terça-feira, dezembro 05, 2017

bairro do amor

a casa estava vazia, estava sempre vazia. os quadros estavam tortos e, provavelmente, nunca estiveram direitos. nunca nada esteve direito naquela vida, que não era dela. nunca foi. a casa estava vazia. a porta fechou-se devagar. devagar, devagarinho. a mala caiu, os sacos do supermercado diário rasgaram-se e duas tangerinas rebolaram perdidas. lá se foi meio jantar. não valia a pena acender as luzes, ligar o rádio, tirar a roupa. deixou-se cair no sofá, rodeada pelo silêncio desta casa, da anterior, e da próxima. o telefone vibrou,  as piadas repetiram-se no chat do dia, e as contas acumularam-se no e-mail. eram assim as noite a noite duma mulher só. e só ela sabia que devia ter comido uma canja no café em frente, que devia ter ido ao cinema da moda, que se devia ter apaixonado pelo colega da contabilidade. devia. ela sabia. ela sabia que devia começar a sua história numa página em branco. ela sabia que devia. que devia existir um alfarrabista no bairro do amor.

segunda-feira, novembro 20, 2017

lago falkner

"mississippi, fica no mississippi, pai. é uma terra pequena como a nossa e aposto que há lá uma criança, como eu, que estará a pensar em mim. acredita, pai." o pai sorriu, sorria sempre com os comentários tolos de paola. ela era uma criança diferente, tinha uns olhos vivos, fazia perguntas perspicazes e comentários mordazes. era uma pequena mulher num corpo de criança. tinha até um jeito especial de mexer o cabelo, tal e qual o da sua mãe. e, nesses momentos, os olhos de nico ficavam um pouco mais noite. "podemos ir lá, pai? podemos?" ele sorria, ele sorria sempre quando não tinha uma resposta boa. não havia dinheiro para alimentar o gado no próximo mês, quanto mais para cruzar um continente. ele sorria porque queria dar tudo à sua filha e cada vez lhe sobravam mais sorrisos. tristes. desolados. abandonados. paola era uma criança diferente e percebia bem o que ele queria dizer com aqueles sorrisos silêncio. percebia que não havia amanhã certo, que tudo era uma luta dia a dia no dia a dia, mas ela também sabia que eles estavam juntos. que eles ficariam para sempre juntos. podia ser ali, podia ser no mississippi, ou no doce amor de um sorriso.

domingo, novembro 19, 2017

lago machónico

victoria tinha os cabelos negros da mãe, os olhos castanhos do pai, e toda a malandrice infantil do tio gustavo. nasceu tarde, naquela idade em que a mãe apenas faz contas à barriga que não pára de crescer, o pai pensa qual será o próximo dia da bola, e, sobretudo, quando os pais já não sabem soletrar a-m-o-r. victoria foi a filha que chegou com vinte anos de atraso mas com uma vontade inabalável de ganhar todo o tempo perdido. desde pequena que victoria encheu os caminhos do lago ao topo da montanha com as suas corridas, brincadeiras e gritos. "menos, vi, menos". a vida naquelas terras sempre foi de respeito. pelos pais, pela natureza, pelo passado, pelo futuro. "ficas aqui, trabalhas com a mãe, ajudas o pai, e um dia poderás casar com um homem bom. é assim, sempre foi assim. é a natureza a ser natureza." victoria até gostava dos rios, dos riachos, do lago, dos mares e dos oceanos, gostava da natureza, gostava mesmo. mas ela nasceu para questionar, para mudar, para ser o que outros não podem ser. e, por isso, perguntava a todos os que passavam pela ruta torta e pelo lago escuro para onde iam e se a poderiam levar até à cidade mais próxima. daí seguiria para a seguinte e depois para outra mais além. passo a passo. a natureza a ser natureza.

sábado, novembro 18, 2017

lago lácar

aquele sol de fim de tarde a entrar pela janela velha e suja sempre foi o mais parecido com o seu brasil distante. elisa gostava de se sentar ao piano e tocar duas ou três músicas. aliás, eram quase inaudíveis inícios de músicas. as músicas não deveriam ter fim para elisa. a sua vida pelo contrário acabara há 32 anos quando deixou o rio e amarou de amores naquele lago. elisa seguiu o seu gringo de voz rouca e palavras apaixonantes e perdeu para sempre aqueles encontros fortuitos em copacabana e nas casas dos amigos do pai. da bossa nova ao tango vai uma diferença tão grande como o oceano sem fim e o lago curto. elisa nunca ultrapassou a dor pela esquerda e cada dia o seu coração ficou mais vulcânico. cada visita estrangeira era um postre doce que ela não queria que acabasse. ela era toda uma explosão por acontecer. elisa apaixonou-se por todos os cariocas que por ali passaram e, contudo, nunca terminou nenhuma daquelas valsas de amor. elisa era a insensatez de um piano numa terra de surdos. e um dia tudo viraria lenha fácil. estava escrito na natureza, no correr da cachoeira, na neve que queima. foi ontem. foi ontem que o silêncio crepitou pela última vez.

sexta-feira, novembro 17, 2017

lago escondido

emma & clara - hostal de las gemelas. uma pequena placa de madeira à beira da estrada 40 anunciava o pequeno alojamento das duas irmãs. de duas irmãs gémeas. de duas gémeas falsas. emma era baixa como o sol de fim de tarde, ruiva como as árvores que a abraçavam, com uns olhos tão esverdeados quanto o bosque envolvente, e um sorriso tão matinal como o bom dia de uma criança. clara era um-pouco-menos-baixa, um-pouco-menos-ruiva, com uns olhos um-pouco-menos-verdes, e um sorriso um-pouco-menos-sorriso. emma sempre fora a menina linda do papi. e da mami. emma amara e fora amada. clara amara. emma gostava da clara. emma gostava do mundo. clara gostava da emma. clara tinha de gostar da emma. o mundo gostava da emma. emma era um mundo, enquanto clara era a ausência. emma dominava as palavras. clara controlava os silêncios. emma era o tudo. clara era o nada. duas vidas em contraste num hostal de beira de estrada, duas vidas que sempre caminharam paralelas, sempre lado a lado, sempre. até clara desaparecer na floresta e a noite agasalhar o dia.

