Domingo, Março 18, 2012

E enquanto os brasileiros escrevem os portugueses contam tostões

1. Sento-me com uma amiga a almoçar em Lisboa e ela conta-me que está a viver com 300 euros por mês. Transfere-os todos os meses da conta-poupança para a conta-corrente. Isto é possível porque, aos 35 anos, continua em casa dos pais, no seu quarto de rapariga, onde agora tem o computador, primeira coisa que liga todas as manhãs. Vive com muito pouco e sente-se uma sortuda por ter bom ambiente familiar. Durante anos aguentou-se num emprego que detestava, largou-o finalmente para tentar escrever e traduzir. Da escrita ganha nada, a tradução varia entre sete e oito euros e meio por página. Um livro de tamanho médio, que lhe leva três meses de trabalho, representa mil e tal euros de remuneração. É assim que a literatura estrangeira está a ser traduzida em Portugal. À custa desta falta de alternativa.

2. Sento-me com outros amigos em Lisboa que escrevem, entre outras coisas, algumas penosas e mal pagas, algumas nunca pagas, milhares de euros ao ar. Não vem da crise, é uma exploração antiga: escrever não é trabalho e o tempo de quem escreve não é tempo. O tempo dos gestores é dinheiro, como o dos canalizadores, mas quem escreve não paga luz, não tem fome, não tem família, não precisa de seguro, de segurança social, nem, mais à frente, de pagar o funeral. Uma espécie de sobrehumano ao serviço da cultura. Portugal é assim um país de poetas ricos, escreveu Nuno Moura, poeta que podia dizer sobre isto o que nem imagino.
Em Portugal, poetas e prosadores são certamente tão ricos que não precisam de ser pagos quando vão daqui para ali, e fazem textos para colóquios, para revistas, para jornais, e são chamados para debates, para badanas, para prefácios — montras, em suma, em que se podem mostrar e de que portanto beneficiam. O que escrevem não tem preço e o tempo deles não se mede.
— Não há dinheiro que me pague — remata aquele meu amigo que nem quando cede ao sarcasmo deixa de ser o mais elegante.

3. Porque somos um país de poetas ricos e elegantes. Morremos à fome mas com elegância. Depois toda a gente lamenta e entretanto é de bom tom não falar naquele assunto a que João César Monteiro chamaria o dinheirinho.
Por pudor perdemos a vida. Não é digno, é só obsceno, gente que não sabe como viver amanhã, que todos os dias sabe o que perde, que não está a fazer o que tem para fazer aqui. E aqui é um lugar cada vez mais pequeno, onde os cidadãos elegem um governo e esse governo depois os manda emigrar, como se a sua única razão de ser não fosse servir os cidadãos.

4. Entre o fim dos anos 1990 e o começo de 2000, este país pareceu acreditar que talvez lhe coubesse fazer algo pela sua literatura. Quebrando o protocolo do pudor, o então instituto do livro ousou instaurar bolsas de criação literária. Portugal foi país-tema de grandes feiras internacionais em anos sucessivos: Frankfurt 97, Rio de Janeiro 99, Paris 2000. Pelo meio houve o Nobel para Saramago, 98. As traduções portuguesas explodiram — e é com o dinheiro das traduções, mais que dos direitos em Portugal, que os escritores conseguem, enfim, pensar nessa coisa extraordinária: viver da escrita. Muito do que agora está a ser colhido foi plantado então. Vejam os nomes de quem recebeu essas bolsas.

5. Para muitos escritores, uma bolsa paralisa, constrange, cada um saberá de si. Mas a possibilidade tem de existir para quem quiser recorrer a ela. Devia ser dever do estado, governo central e autarquias. Mais, num país como Portugal, que pouco melhor tem para oferecer que os seus criadores, devia ser uma estratégia.

6. Sento-me com outra amiga em Lisboa e ela conta-me que recusou idas e vindas e textos por não serem pagos, mas que isso não constituiu problema para quem a convidava, porque havia sempre gente para aceitar — como agora há cronistas a escrever de graça.
Eu vejo duas boas razões para escrever de graça. A primeira é quando alguém próximo nos pede. A segunda é quando reverte a favor de quem precisa. No primeiro caso trata-se de amizade, no segundo de voluntariado. O resto chama-se abuso.
O abuso não só perpetua o estado das coisas como o acentua. Cada vez que alguém acha natural não pagar a quem escreve está a dizer que a literatura é acessória, e a contribuir para que ela desapareça.

7. Em 2012, o Brasil está a viver plenamente o que Portugal julgou viver há 15 anos. Em 2013 será protagonista na feira de Frankfurt, a maior do mundo, prepara inúmeros programas paralelos e não é por acaso: nos últimos anos, os incentivos a quem escreve multiplicaram-se. Além do apoio às traduções, as embaixadas do Brasil pelo mundo convidam escritores brasileiros para encontros locais, de Washington a Istambul. Dentro do Brasil, governo federal, estados e municípios promovem bolsas, festivais, residências, edições ou turnés. As instituições habituaram-se a pagar pelo que pedem mesmo que se trate da divulgação do último livro do autor. Pagam o tempo que ele podia usar para escrever.
O resultado disto é que mais do que uma geração de escritores brasileiros emergiu, os mais velhos largando empregos, os mais novos não tendo que os arranjar. As compras governamentais às editoras, para alunos e professores, reforçam substancialmente muitos direitos de autor. E tudo o mais tende a ser pago: escrever uma badana, um prefácio, ir a um colóquio, a um festival.
Muita gente talentosa fica fora deste circuito e falta fazer quase tudo: ler no Brasil ainda é um luxo de poucos; fora best-sellers, as tiragens são baixas; as boas livrarias estão concentradas no eixo São Paulo-Rio. Mas, num momento em que tudo parece crescer no Brasil, há muitos estímulos públicos e privados para que a literatura também cresça.
A Petrobrás tem bolsas de criação literária anuais. Não sei de nada remotamente semelhante em Portugal. A PT criou um prémio literário enorme para autores lusófonos com obra publicada no Brasil. E quem não chega a publicar no Brasil? Bolsas e residências literárias regulares, conhecem?

8. A crise podia ser o começo e não a precipitação do fim. De um governo que acha natural despachar cidadãos para o estrangeiro não vejo o que se possa esperar. Mas talvez pudéssemos começar por perder o pudor, porque vergonha é que quem convida não fale em dinheiro, indigno é partir do princípio de que os escritores dão o seu trabalho, a única coisa pela qual podem ser pagos.

Alexandra Lucas Coelho in Pùblico, 18-3-2012

"bom de bola"

Lançamento. Hoje. 18h00. Fnac Colombo. Vai ser melhor do que ver a bola...

Segunda-feira, Março 12, 2012

Cine Qua Non #5

Lançamento da Cine Qua Non #5 {que fecha a chaveta desta 1ª colecção}, a realizar no dia 15 de Março (5ª feira), pelas 18h, na Livraria Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar, 89).

A nova luta de classes

Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "empreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se torna "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocentrados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História.

É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo", não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.

Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias.

A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, torna o mundo mais interessante e alimenta a curiosidade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História.

A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade que normalmente não lhes "assiste". Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d"Arc, Luís XIV, Napoleão ou De Gaulle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.

O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.

Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.

Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e s?? depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado.

O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito" na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.

A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tornam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis.

Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tornarem "preguiçosos autocentrados".

Pacheco Pereira in Abrupto (Versão do Público de 10 de Fevereiro de 2012.)

