sábado, outubro 27, 2007

Poema I

A poética estava toda lá.
Tinhas lido
aqueles que devias,
e leras
mesmo
outros.
Que também são lidos
por outros como tu.

Não gostavas da rima.
Era muito básico.
Popular.
Arcaico.
Redutor.
Perdia-se a palavra.

Gostavas das palavras caras
compradas nos romances
e ensaios
que ganhavam prémios.
Aqueles,
grandes,
internacionais.

Falavas bem.
Eras bem falante.
E fazias do café
um palco de ideias, debates, discussões,
acaloradas
sobre a escolha certa da palavra.
A palavra certa.

Nunca te vi só,
tinhas amigos de café,
da livraria,
do alfarrabista,
do liceu,
faculdade,
e até aqueles grandes nomes
já os conhecias.
E privavas com eles com um sorriso.

Citavas de cor,
gregos,
romanos,
medievais,
modernos,
contemporâneos,
desconhecidos,
ilustres,
e os demais restantes.

Todavia nunca criaste
algo.
Que te orgulhasses.
Era sempre pouco.
Fraco.
Vulgar.
Mundano.

E se querias a imortalidade...
talvez só morrendo...

Uns comprimidos e álcool,
servidos em copos de desespero.
Era o inicio da tarde.
E ficaste estendido na mesa.
Com a caneta na mão.
E uma folha.

Duas palavras.
Na folha que já não era,
branca.

Não as entendi.
Desculpa.

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