quinta-feira, novembro 16, 2017

lago villarino

"gonçalo! com c, no com z. soy brasileiro." realmente o seu sotaque era, no mínimo, esquisito. via-se que não era daquelas bandas. mas o que deixara carmen mesmo deslumbrada eram os seus negros cabelos e uns penetrantes olhos cor de mel. "tiene algo para cenar antes de dormir?" claro que não tinha, as contas estavam demasiado apertadas para ter comida pronta sem a certeza de que alguém fosse aparecer. mas por aquele rapaz faria tudo. até um bolo de noz, e deus sabe o preço a que isso sai. "gonzalo, querés..." "gonçalo..." "si, tu querés un tostado con huevos revueltos?" "claro! parece-me perfeito! e diga-me sinceramente, o que faz uma mulher tão hermosa perdida no meio da montanha?" carmen estremeceu. vacilou tanto que teve de se agarrar ao fogão, fazia tempo que não a elogiavam, fazia tempo que um homem-mesmo-homem não a via. respirou fundo, na esperança de parecer indiferente ao elogio, e confessou que o hostal era da família. ou o que restava dela: carmen. "estoy sola hace mucho tiempo, ya no lo sé vivir de otra manera, gonzalo." "gonçalo! mas e o amor,... nem sei o teu nome, desculpa. devia ter perguntado." "carmen." "como a de bizet? isso é increíble." carmen, a mulher do lago, não a outra, cruzou a sala, passando perigosamente perto de gonçalo e foi buscar três vinis. três vinis de carmen, a outra. passou-lhos para a mão e confessou que sempre teve inveja da sua fogosidade. na resposta, gonçalo puxou-a contra si, apertou-a com força e sussurrou-lhe ao ouvido, num brasinhol excitante: "o fogo aparece quando há amor." carmen enruberesceu, ficou com os calores, sem voz e só conseguiu dizer: "lo fuego, lo fuego... los huevos!!!" tudo queimado e um fumo intenso por toda a sala. carmen estava doida, isto nunca acontecera, isto não podia acontecer. "Esto no podería pasarse", conseguiu ainda dizer antes de se perder naqueles braços fortes. nessa noite não houve huevos, tostado ou palavras desnecessárias, só o carinho e o sexo de que carmen precisava e não ousava sequer pensar. as horas foram passando e ela só queria que aquela noite não acabasse nunca, que partilhassem o nascer do sol, o pôr do sol, e o resto da vida também. carmen e gonzalo soava tão bem. carmen acabou por adormecer no peito dele e, pela primeira vez em anos, dormiu profundamente. mas as manhãs à beira lago são sempre geladas e a solidão do inverno é ainda mais gélida. nessa manhã de domingo, carmen não tinha gonçalo, gonzalo, amor, ou futuro, restava-lhe apenas uma sala cheia de fumo e uma dormida por pagar.

quarta-feira, novembro 15, 2017

lago espejo

el amanecer, de carlos di sarli. a música deles a passar no rádio que pedrito comprou lá para casa há mais de 30 anos. eram novos, tinham sonhos. e os sonhos tinham pernas para andar. hoje não têm nem sonhos nem pernas. pedrito perdeu-as num aparatoso acidente na estrada descontrolada de quem vem de espejo chico. vinha rápido, ansioso, perdido de amores. calculou mal a curva, caiu de coração ribanceira abaixo. eva lembra-se de tudo desse dia. do beijo baunilha dessa manhã, do café quente por beber, da vestido flor que esvoaçou até à porta, dos óculos tortos do polícia que apagou as luzes. dez pesados anos se passaram até eva se deixar conquistar pelos diabetes. chocolate em chocolate até ao sofá final. de frente para a janela, de mãos dadas, de silêncios repletos e a canção deles a ecoar pela casa fora. pedrito e eva lado a lado, como sempre, para sempre.

terça-feira, novembro 14, 2017

lago correntoso

faz sexta-feira três semanas que ninguém entra na herdade de cecília. turistas, perdidos, ou conhecidos. o luiz, dos correios, não tem correspondência para entregar ou contas para lhe cobrar. o miguel, do peixe, deve andar por outros lados ou a filha ficou pior. o ed, o cómico careca dos três cabelos, desistiu de lhe tentar vender aquelas roupas velhas. cecília nunca gostou especialmente de nenhum deles, porém deu por si a pensar na falta que lhe fazem nesta noite fria. o inverno ainda vai a meio, mas este ano está a ser excecionalmente rigoroso e ela não sabe se terá lenha até ao fim. o tabaco acabou há três dias, o vinho acabará no fim de semana. tudo acaba. e, contudo, do que sente mesmo falta é daqueles três. a montanha é agreste, sempre foi, e cecília uma cinquentona abandonada pela vida desistiu há muito de fazer amigos. habituada a virar-se por si só, virou montanha. talvez seja do inverno, mais rude do que outros, mas ela sacrificava já, sem pensar duas vezes, um cordeiro dos seus para ter um homem a quem dar a mão e ver o lago gelado.

terça-feira, outubro 17, 2017

O Estado sou eu

Ou o Estado são os outros? Serei eu que não tenho culpa nenhuma, nem sou parte alguma de um todo. Eu que sou um homem-ilha mesmo quando me dizem que nenhum homem é uma ilha. Por isso, nenhum homem será uma floresta, um pinhal ou um eucaliptal. E também por isso são tão poucos os que limpam florestas.

Uma das maiores certezas dos grandes incêndios é que estes põem a nu uma série de fragilidades e falhas: da prevenção/deteção dos primeiros fogos, das limpezas das matas, da ineficácia das primeiras respostas, da evacuação de feridos, crianças e idosos, do evitar do descontrolo do fogo, até à falta de uma comunicação clara e eficaz do governo, proteção civil e demais cargos locais. Está tudo errado, ou quase tudo.

O discurso durante e na fase de rescaldo é, tendencialmente, igual e previsível: ainda é cedo para tomar uma posição / não queremos apontar o dedo a ninguém / a culpa é de x e y / eram condições climatéricas anormais. E, contudo, está repleto de razão. São múltiplas as explicações e as responsabilidades do Estado, dos privados, do passado e do presente. E também é verdade que vão morrer mais pessoas! A revolução não se faz num dia. E é fundamental perceber que é necessária uma revolução nas florestas e no interior de Portugal. A crítica que sempre foi feita aos perigos da desertificação tinha também em si um alerta: um interior abandonado é uma bomba à espera de explodir. Ou arder, ou inundar.

Confesso que desconfio sempre dos "protestos silenciosos", das "manifestações apartidárias", dos "abaixo-assinado pelo direito do povo a...". Estes pensos rápidos da alma pouco mais nos dão do que um alívio momentâneo, quase nunca representando uma alteração dos cenários criticados (e criticáveis). Vivemos na era do like/dislike, da indignação fácil e da culpabilização ainda mais fácil. É justo. Mas isso não chega. A vida e, sobretudo, a política não se fazem apenas na praça pública e/ou redes sociais. Quantos dos que vão descer a avenida, reunir-se em frente à assembleia, assinar um abaixo-assinado, ou mesmo botar um like enraivecido, votaram nas últimas eleições, participaram numa assembleia local nos últimos tempos, conhecem o Plano de Pormenor da sua zona de residência (e a forma como ele mudou ao longo dos anos). Quantos dos indignados são os primeiros fãs do jardim, praia ou centro comercial que foi roubado à terra ou ao mar. Queremos tudo mas não olhamos a meios. E insistimos em não compreender que terra, fogo e água ganham sempre. Resta-nos, por isso, acautelar estes cenários catastróficos. E depois do caos, ajudar quem realmente precisa. O apoio localizado que surge de movimentos populares orgânicos é tão importante como as principais medidas governamentais. Se resolve o problema numa grande escala? Não, nem deverá ser essa a solução final. O objetivo é responder rapidamente e com grande precisão àqueles que de repente se viram privados de casa, comida, roupa e que, muito provavelmente, viram as suas futuras fontes de sustento arrasadas.

Discutamos então as soluções para evitar que os eventos recentes se repitam. Algumas pistas: reformular todo o sistema de emergência, dos seus meios e procedimentos; financiar a profissionalização dos bombeiros; reflorestar o interior com árvores autóctones; numa época de evidentes alterações climáticas, fará sentido termos uma fase Charlie exclusiva a uma época do ano? agilizar a comunicação entre organismos públicos centrais e locais, bombeiros, Proteção Civil, IPMA, etc.; expropriar os terrenos dos privados que claramente se mostrem incapazes de os limpar e acautelar potenciais incêndios. Este último ponto é, provavelmente, o mais delicado já que significa passar para o Estado uma grande parte dos terrenos florestais deste país. Os dados existentes apontam Portugal como sendo dos países com menor percentagem de floresta na mão do Estado. Terá o país capacidade financeira e meios para controlar e cuidar de todos esses terrenos?

As pistas que lanço aqui são poucas e resultam do meu perfil urbano. Sim, o meio de onde vimos marca o nosso olhar e, por isso, a ajuda de todos é fundamental. E mais necessária ainda é a dos que vivem nos locais afetados, e não a dos que vivem fechados entre gabinetes e corredores. Aos segundos exige-se respeito por quem sofre, por quem viu destruído o seu passado, presente e futuro. A demissão de ministros, responsáveis da Proteção Civil, não é um fim. Talvez nem seja um meio. O que se consegue com a remodelação de cariz político destes sujeitos tem muitos poucos efeitos práticos, mas dá uma imagem forte. Uma mudança de figuras nestas estruturas não devolve as áreas ardidas, as vidas perdidas, nem evita um cenário idêntico nos próximos tempos. Mas passa uma imagem que algo tem e vai ser feito. Ganha-se igualmente tempo e paz social para discutir com inteligência as soluções necessárias para um futuro diferente no interior do país (e na sequência disso nas florestas).

O Estado sou eu ou são os outros? Somos todos. E o chavão «agir local, pensar global» faz cada vez mais sentido. Temos de compreender que é hora de agir numa escala micro e macro: da reciclagem ao reordenamento do território, da criminalização de políticos à dos agentes económicos privados; da exigência de um real partido ecologista às políticas educativas que alertem para os riscos de desrespeitar o ambiente; de um discurso nacional que seja coerente com as práticas individuais de cada um na sua casa. O Estado somos todos. E todos somos vítimas e responsáveis pelos crimes que ocorreram, ocorrem e ocorrerão nas florestas e interior de Portugal.

quinta-feira, setembro 21, 2017

o largo da igreja

o céu está cinzento e parece estar para durar. a manhã vai a meio e o pouco sol que ilumina a praça central chega e sobra para os turistas tirarem as fotos escritas na lei. ana dura numa mesa de canto. tem um livro adormecido em cima da mesa, uns óculos escuros inúteis, um telemóvel silencioso, uma garrafa de água cada vez com menos gás e uma revista com famosos de andar por casa. são assim as manhãs de ana. alguns estrangeiros trocam ideias sobre arquitetura, sobre o tempo, sobre os comes e bebes, mas ana só quer paz. um pouco de silêncio, talvez. ao fundo da praça, a porta da igreja continua encostada. a missa deve ir a meio. ana sempre gostou da serenidade mortiça que as igrejas lhe transmitem. até se consegue imaginar a adormecer naquela capela velha, com a voz rouca do capelão e da beata de serviço, os dois feitos amigos de ocasião. deus não dorme, reza a lenda, mas esqueceu-se de ana nos últimos anos. foram mil e uma noites, mil provações e uma dúvida constante: ficar ou partir? a mãe de ana morreu há mais de dois anos, os dias que se seguiram foram longos, as pessoas foram desaparecendo e aquela vila já não é dela. agora a retrosaria está sempre fechada, as cartas do namorado escasseiam e até a velha telefonia do tempo da guerra morreu. nada a prende àqueles fantasmas e, contudo, não consegue comprar o bilhete da carreira para fora daquela terra, daquele tempo passado. tão mal passado. o sol não acorda, a porta não abre, os velhos não morrem, os turistas não fotografam, e a praça continua circular. alguém parou o tempo e nada ousa mudar. dói-dói o relógio bate-bate da igreja. o céu está cinzento e ana dura.

quarta-feira, setembro 20, 2017

um risco no vinil velho

os riscos deste vinil velho são a nossa história velha, amor. a casa está vazia e tudo ecoa. a casa é vazia e é eco. não voltei a abrir as portadas desde a tua morte. nem uma única vez. hoje estive a arrumar os teus vinis, sabes? tenho tanto tango por dançar, tanta música por sentir na poltrona verde que comprámos num domingo triste. ela tem um plástico por cima para não apanhar nódoas. como se alguém viesse cá a casa, dizias tu nos últimos meses. ninguém aparecia e não aparecíamos em lado algum, não havia outros no nosso nós. o vinil velho canta carlos gardel, à janela as folhas verdes mostram-me a primavera a romper, e oiço vozes que me dizem que o verde é a cor da melancolia russa. não consigo vestir o sorriso primaveril, sabes? apetece-me chorar-te mas o pó dos olhos é sempre mais forte e ganha por desistência. não chores mais, pediste. e eu tento respeitar a pausa que fizemos no amor. está difícil, amor. é que os riscos deste vinil velho são a nossa história nossa e ela insiste em estar cravada em todo o lado.

terça-feira, setembro 05, 2017

laranja de abril

o laranja fim de tarde insiste em romper pela casa fechada a sete chaves. é o sol que aquece a sala e mostra a sara que nem tudo é vento frio no nascer da noite. a mala fica pousada logo à entrada, os sapatos atirados corredor fora, a malhinha que se deixa pousar a um canto. é a casa de família que precisa de pessoas para ser, é a família que precisa de casa para acontecer. sara, a solitária, diz o quadro senhorial que preenche a parede antiga. pode ser um cognome, pode ser um triste fado. abre as janelas, aceita a luz, entra o ar. liga o rádio e enche a casa de música. são melodias antigas, se a filha estivesse ali diria que são coisas da avó. talvez, talvez o tempo tenha parado naquela casa relógio. sara espreita o frigorífico. um nada branco que se abre. e depois se fecha. cai um íman. cai uma fotografia. cai o calendário: abril, mês das chuvas, da páscoa e da morte. são os meses que insistem em não passar. a morte sempre ali, sempre aberta no calendário espalhado, e o tic tac do relógio ecoa. as lágrimas são sempre salgadas, dizem, as de sara são amargas. são uma amarga laranja de abril.

jorge luis

vou-me embora! desculpa mas não aguento mais, não aguento mais esta terra, não aguento mais estas pessoas., diz. duas lágrimas gordas escorrem-lhe pela face e muitas outras espreitam os seus olhos claros. não peças desculpa, nunca peças desculpa, princesa., sussurro-lhe. mas eu sei que ela terá de ir. ela avança pelo corredor e deixo-me escorrer pela parede. sou o choro destas duas caras-metade-separadas e não aguento. não me aguento. sinto as saudades do nosso futuro nos meus ombros e caio na madeira quente. o sol bate toda a tarde naquele pedaço e sou o gato malhado que fecha os olhos e pede mimo. as portas do armário batem, a mala cai, os cabides abanam, as gavetas chiam, e eu pergunto-me: quantas malas precisamos para guardar os sonhos que não tivemos tempo para viver? quarto, casa de banho, quarto, casa de banho, a viagem dela parece não ter fim, e eu tenho a certeza de que não quero o fim desta viagem. não quero a mala cheia nem a casa vazia. ela chama-me. deixo fugir um «amor?» e ela pede-me que não complique mais. que não complique mais o que não é fácil. desculpa!, respondo. nunca peças desculpa. não é o que dizias sempre?, atira. é., concordo. sempre concordei com os paradoxos que fizeram este amor acontecer. mesmo, mesmo quando nada o parecia possível. eu sei, amor. eu sei que o amor não é uma história de príncipes e princesas onde o fim é sempre escrito numa página par. mas custa, custa ouvir a música em que o um é o número mais solitário. custa. e a porta bate.

quarta-feira, abril 19, 2017

canto três

o dia ainda vai curto, a lua está cheia, os lençóis são duas faixas de seda que se enroscam nas pernas macias de inês. as lágrimas correm pela almofada branca, o coração aperta e o sono não chega. ela relembra cada palavra que trocaram nessa manhã cinzenta. um telefonema, dois e-mails, três mensagens e um adeus que não devia ter chegado antes do fim do amor. pedro sempre foi boa pessoa. tinha olhos claros, cabelo noite, o dom da palavra e um coração de poeta. sempre se apaixonou facilmente mas nem era por mal. aliás, antes isso do que roubar, dizia. pedro escrevera a paixão deles em versos decassílabos, tal e qual a história dos mais belos príncipes e princesas. mas, agora, era só isso que restava a inês, uma triste amalgáma de sílabas contadas que não contavam mais. inês queria ligar-lhe, queria tentar outra vez. só mais uma vez. esta vez. inês pega no telefone, marca o número dele, o telefone toca, toca, toca. agora é tarde, pedro é morto.

adraga

o carreiro para o mar insiste em ser deles desde a primeira vez que o cruzaram. descem rápido com o vento na cara, com os olhos semicerrados do sol que acaba, a trautear a música velha que passa na rádio. lá longe, a areia ainda é calor, as ondas ainda se quebram, e as dunas ainda dormem abandonadas. é primavera em cada vendaval de fim de tarde e ela vive nos dedos que se enrolam nos cabelos dele. são irrequietos caracóis dourados, tão doces como os beijos de uma criança. toda a praia é feita de silêncios, todo o amor é feito de palavras mudas. o carro para no fim da estrada, a lua rasga o céu laranja e eles escrevem um sorriso apaixonado.

quinta-feira, março 30, 2017

Meio intelectual, meio de esquerda

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinquenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinquenta anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando frequentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
 – Ó Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, frequenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo frequentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto frequentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que frequentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente frequenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinquenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
– Ó Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

António Prata in Estadão

segunda-feira, março 27, 2017

a vida não é uma brincadeira

pára com isso! já te avisei mil vezes, que parvoíce!, gritou-lhe. peter baixou a cabeça e sussurrou algumas palavras. era sempre assim. ele sempre louco, sempre a rir, sempre criança. a vida não é uma brincadeira, peter pan. a vida tem dias tristes, contas para pagar e silêncios pesados. peter  cresceu sozinho, entre palavras escritas e ausências notadas, entre telefones desligados e choros convulsos no quarto do fundo, lá fundo. a escola trouxe-lhe amigos, noites de copos, mulheres e paixões. tudo intenso, tudo vivido, e, contudo, o quarto do fundo ficou sempre lá. ficou sempre no fundo. peter pan não queria crescer, queria amar como nos livros da casa da avó, queria beijar a noite toda, queria tudo. peter quer tudo menos ser crescido. é uma seca. e quando há seca, mete-se água. atirou-lhe água. novamente. pára com isso! já te avisei mil e uma vezes, que parvoíce., gritou-lhe.

quarta-feira, março 22, 2017

onze da noite

o telefone não toca. passa das onze e ela não disse nada. a casa mal respira e ele sente-se só. a criança ressona no quarto do fundo, deve ser das alergias. sai à mãe. o telefone não toca. ele sabe que precisa dela, muito. ele quer agarrá-la pela cintura de princesa, pedir-lhe desculpa olhos nos olhos e beijá-la. um beijo longo e intenso, como no cinema, como não dão há muito. o telefone não toca. não deve ser nada de grave, ela só precisa de espaço e de tempo para ultrapassar este problema. todos precisam. enche o copo outra vez, sabe bem, sabe a baunilha, sabe ao perfume dela. são tão doces estas recordações que quase parecem verdadeiras. o telefone não toca. ele sussurra umas palavras perdidas no seu tom rouco, lambe os dedos sangrados do copo estilhaçado, e espreita o calendário imóvel que garante que o amanhã não lhe falhará. ele tem a certeza de que ela já não volta. daí a uma hora passarão três anos do acidente e ele sabe que ela já não volta. fecha os olhos, ouve o silêncio, não quer acordar, só quer adormecer e esfumar-se naquele último cigarro. o telefone não toca. e já passa das onze.

