quinta-feira, maio 10, 2007

"Que chorar não é coisa de cães"

CÃO 2 Toca a correr adeus.
CÃO 1 Adeus.
CÃO 2 Adeus cidade.
CÃO 1 Adeus velha.
CÃO 2 Adeus.
CÃO 1 Mataram-nos por metade não interessa.
CÃO 2 Não conta não.
CÃO 1 Corre.
CÃO 2 Corre.
CÃO 1 Corre.

(Chega a MÃE num carro descontrolado. Arrasta consigo e mata o CÃO 1 sem quase se aperceber e desaparece. O CÃO 2 ficá imóvel uns instantes. Depois tenta deslocar o CÃO 1 até que compreende que está morto. Longa pausa.)

CÃO 2 Por estas lágrimas que me caem. Pelo menos podemos ficar a saber que a fêmea era eu. Que chorar não é coisa de cães. Coisa de cães machos. Estás a ver. Estás a ver que se calhar era melhor termos ficado por cá. A apanhar pontapés e restos de comida. Ou talvez não. Talvez fosse pior não sei. Não sei qual de nós está pior agora. Talvez tenhas só saído a correr à frente e te encontre quando chegar ao rio. Nos olhos de alguma rã no salto de algum peixe. Era eu a fêmea. Era eu o macho. Por estas lágrimas que me caem só consigo dizer que nem a outra metade de mim me mataram. Fazia-me falta um pouco. Um pouco daquela água preta agora. Foi pena tê-la bebida toda. Dava-me jeito para correr mais depressa. Para chegar primeiro ao rio. Procurar-te nos olhos de alguma rã no salto de algum peixe. Ou talvez me atire para baixo de uma destas coisas que andam tão depressa e vá ter contigo já. Mas não. Bem sabes. Vou seguir devagar. De cabeça baixa. Chegarei ao rio já noite cerrada. (atira um punhado ou dois de terra para cima do CÃO 1 e vai-se embora.)

Letizia Russo in Os animais domésticos
Apresentado no TNDM II, 2005

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