormecer e esfumar-se naquele último cigarro. o telefone não toca. e já passa das onze.

quinta-feira, março 16, 2017

monday, monday

monday, monday, so good to me. monday morning, it was all i hoped it would be. cabelo negro, pele morena, olhos vivos e passo decidido. estava perdida, mas quem é que não se perde em benfica? na mão, um papel com a morada rua das garridas e a indicação que seria logo atrás do chafariz. o sol batia quente por entre as árvores da estrada de benfica, tal e qual como uma manhã estival na costa, e essa segunda-feira parecia um excelente dia para começar uma nova vida, a sua vida nova. monday, monday, so good to me. na esquina, uma mercearia rústica, uma família que nem era dali mas conhecia bem o sítio. ó menina, isso não tem nada que saber, vira na segunda à esquerda e está lá. é para a metalúrgica? tenho lá um primo que veio do norte nem há dois meses. aquilo é gente séria, pode ir à confiança. e não quer levar uma fruta para o almoço? também temos queijo e iogurte. monday, monday, so good to me. tem queijo da ilha e iogurte grego, sempre quer a granola e as ovas? dona! está a ouvir? monday, monday, so good to me. aquela música na rádio, a mesma música que cantarolara tantos anos antes a caminho do trabalho. a caminho duma vida que acaba agora, mas que logo se faz outra, qual bebé que virou menina, senhora e dona. o futuro começa agora e todos os dias podem ser segunda-feira. monday, monday, so good to me. monday morning, it was all i hoped it would be.

bambi surfista


nazaré, 2017

far away place




dicionário sentimental

a porta fecha-se com estrondo, cai uma moldura, bate uma janela. é apenas o vento de março a fazer das suas, pensa alice. eles até estão bem, sempre estiveram. alice fica sozinha, ela e aquele silêncio. alice tem saudades da casa dos pais, dos primos, de ser criança, da estar feliz. é triste ter saudades de tanta coisa, pensa. todos lhe dizem que ela tem muita sorte, que tem uma casa muito bonita, que tem uma vida de sonho. ela não concorda, é que alice nunca gostou verdadeiramente daquela casa. e, se calhar, isso também é triste, pensa. alice tem medo do escuro, tem medo do silêncio, tem medo das palavras, tem medo do confronto, tem medo do futuro, tem medo de perder o que já não tem. a janela volta a bater. o sol entra pela claraboia, rasga o corredor e ilumina uns livros desorganizadamente empilhados. o escritório foi invadido por brinquedos esquecidos e apenas a tv resiste em stand-by. já desligo, eu ainda volto, diz-lhe sempre, mas nunca volta. na mesa da cozinha, uns dedos de criança escreveram em pó de chocolate: amo-te, mã. alice sabe que aquelas palavras não se apagam, mas passa-lhes um pano seco por cima, só para não estragar a madeira. o café dele ficou na bancada. fica sempre. agora está frio, se calhar esteve sempre frio. devia meter a loiça na máquina, limpar as migalhas, arrumar os panos, guardar o queijo, o fiambre e os cereais. devia pintar-se, esticar o cabelo e vestir uma roupa melhor. devia fazer tanta coisa, mas é só mais um dia. nada tem de ser diferente, diz para si própria. alice olha pela janela, o vento sopra forte, arrasta folhas, papéis e lixo para a piscina vazia. é uma imagem triste, pensa. senta-se no banco e pega no telemóvel. zero chamadas, duas mensagens tão vazias como essa manhã: uma do talho, outra do cabeleireiro. também é um pouco triste, pensa. marca um número conhecido. hoje não consigo ir, passei mal a noite. amanhã estarei de volta. obrigado. até amanhã. beijinhos. alice mentiu. é triste mentir, pensa. ela sabe que nem tudo é mau mas sente que tudo é triste. e isso é triste. e é triste perder o tempo, perder o amor, perder as palavras. alice gostaria de descobrir um calendário lunar feito à sua medida, gostaria de encontrar o amor que lê nos livros, gostaria de saber para onde é que varreu as palavras de que tanto precisa. alice precisa de tanta coisa e só lhe resta uma casa de silêncios por encher. o telemóvel vibra, alice sorri. olá! está tudo bem? ouvi dizer que estás doente… beijinho.

sábado, janeiro 07, 2017

nem tudo acaba com uma morte

7 de janeiro de 2006 - o primeiro dia (link)
7 de janeiro de 2017 - ainda não é o último dia. ou estará na hora?

sábado, novembro 26, 2016

quarta-feira, maio 11, 2016

tesouro maldito

eram doze passos bem medidos para a direita do sobreiro mais velho do jardim. ou seriam onze? a pá era pesada mas maior era a dor de carregar aquele esqueleto gasto de uma má-vida-de-copos-e-salgados. afonso puxava cigarro atrás de cigarro na esperança de que o tempo que se leva a cavar uma cova sem fundo fosse menor do que a ânsia do galo cacarejar dai a duas horas. pouca-terra, pouca-terra, o comboio insistia em não furar e o tesouro não chegava. seriam onze passos? a noite estava fria e a humidade inundava o jardim, ao longe passos e risos. uma menina e um menino descobriam os prazeres da carne, enquanto afonso queria apenas os luxos da luxúria e do bem-bom. seria à esquerda? foi noutra vida, noutros tempos, noutras noites frias, com outros risos ao fundo. mão na coisa, coisa na mão, e um tesouro que se guardou para depois. "o meu tesouro será teu se souberes esperar." afonso esperou uma vida, enterrou família, amigos e sozinho ficou. hoje a noite está fria. seria do cipreste? "isso é árvore que transpira morte, afonso, foge disso!", seriam as palavras sensatas de irene. ele ficou e cavou, cavou, cavou. "cavou a sua própria sepultura.", escreveu o jovem polícia na manhã seguinte, enquanto gracejava com o colega: "este devia ser alentejano."

terça-feira, maio 03, 2016

terça-feira, janeiro 12, 2016

terça-feira, dezembro 15, 2015

o jacinto

do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta. juro que mal andava até à morte do seu marido mas ela agora está sozinha e sozinha fica. eu estava a ficar gordo, tinha dores nos joelhos e até me faz bem esta voltinha. dona irene faz sempre uns bolinhos maravilhosos e o chá é de canela. falamos a tarde toda e ninguém diria que um homem do campo pode ter tanto para contar a uma senhora. outro dia levei-lhe umas flores, uns jacintos, o que não deixa de ser engraçado porque é o meu nome. ela não reconheceu, coitada, mas agradeceu muito e até fez um bolo de laranja no dia seguinte. infelizmente sou alérgico e andei três dias com um inchaço na garganta que parecia papeira. rimo-nos muito e assim ficámos com mais uma história para contar. um dia iremos os dois à grande cidade, eu já lá fui mas foi há tanto tempo. fui às sortes ainda no tempo da outra senhora. dona irene, que já lá viveu, acha isso tudo muito divertido e garante-me que mostra a cidade toda, até mesmo as lojas finas. já lhe disse que não preciso disso, quero mesmo é ver as de ferragens porque têm material do bom, daquele que vem do estrangeiro. e ela ri-se. ela ri-se muito, quando não chora porque o filho é um pulha que só quer o dinheiro do falecido. era um bom homem, o doutor duarte mello. mello, com dois ls, que isto é gente que se trata bem. o rodolfo do café diz que eu devo ter cuidado com ela, que ela tem alguma fisgada, já lhe disse que ele é apenas um burro velho que não tem onde cair morto e não percebe que o amor não escolhe idades. eu bem sei, que já vi uns filmes estrangeiros sobre isso. o rodolfo é um jarreta que só pensa em beber e tem saudades de eu já não passar tardes com ele lá no café. paciência!, ganho eu e mais fica da minha reforma. dona irene é uma querida, uma senhora e sabe muito. ela merece o melhor e por ela, por ela, oh, por ela faço tudo. dona irene é um amor, um amor como nunca tive, e logo uma senhora. outro dia deixou-me pôr a mão na sua perna. percebi que estava com vergonha e nem procurei os seus olhos, fiquei só assim, com as minhas mãos de homem na sua perna feminina. as coisas são assim, no campo tudo leva tempo. ela merece o melhor e por ela, por ela até limpo a minha arma. dona irene garante-me que seu filho vem cá na próxima semana. o biltre! pode ser que tenha um azar. dona irene, como gosto de dona irene. como é bom estarmos assim juntos, assim perto. do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Dias bonitos