quinta-feira, março 16, 2017

monday, monday

monday, monday, so good to me. monday morning, it was all i hoped it would be. cabelo negro, pele morena, olhos vivos e passo decidido. estava perdida, mas quem é que não se perde em benfica? na mão, um papel com a morada rua das garridas e a indicação que seria logo atrás do chafariz. o sol batia quente por entre as árvores da estrada de benfica, tal e qual como uma manhã estival na costa, e essa segunda-feira parecia um excelente dia para começar uma nova vida, a sua vida nova. monday, monday, so good to me. na esquina, uma mercearia rústica, uma família que nem era dali mas conhecia bem o sítio. ó menina, isso não tem nada que saber, vira na segunda à esquerda e está lá. é para a metalúrgica? tenho lá um primo que veio do norte nem há dois meses. aquilo é gente séria, pode ir à confiança. e não quer levar uma fruta para o almoço? também temos queijo e iogurte. monday, monday, so good to me. tem queijo da ilha e iogurte grego, sempre quer a granola e as ovas? dona! está a ouvir? monday, monday, so good to me. aquela música na rádio, a mesma música que cantarolara tantos anos antes a caminho do trabalho. a caminho duma vida que acaba agora, mas que logo se faz outra, qual bebé que virou menina, senhora e dona. o futuro começa agora e todos os dias podem ser segunda-feira. monday, monday, so good to me. monday morning, it was all i hoped it would be.

bambi surfista


nazaré, 2017

far away place




dicionário sentimental

a porta fecha-se com estrondo, cai uma moldura, bate uma janela. é apenas o vento de março a fazer das suas, pensa alice. eles até estão bem, sempre estiveram. alice fica sozinha, ela e aquele silêncio. alice tem saudades da casa dos pais, dos primos, de ser criança, da estar feliz. é triste ter saudades de tanta coisa, pensa. todos lhe dizem que ela tem muita sorte, que tem uma casa muito bonita, que tem uma vida de sonho. ela não concorda, é que alice nunca gostou verdadeiramente daquela casa. e, se calhar, isso também é triste, pensa. alice tem medo do escuro, tem medo do silêncio, tem medo das palavras, tem medo do confronto, tem medo do futuro, tem medo de perder o que já não tem. a janela volta a bater. o sol entra pela claraboia, rasga o corredor e ilumina uns livros desorganizadamente empilhados. o escritório foi invadido por brinquedos esquecidos e apenas a tv resiste em stand-by. já desligo, eu ainda volto, diz-lhe sempre, mas nunca volta. na mesa da cozinha, uns dedos de criança escreveram em pó de chocolate: amo-te, mã. alice sabe que aquelas palavras não se apagam, mas passa-lhes um pano seco por cima, só para não estragar a madeira. o café dele ficou na bancada. fica sempre. agora está frio, se calhar esteve sempre frio. devia meter a loiça na máquina, limpar as migalhas, arrumar os panos, guardar o queijo, o fiambre e os cereais. devia pintar-se, esticar o cabelo e vestir uma roupa melhor. devia fazer tanta coisa, mas é só mais um dia. nada tem de ser diferente, diz para si própria. alice olha pela janela, o vento sopra forte, arrasta folhas, papéis e lixo para a piscina vazia. é uma imagem triste, pensa. senta-se no banco e pega no telemóvel. zero chamadas, duas mensagens tão vazias como essa manhã: uma do talho, outra do cabeleireiro. também é um pouco triste, pensa. marca um número conhecido. hoje não consigo ir, passei mal a noite. amanhã estarei de volta. obrigado. até amanhã. beijinhos. alice mentiu. é triste mentir, pensa. ela sabe que nem tudo é mau mas sente que tudo é triste. e isso é triste. e é triste perder o tempo, perder o amor, perder as palavras. alice gostaria de descobrir um calendário lunar feito à sua medida, gostaria de encontrar o amor que lê nos livros, gostaria de saber para onde é que varreu as palavras de que tanto precisa. alice precisa de tanta coisa e só lhe resta uma casa de silêncios por encher. o telemóvel vibra, alice sorri. olá! está tudo bem? ouvi dizer que estás doente… beijinho.

sábado, janeiro 07, 2017

nem tudo acaba com uma morte

7 de janeiro de 2006 - o primeiro dia (link)
7 de janeiro de 2017 - ainda não é o último dia. ou estará na hora?

sábado, novembro 26, 2016

quarta-feira, maio 11, 2016

tesouro maldito

eram doze passos bem medidos para a direita do sobreiro mais velho do jardim. ou seriam onze? a pá era pesada mas maior era a dor de carregar aquele esqueleto gasto de uma má-vida-de-copos-e-salgados. afonso puxava cigarro atrás de cigarro na esperança de que o tempo que se leva a cavar uma cova sem fundo fosse menor do que a ânsia do galo cacarejar dai a duas horas. pouca-terra, pouca-terra, o comboio insistia em não furar e o tesouro não chegava. seriam onze passos? a noite estava fria e a humidade inundava o jardim, ao longe passos e risos. uma menina e um menino descobriam os prazeres da carne, enquanto afonso queria apenas os luxos da luxúria e do bem-bom. seria à esquerda? foi noutra vida, noutros tempos, noutras noites frias, com outros risos ao fundo. mão na coisa, coisa na mão, e um tesouro que se guardou para depois. "o meu tesouro será teu se souberes esperar." afonso esperou uma vida, enterrou família, amigos e sozinho ficou. hoje a noite está fria. seria do cipreste? "isso é árvore que transpira morte, afonso, foge disso!", seriam as palavras sensatas de irene. ele ficou e cavou, cavou, cavou. "cavou a sua própria sepultura.", escreveu o jovem polícia na manhã seguinte, enquanto gracejava com o colega: "este devia ser alentejano."

terça-feira, maio 03, 2016

terça-feira, janeiro 12, 2016

terça-feira, dezembro 15, 2015

o jacinto

do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta. juro que mal andava até à morte do seu marido mas ela agora está sozinha e sozinha fica. eu estava a ficar gordo, tinha dores nos joelhos e até me faz bem esta voltinha. dona irene faz sempre uns bolinhos maravilhosos e o chá é de canela. falamos a tarde toda e ninguém diria que um homem do campo pode ter tanto para contar a uma senhora. outro dia levei-lhe umas flores, uns jacintos, o que não deixa de ser engraçado porque é o meu nome. ela não reconheceu, coitada, mas agradeceu muito e até fez um bolo de laranja no dia seguinte. infelizmente sou alérgico e andei três dias com um inchaço na garganta que parecia papeira. rimo-nos muito e assim ficámos com mais uma história para contar. um dia iremos os dois à grande cidade, eu já lá fui mas foi há tanto tempo. fui às sortes ainda no tempo da outra senhora. dona irene, que já lá viveu, acha isso tudo muito divertido e garante-me que mostra a cidade toda, até mesmo as lojas finas. já lhe disse que não preciso disso, quero mesmo é ver as de ferragens porque têm material do bom, daquele que vem do estrangeiro. e ela ri-se. ela ri-se muito, quando não chora porque o filho é um pulha que só quer o dinheiro do falecido. era um bom homem, o doutor duarte mello. mello, com dois ls, que isto é gente que se trata bem. o rodolfo do café diz que eu devo ter cuidado com ela, que ela tem alguma fisgada, já lhe disse que ele é apenas um burro velho que não tem onde cair morto e não percebe que o amor não escolhe idades. eu bem sei, que já vi uns filmes estrangeiros sobre isso. o rodolfo é um jarreta que só pensa em beber e tem saudades de eu já não passar tardes com ele lá no café. paciência!, ganho eu e mais fica da minha reforma. dona irene é uma querida, uma senhora e sabe muito. ela merece o melhor e por ela, por ela, oh, por ela faço tudo. dona irene é um amor, um amor como nunca tive, e logo uma senhora. outro dia deixou-me pôr a mão na sua perna. percebi que estava com vergonha e nem procurei os seus olhos, fiquei só assim, com as minhas mãos de homem na sua perna feminina. as coisas são assim, no campo tudo leva tempo. ela merece o melhor e por ela, por ela até limpo a minha arma. dona irene garante-me que seu filho vem cá na próxima semana. o biltre! pode ser que tenha um azar. dona irene, como gosto de dona irene. como é bom estarmos assim juntos, assim perto. do café central até casa da dona irene não devem ser mais de vinte minutos de bicicleta.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Dias bonitos

"Está um lindo dia", diz a voz de homem. É de manhã e ele tem à frente mais de uma centena de funcionários da empresa que dirige. Estão ali para ser esclarecidos sobre o destino da dita. Porém, antes de começar um discurso de quase duas horas, o homem põe uma condição: só pode ficar quem garantir que confia nele: "Quem não confia pode ir já embora."
Ninguém sai, aparentemente. E o homem prossegue, certificando ser um bom negociador, o que, explica, quer dizer "ser mais mafioso que os mafiosos." Os mafiosos, sabe-se de livros e filmes, fazem ofertas "irrecusáveis". As aspas em "irrecusável" advêm da essência do ser mafioso: a ameaça e a coação. Crimes, portanto. A dada altura, o homem diz àquelas pessoas que vão na sua maioria ser despedidas e têm de assinar um papel em que prescindem do pré-aviso. É que o pré-aviso, aduz, implica pagar mais um mês de salários, e esse dinheiro não existe. Devem pois acreditar nele e prescindir disso: será a única forma de os despedidos poderem receber as indemnizações, as quais só serão pagas se os que ficam se dispuserem a trabalhar num projeto que ainda não sabem qual é. Há pessoas, poucas, que timidamente questionam. Quantos vão ser os "dispensados"? "Dois terços." É possível não assinarem nada já? "Não, todos têm de assinar, ou acaba tudo aqui". No fim, o homem pede palmas para os acionistas que investiram no projeto e saíram "para não perderem mais dinheiro". Palmas há. E depois, quando ele diz que "vai descansar um bocado", há mais. Palmas. 
Sabemos isto porque o homem mandou gravar o plenário - di-lo no início da conversa - para, supostamente, as pessoas poderem "levar para casa e ouvir". A seguir, a gravação foi colocada no site da empresa. Não sabemos se foi pedida aos trabalhadores autorização para tal; não se percebe qual o objetivo. Quiçá o homem tem orgulho no que fez; deve tê-lo, porque, como refere várias vezes, a mulher e filhos estão ali, a assistir.
Isto, que parece mentira, não se passou numa empresa têxtil, nem no Bangladesh. Passou-se numa redação em Portugal. A do Sol e i, jornais que vão fechar este mês. Quem ali estava eram, portanto, jornalistas. E o homem, que se chama Mário Ramires, já foi jornalista também. Jornalistas - esses profissionais dos quais se exige que saibam duvidar, perguntar, sindicar todos os poderes, resistir a pressões, ser independentes, pugnar pelo bem público e pelos direitos das pessoas e só se guiarem pelo seu código deontológico e a sua consciência. Heróis de fábula, em suma - ou que pelo menos façam por distinguir o certo do errado, o legal do ilegal, não aceitando a primeira patranha. Ocorreu isto na mesma semana em que a TV do Correio da Manhã passou imagens dos interrogatórios do ex ministro Miguel Macedo e do ex diretor do SEF Manuel Palos. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. E se calhar é, num mundo em que estas coisas acontecem e tanta gente - a começar pelos jornalistas - parece achar normal.
 Fernanda Câncio, in DN 04.12.15

terça-feira, dezembro 01, 2015

quarta-feira, novembro 25, 2015

pedro, o feliz

pedro era um miúdo normal. tinha mil amigos e sabia bem qual era o preferido, o segundo, terceiro, quarto, tudo bem definido e contabilizado, mesmo até ao fim, até chegar ao gordo da rua da avó, que era divertido apesar de ser gordo. "os gordos são sempre assim", dizia a avó antes de acrescentar "menos a badocha da dona laura, da praça, que rouba sempre na fruta". pedro era feliz, andava nos escuteiros, tinha boas notas, recebera uma fantástica bola de couro. esta era mesmo redonda! o jaime tinha medo dela e deixava sempre entrar se pedro rematasse à figura. lia livros com ladrões e bandidos, que os policias eram uma seca e histórias de príncipes e donzelas eram conversa da prima francesa. pedro sorria, sorria muito e ria, ria sobretudo quando o avô contava aquelas histórias assustadoras da mina. ele esticava aqueles braços enormes, abria umas mãos sem fim e agarrava-o. as histórias do avô acabavam sempre assim, um abraço que ia daqui até ao fundo da mina, ao fim do mundo, daqui até ao país com nome estranho onde os pais estavam, onde eles se esconderam por causa de umas coisas da política. "talvez um dia eles voltem, pedro, e ai vamos todos juntos ver o elefante ao zoo. e ele vai tocar a sineta só para ti, prometo." a felicidade na ponta de uma tromba parece piada de banda desenhada mas os miúdos são assim simples e pedro era assim. feliz.

