domingo, abril 09, 2006

O modelo francês está em falência?

A entrevista ao historiador Jacques Marseille presente no Público, de 06/04/06, sobre as recentes manifestações em Paris apresenta uma visão que ultrapassa em muito a da observação dos factos recentes.

O director do IHES faz parte dos, apesar de tudo, happy baby-boomers que fizeram o Maio de 68, em vez daqueles que José Manuel Fernandes define num artigo do mesmo dia como os baby-losers. Não é por isso de estranhar que hoje Marseille se encontre do outro lado da barricada, pois o que está em causa na situação recente de Paris mais do que um desejo de ruptura da ordem social vigente é a ambição de uma real igualdade de oportunidades.

"As elites já não representam nada. É a falência do modelo francês" - afirma como resposta pronta à questão de se tratar esta agitação social de uma proto-guerra civil, e da perca da representatividade popular nos seus eleitos. Esta opinião é todavia bastante discutivel quando são tidos em conta recentes trabalhos sobre as novas formas de participação cívica. A comunicação de Tiago Fernandes, apresentada na Gulbenkian no recente congresso da APCP, aponta exactamente no sentido, também defendido por outros politólogos, de a qualidade da democracia poder ser verificada também na variedade e qualidade do associativismo e outras formas de participação cívica e não apenas na vertente da participação eleitoral e da militância partidária.

"Este país é fundamentalmente bonapartista: gosta de alguém que emana do povo e exerce um poder central forte. (...) Os franceses adoram o poder solitário de um homem, e são automaticamente atraídos para um poder autoritário e carismático." - Esta crítica é apenas mais uma das diversas que atravessam da direita à esquerda sobre o anacronismo deste regime . Jack Lang na obra Un nouveau régime politique pour la France indicava o mesmo, baseado no facto deste regime ser herdeiro da IV république de De Gaulle onde a balança de poder se encontrava manifestamente desquilibrada pelo excessivo poder do presidente. O "neo-bonapartismo" definido por Lang prolonga-se nas presidências de Miterrand e Chirac. E é este que tem que ser alterado com o propósito de legitimar e explicitar sem dúvidas o papel do governo. Esta ideia é retomada, de uma forma extremista, por Marseille durante a entrevista ao afirmar que "Decerto que as liberdades fundamentais estão garantidas. Mas uma democracia verdadeira exige um regime claro: ou é presidencial ou é parlamentar." O exagero da sua opinião pode facilmente ser questionado com a eficácia dos modelos semi-presidencial ou semi-parlamentar.

Villepin, e não tomando posição sobre o CPE, é por isso também refém de uma confusa e abstrata distribuição institucional, mas acima de tudo da "guerrilha interna" de Sarkozy.
E isso leva-nos ao preocupante facto de Sarkozy ser um caso evidente do politico populista. Se o populismo e o carreirismo político são por Marseille apontados como perigosos e génese do afastamento e descrédito, ao mesmo tempo vê nele, e apesar do ministro do Interior ser um paradigma desta tipologia, um salvador que possa desbloquear a situação actual em França.

Também Hitler ou Salazar surgiram como salvadores providenciais em crises das suas democracias. Não querendo colocar Sarkozy ao mesmo nível destes dois ditadores a verdade é que a elite intelectual tende em impressionar-se, mais facilmente até do que as classes populares, com o carisma e espírito de liderança de alguns políticos o que cria por vezes poderosas e importantes correntes de opinião pública.

Sem comentários: