segunda-feira, fevereiro 04, 2008

dormências...

Sabes, é que a… a dormência parecia total.
Tornara-se perene, permanente, incessante e ininterrupta. Era já uma parte de mim, era já o nado-vivo indesejado. E parecia asfixiar-me em cada lufada de ar.
E eu que sem saber de onde ela viera, que rua tomara essa manhã, que caminhos trilhara, que passos dera ela até se alojar no meu corpo moribundo, fazia apenas contas ao mapa que estava de pernas p’ro ar.
E relembro cada segundo. Passado. E retomo a cada momento a angústia de não me sentir como antes. Sou um desconforto. Completo.
E a chuva que continua a cair.
Cada vez mais forte.
E o vento que já rasga os toldos das lojas.
As protecções.
As roupas.
E o frio. Que magoa quem não traz um xaile de mão…
Já nem o sinto.
Está dormente.
Preciso de um vocativo. Alguém para clamar, a quem reclamar, uma pessoa p’ra me declamar. Preciso de acusações, acusados e júris fingidos. Preciso das respostas destas mesmas dormências…
E por isso ontem deitei-me cedo. E por isso encharquei-me em medicamentos…
Enganei-me nas contas. Faltaram uns quantos. Nem dormente fiquei, como me prometiam. É que há sempre contra-indicações! Mas não para mim. Agora que sou o dormente não sinto a diferença. Já nem o sei definir.
Tenho agora uma pedra na mão. Sinto-a. Imóvel. E sinto-a às vagas. Aos tremores de quem se esquece que ainda cá está.
E continuo cada vez mais dormente. E acho que o ar desta vez já não passa na garganta. Sufocada pelas gravatas que vocês me foram vestindo em cada manhã de trabalho.
O nó está feito. Nos conformes. Sinto-o a ir e vir. Dormente. Abro a boca, as palavras não saem, é tudo seco. A dormência aumenta. Passou de estado latente a estado final.
E agora ao grande final.
Acho que desta vez não me enganei nas contas.
Podes baixar o pano, tento murmurar-te.

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