quinta-feira, julho 26, 2007

sans titre, 1995




jean charles blais

Nem vale a pena dizer mais nada...

Em busca da Direita perdida

Por Vital Moreira

Há momentos assim, em que um pequeno factor, aparentemente sem importância de maior, serve de revelador de uma doença grave. Foi o que sucedeu com o comprometedor resultado da direita nas eleições municipais de Lisboa em relação à grave situação que ela atravessa.
A ostensiva crise da direita política é tanto mais sentida e notória, quanto é certo que ela coincide com a boa saúde da direita dos negócios (veja-se o sucesso do "Compromisso Portugal"), da direita social (como testemunham a multiplicação dos "eventos sociais" e da ostentação da gente grada) e da direita ideológica (desde imprensa e a blogosfera à academia). Existe, portanto, uma manifesta assimetria entre a ascendência e a auto-satisfação da direita sociológica, por um lado, e o mal-estar e o desamparo da direita política, por outro lado. Quais são as razões para o mau período que a direita política - melhor se diria, as direitas - atravessa(m)?
A primeira razão tem a ver, indubitavelmente, com a proximidade temporal do desastre dos governos de coligação de direita de 2002-2005. Passou ainda muito pouco tempo para que o país possa esquecer a má experiência desses dois governos, e do seu estendal de inépcia e de irresponsabilidade política. Enquanto persistir a memória política da "fuga" de Barroso para Bruxelas e da "bagunça" de Santana Lopes, os partidos da direita vão ter muito que penar antes de recuperar a sua imagem de forças de Governo responsável.
A segunda razão está indubitavelmente ligada ao sucesso do Governo de Sócrates, que cooptou as tradicionais credenciais da direita em matéria de rigor governativo e de reformismo modernizador. O Governo PS está a fazer aquilo que o PSD e o PP propuseram mas não foram capazes de fazer em matéria de disciplina financeira e de reforma da administração pública, bem como de sustentabilidade dos serviços públicos (segurança social, saúde e educação), ainda por cima num quadro de crescimento económico, mesmo se moderado, e de modernização da economia do país. Por via de regra, não são as oposições que ganham o poder, mas sim os governos que o perdem. Quando um Governo tem maioria absoluta e dá conta do recado, as perspectivas das oposições diminuem, tanto mais quanto o tempo passa e as novas eleições se aproximam sem perspectivas de inverter a situação.
A terceira razão decorre da incapacidade da direita, em especial do PSD, para ficar fora do poder por muito tempo. Tendo passado a maior parte do regime democrático no Governo, a direita fica nervosa na oposição. Falta-lhe a paciência que as convicções dão e a perspectiva histórica conforta. Menos partidos de valores e de projectos do que de interesses e de clientelas, os partidos de direita ficam como peixe fora de água quando deixam de ter o poder para alimentar uns e outras. Uma vez que os seus quadros políticos provêm maioritariamente do mundo das profissões liberais e dos negócios, que facilmente desertam da acção política às primeiras dificuldades, falta-lhes um núcleo suficientemente denso de políticos profissionais capaz de aguentar as agruras e a falta de perspectivas de um longo período na oposição.
Outra razão, porventura a fundamental, decorre da inconsistência programática dos partidos da direita entre nós e da falta de valores e projectos suficientemente identificadores e apelativos para a sua base social-eleitoral. Enquanto o CDS-PP tem oscilado ciclicamente entre uma democracia-cristã conservadora e um liberalismo de direita, o PSD é o produto de uma aliança heteróclita entre vagas reminiscências sociais-democratas, que apelam para os sectores sociais do centro-direita - e mesmo para uma pequena base sindical centrada no funcionalismo e nos serviços - e um neoliberalismo económico que procura cativar os círculos de negócios.
Incapazes de abraçar assumidamente um modelo liberal estreme e de descartar o Estado social - o que seria politicamente suicidário num país como o nosso -, nem o PP nem o PSD, sós ou em conjunto, conseguem estabelecer-se como alternativa credível face a um PS governamental que tem muito mais pedigree do que eles em matéria de políticas sociais e que se converteu entretanto às virtudes da economia de mercado e do liberalismo económico, bandeiras tradicionais da direita. Se se passarem em revista as posições do PSD ao longo destes dois anos de oposição - desde a estrambótica proposta de despedimento súbito de centenas de milhares de funcionários públicos (à custa de uma vultuoso endividamento do Estado), até à recente proposta oportunista da descida imediata dos impostos (pondo em risco o reequilíbrio orçamental) -, nada nas propostas do PSD revela estudo, consistência, muito menos capacidade mobilizadora. Nenhum partido se pode tornar numa alternativa de Governo com uma conduta errática e desvertebrada na oposição.
É curioso verificar que enquanto o PS fez a longa travessia do deserto do período cavaquista - nada menos de dez anos - com assinalável paciência democrática e sacrificando ingloriamente dois líderes (Vítor Constâncio e Jorge Sampaio), o PSD e o PP não conseguem esconder o seu nervosismo e a sua impaciência ao fim de dois anos de oposição, face ao receio de continuarem fora do poder por mais quatro anos a contar de 2009. A razão está em que o PSD (tal como o PP) vive mal fora do poder e carece de um mínimo de valores de projectos programáticos que alimentem a persistência e a confiança na luta política.
Esgotado o ciclo da liberalização económica e das privatizações e cooptados pelo PS os valores da economia de mercado e da modernização e eficiência do Estado, o PSD vai ter de fazer um grande esforço de renovação política e doutrinária para reencontrar um espaço ganhador no nosso quadro político. Mas para isso são necessárias três coisas que por ora escasseiam na direita: ideias, protagonistas e... paciência.