Bluebird


via Blogtailors

Sexta-feira, Março 02, 2012

o retro está na moda

Hoje é dia de clássico! E há blogs especialmente pensados para o efeito como este. O look é retro, os conteúdos actuais, o jogo decide (muito d')o futuro da temporada. Venha a bola...

tic tac tic tac

O problema não é o despesismo do Estado

Vi, esta semana, um noticiário da televisão generalista. Notícias avulsas. Um carro do Instituto de Conservação da Natureza parado à porta de sede local enquanto a o Parque de Montesinho ardia e os bombeiros se espantavam pela ausência no terreno dos técnicos do ICN. Razão possível avançada pelo jornalista: poupança na gasolina. Milhares perdidos para poupar umas centenas. Alteração no funcionamento dos hospitais de Tomar e Torres Novas faz com que muitos pacientes fiquem a mais de cinquenta quilómetros de urgências diferenciadas. Risco de falta de medicamentos por não pagamento de dívida a uma empresa da indústria farmacêutica. Redução de despesas no transporte de doentes. Encerramento de dezenas de tribunais deixa ainda mais isolados concelhos do interior. Redução do montante do subsídio de desemprego e da duração da prestação só está à espera da luz verde do Presidente da República. O Instituto de Emprego e Formação Profissional vai passar responsabilidades, na colocação de desempregados, para empresas de trabalho temporário, os negreiros da modernidade.
É a imagem de um Estado em esvaziamento e de um País que, pouco a pouco, vai ficando paralisado, como se peças fundamentais para o funcionamento de uma máquina fossem faltando sem que ninguém as subsitua. É por necessidade, dirão muitos. O Estado andou a gastar o que não tinha, repetirão. Como na Grécia, concluirão.
Até à crise financeira global de 2008, Portugal tinha, em 2007, uma dívida pública inferior, em percentagem do PIB, à Alemanha e à zona euro: Portugal com 62,7%; Alemanha com 64,9%; zona euro com 66,2%. Foram os juros e a perda de receitas com a crise económica, e não um súbito despesismo público, que mudaram esta realidade.
Mas vamos aos números atuais de três países em dificuldade. A dívida pública grega corresponde a 42% do total da sua dívida. A metade restante divide-se pelos bancos (17%), empresas não financeiras (23%) e proprietários de casa (17%). Bem diferente da estrutura da dívida espanhola e portuguesa. A dívida pública corresponde a 13% do total da dívida espanhola e a 15% da portuguesa. A dos bancos corresponde a 39% e 30% da dívida espanhola e portuguesa, respetivamente. E as dívidas por compra de casa correspondem a 17% da dívida espanhola e a 23% da dívida portuguesa. Se olharmos apenas para a dívida externa o padrão repete-se. O Estado grego é responsável por 55% da dívida externa do país, o espanhol e o português por 17% e 26%, respectivamente. Mais um dado interessante: 48% da dívida externa portuguesa e espanhola e 41% da grega é a bancos alemães e franceses. Ou seja, são nossos credores, não são nossos amigos.
É com base nestes números, e não na repetição até à náusea de mitos urbanos sobre o despesismo do Estado, que deveríamos discutir a nossa situação e procurar soluções. É estranho que, perante estes factos, a grande prioridade do governo seja continuar a emagrecer o Estado. A nossa prioridade é o crescimento económico e a poupança privada. A outra é aumentar as exportações. Tudo para garantir liquidez na nossa economia. Por fim, garantir um mais eficaz mercado de arrendamento que obrigue menos gente a comprar casa. O governo fez a lei das rendas mas falta a parte do Estado, que tem de ser um agente ativo neste mercado.
O que estamos a fazer é cortar num dos fatores com menor responsabilidade na nossa dívida. O resultado, como se tem visto, é o oposto ao pretendido, porque as contas do Estado não são independentes da economia. E, com isso, estamos a criar condições para piorar a nossa saúde económica, impedindo o crescimento e a poupança e agravando todas as variáveis responsáveis pelo nosso endividamento externo.
Poderá dizer-se que nos sobra muito pouca margem de manobra perante as imposições externas e que sem uma solução em Berlim e em Bruxelas dificilmente poderemos ter uma política expansionista, que é aquilo que realmente precisamos. Não me parece que ser mais troikista que a troika corresponda a aceitar apenas uma limitação imposta por outros. Mas o que não vale mesmo a pena é continuar a insistir numa mentira sobre as origens das nossas dificuldades. Porque quando o fazem percebemos que o problema de quem nos governa não é a dificuldade em lidar com variantes que não controla. É mesmo um preconceito ideológico mais forte do que a clareza dos números.

Daniel Oliveira in Expresso

nota: Este artigo podia perfeitamente entrar na «série» Crise e Media, pois é um excelente exemplo de como os factos podem ser dados de forma tão diferentes. É sabido que a estatistica permite tais manipulações, mas também deve ser de conhecimento de todos que essa circunstância nunca é inocente.

Quinta-feira, Março 01, 2012

Space Oddity


David Bowie

fim de tarde

é um novo fim de tarde, este. é o regresso ritmado à noite que insiste em meter medo. chove. e se há meio mundo a festejar a vitória de um deus desconhecido, há outro que chora a terra que já não é seca. ninguém sabe o que ela sente realmente, talvez porque ninguém a conhece verdadeiramente. na sua mais pura essência.
ela desliga o telemóvel. apaga as luzes do escritório. ouve os passos dos colegas e uma ou outra conversa. já não gosta disto. quer a solidão.
sai. desce pelas escadas. entra no carro e foge. chove.
abre a porta de casa. apaga todos os eletrodomésticos, dos velhos comprados a prestações aos novos pagos a pronto.  chove. tem pena. sempre gostou de passar os dedos na terra africanamente seca. tem saudades dele. ele dava-lhe vida. ele era o amante perfeito da água que escorria no vidro. chove. ninguém esperava que agosto fosse assim. nem ela. este é um agosto que cheira demasiado ao regresso às aulas. e, contudo, chove.

Quarta-feira, Fevereiro 29, 2012

Os media e a crise

Ainda ontem falávamos no CES sobre os media e a forma como se discute (ou nem por isso) a crise. Há pouca, errada ou nenhuma informação. Incompetência dos jornalistas ou instrumentalização dos mesmos? Os interesses dos grupos económicos interferem explicitamente na acção dos jornalistas? Mil e uma questões, poucas respostas.

Aqui fica mais um exemplo:

O mistério dos salários encolhidos

Os augúrios começaram a soar com bastante antecedência. Paul Krugman passou por cá ontem para receber o doutoramento honoris causa, e os ventos de desgraça sopraram mais fortes. As posições de Krugman em relação à crise da dívida soberana são relativamente conhecidas num certo meio, mas o povo que sabe do mundo pelos telejornais não sabia o que este Prémio Nobel da Economia achava do que se passa em Portugal. Para mais, por ter passado por cá no período pós-evolucionário, teria mais autoridade para opinar sobre a crise que atravessamos. Não será necessário repisar as suas teorias - quem quiser que passe pelos Ladrões de Bicicletas e pesquise por Krugman. O que me interessa é o tratamento mediático que a visita dele teve. De tanta coisa que disse, entre a conferência que deu em Lisboa e a entrevista que deu ao Jornal de Negócios (e que passou na RTP Informação), o que acabaria por ser mais destacado seria a afirmação de que os salários dos portugueses teriam de ser desvalorizados entre 20 a 30%. Já não é a primeira vez que esta informação corre pelos jornais. Mas será verdade? No blogue Jugular, houve uma primeira versão desmontada. A tradução que o Jornal de Negócios publicou de uma entrevista dada pelo economista ao Le Monde estava errada. Krugman não tinha recomendado um corte de 20% nos salários portugueses. Tinha apenas sugerido um ajustamento salarial de Portugal em relação à Alemanha, fosse através da subida generalizada da taxa de inflação ou através de um aumento dos salários alemães muito acima de um aumento em Portugal. Trocado por números, como esclareceu na entrevista dada ontem, o ideal seria que, por exemplo, a Alemanha subisse os salários 5 ou 6% e Portugal apenas 1 ou 2%. Esta medida seria suficiente para esse ajustamento de 20% das tabelas salariais entre Portugal e a Alemanha, o que provavelmente tornaria o nosso país mais competitivo sem que fosse preciso cair na espiral recessiva para onde os países periféricos da UE estão a deslizar. É de resto esta a luta de Krugman, no seu blogue do New York Times e nas outras intervenções públicas que tem feito a propósito da crise do Euro: denunciar as políticas de austeridade impostas pelo directório germano-francês, as que estão a levar os países periféricos à bancarrota e ao fim da moeda única.

