sábado, maio 31, 2008

Conversar na amizade e no poder

de tudo o que se afirma

é abrir um espaço de ignorância viva

em que o saber se faz concavidade

a tudo o que o amplia e o anula

e lhe dá a vela que vai sulcando as ondas

que na brisa dos encontros se levantam

E súbito explode a grande alegria

do excesso de ser superfície e o fundo

numa só roda que liberta o mundo

em clara sublevação unânime

Até que em magia sossegada

se afirma todo o ser num puro vértice

António Ramos Rosa, O livro da ignorância, Signo, Açores, 1988

Mai 68 XXXI

LA LIBERTÉ COMMENCE

PAR UNE INTERDICTION :

CELLE DE NUIRE

À LA LIBERTÉ

D’AUTRUI

c'est une illusion?

Ainda Obama e os padres de bairro...

Não há missas grátis

Em Janeiro deste ano, em reportagens para o DN, contactei dois notáveis apoiantes de Barack Obama em Chicago. O protestante Jemeriah Wright oficiava a poucos quarteirões da Igreja de St. Sabina, do católico Michael Pfleger, no mesmo bairro negro, South Chicago. Semanas depois, Wrigth ficou célebre pelas suas posições racistas, antibrancas, que obrigaram Obama a demarcar-se. O padre Pfleger, um descendente de irlandeses de olhos azuis, fazia um meritório trabalho contra os gangues negros juvenis. Ele vestia paramentos vindos de África e o seu altar de St. Sabina parecia um savana com tambores. Agora, também ele seguiu o caminho de Wright e acusou Hillary Clinton e os seus apoiantes de serem racistas brancos. Obama, que pauta a sua candidatura por não embarcar nessas tolices, mais uma vez teve de pedir desculpa pelos seus amigos religiosos. O problema destes é que acreditam que os rebanhos reconhecem melhor o caminho do Senhor com tabuletas a preto e branco.


Ferreira Fernandes in DN, 31 Maio 2008

sexta-feira, maio 30, 2008

Introdução a uma arte poética

São como gotas

de água as palavras

pequenas células

que se estilhaçam

quando o silêncio

as toca de sombra

e claridade

palavras cujo eco

ressoa por abóbodas

e se desfazem

em coágulos vivos

de silêncio

ou se transmudam

em pedra

e são o que resta

de velhíssimas catedrais

submersas pelo tempo

a língua (e o poema)

estão nestas pedras

na grafia rigorosa do bolor

com que palavras

e pedras

se transfiguram

nos charcos de silêncio

onde se abem

os rios da lembrança

e do esquecimento

Luís Serrano, Poemas do tempo incerto, Vértice, Coimbra, 1983

Mai 68 XXX

LA VIE

EST

AILLEURS

Ainda o relatório sobre a pobreza em Portugal

Fernanda Câncio a partir de um relatório da UE e sobretudo do de Alfredo Bruto da Costa reflecte e apresenta alguns dados sobre o real nível da pobreza em Portugal. Realce ainda para a correcção que o INE apresentou do pior ano em termos de desigualdade na distribuição dos rendimentos em Portugal.
A situação continuará grave enquanto houver um pobre que seja, mas a titulo de exemplo quem passeia pelas ruas de Paris fica com a ideia que os pobres e sem-abrigo parisienses são ainda mais miseráveis que os de Lisboa.

Pobre Portugal


Um relatório sobre 25 Estados membros da UE refere Portugal como tendo, no período de 2000 a 2004, um dos mais baixos rendimentos per capita - com 960 mil pessoas a viver com menos de 10 euros por dia - e maior desigualdade na distribuição de riqueza; um estudo de Alfredo Bruto da Costa, reputado especialista na matéria, certifica que pouco ou nada se tem evoluído no combate à pobreza, calculando que 46% da população passaram por esse estado entre 1995 e 2000. Parece pois lícito concluir que a democracia portuguesa falhou dois dos seus objectivos essenciais: promover a coesão social e melhorar o nível de vida.

Sucede que, estudando o tal relatório europeu que tanto alarme - justamente - desencadeou, a situação se complexifica. Desde logo, este admite que é difícil comparar países só com base em indicadores quantitativos do rendimento de cada agregado, já que os mesmos 10 euros compram na Polónia o dobro do que na Dinamarca (os dois extremos da escala, na qual Portugal está em 11.º), evidenciando surpresas na caracterização qualitativa da pobreza. Assim, menos de 5% da população portuguesa não têm acesso a uma refeição "decente" (com carne, peixe ou equivalente) cada dois dias. O mesmo sucede na Bélgica, enquanto no Reino Unido, Alemanha, França e Itália a percentagem ultrapassa os 6%. Serão 5% os portugueses que não conseguem pagar as contas básicas - contra 6/7% de belgas, finlandeses e franceses, e 10% de italianos -, e menos de 20% os que afirmam não estar em condições de assumir uma despesa inesperada, uma percentagem só ao nível da sueca, já que todos os outros membros apresentam valores superiores. E são 17%, ao nível da Alemanha e da Finlândia (dois dos países com mais alto rendimento per capita), os agregados que não conseguem ter carro, TV a cores, telefone, ou máquina de lavar, ou têm contas em atraso ou não acedem à tal refeição cada dois dias.

Dados europeus mais recentes acrescentam perplexidades: se Portugal tem, em 2006, uma taxa de pobreza (correspondendo ao número de agregados com cerca de 400 euros/mês/pessoa) de 18%, dois pontos acima da média da UE, está ao nível da Irlanda, três pontos abaixo da Grécia, dois pontos abaixo da Espanha e da Itália e um ponto abaixo do Reino Unido. Longe da Noruega, da Dinamarca, da Suécia e da Holanda (entre os 10 e os 13%), é certo. Mas sendo estes valores respeitantes aos rendimentos dos agregados após "prestações sociais" - ou seja, após pensões e subsídios -, há uma extraordinária constatação a fazer: antes dessas prestações, Portugal tem uma taxa de pobreza de 25%, igual à da França e inferior à da média da UE (26%), assim como da Irlanda (33%), da Noruega (30%) e da Finlândia e Suécia (29%). Por outro lado, se esta taxa desceu apenas dois pontos desde 1995, a outra desceu cinco pontos, de 23% para 18%, no mesmo período. Parece que a democracia, afinal, serve para alguma coisa - e que um país é tanto mais pobre quanto o quisermos pobre. Nada de novo, mas é sempre bom lembrar.

Fernanda Câncio in DN, 30 Maio 2008

quinta-feira, maio 29, 2008

Mai 68 XXIX

UN HOMME

N’EST PAS

STUPIDE OU

INTELLIGENT :

IL EST LIBRE

OU

IL N’EST PAS

L’enfant a ouvert la vitre

versé le soleil

et chassé la route

de vie.

Florence Benedetti, Le Pierre d’eau, Editions Saint-Germain-des-Prés, Paris, 1982

quarta-feira, maio 28, 2008

Mai 68 XXVIII

CE N'EST PAS
UNE REVOLUTION,
SIRE,
C'EST UNE
MUTATION.

terça-feira, maio 27, 2008

Revista Callema - nº4


Na próxima sexta-feira, dia 30, às 21h30 tem lugar na livraria Trama (Rua São Filipe Nery, nº 25B) o lançamento da 4ª revista Callema.

Desta vez dedicada à temática da Juventude - aquela e agora, este número oferece artigos, ensaios, fotografia, prosa e poesia de autores conhecidos, desconhecidos e outros demais aparecidos.

Eu já dei uma olhadela na revista e garanto-vos que este número promete... apareçam...

Pensamento mindinho

Descobri hoje que os meus medicamentos impedem-me de conduzir maquinaria pesada.
Paciência! Vi-me obrigado a devolver o tractor que comprara esta última semana!

CARTA ABERTA À IMPRENSA DESPORTIVA

Cara imprensa desportiva:

Depois de eu ter engolido o Roberto Leal numa conferência de imprensa da selecção portuguesa sem que um único jornalista na sala questionasse os presentes sobre que raio era aquilo, decidi escrever-te esta carta. Há já bastante tempo que me interrogo porque se te funde o raciocínio sempre que a selecção nacional chega à fase final de uma competição importante. Acaso há alguma alínea na Constituição que obrigue um jornalista a deixar de fazer jornalismo quando confrontado com o bigode de Scolari? Não há. Só que o hino toca, o jornalista desportivo ouve o hino, o hino acaba, e aquela conjugação de acordes d'A Portuguesa provoca no jornalista desportivo uma imensa vontade de recuperar Olivença. Ora, se nenhum estudo científico deu como provado que o contacto com símbolos nacionais destrua a massa encefálica dos indígenas, como explicar este estranho ímpeto nacionalista, que tudo aceita e nada pergunta? É essa - como dizer educadamente? - saloiice, que ataca de modo particularmente agudo em europeus e mundiais, que eu gostava que tu ultrapassasses.

Quando a Federação Portuguesa de Futebol patrocina uma conferência de imprensa de louvor a Luiz Felipe Scolari abrilhantada por Roberto Leal e seu filho, o que tu tens a fazer não é pedir para Scolari dedilhar umas notas na guitarra enquanto Roberto canta de improviso uma versão homicida de Uma Casa Portuguesa. O que tu tens de fazer é perguntar se é suposto que a selecção sirva para polir o ego do seu treinador e promover os discos da família Leal. Uma Casa Portuguesa, ainda por cima, é toda ela "conforto pobrezinho do meu lar", grande defensora de um Portugal satisfeito com a sua menoridade. Não é brilhante mensagem para passar a jogadores, e muito menos para animar palestras. Além de que colar a selecção à música sofisticadíssima de Roberto Leal e Tony Carreira é pôr a imagem de Portugal ao nível da rulote das bifanas.

Eu aturo tudo. Aturo chusmas de directos. Aturo conferências de imprensa diárias. Aturo peladinhas cobertas à exaustão. Aturo a transformação de Viseu na capital do País. O povo gosta e as empresas que investem rios de dinheiro no futebol precisam de antena. O que já não aturo é que tu, imprensa desportiva, comprometas o teu bom-senso, imoles qualquer réstia de discernimento e deixes de saber distinguir o que está bem do que está mal, o que é falta do que não é falta, quem joga bem e quem não joga só porque à tua frente correm uns tipos vestidos de verde e vermelho. Sei que para ti cada europeu de futebol em que Portugal participe é como levar um alcoólico a uma prova de vinhos - tremendamente difícil manter a sobriedade. Mas, asseguro-te, não tem de ser assim. Há quem consiga apreciar a selecção e continuar com actividade cerebral. Vá lá. Tu também consegues.

João Miguel Tavares in DN, 27 Maio 2008

Mai 68 XXVII

SOYEZ SALÉS,
PAS SUCRÉS

segunda-feira, maio 26, 2008

uma bomba nuclear sob a forma de declarações...

As recentes declarações de Jimmy Carter demonstram uma clara falta de inteligência no jogo politico que costuma nortear as relações EUA-Israel-Irão... jogado sempre nas meias-palavras e sem se assumir nunca números que atestem a potência destes países. Infelizmente depois destas declarações podem-se esperar reacções violentas dos países árabes vizinhos como manifestações ou ataques a embaixadas, mas mais preocupante do que isso pode agudizar o já crescente espaço de recrutamento dos movimentos terroristas. Terá Jimmy Carter lançado uma bomba nuclear sob a forma de declarações?

O antigo Presidente norte-americano Jimmy Carter disse hoje, durante uma conferência no festival literário de Hay, no País de Gales, que Israel tem, pelo menos, 150 armas nucleares. É a primeira vez que um ex-Presidente norte-americano fala concretamente sobre o arsenal nuclear israelita.

A declaração surgiu após Carter ter sido questionado, por um jornalista, em relação à sua opinião sobre o arsenal nuclear iraniano e como o futuro presidente norte-americano deverá lidar com isso. Segundo Carter esse é um assunto que tem de ser analisado globalmente.

“Os Estados Unidos têm mais de 12 mil armas nucleares, a Rússia, mais ou menos o mesmo, França e Grã-Bretanha têm largas centenas e Israel tem 150 ou mais. Temos uma enorme diversidade de armamento”, disse.

Apesar da existência de armas nucleares em Israel ser mundialmente admitida, As entidades israelitas nunca admitiram a sua existência e os EUA nunca comentaram esta questão publicamente.

Jimmy Carter, Nobel da Paz, admitiu que Washington devia falar directamente com Teerão para pressionar o governo iraniano a abandonar a sua ambição nuclear. Uma vez que a política seguida há décadas, incluindo as sanções aplicadas, nunca dissuadiu o Irão de produzir urânio enriquecido.

Carter, presidente entre 1977 e 1981, ajudou a negociar o tratado de paz entre Israel e o Egipto e a concluir o acordo estratégico de armamento com a União Soviética.

in Público, 26 Maio 2008

Words again

Words in their thousands pour out of dictionaries
as soon as you open them
like ants, black, red, white,
when you step on an ant-hill.
How can you find, how can you choose
amid the conflation of words
the only one that fits,
how can you escape from the others
that stick to your body in swarms
struggling to survive.
Yet the unspoken words beneath the tongue
the only ones that don’t emerge from your mouth
they too gnaw from within
leaving shrivelled corpses
of people who tried to speak
when it was too late.
As long as I’m able
to combine even two words
I exist.

Titos Patríkios (1928 - )
tradução de Peter Mackridge

um beijo de Judas


Auto da Paixão por Comédias do Minho - Abril 2008

Um triste adeus a um blog de eleição...

...foram com estas parcas palavras que terminou um dos blogs que seguía com mais atenção... restam-me os seus cartoons no DN... adeus...

Da capo al fine

Amigos,

Este blogue pára aqui. Existem razões, algumas objectivas, outras subjectivas, algumas até irrazoáveis; não importa. Vestirei o roupão que terei de comprar, sentar-me-ei no velho cadeirão de couro que não tenho e fumarei o meu cachimbo invisível, pensando em como a vida é uma coisa engraçada, etc.

Sentirei saudades. As caixas de comentários estão fechadas, mas conhecem o meu endereço de e-mail. Sei que voltarei a escrever algures, apenas não sei onde ou quando; até lá, um abraço.

Bandeira

Mai 68 XXVI

VOUS AVEZ VOTÉ:
VIVOTEZ!

domingo, maio 25, 2008

Quarta a Quarto – Paris-Nantes em um quisto assim

Quarta começaram as dores no cóxis. Não liguei. Ou melhor liguei. Mas juro que dava para aguentar até Portugal, até Julho.

Quinta de manhã já se notavam dois pequenos inchaços na zona acima citada. A minha principal preocupação mais do que as dores era o meu aspecto visual que convinha que não começasse a ser o de um babuíno em idade adulta. Aguentei as aulas, fui a Paris levar o Luís ao TGV e no final do dia falei com a Goretti para ir ver o seu médico na segunda-feira seguinte.

Sexta. Aulas. Com alguma febre. Os alunos perceberam-no e estavam calmos. Parti depois para Nantes na esperança que o sr. Ben-u-ron cuidasse de mim. Ainda fiz uma bela passeata pela cidade enquanto o Luís estava no colóquio, e se não fosse a chuva chata as minha fisionomia de primata nem me incomodava muito. O jantar, muito agradável, foi num restaurante ao pé do hotel e em frente ao belo castelo de Nantes. Cama.

Sábado. Febre. Comprimidos. Acordar. Banho. Passear um pouco mais pela zona da ilha de Versalhes e almoçar num fast-food de massas.

Passeava pelas ruelas centrais de Nantes quando cerca de 40 a 50 marialvas se aproximaram, filando-me, para me sodomizarem à bruta. Lutei destemido, como é hábito aliás, e deixei-os de rastos num banho de sangue e ossos partidos. Dei-lhes uma lição e deixei-os gritando que ninguém se mete com “a verdadeira raça lusitana”. Foi nesse preciso momento que me apercebi que estaria gravemente doente e com febre pois fazer comparações e citações do mundo do hipismo só pode ser sinal de graves perturbações mentais e físicas.

Voltei para o hotel e dormi. Encharcado em febre. O Luís chegou ao final da tarde e apercebendo-se do meu estado chamou logo um médico. Conselho imediato. Hospital imediato. Parece que o quisto infectara e corria risco que a infecção se espalhasse a todo o organismo. Entrada de urgência na clínica de Saint Augustin, pelo que parece a 14º melhor em França. Sorte. Enfermeiras simpáticas que procuraram desde logo pôr-me a par de tudo o que tinha, e que me iria acontecer. As dificuldades habituais para encontrar as veias para meter soro e para tirar sangue. A febre continuava nos 39º e o meu ar era cadavérico, como se vê na foto seguinte.

Começaram a cair chamadas de diversos líderes mundiais desejando as minhas melhoras e as procissões em minha honra multiplicavam-se por toda a França. Liguei a TV e dava já um programa especial sobre a minha vida e como a minha morte poderia lançar a politica internacional num caos, num vazio sem precedentes, e poderia mesmo desviar ligeiramente a terra dos seus eixos. Achei melhor desligar. E adormeci sem dar por ela.

Domingo. Acordei às 5h30 com a anestesista para uma pequena entrevista. Logo nesse dia que tinha o fato para limpar na 5-a-sec. Paciência. Recebi-a numa esmerada bata branca aberta ligeiramente atrás. Deveras curiosa essa peça de roupa. Motivo, aliás, de longas reflexões na minha passagem pela clínica.
Depois, às 7h o médico veio dar-me algumas palavras. Umas 6. Era um homem de poucas palavras e muito bisturi.
Ás 9h tive direito a banho de betadine. Confesso que gostei de ver o bronzeado resultante. A repetir.
Pelas 10h, saí do quarto e fiz o “dead man in wheelchair walking” enquanto era reconfortado por senhoras próximas do Senhor. Confesso, no entanto, que não reconheci nenhuma da Última Ceia.
10h20 e duas enfermeiras falavam comigo sobre Lisboa.
Ás 11h40 (embora o relógio da máquina dos sinais vitais mostrasse que era uma hora antes) respondi algo ainda sobre Lisboa à enfermeira que passeava na sala. Eis que me apercebi que não era a mesma… enfermeira, sala, hora. Naturalmente pensei que tivesse morrido e que pudesse estar noutro estado. Mas não era o Céu porque chovia muito lá fora e não se ouvia o chilrear previsível. E o Inferno também não era porque a temperatura era amena e não cheirava a Chimarrão. Sala de recobro, talvez.
Ao meio-dia voltei para o meu quarto. Já sorria!
Ás 16h já comia umas bolachas que o Luís me trouxera e que naquela altura me pareceram divinais.
Duas horas depois via a Taça de Portugal num canal francês. A vida retomava os seus eixos… ou não… porque o Sporting ganhava jogando bem e o Tiui era o herói do jogo… teria eu entrado numa realidade paralela?

operandis

Há o chiar da cadeira,
porta fora,
pelo túnel que branco percorre
a minha vista.

Há vozes que reconfortam,
a vista,
mas não a angústia que deveria ter,
por agora.

Há um Jesus, em forma de cruz,
em cada parede,
que branca me apela à solidão.
Solidão que nego desde a casa-partida,
quando não sinto
o que as vozes me relembram
que devo sentir.
E passo por elas sem receber os 2000 escudos.

É hora!
É hora!
É hora de desligar o branco
e apagar a luz que me encadeia.
Uma última prece,
que o Senhor, em forma de cruz, me recebe ainda antes de fechar a barraca dos pedidos.
Sob a forma de pais-nossos em banho-maria.

Enchem-me as veias de um sono tranquilizador,
e meus dedos alongam-se,
lentos,
ao ritmo da caminhada da paz que Ele fez entre os seus, ainda sussurram elas.
Eles, os seus descrentes crédulos.

É curioso. Juro que o vi passar por mim naquele corredor enquanto me apagava.

E não liguei.

Fica para a próxima...

Nantes, 2008

Porque Obama é realmente um candidato não-racial

Os grunhos desceram à cidade. E que grunhos: eles de correntes de ouro ao peito, elas explodindo bundas, batem as pestanas falsas e fazem beicinho grosso, eles passam em Lamborghinis amarelos ou Harleys cintilantes que têm em comum o berro de altifalantes, eles e elas dizendo baby a cada dois passos - os grunhos da infantilização bruta do hip hop. E que cidade: South Miami, o lado art déco da mais tropical das capitais americanas, das casas como se fossem todas elegantes cinemas dos anos 30, de cores pastel, palmeiras em néon e palmeiras de verdade.

South Miami do News Café, onde Gianni Versace foi beber o último cappuccino, antes de regressar a pé ao seu palácio e cair sob as balas de Andrew Cunanan, que procurava os seus 15 minutos de fama. Ainda há três dias, as esplanadas da avenida atlântica estavam cheias de turistas cosmopolitas, dos caríssimos hotéis Loews e Delano. Este fim-de-semana, os átrios desses hotéis foram invadidos por negras de cabeleira loura, com malas Gucci e ares de quem passa muito tempo nos passeios, e grandalhões de vestes uniformes - acompanhantes e guarda-costas da cultura bling e de cantores de nomes grosseiros, Rapaz Gordo, ou nomes artísticos mal escritos, Faboloso.

O hip hop invadiu South Miami, é o nono festival Black Beach Week, que trouxe, além de cantores com muitos discos de platina e ainda mais balas no corpo, a ganapada dos subúrbios de Atlanta e Washington. Nestes três dias, neste bairro habitualmente branco, os raros brancos levam o sorriso posto de quem pede desculpa. Os comerciantes fecham os bares, fartos dos anos anteriores de consumo não pago. Os invasores são agressivos, fortes da proximidade da mais bem paga actividade artística da América (os DJ e cantores de hip hop estão no top das receitas) e da cumplicidade com um submundo que propagandeia a droga. Estes grunhos pretendem ser os representantes da América negra e por serem a sua camada mais visível, podem indecentemente criar essa ilusão.

Entre os milhares invasores de South Miami ninguém pisca o olho a Barack Obama. Nem uma frase, nem uma camisola que diga que este encontro de cultura negro-americana está interessado na figura negra que está a mudar a história da América. E a indiferença é recíproca: esta semana, Obama dedicou-a à Florida, mas não pôs um pé no festival hip hop. Obama esteve entre os ricos do golfo de Tampa recolhendo dinheiro. Esteve entre os judeus de Boca Raton desfazendo equívocos ("julguem-me pelo que digo e faço e não por um nome esquisito"). E esteve entre os cubanos, no encontro anual da Cuban American National Foundation, tinha convidado um candidato democrata.

