segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Liberdade de expressão - expressão curiosa a de Liberdade

"Do ponto de vista epistemológico, se levarmos até ao extremo a ideia de relatividade das culturas, isto é, da sua radical diferença e originalidade, isso conduz-nos a admitir a impossibilidade absoluta de uma compreensão mútua entre culturas diferentes. Do ponto de vista político, ao relativismo cultural (mesmo na versão mais mitigada) pode opor-se a seguinte crítica: ele fornece um pretexto teórico ao não-intervencionismo. Isto é, face a uma agressão de que é vítima uma minoria devemos respeitar a atitude do agressor ou do agredido, tendo em conta a sua relatividade, isto é, a sua equivalência?"

Fernando Gandra, in CUCHE, Denys, A noção de cultura nas ciências sociais, Fim de século, Lisboa, 2003

Entre caricaturas, religiões e liberdades, às voltas na leitura deste livro encontrei umas ideias que muito se aproximam à minha posição em relação à recente polémica "dinamarquesa". Na realidade, a meu ver, toda esta polémica está intrinsecamente ligada ao relativismo cultural, e à aceitação do Outro.

Ultrapassando o chavão da liberdade de cada um terminar onde começa a do outro, a realidade obriga-me a reconhecer, que apesar do ateísmo fanático de que padeço, há que permitir a cada indivíduo tomar as suas escolhas religiosas.

O fim da história está claramente mais longe do que Fukuyama preconizava, e a actualidade espelha um choque de civilizações violento e sem fim previsível. Mais do que choque entre religiões ou dicotomia ocidente/oriente temos hoje um confronto ideológico sobre a conceitualização da Liberdade. É a definição dos limites e contornos desta que se esconde debaixo da bomba de Maomé, e é esta ideia que não tem sido suficiente e imparcialmente discutida.

É alarmante verificar-se que a liberdade de expressão, agnóstica e ateia, europeia que muito prezo, permitiu a movimentos religiosos católicos e judaicos, bem como políticos da extrema-esquerda à extrema-direita se associarem nesta "cruzada" pelo direito à livre expressão. Mas esta união entre grupos de opinião, tão diversos e opostos, é contra-natura e só um acordo tácito entre estes permite a sua existência. E traçando um paralelismo "enviesado", vem-me à memória as dificuldades do processo de adesão turco...

Só a mais pura falta de conhecimento teológico, se formos cândidos e ingénuos, ou um interesse sórdido na degradação das ligações entre ocidente e "mundo muçulmano", se formos pragmáticos, explica a publicação daqueles cartoons, e sobretudo do editorial que as acompanhava.

A questão da representação de ícones e referencias religiosos foi igualmente tema de discussão, embora numa escala bem menos global, na história da religião católica, e só o tempo, e acima de tudo o conhecimento e a informação dos crentes permitiu a aceitação iconográfica de alguns desses símbolos religiosos.

Se observarmos os milhares de crentes muçulmanos, que um pouco por todo o mundo saem à rua, poderemos ver na sua crença acima de tudo desconhecimento, e é essa lacuna que deveria ser colmatada pelos que hoje os atacam. O método e ferocidade das suas críticas é atiçado pelos seus líderes religiosos, cegos de poder, e embora não pareça, o seu alvo não é o Ocidente em geral, nem a Dinamarca em específico, mas antes o direito à escolha... sem crítica.

A minha posição neste assunto ultrapassa, portanto, o âmbito do direito à publicação de umas caricaturas, porque se é mais do que unânime que há o direito a esta, a realidade pressupõe e implica consequências que tem que ser consideradas em toda a sua plenitude. Isto significa que em tempos de "dificuldades de cooperação" com os "recentes" líderes políticos do mundo muçulmano teria que ser pesar melhor as acções e gestos que pudessem ferir susceptibilidades destes políticos, muitos deles, como Mahmoud Ahmadinejad, ansiosos por se legitimarem internamente. A longa e sinuosa história politica do Ocidente obrigava a uma mais pragmática e pensada política internacional...

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