quinta-feira, outubro 11, 2007

ÇA VA! ÇA VA! AVEC LA CLASSE! E O RESTO É DIÁRIO DE BORDO

30 IX
França. Chega-se ao aeroporto. Grande confusão para as malas e tal… começo a desconfiar da organização francesa. RER para o centro de pais… sítio após sítio reconheço grande parte dos sítios onde estive anteriormente.
Place de la Sorbonne. Hotel. Malas no quarto e rua… Franceses ganharam à Geórgia mas não vejo grandes manifestações de alegria. Talvez se tivessem ganho à Argentina, e não tivessem que ir jogar a Cardiff contra a Nova Zelândia... Passeio pelo Jardim do Luxemburgo, St. Germain de Prés, Louvre, Palais Royal, e de volta pelo Quai de Orsay até ao jantar no Luxemburgo. Um salmão grelhado excepcional.
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Autocarro é bus…Banco é Caixa! Mas fechada à segunda… Paciência! Visita da exposição da Vieira da Silva na fundação Gulbenkian-Paris. Muito boa! Sobretudo porque ver a Biblioteca em Fogo em Paris é qualquer coisa. Desço pelos Champs Elyseés com as minhas tropas até aos Invalides. Museu d’Orsay. Lanche e ida para Combs-la-Ville. De táxi. Escândalo! 50 euros… mas paciência, nada a fazer com Madame Pola. Na casa… bem o que se espera de uma casa de velhota. Muitos souvenirs bastante úteis numa troca de dádivas com os índios da Amazónia, e muita pouca coisa realmente útil numa estadia de 9 meses, em França. Primeiras limpezas da casa, e dizer um olá ao Richard Riff (amigo do Luís de longa data). Regresso a casa. Mais limpezas e descanso.
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Acordar com o gardien para ligar o gás, e depois acabar de limpar a casa com a mã… Ida para Paris com o Richard (era necessária uma prova de que habito com ele para abrir conta) e direito ao primeiro grande engarrafamento. Quase, quase ao nível do IC19. Estou a gozar, claro que foi menos. St. Germain de Prés e compra-se uma mochila. Acho que já tenho um ar mais sério… Caixa! Sr. Nascimento, muito simpático. Mas do Sporting, pois não avançou nenhuma informação sobre as casas do Benfica e eu que já ando nervoso com isso. Mas mais ainda com esta burocracia. Para tudo são preciso provas de residência, e para abrir uma conta só digo… 2 horas. E se não fosse a minha mãe ser caixa… ui… teria que marcar uma reunião para ter direito a abrir uma conta. Os gastos com a conta são consideráveis (mais de 100 euros ano), e para ter cheques… tenho que esperar mais uma semana… o que significa… uma semana sem Internet nem telemóvel… Porque não se pode comprar net, nem telemóvel sem prova de residência em França, nem documentos do banco como se é uma pessoa bonita, simpática, inteligente, bem-falante… Se calhar mandavam para o banco alguns comentários vossos sobre a minha pessoa. Seria simpático. Nova descida pelos Champs Elyseés, e mais umas compras para a casa. Já tem um aspecto bem cool, e já começa a estar bem simpática para receber um pessoal. Atenção: só aqueles que enviaram os comentários para o banco. Jantou-se num restaurante simpático, sobretudo porque além de bife com batatas fritas tinha acesso à Internet e eu estava mesmo a precisar. O tempo vai passando… e nada de informações de Portugal, ou da colega Sara sobre os locais da formação. Na escola ainda menos informações. Eles só nos recebem… dizem. O tempo vai passando… e realmente a organização francesa, neste caso a do ministério da educação, deixa muito a desejar. Entretanto descobri que deixei o carregador do telemóvel português em casa o que significa que estou incontactável até sábado quando a minha mãe se for e eu ficar com o telemóvel dela e com o meu cartão.
Nota: O que lhes parece faltar em organização compensam em cultura: hoje cantava o Abd al Malik no Olympia, sexta o Ben Harper, e para a semana Ani DiFranco. Amanhã começa uma exposição de fotografia e pintura de David Lynch, e no final da semana estreia uma peça na Comedie Française que parece excepcional… A reter.
