domingo, abril 13, 2008

"António Lobo Antunes à Paris"

Na passada quinta-feira, 10 de Abril, o escritor António Lobo Antunes esteve em Paris a convite da Fundação Calouste Gulbenkian para dois encontros com os seus leitores, primeiramente na Sorbonne e à tarde no centro cultural da fundação.

O painel da tarde incluía Maria Alzira Seixo, Graça Abreu, Sérgio de Sousa e Paula Morão como críticos e comentadores da obra de Lobo Antunes, ainda antes da sua intervenção. Mas o que se seguiu foi mais um dos vários momentos que habitualmente marcam os colóquios e conferências aquando da presença de investigadores ou professores portugueses: o total desrespeito por horários.
O encontro até começou com o académico quarto de hora de atraso mas o que se seguiu é que foi vergonhoso... O horário previa pequenas intervenções de 10 a 15 minutos de forma a Lobo Antunes ter direito a mais tempo, mas só Sérgio de Sousa cumpriu o horário.


A intervenção de Maria Alzira Seixo focou essencialmente três eixos:
- as Ideias em Lobo Antunes e de que forma se reflecte na sua escrita as divergências entre o conflito drámatico de ideias (T. Mann), as alegorias (Kafka) e o encadeamento de palavra (Perec).
- as Frases em Lobo Antunes e como as temáticas (relações frustradas, guerra colonial, infância, dificuldade de escrita) influenciam a própria forma da escrita. Citando R. Barthes na aula inaugural no Collège de France a lingua é fascista e Lobo Antunes é também refém dos seus limites e fronteiras.
- os Mitos em Lobo Antunes e como ele os reescreve. Romeu e Julieta, D. Juan, Narciso, Bateau ivre ou mesmo mitos contemporâneos como o divórcio ou o papel do centro comercial na actualidade. Como Lobo Antunes refere no Livro de Crónicas "não faço literatura mas sim mitologia".

A intervenção teve realmente qualidade mas prolongou-se por 45 minutos, tendo ainda direito à saída do embaixador português em França, António Monteiro, ao fim de meia hora por ter outros compromissos. Confesso as minhas maiores duvidas sobre quais poderão ser os compromissos mais importantes do que a presença de um dos mais importantes escritores vivos de língua portuguesa.

Graça Abreu propunha na sua intervenção focar o papel dos objectos enquanto personagens nas crónicas de Lobo Antunes. A sua intervenção até começou bem ao referir que os objectos na sua obra são aglomerações simbólicas do quotidiano. Mas, a partir dai deu lugar a longos 30 minutos de enumeração da recolha de diferentes coisas e objectos (rato mickey, urso de peluche, símbolos religiosos, etc). Em suma, esta professora da Universidade de Lisboa com a sua dissertação inútil perdeu uma interessante possibilidade de analisar o papel das não-coisas para fazer uma mera catalogação.

Após 5 minutos de elogios de Alzira Seixo a Graça Abreu e ao livro que ambas vão publicar seguiu-se Sérgio de Sousa que arrancou palmas da audiência praticamente em estado letárgico ao afirmar que iria ser rápido porque estávamos ali para ouvir o Lobo Antunes.

Sérgio de Sousa apresentou uma análise das crónicas baseada em 4 pontos fundamentais:
- Lobo Antunes é apenas a mão que escreve as ideias. Mais, a sua inspiração é lenta, as palavras saem devagar e formam frases que são filhas do tempo e do esforço... dai que a sua leitura exija exactamente a mesma regra. Tempo e dedicação.
- Os não lugares são um aspecto fundamental na sua obra. Os passeios, os locais e espaços de acção são acima de tudo locais de afectos.
- A religiosidade metamorfoseada é outro aspecto transversal e de realce nas suas crónicas. Há sempre uma latente referência à tragicidade da morte de Jesus e ao duro fado dele resultante, mesmo e sobretudo quando nunca se o refere.
- A escrita de Lobo Antunes é correctamente incorrecta pois apesar dele trabalhar sobre a construção gramatical está não é o essencial. Se a inspiração, e voltando à imagem da mão e do monge copista que é Lobo Antunes em processo criativo, não há espaço para pensar em regras.

Tendo sido a melhor das comunicações e conseguindo referir e focar estes aspectos foi normal, além do respeito pelo tempo (13 minutos), que tenha sido a mais aplaudida, inclusive por Lobo Antunes.

Finalmente para terminar Paula Morão que se propunha dissertar sobre a "Deriva autobiográfica" em Lobo Antunes conseguiu ao longo de longos 27 minutos não defender nenhuma tese ou teoria e apenas ler excertos de diferentes obras. Mais do que isso apostou nas "traduções selvagens" para realçar a qualidade dos textos de Lobo Antunes. O encontro e as intervenções foram sempre em francês, naturalmente, mas os interessados mesmo que franceses seriam sempre leitores de português e não fazia qualquer sentido as tentativas recorrentes de traduzir excertos de obras.

Quando finalmente Lobo Antunes tomou a palavra era evidente o seu cansaço e mesmo algum desconforto por toda esta situação. Mas na meia hora que se seguiu houve tempo para apreciar o seu humor mordaz quando confrontado com a sua opinião sobre César Monteiro ("desconheço esse senhor"); traduções para francês ("uma editora francesa pagou logo 7 livros quando ainda nem os tinha escrito."); Deus ("há que ter pudor a falar sobre Ele"); crónicas ("quando o jornal me fez o convite o E. Lourenço ganhava 500 euros, a mim ofereceram 5000. Claro que aceitei.")

No final Lobo Antunes ainda teve disponibilidade e simpatia para autografar alguns livros e trocar palavras com o público no porto de honra que se seguiu.

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