No entanto, o que se foi ouvindo ao longo destes dias, a parangona mais repetida, é o tal suposto corte nos salários. Eu poderia achar que este é mais um caso de sensacionalismo, que aos jornalistas interessa mais o sangue e a desgraça do que a verdade bem explicada a quem pouco percebe de economia. Mas desconfio que as razões serão outras, bem mais graves. É que na Grécia acabou de ser aprovado o enésimo pacote de austeridade, e desta vez eles vão ser forçados a cortar o salário mínimo em 200 euros. O que se passa, sem rodeios, é muito simples: é preciso mentalizar os portugueses para o que aí vem - não esqueçamos que a Grécia é o futuro de Portugal, daqui a um ano - e o Governo, através do ministro da propaganda Relvas e dos seus assessores pagos a peso de ouro com o dinheiro dos nossos impostos, já meteu mãos à obra. Spinning e mau jornalismo, em todo o seu esplendor; e isto é apenas um exemplo do que vemos e lemos diariamente, o discurso único a que estamos submetidos desde que começaram a notar-se os primeiros sinais da crise. Habituem-se!

Sérgio Lavos in Arrastão

Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

dia de festa

28 de fevereiro será sempre um dia de festa. parabéns a todos os que sentem este clube.

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012

A visão dos media sobre a crise


Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012 
15:00 até 17:00 
Picoas Plaza - CES Lisboa

Para além das mudanças económicas e sociais no quotidiano dos indivíduos, nada afirma mais a atual situação de crise do que os media: "Portugal vítima da guerra ao euro"[Correio da Manhã, 15/01/2012], “S&P corta rating a nove países, França perde AAA e Portugal passa a ‘lixo’”[Público, 13/01/2012]. Estes são só alguns dos exemplos que podem ser apontados nas últimas manchetes dos jornais diários portugueses. Podemos, ainda, citar os especiais da televisão a ensinar como viver cortando no orçamento doméstico ou os encartes especiais das revistas semanais a explicar “tudo” sobre a crise. Até mesmo as publicidades são invadidas com a temática e lembram o passante de que “O mar não está para peixe, mas no mercado X a pescada está a preço de banana”. Com um olhar rápido pelos meios de informação confirma-se: “Estamos em crise!”.

Partindo desta constatação, as questões a seguir (e tantas outras) se fazem necessárias: É possível que os media sejam agentes que contribuam para um debate que dê solução à crise ou, simplesmente, tornam-se “transmissores” de informação, isolando-se e protegendo-se na ideia de isenção jornalística? Os media têm poder para ampliar o debate e fornecer propostas de soluções? É necessário que os jornais entrem neste debate assumindo linhas políticas (por vezes evidentes)? Em qual medida a cobertura sobre a crise associa-se aos interesses políticos e económicos dos grupos mediáticos? Até que ponto a temática deve ser tratada de forma alarmistas? Qual a ação e importância dos media alternativos como contraponto do mainstream jornalístico? Como as redes sociais estão a transformar a produção e veiculação das informações sobre a crise? Há “criminalização” e/ou silenciamento sobre as mobilizações sociais nas informações divulgadas pelos media após as medidas de austeridade?


Inserido no Ciclo "Democracia e austeridade: Portugal em debate", este encontro visa discutir sobre estas e outras questões com os seguinte convidados:

José Luís Garcia- Investigador do Instituto de Ciências Sociais

João Tibério – Historiador (pós-graduado em R. I) e tutor na Universidade Aberta; Editor júnior na editora Dom Quixote

Pedro Guerreiro – Jornalista/ Diretor do Jornal de Negócios

Rute Barbedo - Coordenadora da Revista Nota Positiva

Alison Roberts – Correspondente britânica / AIEP

Moderação: Léo Veronez - Doutorando em "Democracia no século XXI", no CES/FEUC-UC 

ver mais: http://www.ces.uc.pt/eventos/index.php?id=5118&id_lingua=1

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

Um exemplo para os gregos

Presidente alemão apresenta a demissão.

Ou então não.
Ou como na melhor bandeira cai a nódoa.
Ou como cada país tem o presidente que merece.
Ou...



Refém Da Solidão



Baden Powell

tantos anos de blog

e continuo a ficar surpreendido com as pesquisas alheias:

é tão fácil

é tão fácil escrever a vida dos outros como é simples tirar um café na nespresso. pegas numa cápsula e mete-la no lugar do coração. ligaste a máquina primeiro? é básico e os resultados são infalíveis. se é bom? se é novo? não. mas sabe sempre ao mesmo: a uma vida nova com cheirinho a café da manhã.

é uma da noite

anne fecha a porta de casa. atira os sapatos para um canto. calça as pantufas. «as mais quentinhas de sempre», assim as elogiava a avó. devia ligar-lhe. não pode. já é tarde. abre o frigorífico. espreita. não há nada. umas beterrabas, uma fruta cortada, um queijo curado e o vazio. e o frio.
fecha a porta do frigorífico. pega num copo. bebe água. abre o congelador. algumas ervilhas saltam. espalham-se pelo chão. pisa algumas. há uma costeleta de porco, mas é demasiado pequena. também há medalhões de pescada. e cebola. aos pedaços e às rodelas, mas sempre muito gelada. como a vida que sopra lá fora.
a janela está aberta e «está uma corrente de ar daquelas», pelo menos assim dizia a avó. cereais. pode comer uns cereais. abre o frigorífico e tira o leite. não chega. e está azedo. tal como a relação com a avó. podre e decadente, resultado de estar sempre ausente. «quem rima sem querer...» diria a avó. ela dizia tanta coisa. e muitas delas acertadas. pois agora não dirá mais nada.
anne sente-se vazia. torna-se numa ausência prolongada, numa espécie de corrente de ar sem vento, num verso sem rima, numa hora da noite sem duas.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

"Não gosto de Futebol" ou "Não ligo muito a Futebol"

