quinta-feira, janeiro 31, 2008

Better Man


Waitin', watchin' the clock, it's four o'clock, it's got to stop Tell him, take no more, she practices her speech As he opens the door, she rolls over... Pretends to sleep as he looks her over She lies and says she's in love with him, can't find a better man... She dreams in color, she dreams in red, can't find a better man... Can't find a better man Can't find a better man Ohh... Talkin' to herself, there's no one else who needs to know... She tells herself, oh... Memories back when she was bold and strong And waiting for the world to come along... Swears she knew it, now she swears he's gone She lies and says she's in love with him, can't find a better man... She dreams in color, she dreams in red, can't find a better man... She lies and says she still loves him, can't find a better man... She dreams in color, she dreams in red, can't find a better man... Can't find a better man Can't find a better man Yeah... She loved him, yeah... she don't want to leave this way She feeds him, yeah... that's why she'll be back again Can't find a better man Can't find a better man Can't find a better man Can't find a better... man

Pearl Jam

onde está o importante?

Into the wild

O que têm em comum Sean Penn, Eddie Vedder, Jack London, Paul Auster, Tolstoi, Boris Pasternak?
Poucos filmes nos últimos anos me terão tocado como este. Onde tanta coisa pintada a semelhanças faz sentido e me pergunto se o que me faz falta e faz falta a outros faz falta? O que é faltar?
Estão lá as dúvidas da meninice, da adolescência, de adulto, de velhice, de morte e vida… e o que outros encontram pode não ser a resposta. Aliás não é a minha resposta. Mas, realmente nunca saberei, estou demasiado preso a este mundo que critico e questiono… Não me consigo desprender!
Se Jack London se tornou um Supertramp para melhor conhecer um outro mundo, se o Quinn de Auster morreu escrevendo a solidão até ao último momento, se há resistência em Guerra e Paz, se não há classes para o Dr. Jivago… o personagem de Alexander é um pouco de tudo mas tocado por um olhar que Sean Penn já pronunciara em tantas interpretações e outras tantas entrevistas.
Os pequenos detalhes, que aprendi a descodificar com a Susana, estão lá como na despedida entre Alexander e a hippie onde uma torneira mal fechada deixa cair as lágrimas que nos ficam atravessadas, ou os aviões que continuaram a passar até o completo desprendimento em relação ao Mundo e ao universo do seu pai.
Estão lá olhares. E Sean Penn filma olhares como poucos.
Estão interpretações pujantes como as de William Hurt, Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Catherine Keener, etc.
Está uma banda sonora de Eddie Vedder que já antes criara para Dead Man Walking uma OST sublime e torna agora algo ainda mais coerente e aproxima-se da perfeição ao tornar as músicas como um personagem secundário tão importante como as descrições da irmã.
Poucos filmes me terão dado tanta vontade de escrever tanto e tão depressa. Poucos filmes me secaram tanto a fonte… Não consigo escrever nada com nexo…
Se eu pudesse ter uma terra onde percorresse todos os recantos sem perder o que me torna eu mesmo…
Porque se eu pudesse ser a vida que outros conseguem e pudesse deambular onde outros sonham, sem ter medo de deixar o aqui… Porque se tudo pudesse ser como nos filmes e largasse as amarras do barco à beira rio…
Porque se eu deixasse tudo para trás e corresse em direcção ao wild não choraria em cada vitória que outros têm por mim…
E choro nas deles porque só assim rio nas minhas derrotas quotidianas e transformo-as em vitórias.
E penso nisso… e calo-me por uns momentos longos…
E gostaria mesmo de conseguir viajar assim… procurando desnorteado um rumo para tudo. Não consigo. Mas tenho este filme.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Felizmente o Messias apareceu e revelou que...

