quarta-feira, agosto 01, 2007

desporto & cinema

«MUNDOS PARALELOS»: OUTRO LADO DO FUTEBOL

Juliette Binoche. A importância de ser o centro do Mundo

Juliette Binoche. A importância de ser o centro do Mundo

Conta a actriz francesa Juliette Binoche que uma das raras vezes em que discutiu com um realizador foi quando, durante a rodagem de um filme, alguém lhe pediu, numa cena, para se deslocar um pouco para o lado de forma a poder ver-se um jarro que estava atrás. “Era só o que faltava comparares-me a um jarro. Se quiseres que ele se veja, levanta-te, pega nele e muda-o de lugar!”.
Não sei o que terá feito o realizador, mas com essa simples resposta, Binoche colocava, afinal, as coisas no seu devido lugar. Quem faz o filme é o actor, não a disposição dos adereços, por mais valiosos que estes sejam. Até os figurantes o entendem.
No futebol há muitos realizadores, isto é, muitos treinadores, que confundem o essencial e o acessório. Move-te antes para aquele espaço, para que o trinco possa entrar melhor pelo meio. Cuidado, porque ai eles tem um lateral durinho. Joga antes por dentro. Indicações e mais indicações. O jogador, em geral, até aceita, mas, no fundo, está suceder-lhe o mesmo que à bela Juliette. Dão-lhe a mesma importância de um objecto, quando, pelo contrário, devia ser ele, protagonista essencial, a ditar onde as outras peças, entenda-se jogadores, se deviam colocar. Não é só coreografia. São questões de personalidade.
Milla Jovovich. O segredo para fazer um «casting» de génios

Milla Jovovich. O segredo para fazer um «casting» de génios

Quando o realizador francês Luc Besson montou o seu filme de ficção científica «O quinto elemento», o anúncio para o casting dizia procurar «Mulher de beleza supraterrena e aparência cósmica» no horizonte de encontrar o ente humano perfeito e redentor.
A eleita acabou por ser uma ninfa de beleza perturbante com antepassados eslavos, nascida em Kiev da união entre uma actriz russa e um pediatra jugoslavo. Durante o tempo em que durou o simples abrir e fechar dos seus hipnóticos olhos azuis, Milla Jovovich descobriu as chaves do paraíso. Passou a desfilar felinamente a colecção Versace e no filme seguinte incorporou a vida de Joana D’Arc, a heroína francesa que ardeu na fogueira.
Com apenas duas décadas de vida, bastou outra forma de olhar para sentir o mundo a seus pés. Muitos são os que dizem que os povos apenas se limitam a construir heróis para, logo depois, os derrubar.
O Mundo do futebol também fica mais feliz quando descobre novos talentos. A pressa de descobrir novos heróis supra-terrenos e de aparência cósmica é enorme. Uma obsessão. Todas as grandes competições deviam ter no seu lançamento o mesmo anúncio que o filme de Besson. O problema é entender que, nos relvados, raramente esse «casting» de génios encontra um protagonista ideal para os modernos filmes de futebol.
«Poderosa Afrodite». Os momentos certos para sentir receio

«Poderosa Afrodite». Os momentos certos para sentir receio

No filme “Poderosa Afrodite” existe, a certa altura, uma cena em que a personagem de Woody Allen se assusta e foge de uma briga a toda a velocidade. A sua companheira, Mira Sovino, diz-lhe espantada: “Não quero acreditar que afinal sejas um cobarde!”.
Woody Allen fica embaraçado, mas responde-lhe: “Sim, bem, mas, na realidade, só em casos concretos…”
Durante um jogo de futebol é legitimo que qualquer equipa passe também por diferentes situações. Mesmo as mais poderosas. Numas cheias de confiança, noutras mais receosas. É normal. Numa pessoa, como num colectivo. O importante mesmo é definir bem quais os momentos concretos em que deve colocar o receio como catalizador das suas atitudes.
Em várias Ligas europeias desta época, questionou-se se o campeão deveu-se mais ao mérito próprio do que ao demérito do adversário. Existe a ideia de que a superioridade moral de um campeão só é possível jogando sempre bem, deslumbrando, sem medos. Não é verdade. Também há tempo para sentir medo. Faltam poucos minutos para o fim e ganha só por 1-0. Em vez de adornar com a bola, sai um chutão para a bancada.
“Não posso acreditar que aches bem teres feito isso”, dirão alguns.
“Bem, na verdade, só faço e casos concretos”, ouve-se como resposta.
O futebol tem, de facto, muitos rostos.
A construção de uma personagem, missão criativa

A construção de uma personagem, missão criativa

Leio uma entrevista de Penélope Cruz onde ela fala de como construir uma personagem, dar-lhe alma e captar bem a sua essência. Como o papel era de uma mulher de aspecto vulgar. Teve de construir a sua forma de andar. Como se trata uma emigrante albanesa em Itália, teve de estudar o idioma e o sotaque. Para o captar melhor, gravava tudo numa fita e ouvia, ouvia, repetia, repetia.
É uma construção conjunta com o realizador, mas tem muito de trabalho isolado. Solitário. Só buscando interpretações mais complexas e extremas é possível evoluir.
Um jogador de futebol também passa por processos semelhantes na construção da personagem que representa em campo. Trabalha com o treinador, mas depois há o trabalho solitário. Como ficar, após o treino, sozinho, a ensaiar remates. Livres, em arco ou no ângulo. Robert de Niro também dizia que na construção de qualquer personagem, primeiro era selvagem e excessivo. Só depois, preciso e controlado. O futebolista cada vez mais se afasta destes princípios. Altera-os, mesmo. E, com isso, deixa de fazer sentido, quer o papel que representa em campo, quer a sua essência individual.
Em ambos os casos, fala-se em criar hábitos sem os tornar mecânicos. Fala-se em colocar a criatividade na tarefa que se tem de cumprir. O treinador ou o realizador definem o guião. O jogador ou o actor descobrem o caminho.
Luís Freitas Lobo in Planeta do Futebol

Sem comentários: