sexta-feira, outubro 12, 2007

o nosso próprio véu...

Estou em França, no país da polémica. Talvez mesmo no coração de tudo. Os banlieue.

Em conversa com o professor Pean sobre esta questão ele referia que era melhor nem se falar disso. Demasiado polémico. É à direita (como no caso dele), mas também à esquerda.
Para a direita é inadmissível que algo ponha em causa a autoridade do Estado (conceito central e fulcral do seu raciocínio), bem como moral e regras vigentes. À esquerda o papel da mulher e o peso da religião são os dilemas fundamentais deste conflito.

Começando pela esquerda e tendo em conta a minha experiência pessoal, sobretudo agora com a observação de jovens muçulmanas e da sua relação com outras parece claro que não existe ali nenhuma obrigação, antes pelo contrário, orgulho. Quanto às suas amigas estas parecem compreender e aceitar completa e naturalmente esta opção. A quem faz confusão então? Às feministas de escritório que já não saem à rua há muito tempo e leram o Deuxiéme Sexe ainda há mais.
O recente crescimento da religião muçulmana num mundo ocidental de anti-clericalismo também em crescendo provocou na esquerda um enorme choque. O catolicismo e outras religiões têm vindo a perder papel nos tempos mais recentes, e todavia seitas especificas e o Islão tem vindo a crescer. Há que saber dar a volta a esta situação, e como? Fundamentalmente eliminando o fosso entre pobres e ricos no Mundo e nas cidades, mas também reestruturando toda a lógica urbanística das metrópoles ocidentais.

Como referi anteriormente a abordagem da direita ou dos conservadores nesta problemática é um pouco mais linear. Prende-se sobretudo com o receio de que uma religião, seus hábitos e costumes possam ultrapassar e interferir com as regras, direitos e deveres do Estado. É, talvez, por isso impossível não notar similitudes com os atritos entre Nobreza e Clero na Idade Média e período Moderno. Há talvez o receio que o contexto pós-Revolução Francesa em relação ao laicismo do Estado possa estar em perigo. E estará mesmo? Tal como à esquerda a solução encontrar-se-à com o equilíbrio social e económico de forma a impedir o fascínio pelas religiões.

Em suma, talvez não seja mau de todo compreender primeiramente o que leva jovens muçulmanas a querer usar o véu. É uma prática que apenas a cada um diz respeito, ao contrário do fumo, ou do choro de uma criança que afectam outros. Além disso não é obrigação do Estado proteger as liberdades e escolhas de cada individuo desde que estas não afectem ou interfiram com terceiros?

1 comentário:

Ana Pola disse...

Continuo a dizer que a opção véu não é liberdade de opção nenhuma. Um direito que me assiste, que autoriza a poder ser dona do meu corpo? Porque querer proteger-me dos olhares “maliciosos” dos outros, guardar-me para não sei quem(?), não é assegurar o direito ao nosso corpo, é fugir. È pactuar com o machismo de trazer por casa. Se é tão bom estar escondida, porque é que os homens estão descobertos e a rua é deles? Não há sexo para a cidade. Ela é de todos em igualdade de circunstâncias. Uma das minhas avós zangava-se por eu usar manga cava. Indecente. Volvidos 40 anos há quem diga que sim é indecente… No Vaticano, na catedral de S.Pedro também não se pode andar descoberto. Em qualquer regime opressivo impor uma regra nos costumes é condição quase sine qua non .

Lamento, meu filho, mas só quem não viveu obrigada a regras cretinas de moda e costumes (e a Religião a meter-se onde não é chamada, não é nenhuma questão de Cultura) é que pode ter veleidades de ser bonito ou respeitável… O véu enquanto adorno religioso é tão ostensivo como a cruz ou outros sinais exteriores de aprisionamento. A fé se é importante deverá ser íntima e pessoal, um diálogo entre o crente e Deus, sem espalhafatos ou folclores.



Lamento imenso, mas ver meninas com véu é tão bonito como meninas com as saias abaixo do joelho, ou manga comprida por causa do pecado. Por favor, voltamos à era das trevas? As freiras também têm uns fatinhos muito decentes, e os padres católicos. Não há nada como a decência. Por isso, no ocidente perguntamo-nos se é correcto ou não permitir os signos religiosos nos espaços laicos e as ocidentais quando em viagem p/ países árabes, quando as deixam lá ir, têm grosso modo duas alternativas: serem obrigadas a colocar um véu/ burka/ um esconderijo ou serem bem apalpadas pelos machos que coitadinhos querem as suas virgens muito virgens…

Por favor, não há deuxième sexe que aguente