«Estamos a viver o princípio de um tsunami financeiro que arrasta milhões de pessoas no mundo inteiro por irresponsabilidade dos banqueiros e dos governantes» , declarou Francisco Louçã aos jornalistas, na Assembleia da República.
O dirigente e deputado do BE contestou a confiança manifestada pelo primeiro-ministro, José Sócrates, em relação à evolução da economia do país, contrapondo que «o jogo da crise financeira vai arrasar as economias, reduzindo o crescimento em Portugal e aumentando os riscos de desemprego e de pobreza».
Segundo Francisco Louçã, «desde 2001 que não havia uma crise financeira tão grave»«o colapso das bolsas levará empresas à falência, a menos exportações, a menos produção e a menos emprego». e
«O preço que os portugueses vão pagar vai ser uma catástrofe económica da qual só se safam os que têm poder» , sustentou, apontando o caso de «cinco administradores do BCP que saem com 70 milhões de euros».
Sublinhando não se ter enganado nos números, Francisco Louçã criticou que «cinco senhores possam desaparecer das suas responsabilidades levando 70 milhões de euros de indemnização», lamentando que «os que especulam, os que jogam são sempre os primeiros a resolver a sua situação».
Em relação ao futuro da economia portuguesa, Louçã recomendou a Sócrates que tenha «atenção à realidade», antevendo que «a crise nos Estados Unidos vai ter um efeito dominó numa crise na União Europeia» e que «Portugal, que tem um crescimento medíocre» pode perpetuar-se em recessão.
«Há aqui uma responsabilidade do Governo, que tem permitido a especulação, o livre curso desta aldrabice em que se transformou o sistema financeiro internacional» , disse, responsabilizando também a União Europeia e, de forma destacada, o governo norte-americano pela «espiral vertiginosa de especulação».
«As bolsas estão muito sobrevalorizadas» e «os governos que sempre alimentaram a mentira e os banqueiros que viveram da especulação são os primeiros responsáveis por esta crise», insistiu.
De acordo com Louçã, «a raiz desta crise na economia real é que os salários são muito baixos, há dinheiro a mais no sistema financeiro mas capacidade de compra real a menos» e «a pobreza das pessoas é que as deixa numa situação vulnerável».

Francisco Louçã in Sol 22 jan 2008

terça-feira, janeiro 22, 2008

Musée du quai Branly

esperam-se conversões em massa...

Paulo Teixeira Pinto saiu do BCP com dez milhões de euros e 35 mil euros por mês, 14 meses por ano, durante os anos que lhe restarem (e, só tendo 47, esperemos que sejam muitos). É bom saber que o banco não é só generoso para aqueles que lá estão. É também generoso - e muito - para aqueles que se vão embora. Estando até há pouco tempo o seu conselho de administração tão bem representado por membros do Opus Dei, toda esta generosidade é não só natural como biblicamente recomendada. Em verdade, em verdade vos digo: se me dessem tamanho pecúlio para não fazer nada até ao fim dos meus dias muito aumentaria a minha fé em Deus. Haverá ainda por lá alguém que me queira converter?

João Miguel Tavares, DN, 22 jan 08

sexta-feira, janeiro 18, 2008

O mundo de Menezes...

Revendo a tese dos seis ladrões que apresentei na Quadratura a propósito da teoria dos comentadores de Menezes. Seis ladrões assaltam um banco. Segundo Menezes a fórmula correcta para o assalto é a de três ladrões serem do PS, dois do PSD e o terceiro um híbrido, cabeça do PCP, corpo do PP, pernas e pés do BE. Dos três do PS, dois devem ser "ortodoxos" e o outro "segurista", "alegrista", ou seja heterodoxo. No PSD, um e meio devem ser "ortodoxos" e meio Marcelo Rebelo de Sousa. Dos pequenos não cuida, podem ser o que quiserem, policromados. Aplica-se à banca, ao pessoal municipal, aos pilotos da TAP, aos croupiers dos casinos, aos ajuntamentos na rua de seis pessoas. Sem esta fórmula correcta, revista de quatro em quatro anos, não há direito a existir.

Pacheco Pereira in Abrupto

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Saudades...




Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um

Eugénio de Andrade

Psicologia infantil

Deverá vir num manual básico de psicologia, daqueles que são oferecidos ao Domingo com o Correio da Manhã, o papel que um nome pode ter no crescimento de uma criança. Poucas escolhas da minha mãe, e talvez da minha avó, me terão afectado tanto como ter andando no infantário Patinho Feio.
As empregadas e educadoras até podiam ser bem simpáticas e prestáveis. Acredito mesmo que fossem. Os jogos que fazíamos a meio da tarde, fingindo sermos de uma ou de outra profissão podiam ser animados e darem importantes dicas na hora de escolha de um rumo profissional. E mesmo apesar da minha memória ser pouco mais que uns resíduos acabados de sair duma moderna incineradora sinto que poderia ter ali passado belos anos.
Todavia quando se é um pequeno rapaz de caracóis mal definidos, rosadinho, gorducho e com um sentido de humor mais avançado do que o das gaffes do Poupas o facto de se andar vestido com um bibe amarelo a dizer Patinho feio deixa marcas profundas. Acho até que havia uma votação para o Patinho feio do ano… Nunca saberei se escolhiam o mais feio, o mais bonito ou aquele que saltava pela janela para tentar voar.
Toda a situação encerrava ainda contornos mais bizarros quando se pensa que o infantário se encontrava no mais importante centro comercial da Amadora, o Babilónia. Apesar do seu nome imponente a verdade é que, após percorrer uma série infindável de lojas de brinquedos, pastelarias, lojas de roupas e ficar algum tempo a ver a minha avó a observar uma florista, subir num elevador escuro para um 4º ou 5º andar de um edifício bem no centro da Amadora não é bem uma subida ao paraíso…
Consigo, a custo, lembrar-me que tínhamos que dormir a sesta depois das belas histórias sobre príncipes e princesas em reinos distantes que as educadoras tanto prazer tinham em contar. Ou seja iludiam-nos com infindáveis castelos, jardins e paisagens idílicas e depois obrigavam-nos a adormecer rodeados por subúrbios, arrabaldes e arredores. Paradoxo?
A última vez que passei neste lugar mágico reparei que ele é agora um escritório de uma cura milagrosa de emagrecimento. Coerente, portanto. Continuam a contar às pessoas uma história mas a dar-lhes outra.

obs: este post quase com um carácter intimo entra para a história como o numero 200 do blog...

Diário de bordo (continuação)

