quarta-feira, abril 23, 2008

CULTURA POPULAR - APROXIMAÇÕES TÉORICAS

“O que é Cultura?” e “O que é Popular?” são dúvidas fundamentais e aspectos basilares na discussão da História e das Sociedades. A diversidade de correntes historiográficas deve-se, em grande parte, à percepção diferenciada dos seus autores sobre estes conceitos.
Os anos 60 e 70 do século XX trouxeram novas formas de abordar a história, evitando a estagnação temática dos seus investigadores, e anulando uma certa apatia historiográfica resultado do enorme peso da história nas ciências sociais, que se tornara contraproducente.
Como Roger Chartier[1] afirma na sua obra, ocorreu neste período uma descoberta de novos temas e uma valorização das mentalidades. Partindo, por vezes, de pressupostos económicos Chartier propõem uma eficaz inter-relação das diversas ciências sociais, como a Sociologia na compreensão dos fenómenos históricos. Apesar da sua visão tender para a massificação e homogenização de grupos sociais heterogéneos, os seus estudos trouxeram um maior rigor cientifico à área em contraponto com o empirismo e bairrismo de certos contemporâneos.
O facto de Chartier versar uma homogeniedade dos grupos sociais é claramente refutado por Peter Burke[2] e Edward Thompson[3]. Ambos realçam, inversamente, a heterogeniedade da classe plebeia e a importância da relação entre populares e elites. Burke realça, aliás, a importância de comportamentos e fenómenos populares adversos à cultura oficial, e não à das elites. O Carnaval surge como paradigma da inversão e negação da cultura oficial num propósito destruturante da sociedade. Realce-se, contudo, a noção popular da brevidade temporal desta festa e das suas críticas, enquanto conservadorismo das mentalidades populares. A resposta das elites a este ligeiro ataque foi, contudo, sempre evidente e é notória na Reforma, que fortalece a cultura oficial.
Um dos momentos que Thompson foca como imagem do conservadorismo plebeu é a reacção negativa destes à revolução industrial e à abertura de novos mercados. A alteração da sociedades nos seus diversos campos foi enorme neste período, podendo-se considerar nesta fase o embrião das lutas de classes e do sentimento de classe. Contudo, a maior alteração sentida na classe popular ocorre com a “criação” de necessidades e expectativas destes nas relações sociais a partir deste período.
Se tentarmos fazer uma resenha dos historiadores da Cultura Popular dois nomes surgem logo de ínicio pela sua precocidade, Jacob Burkhardt e Johan Huizinga. O primeiro estudioso do Renascimento, o segundo da Idade Média. Contudo, os seus trabalhos são hoje alvo de crítica porque generalizavam acções, e cingiam-se à descrição de padrões culturais, numa espécie de puzzle de literatura, música e outras vertentes artísticas. O período temporal, a variação regional e os contrastes sociais eram esquecidos no estudo destes historiadores, dando por isso um retrato paupérrimo da real sociedade estudada.
No período entre guerras, uma série de modelos de estudo com diverentes enfoques foram propostos, destacando-se:
  1. Modelo marxista – com um primado da economia na acção humana
  2. História das mentalidades – onde o psicológico e a absorção de informação do índividuo tem especial importância na sua acção.
  3. História das ideias – primado de pré-concepções na acção humana
  4. Tradição
  5. Processo civilizacional – modelo próximo do funcionalismo, onde há uma acção natural de evolução da sociedade com fins funcionalistas.
Com o final da II Guerra Mundial, outros modelos tiveram origem:
  1. Descoberta da cultura popular – E. Thompson é, talvez, o expoente desta visão estruturalista, onde a cultura ultrapassa as atitudes directas do povo, e onde os métodos quantitativos servem de principal ferramenta no estudo de outros fenómenos paralelos. Este modelo caracteriza-se ainda por visão de baixo para cima da acção social.
  2. Descoberta da antropologia – A aproximação das diversas ciências sociais resultou igualmente numa apropriação de certos conceitos antropológicos, como o rito, o símbolo, a comunicação. Criaram-se assim normas culturais que facilitaram alguns estudos hiostoriográficos.