Cada vez entendo menos estas pessoas.
Como é possível não se gostar de Futebol? Como é possível não ter uma paixão doentia por algum clube? Não acredito no meio termo de "gosto mas não ligo muito..." isso não é gostar! É um pouco como aquela malta que fuma mas só fuma à noite quando bebe uns copos.
As pessoas que não gostam de Futebol agarram-se a quê?
2ª feira, dia chuvoso, pego no trabalho e parece que à medida que faço as coisas faltam ainda mais para fazer do que no início... mas... depois lembro-me que na 4ª feira o Benfica joga na Champions com alguém! Fico logo mais calmo... O dia afinal não é tão cinzento!
Domingo, dia de luto antecipado por estarmos de ressaca 80% das vezes e por sabermos que amanhã acordamos cedo para trabalhar. Mas depois lembro-me que o Benfica joga com alguém nesse dia, o chegar da noite não é um acontecimento tenebroso mas sim um momento que anseio! Estar nervoso desde a véspera de um jogo importante, no próprio dia ter o cérebro bloqueado de 5 em 5 minutos a pensar em todas as variáveis possíveis desse jogo.
Estar nervoso durante o jogo, dizer coisas sem filtro, gritar, bater o pé durante 90 minutos, falar de tudo no intervalo com quem nos rodeia, comentar mudanças de técnico de bancada, todo um ritual normalmente acompanhado por cerveja e testoesterona em grandes quantidades.
Abraçar-me histérico a quem merece um festejo conjunto de um golo importante (o menos homo-erótico possível claro). Cerveja por todo o lado porque me esqueci de largar o copo, piso o gato porque escolheu a altura errada para se deitar aos meus pés, noto que no andar de baixo não gostaram do barulho mas hey... até ao fim do jogo sou uma besta sem qualquer sentido de comunidade.
Ficar amuado durante horas depois de um mau jogo (quem sofre é a patroa, que tem de aturar tudo isto), ficar contente durante dias depois de um jogo forte.
Adoro tudo isto que rodeia o Futebol, Adoro o Benfica e sei que um verdadeiro adepto me entende qualquer que seja a cor que apoia.

B. in gordo vai a baliza

Terça-feira, Fevereiro 14, 2012

Can't Help...



... Falling In Love.

Pearl Jam live version of Can't Help Falling In Love performed in Las Vegas, NV on Oct. 22nd, 2000. This version also appears on the Pearl Jam Holiday Single as a B-Side from 2000.

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

Ler, escrever, ler e reescrever

Rui Zink é, além de escritor, professor universitário – e passam pelas suas mãos muitos estudantes que querem fazer carreira na edição (a Madalena, meu braço-direito cada vez mais indispensável, foi sua aluna de mestrado). E, apesar de ter uma imagem pública que se associa facilmente à paródia, à irreverência e à má-língua, diz coisas muito sérias que devem ser tomadas em conta sobretudo por quem escreve e deseja ver os seus textos publicados. Recentemente, deu uma entrevista muito interessante à revista Maxim (e eu que pensava, passe o preconceito, que estas revistas não tinham nada que ler) em que se colocava na tradição dos escritores portugueses que são simultaneamente criativos e críticos e que, portanto, fazem primeiro a parte criativa e a seguir são críticos de si mesmos, ou seja: escrevem, lêem e... reescrevem, pois claro! Provavelmente, para a maioria dos leitores, este percurso seria o normal, mas a verdade é que a ânsia de ver a obra nos escaparates e um certo amadorismo ou inexperiência impedem, frequentemente, o distanciamento necessário à autocrítica e à reescrita de textos que só lucrariam com esse segundo olhar atento e impiedoso e as consequentes tesouradas. Outra boa tirada de Zink: para escrever, é preciso ler muito primeiro. Totalmente de acordo.

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012

# 31

e agora palavras. porque a nossa música é feita delas, e dos silêncios que preenchemos com a única palavra que fará sentido ano após ano: amor.

# 30



Mahna Mahna, Muppet Show

# 29



Sarabande de Bach, Cello Suite No. 6 in D major, BWV 1012, Mstislav Rostropovich.

# 28



The Great Elsewhere , Owen Pallett

# 27



Monogamia, B Fachada

# 26



Anyone Else But You, - Michael Cera and Ellen Page

# 25



Blower's Daughter + Creep, Damien Rice & Glen Hansard

# 24



Alfama, Pedro Moutinho e Mayra Andrade

# 23



Romeo and Juliet, Killers

# 22

The Suburbs, Arcade Fire

# 21



Sleep All Summer, The National and St. Vincent

# 20



Postcards form Italy, Beirut

# 19



Against All Odds, Postal Sevice

# 18



Nothingman, Pearl Jam

# 17



Restless choose leaving, Old Jerusalem

# 16



Sleepless Heart, Rodrigo Leão

# 15



You and I, Wilco

# 14



I Just Want Your Jeans, God Help The Girl

# 13



Between The Bars, Elliott Smith

# 12



Change Of Heart, El perro del mar

# 11



Northern Sky, Nick Drake

# 10



Over and Over, Chris Garneau

# 9



Sleep Alone, Bat For Lashes

# 8



Inside and out, Feist

# 7



Green Light, Jamie Lidell

# 6



Love is no big truth, Kings of convienence

# 5



River, Herbie Hancock feat Corinne Bailey Rae

# 4



Her Morning Elegance, Oren Lavie

# 3



So far around the bend, The National

# 2



All or nothing, Au Revoir Simone

# 1

Borboleta, foge foge bandido

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Não leia, isto é velho de 75 anos

A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente.

Ferreira Fernandes in DN, 08.02.12

Terça-feira, Fevereiro 07, 2012

«o teatro é necessário»


A Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu o prémio da crítica à companhia de teatro Comédias do Minho, dirigida por João Pedro Vaz. No comunicado da associação divulgado esta terça-feira, os críticos destacam o trabalho da companhia desenvolvido na região do Alto Minho, mostrando que “o teatro é necessário”.

continuar a ler no Público

Parabéns, Luís!

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2012

Gir'ó Disco!

Dia 9. 22h30. Clube Ferroviário. Música da Boa. Mariana Vilela. Tiago Pereira. Indie. E é isso.

até que...

os seus dias eram cada vez mais longos, com a cama a agarra-lo pelos braços, e as manhãs a enganarem o desejado sol quente.
as tardes eram um back and forward, um eterno regresso às origens, um loop reinventado.
as noites chegavam cedo. e o inverno tapava-lhe o futuro.
ele fazia, refazia e desfazia. sentia que desaprendia a cada movimento da borracha e do delete. sabia que era um pouco dele que desaparecia ao fim do dia.
e assim os sorrisos foram morrendo. assim. aos poucos.
até que...

toca e foge é boss


Boss AC no Toca e Foge - Canal Q

U no és ningú

Ninguém é ninguém? Ou o dia em que a morte levou A. Tàpíes (1923-2012).

Domingo, Fevereiro 05, 2012

uma história com dois anos

VLADIMIR Então? Vamos embora?
ESTRAGON Vamos.
Não se mexem.
“À espera de Godot”, Samuel Beckett

Se insistirmos em ficar por cá? A ver o tempo passar, a criticar a passividade e apatia dos outros. E se ficarmos presos a um agradável e previsível presente?
Critiquemos, então. Há espaço para a crítica, sempre houve. Mas há ainda mais espaço para agir. Ajamos. Façamos. Um projecto à nossa medida, um projecto para 2010. O PROJECTO10

O PROJECTO10 nasce daí. Dessa ideia. Desse querer. Desse fartar. Nasce da espera por um Godot que insiste em chegar muito depois do fim da conversa de café. 

No PROJECTO10 há uma ânsia de errar em comum. De partilhar as nossas questões e as nossas respostas. E, tal qual como aqueles que nos rodeiam e optam por agir, uma vontade sem fim de chegar aos outros.

O PROJECTO10 cria hoje a sua identidade. Porque nestas nossas linhas e nos olhos do leitor encontra-se o mais puro e sincero cliché de comunidade.

PROJECTO10 não é política nem religião. Não é esquerda nem direita. Não é Sul nem Norte. Não é pobre nem rico, nem mesmo remediado. O PROJECTO10 só pode ser catalogado por quem o lê e por quem nele participa.

