domingo, abril 08, 2007

Se calhar como Dr. Sócrates ja passa...

Se não existissem as indispensáveis ordens não havia esta confusão toda... Como trinta anos depois de Abril ainda as temos... Remeto a minha opinião mais uma vez para uma citação. Mas calma... Este sabe mesmo do que fala... Alguma duvida?

O primeiro-ministro tem tido a legalidade dos seus graus sob escrutínio e soube-se ser licenciado pela Independente. Apanhado no meio do escândalo da universidade privada sem ter nada a ver com isso, Sócrates viu-se mordido pelos media. Alguns membros da elite política, seguros dos seus pergaminhos académicos, sorrirão. Portugal tem uma elevada taxa de elitismo social e académico no topo da classe política e já Salazar tinha dificuldade em falar com não licenciados; quase metade dos seus ministros eram professores universitários. Os republicanos não diferiam muito. De Afonso Costa a Sidónio Pais, os pergaminhos da elite abundavam. O "você sabe com quem está a falar?" aplicava-se independentemente do regime. Salazarismo e marcelismo complicaram as coisas. Quando a democracia e alguma democratização da classe política caracterizavam a Europa, Portugal era dirigido por uma elite autoritária fechada, altamente escolarizada, que impunha uma distância social muito grande à grande maioria. Será que os portugueses se habituaram à ideia? Com grande desigualdade social e difícil mobilidade ascendente via escolarização, é natural e desejável canudo ser apreciado, mas a democracia deveria ter mudado esta relação. Sócrates representa uma geração de políticos que os fundadores da democracia não devem apreciar muito, mesmo que o não digam. Não é produto do activismo próximo das clivagens anti-autoritárias. Não se destacou profissionalmente, nem tem percurso notável de estudante. É já produto de uma juventude marcada pela rápida profissionalização política, como muitos da sua geração. Quando traçam biografias de dirigentes políticos, muitos jornalistas procuram traços de singularidade e até genialidade: o grande resistente e salvador da democracia (Soares); o grande estudante (Guterres); o professor-economista (Cavaco); o dirigente estudantil (Sampaio); o grande advogado. E se Sócrates ficar apenas como político de qualidade? Não chega. Os portugueses não apreciam os políticos profissionais e as elites não se deixam embalar. Mas se calhar é pena: até ver, não há correlação virtuosa entre qualidade política e alta escolaridade. E o que faz correr alguns a terminar cursos à pressa é a deferência e respeito ante um grau universitário - popular na opinião pública e que pode ser factor de humilhação ante os seus pares.

António Costa Pinto, DN, 07 IV 07

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