"Está um lindo dia", diz a voz de homem. É de manhã e ele tem à frente mais de uma centena de funcionários da empresa que dirige. Estão ali para ser esclarecidos sobre o destino da dita. Porém, antes de começar um discurso de quase duas horas, o homem põe uma condição: só pode ficar quem garantir que confia nele: "Quem não confia pode ir já embora."
Ninguém sai, aparentemente. E o homem prossegue, certificando ser um bom negociador, o que, explica, quer dizer "ser mais mafioso que os mafiosos." Os mafiosos, sabe-se de livros e filmes, fazem ofertas "irrecusáveis". As aspas em "irrecusável" advêm da essência do ser mafioso: a ameaça e a coação. Crimes, portanto. A dada altura, o homem diz àquelas pessoas que vão na sua maioria ser despedidas e têm de assinar um papel em que prescindem do pré-aviso. É que o pré-aviso, aduz, implica pagar mais um mês de salários, e esse dinheiro não existe. Devem pois acreditar nele e prescindir disso: será a única forma de os despedidos poderem receber as indemnizações, as quais só serão pagas se os que ficam se dispuserem a trabalhar num projeto que ainda não sabem qual é. Há pessoas, poucas, que timidamente questionam. Quantos vão ser os "dispensados"? "Dois terços." É possível não assinarem nada já? "Não, todos têm de assinar, ou acaba tudo aqui". No fim, o homem pede palmas para os acionistas que investiram no projeto e saíram "para não perderem mais dinheiro". Palmas há. E depois, quando ele diz que "vai descansar um bocado", há mais. Palmas. 
Sabemos isto porque o homem mandou gravar o plenário - di-lo no início da conversa - para, supostamente, as pessoas poderem "levar para casa e ouvir". A seguir, a gravação foi colocada no site da empresa. Não sabemos se foi pedida aos trabalhadores autorização para tal; não se percebe qual o objetivo. Quiçá o homem tem orgulho no que fez; deve tê-lo, porque, como refere várias vezes, a mulher e filhos estão ali, a assistir.
Isto, que parece mentira, não se passou numa empresa têxtil, nem no Bangladesh. Passou-se numa redação em Portugal. A do Sol e i, jornais que vão fechar este mês. Quem ali estava eram, portanto, jornalistas. E o homem, que se chama Mário Ramires, já foi jornalista também. Jornalistas - esses profissionais dos quais se exige que saibam duvidar, perguntar, sindicar todos os poderes, resistir a pressões, ser independentes, pugnar pelo bem público e pelos direitos das pessoas e só se guiarem pelo seu código deontológico e a sua consciência. Heróis de fábula, em suma - ou que pelo menos façam por distinguir o certo do errado, o legal do ilegal, não aceitando a primeira patranha. Ocorreu isto na mesma semana em que a TV do Correio da Manhã passou imagens dos interrogatórios do ex ministro Miguel Macedo e do ex diretor do SEF Manuel Palos. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. E se calhar é, num mundo em que estas coisas acontecem e tanta gente - a começar pelos jornalistas - parece achar normal.
 Fernanda Câncio, in DN 04.12.15

terça-feira, dezembro 01, 2015

quarta-feira, novembro 25, 2015

pedro, o feliz

pedro era um miúdo normal. tinha mil amigos e sabia bem qual era o preferido, o segundo, terceiro, quarto, tudo bem definido e contabilizado, mesmo até ao fim, até chegar ao gordo da rua da avó, que era divertido apesar de ser gordo. "os gordos são sempre assim", dizia a avó antes de acrescentar "menos a badocha da dona laura, da praça, que rouba sempre na fruta". pedro era feliz, andava nos escuteiros, tinha boas notas, recebera uma fantástica bola de couro. esta era mesmo redonda! o jaime tinha medo dela e deixava sempre entrar se pedro rematasse à figura. lia livros com ladrões e bandidos, que os policias eram uma seca e histórias de príncipes e donzelas eram conversa da prima francesa. pedro sorria, sorria muito e ria, ria sobretudo quando o avô contava aquelas histórias assustadoras da mina. ele esticava aqueles braços enormes, abria umas mãos sem fim e agarrava-o. as histórias do avô acabavam sempre assim, um abraço que ia daqui até ao fundo da mina, ao fim do mundo, daqui até ao país com nome estranho onde os pais estavam, onde eles se esconderam por causa de umas coisas da política. "talvez um dia eles voltem, pedro, e ai vamos todos juntos ver o elefante ao zoo. e ele vai tocar a sineta só para ti, prometo." a felicidade na ponta de uma tromba parece piada de banda desenhada mas os miúdos são assim simples e pedro era assim. feliz.

terça-feira, novembro 24, 2015

ter paus na boca

casa de pó

a velhice encheu-me a casa de pó e de silêncios. os teus olhos azuis são o mar que nos espreita todas as manhãs, são a última recordação de uma vida que está longe. tão longe como as palavras de amor que já não trocamos. houve carinho, claro, eu amava-te mas era amor pelo conforto que uma vida em comum nos dá. pó, há pó por todo o lado. uma teia de aranha, aqui e ali, um soalho que range e pratos riscados à espera de mais um almoço frio. vais e vens da vila e eu por aqui fico. fico presa a uma cadeira que não roda, apenas me prende. o céu é azul e acaba ali onde o mar se perde. dizes que já lá fomos, que foi o nossa primeira viagem depois do casamento, não sei, não acredito, duvido mesmo. os tempos eram outros, havia respeito. eu era nova, ingénua e ansiosa pelo casamento que estava escrito nos romances de cordel, eras um cavalheiro, eu uma princesa, e a nossa história só acabaria quando as palavras emudecessem. silêncio. a nossa casa é um silêncio feito de barulhos velhos e eu desgosto. onde estão os teus olhos azuis? não devias ter regressado já da tua volta? fecho os olhos, estou cansada, exausta, oiço o vento lá fora, o mar a bater nas rochas, um carro ao longe, uma ave a grasnar e tudo me ensurdece. tenho saudades do teu silêncio. não sei viver com as tuas palavras, não sei viver sem o teu silêncio. que dia é mesmo hoje?

terça-feira, outubro 20, 2015

com duas pedras de gelo

a música está riscada, ouvem-se ruídos difusos e a melodia perde-se algures nos golpes que rasgam o terceiro tema. luís já a ouviu mil vezes, se calhar é por causa disso ou dos copos que insistem em cair  em cima do vinil que hoje não se ouve nada. mesmo nada. está cansado. não se lembra como chegou ali. 
era um jantar de trabalho, ou então com colegas de trabalho, ou se calhar eram apenas conhecidos do prédio. um copo e outro copo, a comida não chegava e outro copo. ria-se alarvemente, contava histórias divertidas, ele pelos menos assim achava, e olhava para a empregada com um ar lascivo. estava a ser uma noite à antiga. e o copo que insistia em ficar vazio. "mais um, por favor." a dona carlota, gordurosa dona do restaurante, já sabia como isto acabava pelo que deu sinal ao pedro, o empregado das piadas fáceis, para servir luís mais lentamente. a história azedou, ele apercebeu-se e insistia em dizer que quem mandava ali, quem mandava ali era o cliente. "e mais um, por favor." a comida não chegou, o uísque sim. sentia-se numa festa universitária com o cansaço de um velho que espera pela morte. e depois caiu, ou melhor, deve ter caido.
um galo, uma dor do lado esquerdo da cabeça e uma branca. total. que horas são? espreita o relógio. não é tarde. mas sente que dormiu umas horas no chão da sala, tem o corpo dorido, partido, e há vómitos no tapete. precisa de ouvir música. aquela música.
aquela música lembra-lhe o passado, o primeiro copo, a primeira morte, a primeira pessoa, a segunda música. luís quer parar o tempo naquele passado distante mas não há pause neste leitor de vinil, não há pause, não há vinil, mas há uisque. e gelo. tem sede e ainda faltam tantas horas para o sol nascer.

