sexta-feira, agosto 03, 2007

no sofá...

A loiça acumulava-se no lavatório. Estava sem paciência para a lavar agora. Nem na véspera, aliás. A música tocava baixo no computador, barato, comprado a prestações na loja do centro da vila. Lá fora passavam pessoas pela porta da rua e deixavam frases de fugida. Procurava, por vezes, juntar as suas ideias e pensar nelas como um conjunto, mas invariavelmente perdia-se nos seus pensamentos e despertava apenas com uma ou outra mosca mais chata e metediça.
Estendia e prolongava-se pelo sofá, feito gato velho que ronrona ao sol. A fresta da janela iluminava apenas o suficiente para ver os livros da biblioteca, e pensar em qual iria ler a seguir. Quase de certeza um russo, gostava deles. Também lera um francês há uns tempos que adorara. E havia também aquele japonês novo. Se calhar ficava-se mesmo por um português. Assim como assim.
Estava com alguma fome… já fazia algumas horas que não comia. Ou se calhar não. Agora que pensava devia ter sido há pouco tempo. Deveria de uma vez por todas comprar uma pilha nova para o relógio, assim já saberia há quanto tempo comera pela última vez. Mas devia mesmo ter sido há pouco tempo. Uma hora. No máximo. Talvez mais.
O jornal no chão, aberto nas primeiras páginas, com uma crónica avassaladora sobre algo que já não se lembrava bem. Mas que citaria nessa noite no café e faria furor. Como sempre.
Diziam que era uma voz respeitada na vila. Pudera! Fazia anos que vivia ali. E sempre estivera presente quando necessário, excepto na discussão sobre a localização da nova capela. Era um pouco avesso a isso das religiões. Mas também não o julgaram muito por isso. Havia coisas piores. Ai, isso havia de certeza, diziam as velhas entre dentes.
Agora já se fazia tarde. O sol já mal entrava na sala. Devia mesmo ver aquilo da pilha. É que chateava. Mas não muito.
Levantara-se, devagar, não fosse ter uma daquelas tonturas que a Dona Luzia lhe contara quando viera limpar o pó à casa. Na verdade, viera apenas conversar porque o pó, esse, ainda cá estava.
O CD no computador já terminara. E o silêncio estava a fazer-lhe cócegas nos dedos mindinhos, e mesmo alguma azia ali no estômago. Era por isso impreterível ouvir alguns ruídos de fundo e pensar noutras coisas menos escatológicas.
E voltar para o sofá. Que só assim o tempo passava… como sempre… ao ritmo das frases soltas das pessoas lá de fora… e assim… o tempo passava… como sempre.

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