Ferreira Fernandes in DN, 25 Maio 2008

Mai 68 XXV

NON AUX
BIDONVILLES
NON AUX
VILLES BIDON

sábado, maio 24, 2008

an operating device?

As bases da desigualdade portuguesa

O Portugal político-mediático acordou hoje em choque com a possibilidade de ser o país com maior desigualdade da União Europeia.
Mas Portugal é mesmo um país com um nível de desigualdade elevado. Já o é há muito tempo e nada leva a crer que esteja a caminho de deixar de o ser.

A dinâmica económica do país continua ligada a fortes disparidades salariais, não apenas entre categorias profissionais como, sobretudo, entre sectores modernos e sectores tradicionais, mesmo para níveis de qualificações comparáveis.

O modelo político é o mesmo há décadas. Assenta num nível de fiscalidade modesto que limita a intervenção redistributora do Estado. Obedece a um modelo de política social estatutário, isto é, que reproduz nos benefícios concedidos a desigualdade pré-existente nos salários, magramente complementado por mecanismos de alívio da pobreza extrema. É, portanto, natural que os níveis de desigualdade oscilem em torno de um padrão que se mantém, como se vê nos dados do coeficiente de Gini que hoje se colhiam na base de dados do Eurostat.

Se mudarmos de indicador podemos alterar ligeiramente os resultados, mas a leitura será sempre a mesma: Portugal é um país muito desigual. No Canhoto vários de nós o andam a escrever isso mesmo há muito tempo.

Se não se quiser tentar tapar o sol com uma peneira, há que dizer claramente que só uma crise económica acentuada ou uma mudança de modelo social drástica alterará o facto.

O primeiro factor é indesejável, o segundo não tem protagonistas que o defendam, porque só acietam uma ou outra d eum conjunto de medidas que só se tomadas solidariamente produziriam efeitos.

Quem vai pedir aos portugueses que se aumente o peso dos impostos no PIB? Ou que, com esse dinheiro, se crie uma pensão básica que retire da pobreza uma percentagem significativa de pensionistas e se redireccione as prestações sociais para o reforço da clase média em vez do apoio anémico aos grupos mais desfavorecidos?

Quem vai defender o acesso universal e gratuito de todas as crianças a serviços colectivos de guarda e educação, democratizando cuidados educacionais que nas famílias reporduzem brutal e inelutavelmente as desigualdades? Quem vai defender que a educação deve precupar-se pelo menos tanto com os que têm dificuldades graves como com a promoção dos alunos excelentes e deve diminuir o nível de reprovações e de abandono?

Quem vai pedir aos portugueses mais progressividade na taxa de imposto e mais impostos sobre transmissão de património para prevenir a reprodução geracional de privilégios e obter receitas dirigidas à redistribuição de rendimentos?

Quem vai impulsionar uma subida no salário mínimo que o coloque numa percentagem substancialmente mais elevada do salário médio e financiar o risco de desemprego dos actuais detentores do salário mínimo que possam ser condenados ao desemprego?

Quem vai sustentar maior flexibilidade no trabalho para compensar os custos acrescidos das políticas sociais minimizando impactos na competitividade?

Quem vai defender a redução drástica dos orçamentos na função de soberania, por exemplo na defesa ou no consumo público, que financia sectores ineficientes, para reorientar recursos?

Quem vai eliminar os subsídios abertos e ocultos, a cartelização e as ineficiências económicas provocadas pela falta de concorrência em actividades económicas escandalosamente lucrativas à custa das classes médias?

Quem vai defender que os cidadãos devem ser apoiados por tempo indeterminado desde que tenham uma perda significativa de rendimentos e demonstrem disponibilidade para o trabalho?

Quem vai contrariar a tendência para a privatização dos cuidados de saúde e aceitar que os transportes colectivos dedvem ser financiados pelo Estado de modo mais generoso?

O nosso problema de desigualdade também passa por todos achamos natural que os mais pobres sofram as consequências da sua pobreza, todos querermos transmitir aos nossos filhos o bem-estar que construimos ao longo das nossas vidas, todos aceitarmos pagar fortunas por serviços que deveriam ser subsidiados e todos nos queixarmos mais dos impostos do que dos juros dos empréstimos bancários ou das margens de lucro de actividades especulativas.

Por tudo isto o meu prognóstico é o de que Portugal continuará a ser o país mais desigual da Europa, a menos que outros caminhem para o aprofundamento das suas desigualdades.

No fundo, o que hoje chocou Portugal não foi a desigualdade mas a ferida no orgulho nacional que sempre provoca a ideia de sermos os últimos no que quer que seja. Se não fosse isso, não havia notícia. Assim sendo, para nosso descanso, aqui fica a correcção: a desigualdade de rendimentos da Letónia é maior que a nossa!



















Fonte: Eurostat

Brasil vai reforçando o seu estatuto de potência emergente

Depois dos esforços do Brasil para a concretização real do Mercosur (economia), agora a Unasur (defesa), a seguir só pode ser um projecto politico nos moldes da UE... a América do Sul ganha poder e estatuto no contexto politico internacional.

A la segunda va la vencida. Esa es, al menos, la intención del presidente brasileño, Luiz Inácio Lula da Silva, principal impulsor de la Unión de Naciones Suramericanas (Unasur), que ayer vio oficialmente la luz en Brasilia con la rúbrica y la presencia de los demás presidentes de la región. Nadie se quiso acordar ayer en la capital brasileña de la recién nacida e inmediatamente difunta Comunidad Suramericana de Naciones, fundada en 2005 en Lima por los mismos países y que en estos dos años y medio no ha dado resultado de ningún tipo.
Técnicamente, la Unión firmada ayer es la continuación de aquella Comunidad, pero el tratado firmado ayer contiene dos diferencias importantes respecto al anterior proyecto. Diferencias que por cuestiones diplomáticas no pueden ser expuestas abiertamente, pero de las que todos son conscientes. En primer lugar, es Brasil quien toma la iniciativa en una región del mundo que la diplomacia brasileña reconoce abiertamente como área de influencia estratégica.
Y, por otra parte, el acta fundacional nace ya con un proyecto concreto capitaneado otra vez por Brasil, como es la creación de un Consejo Suramericano de Defensa, un organismo que debe servir para la resolución de conflictos. Los países firmantes se han comprometido a suscribir en seis meses un tratado de seguridad.
Lejos de la retórica, Lula no ha dudado en marcar los objetivos de la Unasur: "Suramérica tiene capacidad para mover el tablero político de todo el mundo en beneficio de nuestras naciones". Es decir, que en un momento en que Oriente Medio y Asia copan la atención mundial, Suramérica quiere ejercer de actor principal, aprovechando, como señaló el mandatario brasileño, que "más de 300 millones de personas que se benefician de una excepcional fase de crecimiento y de exitosos programas de inclusión social convierten a la región en un gran mercado de consumo".
Por su parte, la chilena Michelle Bachelet puso el énfasis en las metas a corto plazo que debe lograr la organización. "Lo fundamental es que Unasur haga la diferencia poniendo el foco en las políticas sociales para alcanzar una reducción de la pobreza rápidamente", subrayó.
Y a diferencia de lo que pasó en Lima hace dos años, casi ningún presidente suramericano ha querido estar ausente del toque a rebato de Lula. Los presidentes de todos los países de la región - incluyendo los habitualmente ausentes de Guyana y Surinam - no faltaron a la cita de Brasilia. La excepción fue el uruguayo Tabaré Vázquez, que envió a su vicepresidente.
En teoría, Colombia debería haber ocupado la presidencia de turno de la Unasur, pero el presidente colombiano, Álvaro Uribe, prefirió que su país no ejerza el cargo debido al duro contencioso que vive con Ecuador y Venezuela. Tras la renuncia colombiana, la presidencia debe recaer en Chile.
A pesar de las declaraciones de consenso y unidad, la Unasur ya nace con bloques definidos. Antes del comienzo de la cumbre de Brasilia, los presidentes de Venezuela, Ecuador y Bolivia mantuvieron un encuentro en el que se comprometieron a "dinamizar" la nueva organización.

in El Pais, 24 Maio 2008

Mai 68 XXIV

SALAIRE LEGERS
CHARS LOURDS

sexta-feira, maio 23, 2008

Os estrangeiros nas artes em Portugal - perspectiva das entidades artísticas

O estudo do OI (Observatório da Imigração) cruza diferentes estudos sobre esta temática como os de Pinto Ribeiro, Gomes, Lourenço, Martinho e sobretudo de Cláudia Madeira com um conjunto de entrevistas a entidades artísticas portuguesas e artistas imigrantes.
Estas entrevistas tiveram dois tipos de critério:
primário – domínio artístico, sectores de actividade, e localização;
secundários – decision makers, origem estrangeira).
Em termos de concretização da entrevista esta teve quatro blocos orientadores:
caracterização institucional da entidade;
capital humano da entidade, em geral
;
capital humano da entidade, especifico;
representações sobre imigrantes no campo artístico português.
Na distribuição das áreas de actividade dos entrevistados é natural o predomínio do sector terciário, mais especificamente Dança, Musica e Pluridisciplinar.
Quando analisadas as motivações artísticas Portugal só é visto como um pólo atractivo para PALOP (a vida cultural nestes é reduzida); e países do leste europeu no âmbito da dança (pela existência de uma linguagem quase universal de expressão corporal).
A Música e a Dança são as áreas culturais onde mais uma vez devido à questão da língua/linguagem universal se denota uma maior abertura e a existência de menos entraves aos artistas imigrantes.
Pelo contrário no Teatro e Artes Visuais são notórios os impedimentos à entrada de imigrantes no mercado cultural. Um mercado já por si só saturado e evidentes diferenças no plano estéticas são algumas das explicações possíveis.
As redes artísticas de trabalho internacional como a Magicnet, para o teatro, possibilitam a troca de actores, personagens, experiências mas sobretudo permitem um diálogo intercultural entre as diferentes entidades artísticas.
A contratação de artistas estrangeiros depara-se regularmente com um problema na demora burocrática da legalização dos mesmos. Um período que pode ir até os seis meses pode facilmente ser entrave para a celebração de contratos de trabalho.
A produção artística tende, tal como na sociedade civil, a cair em preconceitos em relação ao Outro, e mais especificamente à atribuição de certas características a certas nacionalidades. A titulo de exemplo a imagem do Brasil do futebol, samba e Carnaval foi substituído na peça Em Brasa pela realidade resultante da viagem, e dos constrangimentos da língua.
O Teatro ao Largo e Teatro da Serra de Montemuro são projectos pioneiros e paradigmáticos do empreendorismo cultural de imigrantes. Estes projectos promovem uma clara vantagem competitiva para quem acolhe e para quem é acolhido porque origina a troca de ideias, imagens, técnicas e procedimentos e posteriormente uma melhoria do resultado final.
O público português é, de acordo com este estudo, tendencialmente favorável aos projectos artísticos interculturais, embora seja também evidente que a volatilidade e inconstâncias do mesmo podem dificultar a programação artística e que por vezes há um total desconhecimento em relação ao Outro.
A questão dos incentivos à produção artística é, provavelmente, a mais problemática. O estudo aponta que não há discriminação negativa em relação a imigrantes mas indica igualmente que há grande desconhecimento dos mesmos em relação aos seus direitos e procedimentos. A possibilidade de uma discriminação positiva divide, notoriamente, os artistas e entidades com os argumentos da necessidade de uma pretensa igualdade entre agentes, ou de que nada iria alterar o status quo vigente.
As conclusões principais apontam no sentido de as iniciativas de carácter intercultural e de integração imigrante terem uma maior causalidade na escolha dos programadores do que nas próprias entidades e estruturas, o que aparenta uma falta de visão global.
Fica também evidente que as diferentes áreas culturais originam diferentes comportamentos dos seus agentes, sendo que as artes performativas e dança são as áreas onde há maior abertura aos artistas imigrantes. Há um especial realce para a necessidade dos imigrantes tal como os nacionais conhecerem previamente o meio cultural, os seus agentes, leis e regras. Finalmente, a figura do imigrante, e o que este pode trazer enquanto agente de mudança, influi directamente na reconstrução identitária da cultura portuguesa nesta fase pós-colonial em que ocorre uma viragem para um mundo globalizado e multicultural.

2008 – É o ano Europeu do Diálogo Intercultural, e um pouco por todo o lado se encontrarão experiências culturais que procurarão retratar a realidade que se cria entre autóctones e imigrantes. - APROVEITE!

Mai 68 XXIII

MANQUER D'IMAGINATION,
C'EST NE PAS
IMAGINER LE MANQUE

Movimento Sem Petróleo!

ADIRA AO MSP - PERGUNTE-ME COMO
O petróleo aumenta, aumenta, aumenta. Motivos múltiplos, alguns mais perceptíveis que outros. Mas vai dar no mesmo, qualquer que seja o motivo: os países que o têm passam bem e os que não têm passam mal. E passam tanto pior quanto mais dependem dele. E é espantoso o quanto dependemos, nós os sem-petróleo, do petróleo que não temos. Não só dependemos como queremos continuar a depender. Nem sonhamos outra coisa. É assim uma espécie de estado de negação permanente, uma patologia psíquica global.

Comecemos por um exemplo fácil. Temos os taxistas e as transportadoras em pé de guerra a exigir "gasóleo subsidiado". Parece que o Estado (isto é, eu, quem me lê e quem não me lê) subsidia o gasóleo para uso agrícola e eles querem o mesmo tratamento. Não querendo perder muito tempo com o subsídio para a agricultura - faz parte de um mundo hipersubsidiado que sempre tive a maior dificuldade em entender -, fico de boca aberta ante a exigência. Por que carga de água hei-de eu, com os meus impostos, subsidiar o combustível que alimenta os táxis e os camiões? Para que os táxis não aumentem e as mercadorias não subam de preço devido ao custo acrescido no transporte, respondem-me. E eu respondo de volta: e por que não hão-de as mercadorias ser transportadas de comboio e de barco, meios que têm um dispêndio inferior de energia? Por que não hão-de os táxis ser reconvertidos para trabalhar a gás, que, ao que ouvi dizer, é coisa que não custa assim tão caro, permitindo usar um combustível que é mais de 50% mais barato e ainda por cima menos poluente? E, não despiciendo, por que há-de quem não usa táxi subsidiar quem usa?

A mesma lógica se aplica aos detentores de automóvel - afinal, ninguém é obrigado a ter carro, e se o tem, estando disposto a fazer face aos acidentes de percurso (a começar pelos propriamente ditos), por que não há-de ver na subida do preço da gasolina e do gasóleo mais um acidente? -, como aos transportes públicos em geral e a toda a gente em particular. Escolha como quer reagir a esta situação: chorando e exigindo "apoios" ou aproveitando para mudar hábitos, poupando energia e dinheiro? Quantas pessoas há que deixaram de usar transportes públicos há anos, passam horas em bichas e a procurar lugar para estacionar, apenas porque meteram na cabeça que isso é mais cómodo e lhe confere mais statu? Quanta gente há que não dá um passo a pé, para quem é impensável viver num prédio sem elevador e para quem as práticas ambientalmente conscientes são "perdas de tempo" e "esquisitices"?