5 I
Começou mal o regresso com uma espera extra em Madrid de mais uma hora e cinquenta… parti às 12h… cheguei a Paris às 19h… creio que será mesmo a última vez que não faço a viagem directa…
6 I
Fiquei por casa a preparar umas últimas coisas para esta primeira semana de aulas. E estive de volta de um grave problema no meu pc… que me fez suar muito… estava a ver que ficava sem pc…
7 I
Dia de regresso às aulas. Simpático. Todos os professores se cumprimentam e pode-se mesmo dizer que há um ambiente de festa… Os alunos disseram que estavam cheios de saudades e prontos a trabalhar… e assim foi… Correram muito bem as primeiras aulas. Depois ainda dei um passeio por Paris. Breve. Só para matar saudades.
8 I
Para hoje tinha duas aulas preparadas e embora me tenha enganado numa turma pensando que era outra e que estavam mais avançados… correu bem. Voltei a Combs e passei pelo Richard que almoçava no japonês. Um pitada de conversa entre sashimi e sushi… e buscar o correio… mais uma vez problemas com a net… desta vez são 81 euros…. Já nem tenho palavras… Meio abatido… preferi dormir durante a tarde…
Depois Prison Break e Cenas de uma vida conjugal… belo contraste… eheheheh. Talvez para relembrar o aniversário com a Susana festejado à distância…
9 I
Aulas em Corbeil. E Paris para comprar uns ténis ranhosos para jogar na quinta com os professores de Ed. Física.
10 I
Aniversário da Mamã… Consagração do filho. Depois das aulas de Brunoy e de ter vindo a casa almoçar fui para Corbeil para jogar com os professores. E… campeão de um torneio... ehehe… era um torneio de professores de outras escolas da região, estavam também lá alunos do bairro complicado aqui da zona e não gostaram nada de os seus professores perderem o que os levou a uma série de insultos de alto gabarito. Parece que só fui chamado para a final porque faltei a todos os outros não sabendo que era este torneio. Pensava que eram apenas jogos normais e nunca aparecia. Hoje fui e era A Final. Foi muito fixe. Eu na baliza, um cabo-verdiano que não fala francês mas é um grande jogador a defesa (ele que tinha feito todos os jogos na baliza porque não sabia dizer jogava a defesa, depois havia um professor (Ahmed) argelino que era bastante dotado tecnicamente, e dois franceses na frente. Mesmo nestes torneios parece a selecção francesa. Em relação ao jogo… 3-0, e até um penalti defendi (foi fácil... dei-lhe o lado esquerdo da baliza e o gajo foi na cantiga). Depois uma cerveja rápida e jantar em casa da Goretti.
11 I
Corbeil de manhã. Mais ou menos… faltei à primeira. Não consegui mesmo acordar. Depois Paris com o Dome e os seus cafés a 2,70. A Isabel e o André vieram cá visitar a Ana e assim aproveitamos todos para passear um pouco pelo Marais, Quartier Latin e St. Germain… o habitual.
12 I
Acordar tarde… e depois de almoço ir ter com o Mário, Ana, Isabel e André que passeavam por Montmartre… Encontrei-os no Trocadero para observarem a Torre Eiffel a iluminar-se… ou melhor a piscar. Parece que é um must… Mas claro que havia muitos estrangeiros e turistas que sabiam disto… incluindo um bibi (casaco vermelho essencial) que aproveitava a confusão para se encostar a mulheres… Bizarro… Depois eu e o Mário fomos ver um roubo na TV… não, não foi um thriller americano mas sim o Benfica-Leixões. Depois com um grande melão e uma raivinha imensa fomos ter com o resto do pessoal aos árabes.
13 I
Acordar cedo ou cedo erguer deve algo… Almoço e Paris… passeio pela zona de Bercy (cinemateca e biblioteca nacional). Depois despedimo-nos da Isabel e do André e demos mais um pequeno passeio pelos sítios do costume.
14 I
Aula em Brunoy… e os alunos não apareceram… Segui para Corbeil e aulas… mas estas com alunos.
15 I
Aulas em Brunoy. Tarde em casa para fazer uma máquina e passar o aspirador. Ah… e modo House MD all night long
16 I
Primeira aula da manhã e os alunos pareciam muito distantes. Estavam preocupados com o teste de Civismo... na boa… deixei-os ficar a estudar. Furo e tempo para downloads… nova aula e alunos não apareceram… estavam no apoio… parece que tiveram todos negativa no teste de francês… decidi não dar a terceira hora que era com uma parte dessa turma para não haver confusão. Segui para Paris embora não tivesse contado com isso de manhã… mas tem havido uns dias mais cinzentos e onde parece custar mais sorrir. Fui ter com o Mário e fomos para o 11º onde se encontram vários cafés-livraria simpáticos. Depois uma salada para jantar (o Natal em Portugal deu cabo da balança francesa).
17 I
Pela terceira vez esta semana, em Brunoy, os alunos não apareceram. Voltei a casa para almoçar e segui para o futebol. Desta vez era apenas um jogo com professores e alunos. E correu mal… tinha um deficiente na equipa porque a assistente de psicologia convenceu os professores de ed. Física quer era cool para a integração dos alunos. Treta! Só foi pior a ser sempre massacrado pela porcaria que fazia em campo… Regresso a casa em mais um festival de comboios fora de horas e anulações.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Se o capitalismo popular não é isto, onde está o capitalismo popular?

Admirou-me a cabazada: 98 a 2! Um resultado que só acontece de millennium em millennium. Eu e todos os taxistas estávamos convencidos de que a coisa seria renhida. O último com quem falei até me fez calar quando entrei no táxi. Apontou-me a rádio sintonizada na TSF: "Estão a dar o resultado. " Fiquei, não o escondo, orgulhoso por pertencer ao único país do mundo - com excepção, talvez, do paraíso fiscal das ilhas Caimão - onde o povo segue com interesse os jogos de cadeiras nos conselhos de administração. Se o capitalismo popular não é isto, onde está o capitalismo popular? Mas, repito, desiludiu-me o final: 98 a 2 não é resultado que se apresente. O treinador de bancada da equipa perdedora, aquele senhor de Gaia, mais valia estar calado. E o treinador principal, o mister Cadilhe - especialista de números, aposta em 51% e leva só 2 para casa -, esse, teve a chicotada psicológica merecida. Não devia estar sentado no banquinho quanto mais no maior dos bancos.

Ferreira Fernandes, DN, 16 I 2008

terça-feira, janeiro 15, 2008

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Travessias

O artigo de Mario Crespo no JN de hoje toca num assunto fundamental que tem sido esquecido pelos diversos comentadores pro-Alcochete...

A máscara privada do monstro público



Estamos em vias de nos endividarmos mais do que nunca com a construção de um novo aeroporto. A primeira derrapagem nos custos é anunciada num suposto direito a indemnizações que a Lusoponte julga ter quando houver outra ponte sobre o Tejo. Alega-se um "exclusivo" das travessias entre Vila Franca e o mar negociado pelo Engenheiro Ferreira do Amaral quando era Ministro de Cavaco Silva. O mesmo Ferreira do Amaral (ontem concedente hoje concessionário) que agora como Presidente da Lusoponte reivindica compensações financeiras em nome de um absurdo ponto contratual por ele aprovado. Se a Lusoponte tem direitos leoninos sobre um nó vital das comunicações nacionais, não os pode ter. O governo Sócrates tem tido o mérito de nos surpreender pela frontalidade. Se erra diz que errou e volta atrás. Isto é raro nos que nos governaram sem erros e sem dúvidas. Por isso talvez seja altura de parar com este baile de máscaras que tem sido a criação de híbridos que se comportam como se fossem entidades privadas e não o são. A Lusoponte não é mais do que capitais públicos, empréstimos avalisados pelo estado Português, dívidas e pequeníssimos pacotes de capital de especuladores privados que investiram em busca do lucro garantido da exploração das duas grandes pontes. Por poucos que fossem estes financeiros, eram importantes para afinar a mascara de economia de mercado enquanto atrás dela o monstro crescia. Para atrair esses bravos empreendedores, o Estado na versão social-democrata de Cavaco Silva decidiu eliminar o risco do investimento garantindo-lhes um monopólio. E foi assim que pontes construídas com o esforço financeiro do estado português ligando parcelas de território nacional foram alienadas a uma suposta entidade privada cujo património são duas das mais valiosas infra-estruturas de Portugal Uma ponte já inteiramente paga, assente num modelo financeiro duro mas impiedosamente fiscalizador e frontal (daí talvez o seu primeiro nome) e a outra uma maravilha arquitectónica do britânico Lhi construída com dinheiros europeus, empréstimos europeus com o Estado português como fiador e as tais participações irrisórias de "investimento privado" onde pondera, como sempre, a Caixa Geral de Depósitos. Portanto a quase totalidade do capital é dinheiro vindo daqueles 50 por cento da riqueza nacional que o Estado Português actualmente suga a quem trabalha e prodigamente distribui em indemnizações por bravíssimos investidores nacionais e estrangeiros que nada arriscam em monopólios estatalmente garantidos. Depois arranjam-se nomes para dar um ar mercantiloide ao puro e simples gasto que mais tarde ou mais cedo vai ser dívida pública a subtrair ao produto interno bruto. Na ponte Vasco da Gama o termo-chave era que a construção ia ser financiada em BOT (build, operate transfer) sugerindo que havia um diálogo do governo com uma entidade privada autónoma que não passa de mera ficção. Há cinco anos a Lusoponte esteve sob a atenção do Tribunal de Contas que auditou o acordo com o Estado. As conclusões foram arrasadoras. O relatório atestava uma degradação de "boas práticas" a tal ponto que um dos Juízes, o Conselheiro Ernesto Cunha fez uma declaração de voto onde concluía que havia indícios inequívocos de "desequilíbrio financeiro a favor da concessionária Lusoponte" que se traduziam num "prejuízo global para o erário público". Na sua conclusão o Juiz Ernesto Cunha admoestava com firmeza os governantes que tinham negociado tal acordo - considerando-os "passíveis de juízo público de censura". Estamos numa altura excelente para o fazer, acabando de vez com os ruinosos negócios com a Lusoponte dos governos de Cavaco Silva e António Guterres.