terça-feira, novembro 24, 2015

ter paus na boca

casa de pó

a velhice encheu-me a casa de pó e de silêncios. os teus olhos azuis são o mar que nos espreita todas as manhãs, são a última recordação de uma vida que está longe. tão longe como as palavras de amor que já não trocamos. houve carinho, claro, eu amava-te mas era amor pelo conforto que uma vida em comum nos dá. pó, há pó por todo o lado. uma teia de aranha, aqui e ali, um soalho que range e pratos riscados à espera de mais um almoço frio. vais e vens da vila e eu por aqui fico. fico presa a uma cadeira que não roda, apenas me prende. o céu é azul e acaba ali onde o mar se perde. dizes que já lá fomos, que foi o nossa primeira viagem depois do casamento, não sei, não acredito, duvido mesmo. os tempos eram outros, havia respeito. eu era nova, ingénua e ansiosa pelo casamento que estava escrito nos romances de cordel, eras um cavalheiro, eu uma princesa, e a nossa história só acabaria quando as palavras emudecessem. silêncio. a nossa casa é um silêncio feito de barulhos velhos e eu desgosto. onde estão os teus olhos azuis? não devias ter regressado já da tua volta? fecho os olhos, estou cansada, exausta, oiço o vento lá fora, o mar a bater nas rochas, um carro ao longe, uma ave a grasnar e tudo me ensurdece. tenho saudades do teu silêncio. não sei viver com as tuas palavras, não sei viver sem o teu silêncio. que dia é mesmo hoje?

terça-feira, outubro 20, 2015

com duas pedras de gelo

a música está riscada, ouvem-se ruídos difusos e a melodia perde-se algures nos golpes que rasgam o terceiro tema. luís já a ouviu mil vezes, se calhar é por causa disso ou dos copos que insistem em cair  em cima do vinil que hoje não se ouve nada. mesmo nada. está cansado. não se lembra como chegou ali. 
era um jantar de trabalho, ou então com colegas de trabalho, ou se calhar eram apenas conhecidos do prédio. um copo e outro copo, a comida não chegava e outro copo. ria-se alarvemente, contava histórias divertidas, ele pelos menos assim achava, e olhava para a empregada com um ar lascivo. estava a ser uma noite à antiga. e o copo que insistia em ficar vazio. "mais um, por favor." a dona carlota, gordurosa dona do restaurante, já sabia como isto acabava pelo que deu sinal ao pedro, o empregado das piadas fáceis, para servir luís mais lentamente. a história azedou, ele apercebeu-se e insistia em dizer que quem mandava ali, quem mandava ali era o cliente. "e mais um, por favor." a comida não chegou, o uísque sim. sentia-se numa festa universitária com o cansaço de um velho que espera pela morte. e depois caiu, ou melhor, deve ter caido.
um galo, uma dor do lado esquerdo da cabeça e uma branca. total. que horas são? espreita o relógio. não é tarde. mas sente que dormiu umas horas no chão da sala, tem o corpo dorido, partido, e há vómitos no tapete. precisa de ouvir música. aquela música.
aquela música lembra-lhe o passado, o primeiro copo, a primeira morte, a primeira pessoa, a segunda música. luís quer parar o tempo naquele passado distante mas não há pause neste leitor de vinil, não há pause, não há vinil, mas há uisque. e gelo. tem sede e ainda faltam tantas horas para o sol nascer.

