domingo, fevereiro 10, 2008

Untitled

O que faço aqui?
Como terei chegado a este estado?
Estranho, tudo isto. Parece que os lugares em volta são familiares. Mas talvez não o sejam. No fundo tudo é semelhante, parecido, similar e, no entanto, nunca o é.
Estou sobre um velho banco que range queixando-se das nossas dores e mesmo a mesa que imóvel fica ali a um canto encostada às cortinas de flores murchas sorri resignada com o passar do tempo.
A sala está quente, abafada, asfixiante. Mas não transpiro. Não devo estar aqui há muito tempo. Acho.
Olho em volta como que procurando tornar meu hábito o que olho em volta.
Olho em volta e vejo tudo desarrumado como nos dias em que saio a correr com algo para urgente para fazer. Mas tenho a certeza que esta não é a minha desarrumação. A minha segue uma pura organização de abandono controlado. Como se eu dominasse um novo caos do Universo. Porque todos os espaços são o meu espaço universal em cada manhã.
Olho em volta e já começa a parecer o meu espaço. Já olhei duas e três vezes e posso já garantir que se fosse eu deixaria aqueles livros russos a um canto. Ao canto direito. Só esse faria sentido. Pudera, era o meu espaço.
O calor aumentara. Se calhar deixara o aquecimento ligado. É frequente. Acho. Se calhar já não tenho radiador, porque quando mudei de casa deixei muita coisa pelo caminho. Mas está mesmo calor. Acho. Pelo menos já tenho umas gotas de suor na camisa azul.
Curioso. Não me lembro desta camisa. Tinha uma com riscas, lembro-me bem. Mas não uma azul. Ou se calhar é mais velha e já não me lembro. Acontece muitas vezes. A toda a gente.
Agora já reconheço perfeitamente a sala. É muito simpática. Gostava que fosse a minha sala. Mas acho mesmo que não é. É pena.
Mas também não faria sentido prender-me com cordas a uma velha cadeira na minha própria sala enquanto o calor aumenta e não tenho forma de abrir o terceiro botão da camisa que tenho a certeza que não é minha.

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