sábado, junho 03, 2006

Murphy

- Este amor com uma função faz-me doer os tomates...

- E os pés, não?

- Quem é que tu amas? - continuou Murphy. - Eu, tal como sou. Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo. - Nada mal, para um Murphy. - Se assim é, porque diabo te esforças tanto para me modificar? Para poderes deixar de me amar - aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante honrosa - para deixares de estar condenada a amar-me, para seres dispensada de me amar. - Queria ser claro. - Com as mulheres, é sempre a mesma cantiga: vocês não sabem amar, não são capazes de aguentar, o único sentimento que vocês suportam é serem apalpadas, não podem amar durante cinco minutos sem quererem transformar logo tudo numa mistela incrível de fedelhos e lixos domésticos. Merda, como eu detesto as Vénus domésticas e o seu Eros de história da carochicha. - Fazia questão em ser distinto.

- Evitar o esgotamento pelas palavras.

- Por acaso quis modificar-te? Insisti, por acaso, para te obrigar a fazer coisas que não te competem e deixares de fazer as que te competem? Quero lá saber do que tu FAZES!

- Eu sou o que faço.

- Não - disse Murphy. - Tu és o que és, fazes uma fracção do que és, consentes uma pequena parte do teu ser se venha a fazer. - Imitou o gemido de uma criança. «Não posso fazer, Maaaaamã.» Este tipo de fazer. Inevitável e vergonhoso.

quinta-feira, junho 01, 2006

KLEIN

improviso à chuva

O cigarro queimava lento. Sem pressas.
Tinha ainda tempo até ao próximo.
As portadas iam batendo com força... ah, se fazia vento lá fora.
E até mesmo aquela chuva chata.
Que os carros parados à sua porta recebiam.
Uma travagem molhada. Mas sem cheiro a pneu. Que a janela não se sabia aberta. Não conseguia olhar. Estava na outra esquina. O carro, e ele.
A porta discreta abria. A da rua.
E ele ia ouvindo os passos. De timbale. A subir os degraus tortos.
Quem seria?
Já não sabia esperar alguém. Preparar-se... e... Receber.
Os degraus continuavam mexidos. E ele sentado.
O relógio batia os segundos. E ele sentado. E os degraus mexidos.
O relógio. Ele. Degraus. Ele. O relógio. Os degraus. Degraus. O ele. Degraus. Relógio. O relógio. O. Os. Ele. Relógio. Degraus. Ele. Ele, o relógio degraus. Mexidos, sentados continuados.
Suava já.
tic tac tic tac tic tac tic tac. Caíam as gotas sobre as pernas imóveis. tic tac tic tac.
tic tac tic tac tic. Caíam as gotas tic tac tic tac tic nos carros parados.
tic tac tic. Caíam os passos nos degraus tic tac tic tac cansados. tic tac tic tac tic tac tic tac.
tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac. O relógio. Que não parava.
Atirou o relógio lá para o fundo do quarto, ou da sala. O que interessa isso.
E não parou a chuva, nem o relógio tic tac tic tac tic tac nem os passos, nem o coração.
Partiu a janela.
E não parou a chuva, nem o relógio tic tac tic tac tic tac, nem os passos, nem o coração.
Agora chovia dentro de casa. Muito. Os pés estavam empapados.
Em breve momentos. tic tac tic tac. Ou seria mais tempo?
Quanto tempo?
Devia ter contado o tempo. Os segundos. Se calhar até contou.
Só que os passos... Os passos? Quais passos? Não se ouve nada lá fora. Nem os passos! Mas havia passos, não havia?
Ou era a chuva?
Lembrava-se de um tic tac tic tac... mas podia ser daquele relógio antigo que a mãe lhe colocava ao lado quando dormia a sesta.
Tinha os pés empapados. Por causa do suor. A mãe punha muitos cobertores. Nunca gostou disso.
Mas havia os passos, não havia?

waiting for godot








  

VLADIMIR: 
That passed the time. 
ESTRAGON: 
It would have passed in any case.

9 segundos depois

entrou.
- Quero água!
saíu.
não disse mais nada.
e todos o ficaram a comentar.
porque de pequenino se torce o pepino, diziam.