  3. Descoberta da linguagem – Para Burke a linguagem expressa em obras literárias facilita a compreensão de um período. A simbologia inerente á escrita é de mor importância. Chartier aborda igualmente a leitura, enquanto objecto de estudo. De acordo com o historiador francês a razão da leitura e de que forma afecta o indíviduo, são questões extraordinariemente pertinentes. M. Foucault considera, igualmente, que ler é apropriar os discursos de outros, o que valida a opção de estudos sobre este tema.
  4. Descoberta da política – Gramsci cria um conceito fulcral neste modelo historiográfico, a hegemonia cultural. O primado da política é claro, sobretudo na década de 60 onde surge a cultura politica. A contaminação da história é fácil, e é até compreensível este modelo. Vectores como linguagem, senso-comum, religião, foclore, trabalho, e status quo são considerados por Gramsci os pilares da consciencialização social dos índividuos o que se repercute na sua acção e na politização desta. Contudo, como Burke realça há ainda aspectos pouco claros como: Esta hegemonia cultural é transversal ou localizada? É um termo descritivo, ou explicativo? Será um modelo próximo do funcionalismo? Ocorrem manifestações de resposta? Estas questões são realmente lógicas e necessitam de resposta para legitimar este modelo.
Todos estes modelos diferentes de pensar a história cultural reflectem bem a evolução do estudo desta e as suas dificuldades. Torna-se impossivel fazer uma aproximação téorica à cultura popular, sem esquecer alguns conceitos e ideias fundamentais e de extraordinária discussão.
Para P. Burke conceitos como bi-cultural e convergência de culturas são fundamentais, na compreensão da intíma ligação entre elites e povo. A ascenção social inerente ao primeiro conceito, e a coexistência dos dois estratos sociais nas feiras parisienses do século XVIII, do segundo termo explicam grande parte da simbiose dos dois grupos.
William Christian ao defender uma cultura popular local desconstroi, também, a dicotomia elite-povo, optando pela substituição pela antítese centro-periferia, e pela valorização dos fenómenos culturais autónomos aos centros de poder.
O trabalho de E. Thompson segue, ligeiramente, o mesmo trilho ao ponderar a importância dos costumes e hábitos nas criações culturais. Perante o investimento das elites na literacia foi claro o fortelecimento da oralidade nas classes populares, afastadas que estavam da opção escrita de perpetuação da memória. Os séculos XVIII e XIX trouxeram, talvez como resultado dessa situação, a legalização de costumes e prácticas populares. Foi dado um enquadramento legal a hábitos com um próposito de solidificar as hierarquias sociais. Ao encontro desta opinião vai Peter Burke, ao apontar a importância dos artefactos e da sua simbologia na cultura enquanto fenómenos conservadores da própria classe plebeia. O símbolo existe apenas aquando duma consciencialização enquanto signo, e através duma linguagem e convenções partilhadas pelos interlocutores.
As teorias da Cultura Popular são um tema tão interessante e vasto quanto os seus próprios objectos de estudo. O que este trabalho procura confirmar é a importância de ambiguidade de certos conceitos como cultura, popular, ou costumes na diversidade de estudos e dos primados das historiografias. O futuro da história da Cultura Popular passa para Peter Burke por dois caminhos, ou a sua institucionalização enquanto micro-história, ou por um alargamento do simbólico na acção humana até à sua transformação em cultura.
Pessoalmente, acredito como António Machado referiu uma vez:
O caminho faz-se caminhando.
E que a diversidade de visões e de conceitos sobre os aspectos fundamentais da Cultura Popular tem ainda muitos estudos por concretizar, até ser possivel uma conclusão definitiva, ou não fosse uma ciência social, uma ciência não exacta.

Bibliografia

BURKE, Peter, Cultura Popular na Idade Média, Companhia de Letras, São Paulo, 1989
BURKE, Peter, O mundo como teatro, estudos de antropologia histórica, Lisboa, Difel, 1992
CHARTIER, Roger, A história cultural entre prácticas e representações, Lisboa, Difel, 1988
THOMPSON, E. P., Costumes em Comum, São Paulo, Companhia das Letras, 1998


[1] CHARTIER, Roger, História Cultural entre prácticas e representações
[2] BURKE, Peter, Cultura Popular na Idade Média
[3] THOMPSON, Edward, Costumes em comum

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