segunda-feira, outubro 19, 2015

deixa ser

Luaty e a vergonha Angola-Portugal

1. Não sei como José Eduardo dos Santos dorme à noite. Não sei como Isabel dos Santos dorme à noite. Não sei como milhares de homens e mulheres de negócios dormem à noite. Não sei como o Governo português dorme à noite. E o PCP podia arranjar melhor companhia do que o governo português nesta matéria, a greve de fome de Luaty Beirão. Milhares de comunistas portugueses presos, torturados e mortos em nome da liberdade merecem muito mais.
2. Não há número que diga tanto sobre um país como a taxa de mortalidade infantil. Angola tem a pior taxa de mortalidade infantil do mundo: 167 crianças em 1000, o que quer dizer que uma em cada seis crianças angolanas morre antes dos cinco anos (Unicef). Quando a taxa de mortalidade infantil de um país é alta, isso é uma urgência. Mas quando ela é a mais alta do mundo num país dominado por uma oligarquia milionária isso é uma espécie de crime por negligência na forma continuada. E não faltam dados contundentes sobre o statu quo em que essa espécie de crime acontece, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (calculado a partir da esperança de vida, taxas de escolaridade e rendimento nacional bruto). No último relatório, que abrange 187 países, Angola está em 149.º lugar. Ou seja: em Angola, segundo maior produtor de petróleo da África subsariana, oficialmente uma democracia presidencialista com a qual Portugal tem estreitíssimos laços económicos, vive-se pior do que em quase todo o planeta, incluindo países em guerra, ditaduras, catástrofes. E a estes três números (mortalidade infantil, desenvolvimento humano, produção de petróleo) podemos acrescentar mais dois para completar a mão: o Presidente e líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, está há 36 anos no poder; e a sua filha Isabel dos Santos é a mulher mais rica de África, com 3,2 mil milhões de dólares.
3. Foi neste país que, a 20 de Junho passado, a polícia do regime deteve sem mandato 15 jovens que estavam numa casa de Luanda a discutir a situação política. Tinham dois livros com eles, Da Ditadura à Democracia, de Gene Shar, e Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura — Filosofia política da libertação para Angola, do jornalista angolano Domingos da Cruz. Os 15, incluindo Domingos, foram acusados de preparar um golpe de Estado. Ao fim de quase quatro meses, continuam presos, sem culpa formada e sem julgamento. Vários fizeram greves de fome, um deles, Luaty Beirão, não desistiu. No dia em que escrevo, quinta-feira, 15 de Outubro, Luaty está sem comer há 25 dias. Terá perdido cerca de 20 quilos, não consegue beber água, foi posto a soro no hospital-prisão, tudo isto enquanto a polícia do regime reprimia vigílias de solidariedade e protesto. Luaty é um activista com experiência, foi preso logo a 7 de Março de 2011, dia-símbolo para o levantamento dos jovens angolanos inspirados pela Primavera Árabe. Entre 2011 e 2015, viu o regime desdobrar-se em raptos, espancamentos, tentativas de suborno, ameaças a familiares, perseguições políticas, tudo para tentar combater activistas. A posição de Luaty é clara: manter-se em greve enquanto os 15 estiverem presos, contra a lei, mesmo a lei de Angola. Visto que Angola, descontando censura, prisões arbitrárias, raptos, espancamentos, suborno, ameaças, perseguições e repressão, é oficialmente uma democracia. Os observadores internacionais nem têm achado prioritário observar as eleições angolanas. Como Luaty diz, na entrevista que o PÚBLICO transcreveu e disponibilizou em vídeo, primaram pela ausência.
4. Foi bom ter visto, esta quarta-feira, em Lisboa, centenas de pessoas que fizeram o contrário, estiveram lá, na vigília convocada pela Amnistia Internacional, com a cara de Luaty, e dos outros 14 (Osvaldo Caholo, Afonso Matias, Albano Bingobingo, Nelson Dibango, Sedrick de Carvalho, Domingos da Cruz, Inocêncio António de Brito, Arante Kivuvu, José Gomes Hata, Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, Fernando Tomás, Nuno Álvaro Dala, Benedito Jeremias e Chiconda ‘Samussuku’). Bom ter visto lá angolanos como Rafael Marques de Morais, José Eduardo Agualusa, ou Kalaf, a cabo-verdiana Mayra Andrade, e tantas dezenas tão jovens ou muito mais do que aqueles que estão presos. Era uma pequena multidão com música, palavras e imagens. Mas não sei onde estavam, nem o que pensam, angolanos que estiveram tanto tempo presos pelo que pensaram e escreveram, como Luandino Vieira. Gostava de saber.
