quarta-feira, outubro 31, 2007

Diário de bordo (continuação)

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Acordar com um telefonema do prof. Pean não é nada agradável, acreditem. Era para não me esquecer da reuinião hoje em Paris com o ministério da educação. Dicas pedagógicas, dizem. Lá tomei banho e segui para Paris. Lycée Louis Le Grand. O melhor em França. Muito simpático, mas muito diferente dos nossos liceus… o mais próximo será talvez o Liceu Camões ou algo assim… Tem claustros, salas bem grandes, diversos anfiteatros, mas sobretudo uma campainha que parecem umas cornetas medievais. Muito engraçado. A reunião foi interessante… Uma professora portuguesa e uma brasileira. Simpáticas e prestáveis. Quanto aos assistentes… Dois grupos se formaram logo: os portugueses e os brasileiros. Um rapaz simpático, da Nova, um pouco introvertido. Mas muito inteligente. Outras duas raparigas, do Norte. Uma de Famalicão e outra de Mondim de Basto. Já viveram em França. Têm um francês de alto nível que me deixou mais do que envergonhado. Sobretudo a Dalila é muito simpática e como já conhece a vida em França mostrou-se logo disponível para dúvidas que tenhamos. O grupo brasileiro era muito simpático. Duas moças e um rapaz. Depois café com malta toda, ou melhor cerveja. Combinou-se ver o França-Inglaterra no Hotel de Ville, no sábado, e beber-se uns copos.
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Grande Liceu, o de Talma, em Brunoy. A 5 minutos da estação. Depois de apenas 6 minutos de comboio. Em menos de meia hora chego ao liceu. Melhor só mesmo o de Queluz. O problema, o de sempre. – Ah! Não estávamos a contar consigo. – Favor esperar um pouco. E esperei. 1h20. A professora, Lúcia Palmeira, muito simpática, tuga típica, baixinha, morena, quarentona. Conheci uma turma. Os do 2º, equivalente ao 10º. Não são muito complicados. Depois segui para Corbeil muito atrasado mesmo. As turmas do colégio La Nacelle são do 6º (5º em Portugal), e 4º (7º) são um pouco mais duras, sobretudo a do 4º. Eles não se calam. Lá regressei para casa a pensar nisso…
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Mais uma vez aulas em Corbeil às 8h30… Acordar antes das galinhas… mesmo. Que gelo! Parecia que estava na Antártida. Quando cheguei à escola com estalactites no meu corpo vi vários professores só com uns casacos frescos e camisa. Só me diziam… Frio??? Estão 6 graus. Espera por Fevereiro e vais ver…. Aulas e depois almoço com o professor e outros 5 num restaurante português. Fiquei a saber que ele é mesmo de direita, conservador, e tudo mais nessa área… O almoço… muito bom… e foi oferta do professor, e as entradas e digestivo de outro. E como sabem quando é oferta… eu não falho. Voltamos à escola para preparar as aulas, e definir o meu horário. Sai às 16h… queria ainda ir a Paris… mas já não fui capaz, estava mais do que exausto. Deitei-me bem cedo…
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Acordar com calma, ler os jornais e blogs portugueses, e preparar-me para Paris. Ter com a Ana para ver o jogo de Portugal num café português. Segundo o mapa era quase ao lado da gare de Lyon… não… eram quase dois kms. E depois… um engano enorme. O jogo era às 17h em Portugal, o que significa 18h aqui, e não 16h… ehehehe. Foi um jogo q.b., mas deu para o meu principal objectivo. Conhecer mais um sítio português, onde posso ver o Benfica, e beber umas cervejas mais baratas (2,30€). Ai! Meu Vai Tu! Depois fomos ter com o pessoal ao Hotel de Ville (câmara municipal), mas o jogo tinha sido mudando para o Champs de Mars (frente à Torre Eiffel), e lá fomos nós com mais uns largos milhares de pessoas. A França perdeu… mentiria se escrevesse que fiquei desolado. Depois… conhecer a noite parisiense com os assistentes. Quartier Latin, é o mais próximo do Bairro, mas claro mais caro. Lá conheci um francês do hip-hop, um grego e outro francês. Era um grupo muito suis generis. E só acabou de manhã. Primeiro metro… RER para casa, perdi o passe… e adormeci no comboio, obvio. Tinha que acontecer.
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Dormir o dia quase todo. Era obvio…
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Assistir a mais umas aulas em Brunoy. Conhecer mais uns alunos. E depois Corbeil. Nada de mais neste dia… Ah! Comprei o bilhete para o Natal. 23 de Dezembro. Portugal!
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Brunoy. Corbeil. Agora sim, conheço todos os alunos. Gosto mesmo mais de Brunoy. Mais não seja porque… há greve geral na quinta e fazem greve em Brunoy, enquanto em Corbeil o prof. disse logo que isso das greves eram coisas da esquerda (com um ar bem condescendente). Voltei para casa, passando por casa do Richard Riff (amigo de juventude do Luís) onde bebi um copo e conversei um pouco sobre a cultura mediterrânea. Ele é argelino, e como tenho um aluno argelino que engraçou logo comigo porque eu não gosto do Sarkozy, quis saber algo mais sobre a Argélia.
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Acordar bem tarde. Arrumar e limpar a casa. E ir ver o jogo de Portugal com o Kevin. Depois fiquei a jantar lá por casa da Goretti. Não cheguei a tempo de falar com ninguém na Internet.
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Acordei ainda mais tarde. Também não se faz nada hoje. Há Greve! Fiz uma máquina de roupa e pouco mais… O dia foi passado no computador a passar os e-mails, e a preparar músicas portuguesas, brasileiras, e africanas para dar aos meus alunos. Aceitam-se ideias para depois do Natal mostrar coisas aos putos…