PROJECTO10 recria o conceito de sagrado, mas também o de profano. Faz as rupturas com o passado, mas também os cortes com o futuro. Porque somos todos jogadores de futebol num campo de contornos desconhecidos. A nosso favor? Claro! Hoje a polis é mais nossa, é mais comunitária. Vive e revive na web 2.0, na 3.0 e até na imaginária 10.0.

Porque hoje comunidade rima espontaneamente com global, e as contra e sub-culturas não são mais ilhas inacessíveis ao grande público. Porque num mundo de extremismos exacerbados a república de Platão existe hoje muito para lá “da juventude propensa para o mal”. Porque onde havia a “geração rasca” dos anos 90, encontramos hoje o devido reconhecimento em personalidades como Ricardo Araújo Pereira ou Mariza. Porque está Portugal a mudar? Porque Portugal está a mudar. E que Portugal temos hoje? Que identidade é a nossa?

Portugal é hoje provavelmente mais cosmopolita do que na época dos Descobrimentos. Porque hoje descobrimos o outro e deixámos que nos descubram. É um Portugal de turistas e de migrantes. 

(...)

A identidade do PROJECTO10 não se resume a palavras. A estas palavras. Nem às próximas que aqui escreverei. Nem às imagens que o povoam. Nem às músicas que nele ecoam. PROJECTO10 constrói-se, como qualquer sonho, com o trabalho incansável e extraordinário de muitos. De muitos amigos. De amigos que acreditaram que era possível criar este projecto. E foi. A todos eles, um grande obrigado. Este é o vosso/nosso PROJECTO10

05.02.10


PROJECTO10 #4 from PROJECTO10 on Vimeo.

nota: ontem como hoje... os mesmos objectivos.

Sábado, Fevereiro 04, 2012

silêncio, artista.

este é um silêncio bom. um silêncio daqueles sem palavras, que, no entanto, diz tanto.
odeio consensos e, todavia, não posso não gostar deste silêncio.
adoro o cinema. o mudo e o outro. gosto do buster keaton e desta sua segunda vida, ainda que pintalgada com toques de clark gable.
respeito a história do cinema e os homens que a têm escrito. tal como tenho muita consideração por aqueles que procuram não se render às maiorias. às modas e às manias. porque o futuro chega sempre mais cedo do que se espera, e é tão díficil conviver com essa assustadora realidade.
«o artista» é tudo isto.e é mais ainda. não é o melhor filme da história, nem sequer está no top10, mas é garantidamente uma das mais belas e sínceras homenagens ao cinema. é um «cinema paradiso» para ver, rever, e contar a todo o mundo.

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012

god is good?

via Carlos M.

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

Racismo e patriotismo: modos de usar


I'am a Patriot, Pearl Jam

Quando escrevo sobre o governo angolano e a sua corrupção desavergonhada, que tem como principais vítimas os próprios angolanos, há sempre alguém que me acusa de racismo. Quando digo que não quero a importação, para Portugal, dos modos de agir da elite económica angolana, sou xenófobo. Recentemente, houve mesmo um angolano que me chamou "racista" e "descendente de negreiros". Como é o caso, a acusação vem de quem confunde a cor da pele de alguém com a história colonial do País onde vive. Quando escrevo sobre o criminoso comportamento do Estado de Israel para com o seu vizinho palestiniano, impedindo-o de ter um Estado próprio e tratando-o como uma raça sub-humana, não escapa: há sempre alguém que me acusa de antissemitismo e me compara com a mais reles escória que a humanidade conheceu ou com o fundamentalismo islâmico, que tem tanto a ver comigo, ateu até à medula, como qualquer fundamentalismo religioso. A acusação costuma vir de quem confunde muitos milhões de fieis de uma determinada religião com o comportamento de uns grupos minoritários e radicais. Quando escrevo sobre o comportamento europeu, incluindo o português, em relação aos imigrantes (e como os europeus vão, se a crise se agudizar e muitos tiverem de partir, pagar cara a sua arrogância), passo a ser um esquerdista politicamente correto, sempre pronto a carregar o fardo do homem branco, um militante anti-ocidental e um racista ao contrário. Quando escrevo sobre o comportamento imperial dos Estados Unidos nas últimas décadas há sempre alguém que me acusa de ser anti-americano primário com saudades dos abjectos regimes do leste europeu. A acusação costuma vir de quem muda as suas exigências morais conforme a potência que está em causa. Quando critico a falta de democracia no Irão, a ditadura cubana, os abusos do caudilhismo chavista ou a exploração dos trabalhadores na China há sempre alguém que me acusa de ser um idiota útil do imperialismo americano e, claro está, de algum tipo de racismo latente. A acusação costuma vir de quem acha que os americanos são, pela sua natureza, a origem de todos os males no planeta. E não se importa de apoiar regimes criminosos, desde que estejam do lado contrário da barricada. Quando escrevo sobre o comportamento irresponsável do governo alemão nesta crise europeia e a sua aparente falta de memória sobre as condições que permitiram mais de meio século de paz na Europa há sempre alguém que me acusa de chauvinismo. Geralmente, as mesmas pessoas que fazem generalizações depreciativas sobre os gregos ou os portugueses. Apesar da dificuldade em ser, ao mesmo tempo, antissemita e anti-germanófilo, capacho dos americanos e anti-americano, politicamente correto e racista, ateu e islamista, quero ver se consigo, de uma vez por todas, pôr um ponto final nesta forma de debater. Não tenho nada contra nenhum povo, cultura ou religião. Nem a favor. Os povos são a sua história (cheia de contradições) e as suas circunstâncias. Não são homogéneos. Não há uma cultura ocidental, não há uma rua árabe, não há um sonho americano, não há um sentimento judeu, não há um racismo alemão, não há um atraso africano e por aí adiante. As sociedades são, todas elas, conflituais e contraditórias. Cabem nelas muitos povos, muitas culturas e muitos confrontos. As criticas que faço ou são a governos concretos, que determinam políticas de Estados, ou a hegemonias que, em determinado momento, dominam o sentir maioritário de um povo. Não acho que o expansionismo ou o trabalho estejam inscritos no DNA dos alemães. Não acho que os judeus sejam vilões ou heróis para todo o sempre. Não acho que os povos do sul da Europa sejam vítimas das potências europeias ou incorrigíveis preguiçosos. Assim como não acho que os portugueses sejam especialmente tolerantes ou especialmente desorganizados. Resumindo: não acho que aqueles que hoje são vítimas das circunstâncias não passem a ser, se para isso tiverem oportunidade, os piores dos carrascos das desgraças alheias. E vice-versa. Os debates sobre a natureza dos povos (que às vezes até se socorrem de argumentos biológicos, climáticos ou de outra qualquer patranha) ou a superioridade ou inferioridade das suas culturas não me dizem nada. Não dou para esse peditório. E é por ser profundamente antirracista que critico, sem pedir desculpas, o Estado de Israel. E é por não achar nada sobre "os americanos" que não tenho de fazer introitos idiotas sobre o seu magnifico cinema para criticar o seu comportamento imperial. E é por não gostar deste jogo de espelhos que critico a ditadura castrista sem ter de gastar dez parágrafos a falar do estúpido embargo americano. E é por assumir que sempre fui coerentemente anticolonialista, e por isso inconfundível com quinhentos anos de exploração, que não meço palavras para falar do regime cleptocrático que governa Angola. E é por ser um cidadão do Mundo que nenhum argumento em defesa de soberanias nacionais alguma vez me impedirá de criticar qualquer ofensa aos direitos humanos por parte de qualquer Estado. E é por ser europeísta que responsabilizo o governo alemão (este, com rostos e nomes) pela desgraça de um projeto que tinha de ser democrático e incluir todos os povos. Estou, isso posso garantir, cada vez mais cansado da desonestidade intelectual de tantos debates, que nos querem obrigar a ignorar as nossas convicções pelo medo de estereótipos e chantagens. Sim, estou zangado com Alemanha. Com o seu Estado e com o seu governo. E isto não muda um milímetro do que penso dos alemães: gosto muito de uns, não gosto nada de outros e a maioria deles nem conheço. Passa-se, aliás, exatamente o mesmo com os portugueses. E se nunca me faltaram críticas aos mitos lusotropicalistas, que nos vendem uma falsa tolerância histórica do colonialismo português, ou ao patrioteirismo vazio com que tantos políticos adoram pavonear-se, também desprezo esta autoflagelação nacional que uma certa elite gosta de vender para continuar a ver o povo de cabeça baixa. Talvez seja reação, mas por estes tempos sou mesmo um patriota. Como sempre, tudo depende das circunstâncias.

