segunda-feira, março 17, 2008

De um fim de dia...

Chegou a casa. Exausta. Como hábito atirou o casaco para ali, deixou a mala aqui, os ténis tombaram e as pernas esticaram-se por entre almofadas cremes.

Apalpou a mesa, de tabaco e pacotes, em busca do comando perdido. Nada. Talvez perdido no chão entre os pêlos do gato e o tapete de pêlo.

Um comando. Play. O da aparelhagem, paciência. Um, dois, três cds. Entre voz e guitarra; voz guitarra, baixo, bateria; ou violoncelo. Ficou pelo último. Fazia lembrar aquele concerto na Igreja Matriz onde a Sarah tocara pela última vez antes de abandonar a música como deixara o marido uma semana antes. Ela era assim... impetuosa.

Encostou-se e afundou-se entre acordes de Bach e um sofá a descair para as pontas. Pensou no que o dia lhe trouxera de novo. Nada. Como sempre. Um redondo nada. Como o não.

Doía-lhe ligeiramente a cabeça mas não lhe apetecia levantar para procurar algo para tomar. Algo que estaria sempre entre os papeis de carta, os papeis de embrulho, os papeis dos recibos, os papeis de ontem.

Assim deixou-se ficar. A música ia ficando mais forte, mais intensa, o violoncelo acelerava e parecia que lhe trouxera uma ansiedade que lhe apertava o peito e turvava a vista. Parou o cd. Deixou-se invadir por um silêncio inebriante enquanto uma luz de pôr-de-sol no rio lhe enchia o quarto, dourava a face e a adormecia de mansinho.

Umas obras ao fundo, uma criança que grita, uma novela aos berros, um concurso de gente burra na tv do lado e o silêncio fora copiosamente invadido por sons inúmeros.

Ligou a música. Desligou a música. O violoncelo...

Mudou um cd. Algo mais calmo. Uma voz e uma guitarra. Uma voz triste, uma canção abandonada. Desligou a música. Ligou a música. Voz, guitarra, baixo, bateria. Muitos sons, muita confusão. Desligou a música. Os miúdos da vizinha, da novela, da criança, das obras... o silêncio?

Esticou-se até ao telefone, puxou-o para perto e discou o número que conhecia bem demais. Era esse silêncio sobre a forma de palavras que lhe faltava...

Do outro lado ele atendeu ao quarto toque...

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