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Greve de manhã. Felizmente. Quando a situação melhorou no final da tarde segui para Paris. Aproveitar o lire en fête. Descobri uma pequena livraria-café, do género da eterno retorno, que tinha a leitura de uma peça muito simpática. O 11º promete. Tem inúmeros espaços deste género, e também clubes de jazz e bares. Mais um passeio, umas cervejas no Marais (Soho francês) e regresso a casa depois do rugby e de mais uma derrota francesa. E sem o saber apanhei o ultimo comboio. Afinal a greve continuara. E posso garantir que ficaram centenas de pessoas no cais errado. Era o bordel. No regresso uma conversa com um marroquino e dois senegaleses sobre ser imigrante e ter saudades de casa. Em França toda a gente mete conversa com toda a gente.
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Acordei tarde, mas não muito. Tive que ir à Caixa, em Paris, buscar o mb (carte bleu). Regresso a Combs para ir ao hipermercado com a Goretti e miúdos. Depois jantar de racletes enquanto acompanhava o rugby, e a triste jogatana do Benfica.
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Depois do almoço segui para Paris. Mais leitura do lire en fête na casa da Europa e . Espaço muito agradável mesmo, um dono 5 estrelas, e livros baratos. Ah. E possibilidade de passear no antigo caminho-de-ferro para Istambul que é hoje um jardim suspenso. Lindo!
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Merda de greve. Manhã Brunoy. E depois 3 horas para chegar a Corbeil. Exausto. Tout simple!
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Aula em Brunoy de manhã. Acho que estou a ficar meio adoentado. Atrasei-me um pouco a sair da escola porque fiquei com a prof. Lúcia a preparar a aula de sexta. Apanhei o comboio, e como é hábito mudei em Villeneuve St. Georges. Quando ia a entrar deixei passar um casal e umas pessoas. Entrou toda a gente, e então o rapaz do casal começou a gritar com um rapaz lá fora sobre a sua miúda, traição, etc. Começaram os pontapés… e continuaram. O comboio arrancou, mas o rapaz que estava lá fora conseguiu entrar. O caos. Os dois à porrada. Toda a gente a fugir para o fundo da carruagem. Ao lado dos dois que lutavam violentamente quatro amigos que observavam impávidos, e a namorada nada serena. Ninguém se meteu e durante quatro minutos até à paragem seguinte houve socos, pontapés, cabeçadas e sangue. Chegámos à estação seguinte e eles saíram lá para fora… parecia tudo mais calmo. Eles afastaram-se cada um para seu lado. Mas havia uma última boca a mandar… e apesar de estar toda a estação e comboio a olhar recomeçaram. E ninguém fez nada quando o rapaz (o do casal) caiu desamparado e apanhou com um pontapé na cabeça. Nada. Sangue em todo o lado. Berros. Outro fugiu. Ninguém o agarrou. Nada. O pessoal da SNCF apressou-se a colocar um pano por cima do rapaz que estava no chão. A namorada chorava agarrada a um segurança que aparecera entretanto. Policia e bombeiros pouco depois. Ambulância. Olharam… abanaram a cabeça, puseram um colar cervical. Talvez diziam. De seguida, duas carrinhas da polícia de intervenção chegam… varrem o nosso comboio e espalham-se pelas ruas envolventes. De repente… o comboio arranca calmamente… como se fosse apenas mais um dia…. Uff… primeiro momento banlieu.
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6h30 da manhã… acordar para ir para Sévres para as jornadas pedagógicas. Dia inteiro nessa treta. Depois, ida a Paris ver o Benfica ao churrasco, novo restaurante fetiche. Regresso a Sévres para dormir.
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Mais Sévres… Muita pedagogia…
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Corbeil de manhã. Brunoy de tarde. Dei a minha primeira aula… Música o Leãozinho para os alunos compreenderem e cantarem. Resultou bem! À noite fui com a Ana ver uma potencial casa para ela. Pessoal muito simpático e em principio será mesmo essa casa.
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Férias. Já não era sem tempo… heheheehehehhehehe. Ida a Paris para passear um pouco pelo Marais, e beber uns copos num bar gay. Depois fomos até ao 20º ver uns filmes sobre o 25 Abril numa associação. O que podia ter sido muito bom, tornou-se quase tragicamente irónico. O ambiente era de semi-clandestinidade como se o que estivéssemos a fazer fosse algo mais do que proibido. E depois o debate… surreal. Jovens bloquistas que aproveitavam o palanque para questionar a entrada na UE, o tratado Europeu, e comparavam Sócrates a Salazar. Um pouco mais de respeito por quem viveu a ditadura mesmo, talvez. Depois seguimos até ao Frigo, um bar na zona de Bercy, mas nas docas.
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Museu Picasso, de manhã. Uma exposição permanente muito boa, a temporária então… excepcional Depois um passeio por St. Germain. E depois… Benfica no Churrasco. Regressei a casa por volta da meia-noite. Tudo muito deserto. Demasiado deserto. Não vi uma única pessoa desde a estação até casa.
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Primeiro dia no Louvre. Primeiro de muitos. Ah… e já tenho passe do Louvre. Vi a ala da Arte do Islão. Depois Pub St. Germain. Muito cool.
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Manhã em La Vilette. Mais um passe… para poder lá voltar durante um ano. Fiz algumas das experiências de física que podíamos, e tive no planetário mas o filme era assim a modo que básico. Deu para descansar um pouco. Depois… mais uns copo num bar gay do Marais.
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Dia caseiro. Limpar a casa, lavar roupa e sobretudo fazer as compras do mês, no Cora. Final do dia… jogo do Benfica…

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