O papel do Estado é fundamental nesta matéria, é. Mas recusando subsídios e encorajando a reconversão e a poupança energética, a começar pelos transportes públicos. Já fazemos todos parte, quer queiramos quer não, do Movimento dos Sem-Petróleo (MSP). É altura de a ele aderirmos à séria, com entusiasmo e militância.

Fernanda Câncio in DN, 23 Maio 2008

quinta-feira, maio 22, 2008

Mai 68 XXII

NOUS DEVONS
RESTER
"INADAPTES"

ainda o preço da gasolina...

É só despudor e insensibilidade social?
Li, há dias, que um banqueiro terá dito, em resposta às preocupações dos ministros europeus quanto aos rendimentos faraónicos de alguns dirigentes empresariais, que aquelas preocupações seriam manifestações de política rasteira.
Li, hoje, que o Presidente da Associação Nacional de Municípios entende que é no custo original da água ou na redução dos impostos que se deve procurar a solução para não aumentar o custo desta para os consumidores e que estará fora causa a supressão da taxa de disponibilidade que estará para ser criada pelas autarquias.
Li, também hoje, que o Presidente da Galp sustenta que, para baixar os preços dos combustíveis a única solução é reduzir os impostos.

Vejamos, portanto, alguns factos, para fundamentar duas preguntas.

1.º Facto
A Galp Energia registou um lucro no primeiro trimestre deste ano de 109 milhões de euros, ou seja, 1,2 milhões de euros por dia.

2.º Facto
A APETRO – Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas, requereu ao ex-Conselho da Concorrência a avaliação prévia de um Acordo celebrado, em 25/12/2000, com todas as suas associadas – AGIP Portugal – Combustíveis, SA; BP Portuguesa, SA; CEPSA Portuguesa Petróleos, SA; ESSO Portuguesa, Lda; Petróleos de Portugal, PETROGAL, SA; REPSOL Portugal, Petróleos e Derivados, Ldaª; SHELL Portuguesa, Lda e TOTAL Fina Elf Portugal –Companhia de Petróleos, SA, […] acordo esse que tinha por objecto […] a recolha e agregação periódica para fins estatísticos, por parte da APETRO, de elementos fornecidos pelas suas Associadas respeitantes aos respectivos volumes de vendas mensais de cerca de 20 produtos petrolíferos por elas comercializados.
A AdC decide, […] atendendo […] ao facto de as Associadas da APETRO representarem cerca de 95% do mercado, que […] o Acordo de Consolidação de Informação Estatística objecto da deliberação da APETRO é ilegal.

3.º Facto
O presidente da Galp, que controla a maior rede de retalho de combustíveis com cerca de 800 estações em Portugal, que a empresa que dirige não pode fazer nada, afirmando que “a única alternativa para baixar os preços dos combustíveis é reduzir o Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP). 'Não há nada que a Galp possa fazer', garantiu o gestor, lembrando que a petrolífera está exposta às cotações internacionais do petróleo e a uma carga fiscal 'gigantesca'”.

4.º Facto
Os indicadores publicados pela AdC desmentem que a explicação dos elevados custos dos combustíveis esteja na carga fiscal, como se pode ver pelos gráficos publicados, que se referem aos preços médios de venda ao público (PMVP) antes de impostos.



5.º Facto
Os dados publicados pela AdC sugerem que a variação dos preços de venda ao público é tanto menor quanto menor é a concorrência – a variação é mínima nas auto-estradas – e indiciam que também não será nos custos do petróleo nos mercados internacionais que se encontrarão todas as explicações para a anomalia ilustrada no gráfico seguinte: nos últimos anos, os preços médios de venda ao público só muito raramente foram inferiores à média da UE.



6.º Facto
Também não é nos salários ou nos custos horários do trabalho que se poderá encontrar a explicação para a afirmação do Presidente da Galp: os custos do trabalho em Portugal influenciam para baixo da média comunitária os custos de venda ao público dos combustíveis.


Fonte: Eurostat


7.º Facto
Apesar dos inegáveis progressos realizados, Portugal continua a ter importantes necessidades sociais por satisfazer, entre as quais avulta, em minha opinião, a necessidade de aumentar os níveis de protecção social, o que, evidentemente, exige maiores receitas fiscais e melhor uso dos recursos disponíveis.



Por estes motivos, duas perguntas.

Acham mesmo que a generalidade dos que seguem os debates no espaço público sobre assuntos em que não são especialistas - como é o meu caso quanto à gestão bancária, à política municipal e à política energética - são incapazes de raciocinar e de se informar sobre os assuntos que os interessam?
Como é que responsáveis empresariais e autarcas com altos níveis de responsabilidade têm o despudor de continuar a sustentar que se devem reduzir os impostos e a considerar que os seus rendimentos e os das empresas ou organizações que dirigem são intocáveis?

Nenhuma das respostas que me ocorrem seriam lisonjeiras para os personajens em questão.
António Dornelas in o Canhoto

Mai 68 XXI

LAISSONS LA FLEUR DU ROUGE
AUX BETES A CORNES

L'origine du sentiment de l'absurde

Il arrive que les décors s'écroulent. Lever, tramway, quatre heures de bureau ou d'usine, repas, sommeil et lundi mardi mercredi jeudi vendredi et samedi sur le même rythme, cette route se suit aisément la plupart du temps. Un jour seulement, le "pourquoi" s'élève et tout commence dans cette lassitude teintée d'étonnement. "Commence", ceci c'est important. La lassitude est à la fin des actes d'une vie machinale, mais elle inaugure en même temps le mouvement de la conscience. Elle l'éveille et elle provoque la suite. La suite, c'est le retour inconscient dans la chaîne, ou c'est l'éveil définitif. Au bout de l'éveil vient, avec le temps, la conséquence : suicide ou rétablissement. En soi, la lassitude a quelque chose d'écœurant. Ici je dois conclure qu'elle est bonne. Car tout commence par la conscience et rien ne vaut que par elle. Ces remarques n'ont rien d'original. Mais elles sont évidentes : cela suffit pour un temps, à l’occasion d'une reconnaissance sommaire dans les origines de l'absurde. Le simple "souci" est à l’ origine de tout.

De même et pour tous les jours d'une vie sans éclat, le temps nous porte. Mais un moment vient toujours ou il faut le porter. Nous vivons sur l'avenir : "demain", "plus tard", "quand tu auras une situation", "avec l'âge tu comprendras", ces inconséquences sont admirables, car enfin il s'agit de mourir. Un jour vient pourtant et l'homme constate ou dit qu'il a trente ans. Il affirme ainsi de sa jeunesse. Mais du même coup, il se situe par rapport au temps. Il y prend sa place. Il reconnaît qu'il est à un certain moment d'une courbe qu'il confesse devoir parcourir. Il appartient au temps et, à cette horreur qui le casait, il y reconnaît son pire ennemi. Demain, il souhaitait, quand tout lui-même aurait du s'y refuser. Cette révolte de la chair, c'est l'absurde.

Albert Camus in Le Mythe de Sisyphe

Mai 68 XX

SI VOUS PENSEZ
POUR LES AUTRES
LES AUTRES PENSERONT
POUR VOUS

viagem ao mundo do/a IKEA

Enlouqueça você mesmo. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros. Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja. Diz-se «Iqueia» ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA»? São ambiguidades que me deixam indisposto. Não saber a pronúncia correcta do nome da loja em que me encontro inquieta-me. E desconhecer o género a que pertence gera em mim uma insegurança que me inferioriza perante os funcionários. Receio que eles percebam, pelo meu comportamento, que julgo estar no «I quê à», quando, para eles, é evidente que estou na «Iqueia».