Daniel Oliveira in Expresso

#1 Para parte de Fevereiro, guarda a lenha no quinteiro.


Ou então solta já a gargalhada...

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

tempos negros...

Las mujeres tendrán que volver a dar explicaciones para interrumpir su embarazo en España. El ministro de Justicia, Alberto Ruiz-Gallardón, confirmó ayer que se reformará la actual ley de plazos —que permite abortar libremente hasta la semana 14 de gestación— para volver a un sistema de supuestos similar a la regulación de 1985, en el que las mujeres tendrán que alegar motivos para su decisión. 

in el País

com ou sem defesa?

A Defesa de Ana Drago

O ódio queirosiano e salazarista em relação ao parlamento e à vidinha representativa é uma marca da nossa cultura (sim, Eça e Salazar eram farinha do mesmo saco neste ponto). Nos últimos meses, este populismo tem batido vários recordes e tem sido o ganha-pão do jornalismo-que-dá-ao-povo-aquilo-que-ele-quer-ouvir. Na semana passada, por exemplo, Ana Draga foi queimada nesta pira queirosiana, porque, imaginem, usou um motorista para ir a Guimarães. Quem diria, ah? Quem diria que um representante da nação tem acesso a coisas que um cidadão normal não tem? Só mesmo neste país, não é verdade?
Pelo que percebi, Ana Drago é o segundo lisboeta que não conduz (o primeiro sou eu), logo, usou um motorista do BE ou do parlamento para ir a Guimarães em trabalho. Levantou-se logo uma onda de choque contra Drago. Esta deputada não vai ganhar 40 mil euros na EDP e não anda por Paris depois de ter arruinado o país, mas teve de ouvir o calão anti-partidos: "mas porque é que não vai no seu carro?"; "porque é que não vai de comboio?". De facto, como é que uma representante do país tem a lata de andar de motorista? Como é uma representante do país tem o descaramento de fazer o seu trabalho fora da assembleia? Os deputados têm de ficar quietinhos, lá no gabinete da assembleia. Ou não. Se calhar, também devíamos acabar com isso, porque é escandaloso que os deputados tenham secretárias (a senhora e a mesa) pagas por todos nós, não é verdade?
Este populismo anti-partidos está a passar alguns limites, e está a confundir as coisas. Uma coisa é debater uma redução do salário dos deputados ou mesmo a redução do número de deputados. Outra coisa, bem diferente, é cair em cima de qualquer gasto remotamente principesco de um deputado. É bom não esquecer uma coisa: a democracia é um regime caro; não há democracias grátis. A conversa do "deputado é um bandido com motorista" esquece esta evidência e faz demasiadas tangentes à conversa que elevou Salazar ao poder. Convém evitar isto, porque o Estado Novo era mesmo um regime baratucho, e o tuga adora uma bela loja dos trezentos. 

Henrique Raposo in Expresso

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

#14 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.



TRIGGER HAPPY TV
Há séries muito muito boas. E depois há esta.

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Need you tonight


Beck e Annie Clark in Record Club

#13 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha côr!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

short sentences I

a dúvida era sempre a mesma. tinha as palavras do outro.  e tinha as suas. ela trabalhava as palavras como se fossem suas. mas não eram. ninguém via ali palavras diferentes. mas eram. palavras. e ideias. tudo misturado para inglês ver. ela chorava. não eram suas as palavras que ela levava para a cama. fazia amor com elas. enrolava os seus pés frios nelas. e não lhes prendia o coração. as palavras não tem dono. as palavras são do primeiro poeta que as evocar. sempre foi assim. ele sabia disso. e limpava-lhe as lágrimas com um lenço vermelho.

Terça-feira, Janeiro 24, 2012

O olhar de Theo Angelopoulos


O Olhar de Ulisses, 1995

Angelopoulos, an award-winning Greek filmmaker known for his slow and dreamlike style as a director, was killed in a road accident Tuesday while working on his latest movie. He was 76. via AP

Houve um dia em que Corto Maltese vestiu a camisola do Benfica. Chamávamos-lhe Pablo Aimar.

Photobucket

Não vi o jogo com o Gil (estava a trabalhar, olhando nervosa e frequentemente para o telemóvel à espera que o meu pai marcasse os golos via mensagem), mas segundo me dizem, parece que foi preciso Aimar entrar. Vejo o resumo e só me dão o terceiro golo, com Pablo a marcar e a levantar os braços, como quem só não quer incomodar. É impossível colocar toda a classe de Pablo Aimar num resumo. E quando penso nisso, sinto saudades. Antecipo as saudades que vou ter – e que portanto já tenho – de Pablo Aimar.

O meu primeiro deslumbre com o 10 argentino vestido à Benfica foi num Paços – Benfica (3-4 na Mata Real). Entrou no fim de um jogo confuso, que o Benfica insistia em não conseguir dominar. O cabelo desgrenhado e os calções que lhe parecem sempre demasiado grandes. O Paços bombeia bolas para a nossa área e uma sobra para Aimar, que tinha tudo para devolver docemente a um dos nossos defesas, para que este pudesse chutar a bola com sofreguidão. Aimar fingiu com o corpo esse movimento, os defesas do Paços lançavam-se já para saltar e esperar que o chutão do nosso defesa lhes batesse no corpo, quando Aimar se limitou a voltar-se, os defesas enganados, e ele com aquele ar de pirata, de gentil cavalheiro da fortuna, pronto a sair a jogar.
A jogada perdeu-se, mas houve ali poesia. Uma coisa bonita, desumana na sua impossibilidade de ser feita por qualquer um, mas ao mesmo tempo de uma estranha moralidade, trazendo ordem ao caos. Aimar é isso, o pirata que, através do engano, encontra a luz na desordem.


Corto Maltese é o pirata apaixonado pela ideia de estar apaixonado. Solitário e companheiro, há em Corto a bondade dos que defendem os mais fracos (como Maradona) e a malandragem da ópera de Chico Buarque. Um revolucionário sem partido, sempre pronto para ler um clássico ou para uma luta com facas. Depois acende um cigarro e desaparece na névoa. Pergunto-me, às vezes, onde estará Corto Maltese e se é verdade que desapareceu mesmo na Guerra Civil Espanhola.

Pablo Aimar é isso, é o Corto Maltese. Não nos diz ser do Benfica desde pequenino, mas mete o pé em cada bola como se tivesse vivido toda a vida no Terceiro Anel. Respeita mais do que ninguém os rivais, mas é o primeiro a querer enganá-los com aquele seu futebol tão ordeiro e tão mentiroso. Pela barbicha à D`Artagnan, pelas recepções de veludo quando a bola vem no ar, impossível de agarrar, vejo em Aimar essa poesia justiceira, que vai trazer o Benfica de volta. Na maneira como troca a bola com Saviola, com quem se entende de uma maneira criminosa, tudo em Aimar é inteligência (imagino Aimar e Saviola novos e juntos no Benfica e é como ler A Juventude de Corto Maltese e saber como Corto Maltese e Rasputine se conheceram).

