sábado, junho 03, 2006

Murphy

- Este amor com uma função faz-me doer os tomates...

- E os pés, não?

- Quem é que tu amas? - continuou Murphy. - Eu, tal como sou. Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo. - Nada mal, para um Murphy. - Se assim é, porque diabo te esforças tanto para me modificar? Para poderes deixar de me amar - aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante honrosa - para deixares de estar condenada a amar-me, para seres dispensada de me amar. - Queria ser claro. - Com as mulheres, é sempre a mesma cantiga: vocês não sabem amar, não são capazes de aguentar, o único sentimento que vocês suportam é serem apalpadas, não podem amar durante cinco minutos sem quererem transformar logo tudo numa mistela incrível de fedelhos e lixos domésticos. Merda, como eu detesto as Vénus domésticas e o seu Eros de história da carochicha. - Fazia questão em ser distinto.

- Evitar o esgotamento pelas palavras.

- Por acaso quis modificar-te? Insisti, por acaso, para te obrigar a fazer coisas que não te competem e deixares de fazer as que te competem? Quero lá saber do que tu FAZES!

- Eu sou o que faço.

- Não - disse Murphy. - Tu és o que és, fazes uma fracção do que és, consentes uma pequena parte do teu ser se venha a fazer. - Imitou o gemido de uma criança. «Não posso fazer, Maaaaamã.» Este tipo de fazer. Inevitável e vergonhoso.

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