sexta-feira, novembro 02, 2007

Histórias da bola - Brasil 50

Na celebérrima final do Mundial de 1950... Alto e pára o jogo! Não houve final nenhuma em 1950. A Copa realizada no Brasil começou com quatro grupos e - pela primeira e última vez num Mundial - os vencedores dos quatro grupos fizeram um campeonato entre si (Suécia, Espanha, Uruguai e Brasil). Por acaso, o Brasil -Uruguai, último jogo desse grupo final, reunia as duas únicas equipas que podiam ganhar o título pois entraram em jogo sem perder (o Uruguai empatara com Espanha e ganhara à Suécia e o Brasil arrasara os adversários: 7-1 aos suecos e 6-1 aos espanhóis). O Brasil-Uruguai tanto não era uma final que se os brasileiros tivesse empatado o jogo seriam campeões.

O Mundial de 1950 foi o primeiro depois da II Guerra Mundial. Berlim ficara encarregada do Mundial de 1942, que nunca aconteceria porque ela preferiu organizar outros combates. Por isso, em 1950, a Alemanha ainda estava castigada pela comunidade internacional e não foi convidada. Foram ao Brasil 12 selecções e outras, embora apuradas, recusaram ir. As quatro federações da Grã-Bretanha tiveram direito a dois lugares, escolhidos entre os finalistas do campeonato interno do Reino Unido. Seriam Inglaterra e Escócia, mas esta avisara que se não ganhasse aquela final não se sentiria digna de ir ao Brasil. Perdeu e cumpriu a palavra. Só foi a Inglaterra, um acontecimento: a pátria do futebol, pela primeira vez esteve num Mundial. Para substituir a Escócia, a FIFA convidou Portugal, que recusou, talvez por razões financeiras (só em 1966, Portugal participaria numa fase final). Outra recusa foi a de França. Esta não estava apurada (a Jugoslávia ganhara o seu grupo) mas foi convidada porque, afinal, o Mundial fora inventado pelos franceses. Durante a guerra, o presidente da FIFA, Jules Rimet, dormira com a taça do Mundo debaixo da cama. Mas a França também não aceitou, por causa dos moldes do Mundial brasileiro, sem jogos eliminatórios. Outra ausência: a Argentina, como se ela adivinhasse que outros, por ela, haveriam de humilhar os eternos rivais brasileiros. A Índia foi apurada mas a sua equipa tinha o costume de jogar de pés nus e a FIFA não aceitou isso. A campeã em título (vencedora do Mundial de 1938), a Itália, participou. No ano anterior, a equipa do Torino, que tinha oito jogadores da selecção, morrera toda num acidente áereo, em Superga, no regresso de um jogo amigável com o Benfica. A nova selecção recusou ir para o Brasil de avião e a longa travessia de barco (18 dias, com treinos no convés) fez de Itália uma equipa fraca. Enfim, o Mundial de 1950 começou a 24 de Junho. No dia seguinte, começou a Guerra da Coreia.

O primeiro jogo, Brasil-México, 4-0, foi uma facilidade que iria embalar ilusoriamente os brasileiros. Mas o essencial foi o lugar: inaugurou-se o Maracanã, uma lenda. E um lugar de tragédia colectiva mas isso ainda os brasileiros não sabiam. Só viam a imponência do maior estádio do Mundo, para 200 mil espectadores. Acabadinho de construir, ainda com andaimes: quando foram dadas as salvas saudando a inauguração, naquele jogo com o México, uma nuvem de pó de cimento encheu as bancadas. O Maracanã era o símbolo da importância que o país - ainda iludido pelo título que Stefan Zweig lhe emprestara, Brasil, País do Futuro - dava àquele Mundial. O treinador Flávio Costa (que viria a trabalhar no FC Porto) acabara com o deixa-andar costumeiro e fechou a selecção ao mundo: quatro meses antes, os jogadores deixaram de ver as mulheres. Até o programa dos jogos foi cuidado. Enquanto o Brasil faria todos os jogos na, então, capital (com uma excepção, em São Paulo), as outras equipas eram obrigadas a viajar milhares de quilómetros, entre Recife, Porto Alegre ou Belo Horizonte. Começaram a aparecer surpresas. Uma delas, das maiores da história de todos os Mundiais: a Inglaterra perdeu com os Estados Unidos. Para saber do que estamos a falar: o futebol, perdão, o soccer, era tão importante para os States que aquele jogo foi visto por um único jornalista americano, Dent McSkimming, do St. Louis Post Despatch, por acaso de férias no Brasil. Voltando ao Maracanã: o brasileiro Ademir marcou o primeiro golo dos nove que faria no torneio - nunca mais um brasileiro marcaria tantos num Mundial. Mas isso não é muito recordado porque 1950, brasileiramente falando, é para esquecer. A glória de Ademir pode não ter tido futuro, mas teve um presente extraordinário. Acabara ele de marcar esse primeiro golo e foi cercado, em pleno relvado, por dezenas de repórteres da rádio e dos jornais, ansiosos pelas primeiras palavras do goleador. Em Belo Horizonte, o Jugoslávia-Suíça começou 20 minutos atrasado porque as bandeirinhas de canto desapareceram. Indício de desorganização mas motivo de glória: foi o primeiro desafio de um Mundial a ser feito sob projectores eléctricos.