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Hoje consegui dormir até mais tarde. Soube mesmo bem… dormir até às 9h… Depois segui até Paris, ao Georges Pompidou para ler e mandar e-mails. Uma volta pela Sorbonne para procurar casas… talvez seja melhor arranjar casa em Paris para aproveitar as vantagens culturais… como a nuit blanche do próximo sabádo. Na zona de St. Germain de Prés descobri um cinema que é um mimo, só ciclos de Fassbinder, Rohmer, Manuel de Oliveira, Godard… e tudo a 5 euros. Muito bom! Depois mais umas voltas pelo Marais e compra do telemóvel (0033) 6 18 44 44 45. Mais uma vez Paris no seu melhor… uma hora para comprar um telemóvel de cartão recarregável. Encontro com a mãe num café ali perto, e regresso aos banlieue com a baguette debaixo do braço. Em casa, jantar de saucisson, brie, salada e fruta… e ver o jogo do Liverpool-Marseille. Grande jogo. Melhor golo ainda. Enquanto isso as mensagens de Portugal, do Benfica, sucediam-se a um ritmo alucinante… e a raivinha crescia… Ai! Se eu fosse sócio…
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Hoje, finalmente, acordei mesmo cedo. 8h. Já fez algum frio, mas senti-me bem cómico ao ir comprar a baguette e o l’équipe e traze-los debaixo do braço. “Tanto!” Pequeno-almoço e “allez pour la station”. Uma das poucas vantagens de ficar em Combs la Ville e não em Paris é a paisagem. De Combs a Corbeille é tudo verde e Sena. A vista é muito bonita e penso mesmo que os conceitos de subúrbio e arrabalde não foram escritos nestas paragens. Mesmo a chegada a Corbeille-Essonnes mostra uma cidade muito pacata e calorosa, no entanto, é a mesma cidade onde foram mortos dois policias há um ano, e hoje os responsáveis vão a tribunal. Devido a isso uma das carreiras que me levaria à escola está cancelada. Eu explico… há nesta cidade um bairro muito complicado… onde ocorreram esses distúrbios há um ano, e como hoje o julgamento é hoje… acharam melhor cercar hoje o bairro e não entra nem sai ninguém. Sim, um bloqueio total! A verdade é que esta terra destrói a teoria sociológica de que existe uma relação entre a violência humana e o caos urbanístico… este local é demasiado simpático para o que acontece “lá fora”. Lá cheguei. 1h50 depois… apenas 18 kms se fosse a direito… e se não tivesse quase que ir a Paris e voltar… O colégio está em obras. Completas!!! Já conheci alguns professores. Os mais novos e mais simpáticos. Parece que estão a decorrer as eleições para o conselho pedagógico e as duas listas são basicamente professores novos vs old school. Infelilzmente o Prof. Pean é mais velho (cinquenta e poucos) e não gostou de me ver a beber café com os mais novos… começou logo a dizer que eu não era assim tão ideal e blá blá blá… logo se via… mas não devia trabalhar as 8 horas de certeza. Paciência! Já tenho um jogo da bola para a semana com os professores de educação física contra os putos da escola. Não tarda virão as cervejas… Esperei pelo director Ondokine quase duas horas. E apesar de ter estado pouco tempo com ele foi muito simpático. Gostei dos projectos que tem para uma escola complicada numa zona delicada. Sinto estar num projecto muito aliciante… e gosto. Voltei para Paris após uma conversa surreal com um magrebino no bus… algo sobre horários e noção de tempo. Surreal. Jantar num restaurante italiano muito cool com um cozinheiro que faz certamente concorrência ao Alex. Um sítio a regressar!
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Algumas dicas para quem vier cá… visto que vão ficar na casa de Combs têm que contar com 50 euros para o passe e uma foto, mas depois dá para tudo durante uma semana. Recomendo mesmo que venham uma semana… menos não compensará. Já há sítio para beber chocolate quente, e comprar livros em segunda mão ao preço da chuva... ou talvez ainda mais barato. O tempo continua relativamente quente para a época do ano e sobretudo para a cidade. Já me perco menos e vejo já a cidade de cima. Não que me perdesse mesmo, simplesmente não fazia os caminhos directos e tinha medo de fazer corta-mato. Paris parece-me bem giro do que nas outras vindas, sobretudo os homens e mulheres que estão sempre muito arranjados e com uma pinta. Quase como Lisboa. Claro que no RER para casa a situação volta ao normal. ;) Amanhã vou a uma manif contra o governo da Birmânia, e depois à noite há a "noite branca". E não da branca. Terça-Feira devo receber os cheques do banco e devo poder ir logo comprar a net. Eu explico... os cheques têm a morada e através dela posso fazer os contratos com a empresa de internet. Vai ser uma móvel, que só funciona das 18h às 0h00 e todo o fds... mas não permite download de programas tipo e-mule. 30 euros. É o melhor que se arranja facilmente, acreditem. Mas estou-me a cagar já só quero internet para poder falar com Portugal. Sobretudo agora que a minha mãe se for e ficar mesmo sozinho. Aproveitem bem estes primeiros dias do diário de bordo porque como imaginam mais tarde ou mais cedo este tornar-se-á mais espaçado. Sobretudo se não receber respostas. E eu que até estou a enviar e-mails personalizados.