Mario Crespo, JN, 14 I 08

the waiting at the bus-stop

The seeing of a taxi.
The thinking: not yet. I've only just got here.
The noticing someone else arrive.
The sizing up of him/her.
The pretending I'm not looking at him/her.
The not pretending I'm not looking at him/her.
The looking past him/her into the distance as if to see if bus
is coming.
The really looking into the distance.
The thinking: is that the bus?
The continuing to look until it comes closer.
The seeing that it is not a bus, but a large truck.
The thinking: shall I take a taxi after all?
The thinking: I might as well have taken the first taxi. I've waited
all this time for nothing if I take a taxi now.
The noticing two other people arrive at the bus-stop.
The seeing that these two are not yet impatient.
The thinking: they're thinking it will be here soon.
The guessing what these two do together.
The sizing up of them unobtrusively.
The feeling surprised at the first waiting person, who doesn't look at the new two
at all. Is not curious. Is only waiting.
The thinking: what if we take a taxi with the four of us.
The wondering where the others are going.
The getting cold.
The seeing of many buses going in the opposite direction.
The thinking: where are they all, they must come back this way eventually.
The imagining of the terminus, the turning.
The thinking: if I take a taxi it's expensive and I've wasted all that time now anyway.
The remembering of the same thought from yesterday.
The remembering remembering the same thought yesterday.
The deciding: I'm just going to take a taxi.
The waiting for a taxi.
The seeing full taxis passing by.
The thinking: tomorrow I'll take the first empty taxi straight away.
The remembering of the same thought from yesterday.
The thinking that it can't be much longer now before the bus comes.
The imagining of an enormous traffic jam in the distance.
The contemplating walking.
The imagining how the bus will drive past before I have reached the next stop.
The thinking that walking warms one up.
The forbidding oneself to look to see if bus is coming.
The counting of cars.
The forbidding oneself to look to see if bus is coming until at least a hundred cars have gone past.
The seeing of many empty taxis among the cars.
The thinking that it makes no sense to take a taxi now.
The thinking that now it is actually high time to take a taxi.
The considering to write this down one day.
The wondering if other people also think like this.
The wondering what the objective right moment is to take a taxi: immediately, after waiting a short time or after waiting a long time.
The remembering of parents who never took a taxi.
The trying to remember special occasions when parents did take a taxi.
The noticing how crowded it has become at the bus-stop.
The thinking: at a full bus-stop - wait, at an empty bus-stop - take a taxi.
The realising how much it would cost
to take a taxi every day.
The calculating that this would be less expensive
than owning a car.
The imagining how it would be to have a flat tyre
on a deserted autostrada in howling wind and pouring rain.
The realising that the cars are driving past without being counted.
The realising that after thirty or forty the mind has wandered.
The estimating that it was more like two hundred.
The seeing on the watch that only six minutes have passed.
The being thankful that it is not raining.
The drinking of a cup of tea in the imagination.
The wondering if there are also any biscuits in the house.
The fright at realising that the key -
The discovering of the key in the other pocket.
The imagining how far six minutes walking -
The deciding that it stinks.
The thinking of the many murders of taxi drivers.
The imagining of a blood-smeared empty taxi.
The wondering if other people think of murder so often.
The thinking not.
The not knowing why not.
The wondering if other people also often wonder
what other people are wondering.
The wondering if other people ever wonder
what I wonder.
The not noticing that the bus has come.

Judith Herzberg (n.1934)

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Auto-retrato


É por detrás do espelho que me vejo,
Numa espécie de quadro em negativo.
Sinais fundos e certos de que vivo,
Mas sem a nitidez que todos me atribuem
Desde o começo.
Baça inquietação, ambígua semelhança
Com aquele velho, jovem, criança
Que pareço.

Miguel Torga in Penas do Purgatório, Coimbra, 1976

Criticando em Portugal

O professor António Costa Pinto comentava num dos seminários do mestrado de RI que um dos maiores recalcamentos e das mais pesadas heranças do fascismo e da ditadura em Portugal encontrava-se na reacção portuguesa à critica.

Poucos terão tão pouca capacidade de encaixe como os portugueses. Tal complica bastante o trabalho de críticos de arte, cinema, literatura, analistas políticos ou meros historiadores que relatam apenas uma versão de um acontecimento.

A critica gera por norma uma reacção violenta e um ataque em grande parte dos casos individualizado e de carácter pessoal. Se um critico literário comentar que x autor é fraco, ou mesmo que a sua mais recente obra é parca em x ou y atributos, a resposta incidirá sempre sobre o critico nunca ter escrito ou produzido nada e ser apenas um "bota-abaixo".

Ressalva, claro, que existe também uma significativa quantidade de críticos em Portugal cujo único trabalho é realmente menosprezar ou diminuir o trabalho de outros. Referir Vasco Pulido Valente como paradigma dessa escola parece sempre demasiado fácil, mas é realmente um exemplo da critica constantemente destrutiva.