(Publico, terça-feira, 24 de Julho de 2007)

terça-feira, julho 17, 2007

3 metades



Susana Chicó, 2007

Faço minhas as suas palavras...

Todos os partidos de oposição que mais apostaram em tornar as eleições municipais de Lisboa num teste contra o Governo, incluindo especialmente o PP e o PCP, perderem votos. Por isso, apesar de o score do PS não ser famoso, Sócrates também sai vitorioso destas eleições.
Com oposições destas, fica mais fácil...
(...)
Como é que um candidato como o presidente da CM cessante, principal responsável pelo descalabro da gestão municipal de Lisboa que motivou as eleições, consegue ainda obter mais de 15% dos votos e ficar em segundo lugar, à frente do PSD?
Para além do populismo qb do candidato, a explicação principal está no desastre da candidatura do PSD, tão má, tão má, que muitos eleitores de centro-direita preferiram apostar mais uma vez em Carmona. Do mal, o menos...
(...)
Não fica bem... ... a nenhum partido (muito menos ao PS) importar magotes de pessoas de longes terras para "encher" razoavelmente a celebração da vitória numas eleições locais, como foi notório ontem. Por mais justificável que seja a exploração nacional da vitória de Lisboa, esta deveria ser festejada com a prata da casa.

Vital Moreira in Causa Nossa

Nem vale a pena dizer mais nada...

Garanto-lhe Sr. Bush que a actividade humana não têm qualquer ligação com as alterações climáticas:
Foi ontem, às primeiras horas da manhã, que o explorador e nadador de resistência britânico Lewis Pugh levou a cabo uma memorável proeza para chamar a atenção do mundo para as alterações climáticas: nadou um quilómetro nas águas do Pólo Norte Geográfico. Vestido apenas de calções de banho, touca e óculos, Pugh conseguiu algo que apenas há dez anos não teria sido possível, pois a zona onde nadou estaria constantemente gelada, mesmo no Verão. Pugh saiu de Londres, onde reside, no início de Julho para se juntar a um quebra-gelos russo que o levou até ao lugar do mergulho. in Publico

Ao mesmo tempo... e sem relação nenhuma...
Perante a violência e a extensão dos incêndios florestais, Atenas pediu quarta-feira à noite a ajuda da União Europeia. Lisboa, Paris e Roma responderam positivamente enviando hoje cada uma três aviões Canadair. "Estamos confrontados com uma situação sem precedentes, a vaga de calor tem repercussões em vários sectores" acrescentou. in RTP

Síndrome palminhas e o Parkinson rítmico

O síndrome palminhas e o parkinson rítmico são sintomas graves da doença do atraso cultural que afecta Portugal.
Atinge jovens "muito" multi-culturais e verifica-se através do hábito frequente de acompanhar todos os concertos de world music com palminhas, como uma criança de 2 anos.
Verificam-se também casos de alterações nas capacidades de apreensão e compreensão da realidade destes indivíduos dançando muitas vezes completamente fora do ritmo, e mexendo os braços como se estivessem a ser possuídos por uma serpente malévola.
Não há ainda cura oficialmente. Mas estudos em sociedades do Norte de Europa apontam que o desenvolvimento socio-cultural do individuo pode controlar estes sintomas.