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Acordar cedo e ir directamente para Paris. Um último almoço com a mãe e adeus “cordão umbilical” (titulo de um livro que a Ana ofereceu à minha mãe enquanto agradecimento pelo apoio nos últimos dias. Depois manifestação pela Birmânia em frente à embaixada da China. Esperava mais gente. Deviam estar só umas 200 pessoas. Muito pouco, mas também estavam a decorrer mais duas manifs… cidade grande tem destas coisas. De volta para o Hotel de Ville, mas não a tempo do primeiro jogo dos quartos de final de rugby. Ah, e Paris ao sábado à tarde não é aconselhável de carro, nem de bus, não mesmo. Um copo aqui e outro ali. Depois jogo da França, grande vitória e uma alegria aqui… o caos. Quanto à noite branca. Desilusão. Eram só algumas instalações de luz e os museus aberto até um pouco mais tarde… 22h… não era grande a diferença. A própria organização admite que desta vez perdeu para o rugby.
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Acordar cedo (gosto mesmo de referir este pormenor!), lavar a loiça. E allez aos vizinhos portugueses da Julieta. Uma ex-femme de menage; um ex-camionista; e 3 filhos. Tudo gente simpática, do Norte (Minho e Trás-os-Montes) e os putos (Thierry 21, Kevin 17, Antoine 10) muito simpáticos e sobretudo amantes de futebol. Muito tugas, mas com problema... portistas. Almocei, vi o rugby, e voltei para casa enquanto eles iam ao magazin. Fiquei na passar umas camisas, a ouvir o relato da bola na rádio alpha, e beber umas cervejas suber bock. O que se arranja aqui. Depois regresso para o jogo do Benfica no satélite. E Nuno Golos. Surpresa. Ou então como uma pessoa diz… avançado do Benfica habilita-se a marcar golos. Mas o melhor estava para vir. Convite para ir ver o Porto a casa de um amigo deles. Fui. Futebol é futebol. Siga. Velho, 60 anos, do Porto, ou melhor de Espinho. Não se percebia nado do que dizia para lá de $%%&/ fodas $%%&/& caralho &)&%%&/%/&”# puta. Mas daqueles portistas ferrenhos. Só dizia que antes é que era… com o Pedroto e com o Gomes, nada de argentinos ou ciganos. Ui, os ciganos, gente má. Mas fui bem tratado, a verdade é essa. Com vinho do porto e lá da terra…
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Acordei mais tarde e Paris. Tentar ver casas para e com a Ana. Almoço num restaurante português perto do liceu dela, com super bock, só se encontra mesmo essa marca. Depois fomos passear para Montmartre. Má escolha. Perdemo-nos um pouco. Lá para as bandas da feira do relógio e da ladra lá do sitio. Bem feio. O paris que a minha mãe nunca mostrou, e do qual prefere não pensar. Só pobres, velhos, árabes, negros, crianças. Melhor o centro. Nos Halles, a minha primeira perdição. Football Manager. Para não ficar tão sozinho à noite. Reentre chez moi. E nem jantei. Mas o Benfica já primeiro no campeonato, quartos da Champions, quase como na vida real, quase. Só me falta o Di Maria e David Luiz porque é a edição do ano passado.
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Custou tanto a acordar. Só me deitei às 4h. Cheques na caixa. Porque banco é caixa. Comprei a internet em Saint-Germain – Odéon. E finalmente um homem muito simpático a atender. Era sul-americano, só podia. Porque franceses… Chá no Museu Mundo Árabe, muito calmo e descontraído. Um dos espaços mais agradáveis, sem duvida.

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