O Mundial de 50 foi um sucesso de assistência. Foi o primeiro acontecimento desportivo a ser visto por mais de um milhão de espectadores (ao vivo, não houve transmissão televisiva). E foi pena, porque houve momentos que outras partes do mundo teriam gostade de assistir em directo. A Inglaterra, além da honra que dera aos Estados Unidos, também se deixou derrotar por Espanha (0-1). O golo mais importante da nuestra história, anunciou um radialista para Espanha. A de Franco, que se sentiu vingada contra as democracias. O presidente da Federação Espanhola de Futebol gritou da tribuna do Maracanã, criando conflito diplomático: "Ganhámos à pérfida Albion". Entretanto, a Itália perdia para a Suécia a possibilidade de prosseguir. A equipa regressa a casa mais cedo e, dessa vez, deixa-se de maus augúrios e volta de avião.

Mas o Mundial de 50 é marcado por um dia, o tal que não é final mas foi o fim de uma enorme esperança. Aliás, esse dia, 16 de Julho, começou antes. Na véspera, o jornal O Mundo fez a primeira página com a foto da selecção brasileira e a manchete: "Estes são os campeões do mundo!" Nesse dia, no hotel, os uruguaios, quando iam à casa de banho, levavam esse jornal e regressavam sem ele. Nessa véspera, ainda, cada um desses jogadores recebeu um relógio de ouro, coma inscrição: "Campeão do Mundo". No dia do jogo, era época de eleições, os candidatos presidenciais interromperam o almoço da equipa para fazer discursos aos "campeões do mundo". No estádio - 205 mil espectadores, o recorde de sempre de um jogo de futebol -, antes do jogo, o governador do estado da Guanabara fez um discurso público, saudando "os campeões do mundo", a equipa brasileira. Ao Brasil bastava um empate, mas o extremo brasileiro Friaça decidiu aumentar o optimismo: 1-0. Foi então que o capitão uruguaio, Odulio Varela, pegou o destino nas suas mãos. Já antes, no hotel, quando o seu embaixador pediuà equipa para perder com honra, ele juntou a equipa e disse: "Vamos falar como homens. Isto é para ganhar". Quando Friaça marcou o golo, Varela foi discutir com o fiscal de linha. O Maracanã, que estava doido de alegria, virou-se contra o impertinente. Varela, com a bola debaixo do braço, manteve a cena o tempo suficiente para mudar o ritmo do jogo. Schiaffino empatou. E Ghiggia virou o resultado: "Só eu, Sinatra e o Papa calámos o Maracanã", dirá ele, décadas depois. Quando o árbitro inglês apitou o final, os radialistas choravam. Ary Barroso, autor de "Aguarela do Brasil", jurou, e cumpriu, nunca mais relatar um jogo. Jules Rimet passeava a taça sem ter a quem a entregar. E, depois, o silêncio do Brasil inteiro cercando o Maracanã silencioso. O guarda-redes Barbosa foi crucificado. No Mundial de 94 (44 anos depois!), ele quis visitar o balneário da selecção brasileira e foi expulso pelo treinador Zagallo: "Você é pé-frio [dá azar]".

in Diário Notícias N, 2 Nov. 2007

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