Junho e Julho Culturais ...mas pouco

Cinema
Ruptura - fraco
Zodiac - fraco
Alatriste - fraco
Querida Wendy - como pode ser do mesmo realizador d'"a Festa"? Apesar de tudo o melhor do mês. Era difícil...
Die Hard 4.0 - fraco, é um género há muito moribundo
Transformers - fraco, idem

Exposições
Museu Berardo - aconselha-se a leitura do livro de História de Arte de H.W. Janson, ou o de G. Argan. São muito completos e interessantes para se compreender as obras menores que o museu Berardo tem... Não deve faltar um grande nome... haverá algum grande quadro?

Música
Mayra Andrade - a MINHA grande REVELAÇÃO musical do ano... já tinha o album e achava bastante interessante. Mas em concerto transcende-se... muito bonita e com grande presença. Uma voz excepcional. Grande futuro!!!
Músicos do Nilo - muito sentido ritmico, grande empatia com o público. Bom.
Sally Nyolo - talvez a mais fraca do Festival de África. Faltou algo... na minha opinião.
Baab Maal - Muito ritmo e energia. Grande adesão do público. Surpresa agradável.
Tinariewen - Um caso complicado. Sofreram da falta da vocalista, mas têm ritmo, estilo, e qualidade...

terça-feira, julho 03, 2007

O perigo dos "vermelhos"


foto in publico online

Governices e liberdades

Tenho andado para aqui a matutar: porquê? Porquê esta sucessão de casos em que o Governo aparece travestido de carrasco da liberdade de expressão, a chicotear o lombo a quem se atreve a pecar contra essa extraordinária coisa a que chama devotamente "autoridade do Estado". Um professor larga uma piadola sobre o primeiro-ministro? Corra-se com o professor. Um blogue mais mexido anda a levantar dúvidas sobre o impoluto currículo de Sócrates? Enfie-se o autor do blogue em tribunal. Um médico coloca uma fotocópia comentada nas paredes de um serviço de saúde? Pontapé na directora, que não arrancou o papel à velocidade que se exigia. A rapaziada que manda no País anda com os nervos à flor da pele. Por este andar, qualquer dia vai ser preciso bater a continência cada vez que passarmos em frente a São Bento.Matutemos em conjunto: porquê? É que, convenhamos, tudo isto é um bocado burro. O que se ganha em meter funcionários públicos e cidadãos anónimos "na ordem" não compensa minimamente o desgaste que tal provoca na popularidade do Governo. Entre as próprias fileiras do PS há sempre um Manuel Alegre que não perde a ocasião para recordar os tempos de Caixas e sublinhar que "a esquerda" não pode fazer destas coisas. Então, porque é que os ministros se deixam enredar em questiúnculas da treta, que só servem para se queimarem? A minha tese é esta: eu diria que é assim porque eles não conseguem que seja de outra forma - bramir o pingalim é uma espécie de segunda natureza dos governos reformistas em Portugal.Estranhamente, aqui na terriola não se consegue ter o melhor de dois mundos. Ou se tem governos panhonhas que não se mexem (género Guterres ou Durão), ou se tem governos esforçados, com vontade de mudança, mas que depois acham que toda a gente tem de dobrar a espinha ao seu extraordinário esforço patriótico (género Cavaco ou Sócrates). Uns não fazem nem chateiam; os outros fazem e por isso acreditam sinceramente que lhes devemos estar muito agradecidos por isso. Isto não é falta de cultura democrática - é mesmo falta de cultura de competência. O primeiro-ministro, a ministra da Educação ou o ministro da Saúde acham, à sua maneira, que são special ones - ou, pelo menos, que fazem parte de um special governo, que está finalmente a pôr o País na ordem. E, por isso, não acham graça nenhuma às pequenas rebeldias de indígenas ingratos. Aqui, sim, falta-nos uma terceira via: sermos um dia governados por gente que perceba que reformar é o seu trabalho natural, e que ao mesmo tempo possa ouvir uma crítica sem de imediato soltar os cães. Um dia. Quem sabe um dia.

João Miguel Tavares in DN