5. Enquanto Luaty, cidadão angolano e português, pode morrer a qualquer momento nestas circunstâncias, o Governo português tem, naturalmente, questões a debater, equacionar e mesmo ponderar, na sua relação com o Estado democrático de Angola, e portanto, até à hora de fecho desta crónica, que se saiba, fez exactamente zero. “Considera o Governo de Portugal a possibilidade de apresentar uma queixa junto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e de todas as demais instâncias internacionais competentes devido à violação de direitos humanos essenciais por parte do Estado angolano neste caso concreto afectando um cidadão português?”, foi a pergunta de Pedro Filipe Soares, deputado do Bloco de Esquerda. Através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, a resposta do Governo português, até à hora de fecho desta crónica, era: “Nós estamos a acompanhar a situação do ponto de vista humanitário, visto tratar-se de uma matéria interna de Angola no que diz respeito ao problema da averiguação se existe ou não existe uma infracção de carácter penal, e nisso não nos imiscuímos.”
6. A declaração de Machete foi feita segunda-feira. Terça, o Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa este voto: “1. Exprimir solidariedade a Luaty Beirão, sua família e amigos; 2. Exprimir solidariedade para com todas pessoas detidas no dia 20 de junho; 3. Recomendar a imediata libertação das pessoas detidas no dia 20 de junho; 4. Remeter este voto aos órgãos de soberania e aos grupos parlamentares representados na Assembleia da República; 5. Remeter este voto à Embaixada de Angola em Portugal.” Pois, o PCP votou contra. E não só votou contra, como resolveu contrapor um voto que diz assim: “Apelar às autoridades angolanas, no quadro do respeito da sua soberania e ordem jurídico-constitucional, a consideração da situação humanitária de Luaty Beirão.” Ricardo Robles, do Bloco, argumentou: “Não é uma situação de cariz humanitário. É uma questão política. Ele é um preso político e está em risco de vida. Um preso político é um preso político. Em Angola, na China, em Cuba, nos Estados Unidos, na Turquia ou na Palestina. É um preso político e devemos respeitá-lo, porque houve tantos presos políticos no Partido Comunista Português e tanto respeito que eles merecem.” Mas o efeito, no PCP, foi exactamente zero, em consonância com a posição do Governo PSD-CDS. Para um partido que tanto preza a coerência, que desonra à sua própria história, a milhares e milhares de comunistas que deram tudo pela liberdade.
7. Uma das coisas que Luaty diz no vídeo que o PÚBLICO pôs online esta semana é que um filho não é responsável pelo pai. Ele, Luaty Beirão, é filho de João Beirão (entretanto falecido), um próximo de José Eduardo dos Santos a ponto de ter dirigido a poderosa Fundação Eduardo dos Santos. Luaty tomou outro caminho; depois de estudar em França e Inglaterra, onde se tornou politicamente activo em manifestações e ocupações, fez uma viagem a pé de Lisboa a Luanda, com dois quilos de frutos secos e cem euros no bolso; conheceu parte de África, lentamente e sem rede; e de volta a casa manteve uma intervenção constante como rapper e activista. O extremo oposto do que aconteceu com a verdadeira filha do regime que é Isabel dos Santos, dez anos mais velha. Não só Isabel parece dormir bem com todos aqueles números sobre Angola, como a sua fortuna tem crescido inversamente às estatísticas dos miseráveis. E, como a Forbes detalhou numa investigação conjunta de Kerry A. Dolan, uma veterana da revista americana, e o incansável jornalista e activista angolano Rafael Marques de Morais, a presidência do pai favoreceu o império da filha. Isabel tem fama de trabalhar sete dias por semana para não deixar em mãos alheias o património conquistado, é um talentoso caso de estudo, alguém disse mesmo que Harvard devia estudar o talento dela. Também está bem posicionada em Portugal: Galp, BPI, NOS, BIC. Cada um faz da sua vida o que faz. O melhor que posso esperar é que esta noite Isabel dos Santos não durma assim tão bem e José Eduardo dos Santos menos ainda, e quando esta crónica sair Luaty esteja em liberdade, com todos.

Alexandra Lucas Coelho in Público

quinta-feira, outubro 08, 2015

inside-out


açores 2015

"em bom, é assim:"

Em bom, é assim: "João amava Teresa que amava Raimundo/ Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém. /João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história." Em bom, é assim, célebre poema assinado por Carlos Drummond de Andrade. Ao poema, ele chamou Quadrilha. Não, não é isso que estão a pensar, mas no sentido da tradicional contradança. Por isso me permito uma versão portuguesa, citando políticos, para aqui trazidos por nos darem música. Sai cantiga de escárnio e maldizer: Aníbal apadrinhava Pedro que casara com Paulo que desdenhava Pedro que piscava o olho a António que se encontrava com Jerónimo que se queria vingar de Catarina que também instigava António que não sabia o que fazer. Aníbal foi para o Algarve reformado, Pedro e Paulo continuaram casados, sonhando com umas terceiras núpcias, grandes como as primeiras, melhores do que as segundas, António hesitou na passagem de nível, olhou para a esquerda, olhou para a direita, foi talvez atropelado, apanhou talvez o comboio do poder, Jerónimo progrediu para 18 deputados, talvez até 19, e mesmo 12 era bom logo que fossem mais do que Catarina que invejou André Lourenço e Silva, que tinha um cão chamado Nilo e não entrou na história porque é deputado do PAN e só se interessa por periquitos.

Ferreira Fernandes in DN

sexta-feira, agosto 28, 2015

oito.mês.oito.

agosto começou. o sol é quente, a pele morena, o peixe brasa, há caracóis no prato e no cabelo dourado. o verão começou agora e as paixões são letras da festa do coreto. agosto é a prima francesa que sabe tanto sobre tanta coisa mas insiste em ter medo da osga e do cobra que eu sei que não são venenosas. claro que não são, comigo não há perigo. agosto começou agora e temos todo um mês para ouvir o tio zé a contar mil histórias em mil noites que são tão quentes como as memórias daquela áfrica de onde todos vieram. agosto é férias sem fim, é o mês que vive em todos os outros. o verão é agosto, é expo, é belém, francesinhas e uma tia beijoqueira que detesto. mas quem é ela? tia lurdes, como a avó que era um amor. aldeia que corta a grande cidade, gasosa que melhora o vinho, mão dada que me deixa apaixonado. "o meu querido mês de agosto" diz o primo rui que é dos filmes. talvez, não sei, mas garanto que se eu mandasse nisto tudo, e um dia vou mandar, agosto teria os 365 dias que merece. agosto acabou. hoje.