Como Aimar, Corto não é o herói perfeito. Às vezes é cruel nas suas vinganças, muitas vezes parte corações pela melancolia da coisa, que aprecia bem mais do que finais felizes. Aimar nunca ganhou a Bola de Ouro, um Mundial, uma Champions, Corto nunca encontrou nenhum tesouro ou nenhuma princesa. E essa imperfeição, essa melancolia que os quase heróis também trazem, são a razão porque Pablo Aimar será sempre lembrado numa noite de copos no Bairro a falar de bola e porque muitos ainda esperam ver Corto em Lisboa (onde Pratt o desenhava, quando morreu).

E é por essa admiração que ontem fiquei triste por ter perdido o que o Mago trouxe ao jogo. Mais triste fico quando não sinto por parte da direcção do Benfica a urgência em renovar com este homem.
Pablo não ficará connosco sempre, como Corto não ficou com os irlandeses, nem com Cush, nem sequer com Rasputine. Mas não ficar com Pablo é não querer ler A Balada do Mar Salgado ou o Tango. E isso é simplesmente criminoso.

Hoje tenho saudades de Pablo Aimar. Tenho saudades da bola colada ao pé e daquilo que me trouxe. Vejo ainda, nitidamente, Aimar isolar-se frente a Rui Patrício e percebo tudo em banda desenhada. A anca vira-se para a direita, o pé direito aponta e há uma pequena pausa – do tamanho do Mundo – para que Patrício caia. A mentira do pirata completa-se e Aimar arranca para o outro lado. A bola, sempre amiga e companheira, por estranhas diabruras do destino ousou fugir-lhe. Pablo alarga a passada, cresce ao sentir as bancas já de pé, mas lembra-se dessa honra, desse código secreto que só os cavalheiros da fortuna conhecem. Aimar porventura não conhecia Cosme Damião, mas sabe que foi acarinhado e reabilitado pelos Benfiquistas e que a única coisa que pode e tem que fazer é retribuir (como Corto a caminho de Samarcanda). Então, deixa que um sportinguista se atire, acredite que a bola pode não entrar. E com o cheiro do mar e do Benfica a fazer-lhe voar o cabelo – sempre desgrenhado, sempre pirata – levanta a bola sorrateiramente. É golo. É o tango argentino. E no meio da loucura, da banda desenhada, das saudades do futuro, perguntamos a Aimar se já esteve apaixonado por um clube e ele, como Corto, responde-nos que sim, há muito tempo, e nós, embevecidos, acreditaremos sempre que foi pelo Benfica.
E eu vou ter, como ontem, saudades de sentir isso.

M. in Lá em casa mando eu

Sábado, Janeiro 21, 2012

Esse olhar que era só teu



Dead Combo

o paraíso aqui tão perto

em apenas uma semana descobri o paraíso, maravilhei-me e caí na real. hoje, e aos poucos, ele vai voltando. eu acredito. acredito que mais tarde ou mais cedo aqueles que diziam que acreditavam vão perceber que perdem muito tempo com batalhas nos campos errados. o mundo mudou. o mundo tem muito poder. e não há volta a dar. eu vi o paraíso aqui tão perto e acredito. que amanhã ou depois estará tudo igual.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Hoje. Eugénio.

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.


Eugénio de Andrade (19.01.1923-13.06.2005)

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

tu queres ver...

 
que os mercados não ligam nenhuma às políticas (recessivas) dos governos? e só querem mesmo é fazer dinheiro...

nota: fotografia via le monde

quando o telefone toca

via RipoffComicz

nota: obrigado, Carlos!

#11 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

«Um dia ela voltou a repetir-me que ia ter com o outro. E saiu de casa. Nessa noite revolvi-me no mais atroz ciúme. Queria percorrer o muceque à procura dela, imaginei matar os dois, sei lá mais quê! Depois compreendi que a nossa vida era finalmente monótona, os rasgos de amor tinham acabado no primeiro ano, e Leli era insaciável. Decidi que a devia reconquistar. Ela voltou na manhã seguinte, desfeita. Contou-me que não tivera coragem de ir ter com o outro, dormira na casa duma amiga. Compreendi que ela estava bastante presa a mim, mas que era necessário ter uma experiência negativa de outro lado, para poder ser reconquistada.

– E então empurraste-a...

– Exacto. Disse-lhe que não queria mais nada com ela, ia arranjar uma outra mulher. Isso libertou-a de mim, mas, ao mesmo tempo, chocou-a. O facto de me perder fê-la imediatamente vacilar. Dominei a vontade que tinha de lhe dizer a verdade e expliquei-lhe que nessa noite reflectira e que, afinal, ela já não me interessava. Leli não sabia que fazer. Vi-a desamparada. Nesse momento senti que a vencera, era só uma questão de tempo.

– Porque não a recuperaste logo ali?

– Era preciso consolidar a vitória. Ela foi viver com o outro. Era um empregado dos correios, metido a intelectual, extremamente vaidoso. E vazio, no fundo. Eu encontrava Leli frequentemente, comportava-me com ela como o melhor amigo, o confidente. À sua frente tomei a personalidade dum libertino, compreensivo com tudo e todos. No primeiro mês, Leli não me pertenceu, pertencia ao outro. Mas observei nela a desilusão cavar-se, à medida que o tempo passava e conhecia melhor o outro. Inconscientemente ela tinha de fazer a comparação comigo, o novo homem, agora adulto, que à sua frente surgia. Foi com requinte que me moldei à personalidade que lhe devia apresentar. E ela começou a lamentar a escolha. Eu aparecia frequentemente com raparigas e sentia o ciúme dela avivar-se. Leli sempre fora uma comediante, mas conhecia-a bem de mais para ser enganado: Leli tinha ciúmes de qualquer miúda que eu olhasse com interesse. Era cedo ainda para actuar. Deixei-a desiludir-se completamente do outro. Jantávamos juntos quase todos os dias e ela confidenciava-me as suas amarguras. Eu, sub-repticiamente, levava-a a aperceber-se da vaidade do outro, das suas pretensões, das suas ideias atrasadas. O pequeno-burguês-tipo. Leli não era pequeno-burguesa, teria mais defeitos de grande-burguesa que de pequeno-burguesa.

– Poça! Foi preciso sangue-frio... Até fizeste uma análise de classe?

– Não, isso sou eu agora a explicar, naquele momento não o seria capaz de fazer.

Sem Medo tirou os pés da água e esfregou-os distraidamente.

– A partir do segundo mês, era já certo que Leli estava farta dele. Só sexualmente ainda havia uma certa ligação entre eles. Era nesse domínio que eu teria de agir. Chegou uma noite em que ela confidenciou que iria arranjar um amante. Comigo nunca o fizera, porque me respeitava. Mas a ele... Disse-o de uma maneira superficial, talvez mais para saber a minha opinião. Nessa noite convidei-a a minha casa. Pus discos, dançámos e, por fim, ataquei-a. Só se apercebeu do que acontecia depois já de termos feito amor. Procurou ainda lamentar-se, mas eu disse-lhe que era o mais natural, que nada tinha a reprovar-se. Fizemos amor durante a noite inteira. No dia seguinte, ela foi buscar as suas coisas à casa do outro.»