As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também conceptuais. Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar, depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É uma espécie de Lego para adultos. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que combinava bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu precisava e que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos quilos. Percebi melhor o nome do móvel. É preciso vir ao IKEA com uma besta de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um dos meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei no ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias.
É claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a floresta cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem numa mesa-de-cabeceira engraçada.
Por outro lado, há problemas de solução difícil. Os móveis que comprei chegaram a casa em duas vezes. A equipa que trouxe a primeira parte já não estava lá para montar a segunda, e a equipa que trouxe a segunda recusou-se a mexer no trabalho que tinha sido iniciado pela primeira. Resultado: o cliente pagou dois transportes e duas montagens e ficou com um móvel incompleto. Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. Mas como sou eu, aborrece--me um bocadinho. Numa loja que vende tudo às peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por ser irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de montagem. Idiossincrasias do comércio moderno.

Que fazer, então? Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é este: para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e junto um rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade dos confetti num dia e a outra metade no outro. E os suecos que montem tudo, se quiserem receber.

Ricardo Araújo Pereira in "Boca do Inferno" - Visão

Mai 68 XIX

PAS DE LIBERTE
AUX ENNEMIS
DE LA LIBERTE

segunda-feira, maio 19, 2008

Nem vale a pena dizer mais nada...

“Nós”… é, no discurso comum como no erudito, um dos termos mais equívocos que conheço. Especialmente quando o discurso envolve uma qualquer referência de tipo nacional, tende a haver um excesso de “nós”. Por exemplo, quando Vasco Pulido Valente, no Público de domingo, 18 de Maio, afirma: “se descobrimos o caminho marítimo para a Índia, foi precisamente porque não descobrimos o caminho para o desenvolvimento”. O problema com esta frase, que parece identificar lapidarmente, ainda que metaforicamente, as raízes do atraso português, é que, de facto, nada explica.

Comecemos pelo “nós”: “nós descobrimos o caminho marítimo para a Índia”. Desculpem o terra-a-terra, mas não conheço ninguém vivo ou recentemente falecido que tenha participado nas acções que levaram Vasco da Gama à Índia. Assim sendo, quem é esse “nós” que foi de barco até à Índia? Resposta simples: ninguém real, pelo que parte da frase apenas tem valor retórico. “Eles”, e convém precisar que este “eles” não inclui os portugueses em geral, seja de que época for, descobriram o caminho marítimo para a Índia. E se o “nós” dos tempos de Gama não é mais do que figura de retórica, o “nós” de hoje também anda lá perto. De facto, existem na sociedade portuguesa muitos e variados “nós”, mas o que não existe de certeza é um “nós” que reúna todos os portugueses.

A objecção óbvia a estes banais comentários anti reificação da nação, consiste em considerá-los irrelevantes se o argumento for sustentável, apesar do reforço retórico. O argumento, porém, não é sustentável: por que razão o colonialismo estaria na origem do atraso nacional mas não do atraso de ingleses ou holandeses? Porque a explicação aparentemente simples de Vasco Pulido Valente é demasiado simplista para fazer qualquer sentido. Em rigor, o que o cronista faz não é mais do que traduzir para linguagem um pouco mais erudita enunciados do senso comum mais banal do tipo “a adversidade forma o carácter”…

Rui Pena Pires in o Canhoto

domingo, maio 18, 2008

Mai 68 XVIII

LA LUTTE CONTINUE

...a história dos "ses"...

Se em 1640 tivesse sido a Catalunha e não Portugal... pode-se sempre estipular imenso... mas a história escreve-se com as palavras da realidade e não com os sonhos dos desejos. O que parece claro neste caso é uma vontade, o qual aliás presenciei quando estive em Barcelona no dia 11 de Setembro, de independência e autonomia do povo catalão, ou pelo menos de alguns dos seus dirigentes. A relação Portugal-Espanha a ter problemas, dificuldades ou complicações não será nunca por uma atitude paternalista espanhola mas antes por uma clara falta de capacidade de Portugal acompanhar o progresso espanhol. A meu ver históricamente até é mais compreensível a autonomia basca, mas a forma como a ETA ao longo da sua história procurou defender a sua posição inviabilizou-a. Além disso parece evidente que Espanha é também uma marca que joga precisamente com essa imagem de diferentes reinos e culturas e que a soma das partes (governos autónomos) será sempre inferior ao valor do conjunto (Espanha).

O vice-presidente do Governo Autónomo da Catalunha, Josep-Lluís Carod Rovira, disse hoje em Barcelona que Espanha ainda não assumiu que Portugal é um Estado independente. Carod Rovira considera que Madrid pretende manter uma "tutela paternalista" e uma atitude de "imperialismo doméstico" sobre o Estado Português, onde, acrescentou, "historicamente, sempre houve um certo complexo por parte de alguns sectores dirigentes em relação a Espanha".

O número dois do executivo catalão e responsável pelas relações externas da região com 7,5 milhões de habitantes, afirma que pretende conseguir o apoio de Portugal para o projecto de independência que defende para a Região Autónoma, cujo referendo propõe que se realize em 2014. "O que menos interessa a Portugal é uma Espanha unitária", afirmou, sublinhando que "uma Catalunha independente na fachada mediterrânea poderia ser o contrapeso lógico ao centralismo espanhol". Segundo Carod Rovira, Portugal deve perceber que a independência da Catalunha nada tem que ver com a regionalização. "A Catalunha é como Portugal mas sem os Restauradores".

O vice-presidente do Governo da Catalunha recorre à História, designadamente aos acontecimentos de 1640, para afirmar que "se as coisas tivessem sido ao contrário, hoje Portugal seria uma região espanhola e a Catalunha um estado independente". No século XVII, durante o reinado de Filipe III, Madrid foi confrontada com revoltas em Portugal e na Catalunha mas o Império, apoiado pela França, reprimiu as sublevações catalãs e da Biscaia.

Josep-Lluis Carod Rovira, que fala e entende perfeitamente o português, garantiu ter "muitos aliados internacionais" para o que designa "projecto de independência para a Catalunha" mas recusou-se a aprofundar o assunto para não dar "pistas desnecessárias". Para Carod Rovira a situação da Catalunha é específica e não é comparável a nenhuma autonomia ou a qualquer processo de independência. "A Catalunha não é o Kosovo, nem é o País Basco, nem a Madeira", disse, considerando que "os processos de independência passam por três fases: ridicularização, hostilidade e aceitação. Neste momento, estamos entre a primeira e a segunda".

Relativamente à participação activa dos imigrantes na construção de uma futura "República da Catalunha", Carod Rovira afirma que "todos podem vir a colaborar numa nação que é permeável à contribuição exterior". Trata-se de um "projecto integrador", sublinha. "Quero ser independente e quero que Catalunha seja mais um Estado da União Europeia", salientou.


O governante propõe um referendo para 2014 por três razões: a primeira porque em 2014 "assinalam-se os 300 anos sobre a data em que Catalunha perdeu a condição de Estado"; a segunda porque termina o investimento previsto pelo Estatuto de Autonomia da Catalunha, em matéria de infra-estruturas, por parte do executivo espanhol; e em terceiro lugar porque em 2014 acabam as ajudas do Fundo de Coesão Europeu. "O ano de 2014 não é a data para a soberania mas sim para a democracia", afirmou.

Instado sobre se o seu projecto político tem o apoio popular, Carod Rovira diz-se convencido que sim, porque "todos estamos conscientes que a Catalunha não pode esperar mais. O défice com Espanha é insustentável. No ano passado, arrecadámos 140 milhões de euros para instituições sociais e Madrid ficou com 127. Isto é incomportável". Inquirido se o seu projecto de independência pode vir a perder força, tendo em conta que vai deixar de ser presidente da Esquerda Republicana da Catalunha, Carod Rovira responde que há "milhares de pessoas que querem construir um Estado diferente de uma Espanha plural que não existe".