2º E

já tenho o número dela! o carlos do 7ºa deu-me o número porque é amigo do vizinho do 2ºf. gosto do carlos, sempre foi fixe e fica sempre na minha equipa. mas gosto mais dela. hoje vou ligar-lhe para casa e vou pedir para falar com ela. vou perguntar pela prova de global, ou pelos trabalhos ou mesmo se está melhor do pé. hoje vou ouvir a voz dela e talvez nem lhe diga nada. um silêncio apaixonado, daqueles que se lêem nos livros da minha madrasta. gosto das sardas dela, e sei que vou sentir as sardas na voz entre as palavras assopradas de quem usa um aparelho nem há duas semanas. gosto dela. dizem que isto é amor mas eu acho que não. isto é apenas o princípio de uma bela história que vai acabar quando eu souber montar a cavalo, falar francês e fizer com ela a viagem de finalistas. quero ser da turma dela e ser o melhor amigo. quero tudo com ela. quero aprender a amar com ela. tenho o número dela, o resto tem de ser fácil.

histórias com mar II

o silêncio por toda a casa, a mala por fazer, a manhã que está aí a chegar e ele que não chega. é a última noite até à próxima. que está longe. e ele que talvez não volte. dizem que vida de pescador é dura mas a de mulher não é menos. ele não volta. ele não chega. era um copo ou dois apenas. o telefone não toca e eu fecho os olhos. o sono não vem. ele sempre foi assim, ele é assim. pescador com porto mas sem batel. nada é dele, é tudo emprestado ao tempo, ao futuro incerto, à morte. li no jornal que ele é sagitário e são todos assim, se o jornal diz. quero-o de volta. preciso dele! amanhã ele vai-se e não sei quando volta. não me lembro da última noite, da última viagem, do último carinho, da última vez que não fui apenas uma continuação do passado, quanto mais da penúltima. a luísa da novela é igual, ele até a a ama mas não mostra, dizem que os homens são assim. o rodrigo era assim, são todos assim, os homens. ele não volta. talvez volte por esta noite mas não volta. quero os meus 30 anos mas eles não voltam. ele não volta. toca o telefone. é ele?

quinta-feira, julho 23, 2015

histórias com mar

na tua terra é diferente, não é? se quiseres podes começar a andar e só acabas nos urais, e isso se quiseres. na tua terra é melhor, tenho a certeza disso. e é por isso que não percebo qual a razão que te trouxe aqui. não percebes que isto é uma terra maldita? é uma terra que sofre de ter a água que outros não têm, que sofre de ter a chuva que outros desejam, que sofre de ter um mar que nos tira daqui mas nunca nos devolve. não entendo! vejo-te aqui, neste tasco perdido, a rir com a tua dentição completa, com as tuas frases cheias de palavras estrangeiras, com os teus olhos azuis de quem sempre amou o mar e não percebe. és tu quem não percebe que este mar é morte. estamos rodeados de morte. não há local nesta ilha onde não se veja a morte, onde não se veja o mar. não percebo porque não te percebo. tens as mãos macias de quem sempre esteve fechado num escritório, num gabinete, numa escola ou numa casa de mil empregados e muitos sorrisos. aqui é diferente, tudo é duro, tudo rasga as mãos e nenhum peixe é dado pelo mar. somos os presos desta ilha e eu não encontro a estrada para longe daqui. na tua terra é diferente, não é?

era a segunda à esquerda


açores 2015

mind da gap - em casa e fora de casa

quarta-feira, junho 24, 2015

são joão a dar música 24

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são joão a dar música 2

são joão a dar música 1