Pepetela

Já vivi nesse país e não gostei

O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar “verdade”, que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que… Não interessa.
Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os “remediados” só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia “mais tenrinho” para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse “a fénico”. Não, não era a “alimentação mediterrânica”, nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.
Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de “longa” duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos “balões” (“Olha, hoje houve um ‘ balão’ na Cuf, coitados!”). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver “como é que elas iam vestidas”.
Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a “obra das Mães” e fazia-se anualmente “o berço” nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).

Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos (“Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho”). As pessoas iam à “Caixa”, que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma “boa zurrapa”.
E todos por todo o lado pediam “um jeitinho”, “um empenhozinho”, “um padrinho”, “depois dou-lhe qualquer coisinha”, “olhe que no Natal não me esqueço de si” e procuravam “conhecer lá alguém”.
Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.
Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e… supremo desígnio – Madame.
Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por “mangas-de-alpaca” porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.
Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal.
 
Isabel do Carmo in Público

Business as Usual

 
Em 2010, o orçamento do exército grego representava cerca de sete mil milhões de euros. Ou seja, mais de 3% do PIB, um número que, no seio da NATO, só é ultrapassado pelos Estados Unidos. É verdade que, em 2011, o Ministério da Defesa reduziu as novas aquisições de material em 500 milhões de euros. Mas isso terá apenas como efeito aumentar as necessidades futuras, segundo um especialista na matéria.

Entre os parceiros da Grécia dentro da UE, são raros os que defendem abertamente uma paragem completa e duradoura dos projetos militares de Atenas. Como Daniel Cohn-Bendit, líder dos Verdes no Parlamento Europeu, que pensa que as hesitações europeias dissimulam sólidos interesses económicos.

Ora, o principal beneficiado com a política grega de armamento é, justamente, o grande pagador da União Europeia, a Alemanha. Segundo o Relatório sobre a Exportação de Armas em 2010, que acaba de ser publicado, a Grécia é, depois de Portugal – um outro país próximo da falência – o maior comprador de equipamento militar alemão. Os jornais espanhóis e gregos fizeram eco de um rumor segundo o qual Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, ainda no final do passado mês de outubro, convidaram, à margem de uma cimeira, o primeiro-ministro grego de então, Georges Papandreu a honrar os contratos de armamento existentes, e até mesmo a concluir contratos novos.(...)"

Os critérios que regem a contenção desta crise são tudo menos solidários. Ver igualmente o documentário "Debtocracy".

via Bobina e Desbobina

the joy of books

#10 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso.

Herberto Helder, in Os passos em volta, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994

As Coisas

Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

#9 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.


Parece que este blog fez seis anos no passado dia sete. Creio que nem vale a pena dizer mais nada... Ou vale. Este blog tem sido um constante primeiro amor. E isso é um começo tão bom como aqueles que começam com um beijo, mesmo quando não começam com um beijo.

«É o nosso futuro e não o deles que está em causa.»

Estou-me a marimbar para a troika

Primeira informação do Banco de Portugal: este ano a recessão vai ser maior do que se esperava. A contração da economia não tem precedentes. E essa recessão resulta das medidas de austeridade decidas pelo governo e com forte impacto no consumo.
Segunda informação do Banco de Portugal: o governo vai ter de tomar mais medidas de austeridade (que Vítor Gaspar nega e ninguém acredita) porque receitas extraordinárias, como a que foi conseguida com os fundos de pensões dos bancos, significam mais despesas futuras para o Estado.
Fecha-se o ciclo perfeito: mais austeridade, mais crise, necessidade de receitas extraordinárias para cumprir o défice quando a economia abranda, mais despesas, mais défice, mais austeridade, mais crise. Ou seja, a receita contra a doença vai piorar a doença. Vamos morrer por causa dela.
Tudo aquilo que os críticos do caminho da austeridade para lidar com esta crise disseram confirma-se de forma ainda mais rápida e profunda do que o previsto. Não porque fossem visionários. Apenas porque era evidente.
Pergunta-se: qual é a alternativa? Há muitas e todas passam pela Europa. Se não for por aí, não debatemos alternativas mas inevitabilidades. A primeira: não vamos pagar a nossa dívida. Ponto final. Não é política, é matemática. O que fica para a política é se, havendo incumprimento, saímos dele vivos e capazes de recuperar. O tempo joga contra nós. Hoje já é tarde para exigir uma renegociação. Amanhã será ainda pior. Depois de amanhã pior ainda. Daqui a uns meses será inútil. Nada teremos para renegociar. Em vez de um acordo sério com os credores teremos as suas condições sem mais conversas. E as suas condições serão a nossa morte.
O que deputado Pedro Nuno Santos disse há umas semanas, e que tanta indignação causou, é mesmo a única saída. E os que então se mostraram tão melindrados terão de engolir as suas palavras e dar-lhe razão. A nossa única arma é mesmo esta: ou renegociamos a dívida - nas condições e prazos de pagamento e até nos seus montantes - ou não pagamos. É a bomba atómica? Não. Já se transformou em armamento convencional. É apenas isso que está em debate em relação à Grécia: ou há uma renegociação profunda da dívida ou ela não será paga. E a Grécia acabará por sair do euro.
É isto que estará em debate em Portugal. Quanto mais cedo assumirmos a inevitabilidade menos estreito será o caminho para a recuperação. Assumindo de uma vez por todas que a austeridade não resulta. Temos duas possibilidades: ou renegociamos já (e poderemos respirar um pouco), usando, se necessário, a ameaça do não pagamento, ou saímos do euro (o que será trágico, mas sempre nos dará novos instrumentos para sair da crise).
Está na hora de acabar com esta fantasia que nos está a atirar para a um poço sem fundo. E para nada: no fim, nem pagaremos o que devemos, nem teremos as contas públicas em ordem, nem reergueremos a nossa economia. Tudo o que estamos a fazer é inútil. Que alguém tenha a coragem de dar um murro na mesa e por fim a esta loucura. A troika não deixa? Como dizia o outro, estou-me a marimbar para a troika. É o nosso futuro e não o deles que está em causa.

Daniel Oliveira in Expresso

NOTA: Juntemos a este cenário negro as declarações de M. Ferreira Leite, ou todas as outras que todos os dias são vergonhosamente cuspidas na comunicação social, e ficamos aterrados. Não há futuro. Isto não é uma tese calamitosa. Nem um momento à Medina Carreia. É a realidade. Quem nos governa não representa o paradigma do neoliberalismo, espelha antes a total ausência de conhecimentos ou opinião económico-financeira. Esses senhores não seguem uma matriz política ou têm objectivos a longo prazo, querem apenas o melhor. Hoje. O lucro fácil, a cunha acessível, ou a vingança pessoal são o único objectivo. Há que ter medo. Muito medo. Não há pior que um louco que não segue regras. É que «é o nosso futuro e não o deles que está em causa». O que fazer então?

Terça-feira, Janeiro 10, 2012

#8 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.


Black, Pearl Jam

elogio?

«"A decisão foi tomada pela direcção da UEFA e o clube foi informado ontem por carta. As imagens contrariam os valores de respeito e tolerância que a UEFA promove. A UEFA tem uma política de tolerância zero em relação à violência e as imagens mostram, no mínimo, uma posição ambígua quanto à violência provocada por adeptos", pode ler-se no esclarecimento do organismo que tutela o futebol europeu.»
in Público

elogio
(latim elogium, -ii , epitáfio)

s. m.
s. m.
1. Palavras em louvor de alguém; panegírico; louvor; encómio.encômio.
2. [Irónico] [Irônico] Censura.
in Priberam

Só se foram elogiados no segundo sentido...