segunda-feira, outubro 19, 2015

deixa ser

Luaty e a vergonha Angola-Portugal

1. Não sei como José Eduardo dos Santos dorme à noite. Não sei como Isabel dos Santos dorme à noite. Não sei como milhares de homens e mulheres de negócios dormem à noite. Não sei como o Governo português dorme à noite. E o PCP podia arranjar melhor companhia do que o governo português nesta matéria, a greve de fome de Luaty Beirão. Milhares de comunistas portugueses presos, torturados e mortos em nome da liberdade merecem muito mais.
2. Não há número que diga tanto sobre um país como a taxa de mortalidade infantil. Angola tem a pior taxa de mortalidade infantil do mundo: 167 crianças em 1000, o que quer dizer que uma em cada seis crianças angolanas morre antes dos cinco anos (Unicef). Quando a taxa de mortalidade infantil de um país é alta, isso é uma urgência. Mas quando ela é a mais alta do mundo num país dominado por uma oligarquia milionária isso é uma espécie de crime por negligência na forma continuada. E não faltam dados contundentes sobre o statu quo em que essa espécie de crime acontece, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (calculado a partir da esperança de vida, taxas de escolaridade e rendimento nacional bruto). No último relatório, que abrange 187 países, Angola está em 149.º lugar. Ou seja: em Angola, segundo maior produtor de petróleo da África subsariana, oficialmente uma democracia presidencialista com a qual Portugal tem estreitíssimos laços económicos, vive-se pior do que em quase todo o planeta, incluindo países em guerra, ditaduras, catástrofes. E a estes três números (mortalidade infantil, desenvolvimento humano, produção de petróleo) podemos acrescentar mais dois para completar a mão: o Presidente e líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, está há 36 anos no poder; e a sua filha Isabel dos Santos é a mulher mais rica de África, com 3,2 mil milhões de dólares.
3. Foi neste país que, a 20 de Junho passado, a polícia do regime deteve sem mandato 15 jovens que estavam numa casa de Luanda a discutir a situação política. Tinham dois livros com eles, Da Ditadura à Democracia, de Gene Shar, e Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura — Filosofia política da libertação para Angola, do jornalista angolano Domingos da Cruz. Os 15, incluindo Domingos, foram acusados de preparar um golpe de Estado. Ao fim de quase quatro meses, continuam presos, sem culpa formada e sem julgamento. Vários fizeram greves de fome, um deles, Luaty Beirão, não desistiu. No dia em que escrevo, quinta-feira, 15 de Outubro, Luaty está sem comer há 25 dias. Terá perdido cerca de 20 quilos, não consegue beber água, foi posto a soro no hospital-prisão, tudo isto enquanto a polícia do regime reprimia vigílias de solidariedade e protesto. Luaty é um activista com experiência, foi preso logo a 7 de Março de 2011, dia-símbolo para o levantamento dos jovens angolanos inspirados pela Primavera Árabe. Entre 2011 e 2015, viu o regime desdobrar-se em raptos, espancamentos, tentativas de suborno, ameaças a familiares, perseguições políticas, tudo para tentar combater activistas. A posição de Luaty é clara: manter-se em greve enquanto os 15 estiverem presos, contra a lei, mesmo a lei de Angola. Visto que Angola, descontando censura, prisões arbitrárias, raptos, espancamentos, suborno, ameaças, perseguições e repressão, é oficialmente uma democracia. Os observadores internacionais nem têm achado prioritário observar as eleições angolanas. Como Luaty diz, na entrevista que o PÚBLICO transcreveu e disponibilizou em vídeo, primaram pela ausência.
4. Foi bom ter visto, esta quarta-feira, em Lisboa, centenas de pessoas que fizeram o contrário, estiveram lá, na vigília convocada pela Amnistia Internacional, com a cara de Luaty, e dos outros 14 (Osvaldo Caholo, Afonso Matias, Albano Bingobingo, Nelson Dibango, Sedrick de Carvalho, Domingos da Cruz, Inocêncio António de Brito, Arante Kivuvu, José Gomes Hata, Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, Fernando Tomás, Nuno Álvaro Dala, Benedito Jeremias e Chiconda ‘Samussuku’). Bom ter visto lá angolanos como Rafael Marques de Morais, José Eduardo Agualusa, ou Kalaf, a cabo-verdiana Mayra Andrade, e tantas dezenas tão jovens ou muito mais do que aqueles que estão presos. Era uma pequena multidão com música, palavras e imagens. Mas não sei onde estavam, nem o que pensam, angolanos que estiveram tanto tempo presos pelo que pensaram e escreveram, como Luandino Vieira. Gostava de saber.
5. Enquanto Luaty, cidadão angolano e português, pode morrer a qualquer momento nestas circunstâncias, o Governo português tem, naturalmente, questões a debater, equacionar e mesmo ponderar, na sua relação com o Estado democrático de Angola, e portanto, até à hora de fecho desta crónica, que se saiba, fez exactamente zero. “Considera o Governo de Portugal a possibilidade de apresentar uma queixa junto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e de todas as demais instâncias internacionais competentes devido à violação de direitos humanos essenciais por parte do Estado angolano neste caso concreto afectando um cidadão português?”, foi a pergunta de Pedro Filipe Soares, deputado do Bloco de Esquerda. Através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, a resposta do Governo português, até à hora de fecho desta crónica, era: “Nós estamos a acompanhar a situação do ponto de vista humanitário, visto tratar-se de uma matéria interna de Angola no que diz respeito ao problema da averiguação se existe ou não existe uma infracção de carácter penal, e nisso não nos imiscuímos.”
6. A declaração de Machete foi feita segunda-feira. Terça, o Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa este voto: “1. Exprimir solidariedade a Luaty Beirão, sua família e amigos; 2. Exprimir solidariedade para com todas pessoas detidas no dia 20 de junho; 3. Recomendar a imediata libertação das pessoas detidas no dia 20 de junho; 4. Remeter este voto aos órgãos de soberania e aos grupos parlamentares representados na Assembleia da República; 5. Remeter este voto à Embaixada de Angola em Portugal.” Pois, o PCP votou contra. E não só votou contra, como resolveu contrapor um voto que diz assim: “Apelar às autoridades angolanas, no quadro do respeito da sua soberania e ordem jurídico-constitucional, a consideração da situação humanitária de Luaty Beirão.” Ricardo Robles, do Bloco, argumentou: “Não é uma situação de cariz humanitário. É uma questão política. Ele é um preso político e está em risco de vida. Um preso político é um preso político. Em Angola, na China, em Cuba, nos Estados Unidos, na Turquia ou na Palestina. É um preso político e devemos respeitá-lo, porque houve tantos presos políticos no Partido Comunista Português e tanto respeito que eles merecem.” Mas o efeito, no PCP, foi exactamente zero, em consonância com a posição do Governo PSD-CDS. Para um partido que tanto preza a coerência, que desonra à sua própria história, a milhares e milhares de comunistas que deram tudo pela liberdade.
7. Uma das coisas que Luaty diz no vídeo que o PÚBLICO pôs online esta semana é que um filho não é responsável pelo pai. Ele, Luaty Beirão, é filho de João Beirão (entretanto falecido), um próximo de José Eduardo dos Santos a ponto de ter dirigido a poderosa Fundação Eduardo dos Santos. Luaty tomou outro caminho; depois de estudar em França e Inglaterra, onde se tornou politicamente activo em manifestações e ocupações, fez uma viagem a pé de Lisboa a Luanda, com dois quilos de frutos secos e cem euros no bolso; conheceu parte de África, lentamente e sem rede; e de volta a casa manteve uma intervenção constante como rapper e activista. O extremo oposto do que aconteceu com a verdadeira filha do regime que é Isabel dos Santos, dez anos mais velha. Não só Isabel parece dormir bem com todos aqueles números sobre Angola, como a sua fortuna tem crescido inversamente às estatísticas dos miseráveis. E, como a Forbes detalhou numa investigação conjunta de Kerry A. Dolan, uma veterana da revista americana, e o incansável jornalista e activista angolano Rafael Marques de Morais, a presidência do pai favoreceu o império da filha. Isabel tem fama de trabalhar sete dias por semana para não deixar em mãos alheias o património conquistado, é um talentoso caso de estudo, alguém disse mesmo que Harvard devia estudar o talento dela. Também está bem posicionada em Portugal: Galp, BPI, NOS, BIC. Cada um faz da sua vida o que faz. O melhor que posso esperar é que esta noite Isabel dos Santos não durma assim tão bem e José Eduardo dos Santos menos ainda, e quando esta crónica sair Luaty esteja em liberdade, com todos.

Alexandra Lucas Coelho in Público

quinta-feira, outubro 08, 2015

inside-out


açores 2015

"em bom, é assim:"

Em bom, é assim: "João amava Teresa que amava Raimundo/ Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém. /João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história." Em bom, é assim, célebre poema assinado por Carlos Drummond de Andrade. Ao poema, ele chamou Quadrilha. Não, não é isso que estão a pensar, mas no sentido da tradicional contradança. Por isso me permito uma versão portuguesa, citando políticos, para aqui trazidos por nos darem música. Sai cantiga de escárnio e maldizer: Aníbal apadrinhava Pedro que casara com Paulo que desdenhava Pedro que piscava o olho a António que se encontrava com Jerónimo que se queria vingar de Catarina que também instigava António que não sabia o que fazer. Aníbal foi para o Algarve reformado, Pedro e Paulo continuaram casados, sonhando com umas terceiras núpcias, grandes como as primeiras, melhores do que as segundas, António hesitou na passagem de nível, olhou para a esquerda, olhou para a direita, foi talvez atropelado, apanhou talvez o comboio do poder, Jerónimo progrediu para 18 deputados, talvez até 19, e mesmo 12 era bom logo que fossem mais do que Catarina que invejou André Lourenço e Silva, que tinha um cão chamado Nilo e não entrou na história porque é deputado do PAN e só se interessa por periquitos.

Ferreira Fernandes in DN