A conclusão fundamental é que esta dificuldade em receber a critica de outros, em analisa-la e contrapo-la com factos e não com julgamentos de valor parece ser uma realidade que ainda demorará muito a mudar neste país de brandos costumes...

Obamania?

Tristes dos que acham que a esquerda europeia só vê estas eleições americanas como a escolha do próximo presidente a odiar.

Se realmente o espectro político nos EUA não é muito amplo, nem se denotam grandes diferenças entre republicanos e democratas, mas é verdade que existe um potencial eixo entre democratas e a esquerda moderada europeia ( relembre-se que os americanos são habitues nos congressos da Internacional Socialista).

Atendendo a este contexto parece evidente que o resultado das eleições pode em muito alterar ou pelo menos afectar o futuro a médio-longo prazo. Se há um ano podia-se imaginar um mundo com Merkel, Segoléne, e quiçá Clinton (mrs.)... um mundo no feminino. Hoje parece evidente que podemos estar perante um quadro politico igualmente inovador. A vitória de um negro (qualquer que seja o tom desse africanidade) pode ter um significado simbólico, mas sobretudo politico ímpar. Sobretudo se conseguir derrotar o emergente mito do poder de evangelistas ou mormons nos resultados eleitorais americanos.

A vitória final de Obama poderá ser uma vitória real, e não uma moral daquelas que vemos todos os dias no sargento, no chefe de policia ou juiz negro. Poderá ser uma vitória real da terra das oportunidades.

Pode-se claro discutir que Obama não é tão engajado politicamente com a esquerda como outros lideres no passado, mas a verdade é que Clinton ainda o é mesmo e poderá mesmo estar refém de alguns lobbys.

Nesta primeira década do século XXI que se aproxima rapidamente do fim, a falta de referências políticas é preocupante e poderá levar cada vez mais franjas da sociedade para o descrédito na classe política e para a abstenção. Obama ao contrário de Hillary tem a vantagem de ser uma nova geração política algo que tem um poder imenso numa imagem de renovação que é necessária.

Obama pode não ser a salvação, mas é uma ajuda significativa.

NESTUM



08/01/08

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Para um amigo

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

ANTÓNIO RAMOS ROSA in Não posso Adiar o Coração

Priceless

Em 2009 vai sair um filme sobre Edgar Allan Poe...
com Viggo Mortensen como E.A. Poe... bizarro?
Ainda melhora mais...
o realizador? Sylvester Stallone.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Comunidade

(...) Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, rne penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção e a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas). A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho. Nem eu me atrevia a falar-vos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista. (...)

Luiz Pacheco (1925-2008) in Comunidade, Contraponto, 1964

2008

Entrámos em 2008! E o blog entrou ontem no seu 3º ano. Entretanto teve direito a mais uma breve pausa enquanto eu apreciava o bom tempo (15º), boas comidas (churrascos e afins) e boas companhias (Susana & Amigos) em Portugal.
Agora que estou de volta a Paris, ao seu frio e à suas gente, volto a ter tempo e vontade para me dar um pouco a estas vidas…
Começou mal o regresso com uma espera extra em Madrid de mais uma hora e cinquenta… parti às 12h… cheguei a Paris às 19h… creio que será mesmo a última vez que não faço a viagem directa…
No domingo fiquei por casa a preparar umas últimas coisas para esta primeira semana de aulas. E estive de volta de um grave problema no meu pc… que me fez suar muito… estava a ver que ficava sem pc…
Segunda, dia de regresso às aulas. Simpático. Todos os professores se cumprimentam e pode-se mesmo dizer que há um ambiente de festa… Os alunos disseram que estavam cheios de saudades e prontos a trabalhar… e assim foi… Correram muito bem as primeiras aulas. Depois ainda dei um passeio por Paris. Breve. Só para matar saudades.
Para hoje tinha duas aulas preparadas e embora me tenha enganado numa turma pensando que era outra e que estavam mais avançados… correu bem. Voltei a Combs e passei pelo Richard que almoçava no japonês. Um pitada de conversa entre sashimi e sushi… e buscar o correio… mais uma vez problemas com a net… desta vez são 81 euros…. Já nem tenho palavras… Meio abatido… preferi dormir durante a tarde…
Este regresso está a custar mais … mais do que a partida desta vez é a chegada a este pais que não me diz assim tanto que custa… talvez quando regressar o pessoal ajude um pouco…