Sobre o futuro da União Europeia, Carod Rovira defende que "todos os europeus querem construir uma Europa mas todos eles a partir do seu Estado. Nunca a Europa esteve tão unida como actualmente, mas também é verdade que nunca houve na Europa tantos estados independentes". O dirigente assumiu que uma visita a Portugal é um "tema pendente porque, afirma, "Lisboa é uma das cidades que mais estimo".

No gabinete oficial, no Palau de la Generalitat, Carod Rovira tem uma fotografia com o ex-presidente da Câmara de Lisboa, João Soares, mas esta não é a única referência a Portugal já que utiliza o menu do telemóvel em português e um cartão de visita bilingue: em catalão e em português. No seu último livro "2014 - Que fale o povo catalão", cita uma passagem de um poema de Manuel Alegre: "Só quem espera verá o inesperado".

in Público 18 Maio 2008

sábado, maio 17, 2008

sexta-feira, maio 16, 2008

Mai 68 XVI

LA CHIENLIT,
C'EST
LUI!
L'ANARCHIE,
C'EST
JE!

Herman ainda é grande...

Herman José merecia um ditado feito à sua imagem: mais vale cair em desgraça do que ser engraçado. Ele mudou o humor em Portugal, tornou popular o rir inteligente. Mas por isto e por aquilo - mas sobretudo por ser demasiado invejado - a roda pôs-se a desandar. E o engraçado que ele é passou a valer menos do que a sua desgraça (exagero, claro, mas apenas) - daí o novo ditado que sugiro. Chamo Herman para aqui por causa de um episódio de domingo passado, na entrega dos Globos de Ouro, na SIC.



Um cantor apareceu no palco para receber um prémio e, por razões que não interessam aqui, não estava em condições para estar num palco. Estar descontrolado em cima de um palco, com as câmaras a focar, pode ser fatal para um artista. E é prudente não partilhar os seus destemperos. Pois foi o que NÃO fez Herman José. Atirou-se ao colega, fez de parvo e de palhaço e conseguiu o que queria - desviar as atenções. Todos viram e poucos viram. Eu vi e fico a admirá-lo mais.

Ferreira Fernandes, in DN 14 Maio 2008

E Herman José ainda fez mais... e eu ainda o admiro mais...

a hipocrisia à portuguesa...

Eu não sou homofóbico! E felizmente ainda há alguns como eu... eu sei que somos estranhos, quase uma raridade neste pais de machos latinos e Zézés Camarinhas... mas acredito que apesar de tudo as minorias são grande parte das vezes mais esclarecidas do que a maioria silenciosa que tudo critica, tudo despreza e nada faz... Eu não sou homofóbico! Eu sou a favor de casamentos com esse nome, porque claro que sou a favor dos direitos consagrados na Constituição Portuguesa... pelo fim das hipocrisias!

A pergunta é de Shakespeare, na peça Romeu e Julieta. É Julieta que a faz, a propósito do apelido de Romeu e do facto de fazer parte de uma família rival. Julieta só se dá conta disso depois de se sentir atraída por Romeu, talvez depois de se apaixonar - ou apaixona-se porque descobre que o amor é proibido. Porque, afinal, nunca sabemos porque nos apaixonamos. Da paixão como deslumbrante mistério faz parte a ideia do amor à primeira vista: incompreensível, irracional, tantas vezes inconveniente. Fatal, até, como na peça de Shakespeare - mas quem defenderá que Julieta e Romeu deveriam desistir um do outro, porque o seu amor estava condenado a ser clandestino e a existir contra tudo, apesar de tudo?

Sucede que, pelos vistos, uns 70% dos portugueses - a maioria dos quais chorará baba e ranho pela sorte de Julieta e Romeu e se indignará contra a incompreensão que os condena - consideram ter algo a decidir sobre as paixões dos outros. Estas almas acham, segundo o tal do inquérito requisitado pela Coordenação do HIV/sida ao Instituto de Ciências Sociais, que "as relações homossexuais são totalmente erradas". Desconte-se o facto de esta resposta corresponder a uma pergunta despropositada ("acha que as relações homossexuais são erradas?") - a resposta é deprimente. Tão deprimente que as perguntas seguintes deviam ser: "Acha que o sexo entre pessoas do mesmo sexo deve ser proibido?"; "Que pena acha que deveria ser aplicada a quem for apanhado?"

Haverá quem esteja já a dizer que "não tem nada a ver uma coisa com a outra". Mas "totalmente errado" não tem duas interpretações. E proibindo o artigo 13.º da Constituição portuguesa a discriminação em função da orientação sexual, parece que 70% dos portugueses não concordam com a Constituição. Sendo a Constituição a lei fundamental e tendo de ser respeitada por todos, temos aqui um problema - o da legitimidade das leis versus a opinião da maioria. Claro que não foi inventado agora, a propósito da homossexualidade: será que a abolição da pena de morte ou da escravatura teve em conta a opinião generalizada, ou uma ideia de bem e de certo, de justo? Será que a maioria dos portugueses é (ainda) hoje a favor da inexistência de pena de morte?

Há perguntas chatas de fazer. Mas parece que umas são mais chatas que outras. E quem embandeira em arco com este resultado do inquérito do ICS, que parece vir mesmo a calhar para negar uma alteração do Código Civil que permita o casamento das pessoas do mesmo sexo, deveria levar a coisa às últimas consequências e propor a alteração da Constituição. Acrescentar um artigo: é permitida a discriminação em função da orientação sexual. É permitido à maioria decidir por quem se devem apaixonar as pessoas, e como têm o direito de consagrar as suas paixões; é permitido à maioria banir os homossexuais para a clandestinidade. De uma vez por todas, assuma--se a homofobia como um valor da sociedade portuguesa. Propostas de um nome especial para os casamentos homossexuais são homofobia envergonhada, que não se assume. Assumam-se. Repitam comigo: eu sou homofóbico. As coisas devem ter os nomes certos, certo?

Fernanda Câncio, in DN 16 Maio 2008

quinta-feira, maio 15, 2008

Mai 68 XV

LA NATURE N'A FAIT
NI SERVITEURS
NI MAITRES
JE NE VEUX DONNER
NI RECEVOIR D'ORDRES

quarta-feira, maio 14, 2008

Les Génies appartenant au peuple

La gloire n’est pas plus le but vrai du poëte que le bonheur n’est le but vrai de l’homme. L’un et l’autre n’ont qu’un but, la fonction accomplie, c’est-à-dire le devoir. Pour le poëte comme pour le philosophe, fonction accomplie signifie mission remplie.
Sur cette terre la fonction est donnée à tous, la mission à quelques-uns. Les esprits secondaires se satisfont de la fonction. Philosophes, ils se laissent « aller doucement à la bonne loi naturelle ». Poètes, ils chantent comme l’oiseau. Les esprits de premier ordre ont de plus grandes affaires.
S’ils se bornaient à ce gazouillement, ils sentiraient que Dieu est mécontent. La destinée, celle d’autrui surtout, ne doit pas être prise avec nonchalance.
Quiconque sait faire usage de la pensée finit par s’apercevoir qu’il n’y a point de choses indifférentes, et toute médiation dans un esprit sain et droit se termine par un éveil confus de responsabilité. Vivre, c’est être engagé.
La fonction dirigée par la conscience, c’est l’accomplissent du devoir, pour l’homme. Pour l’homme de génie, il faut quelque chose de plus, car il est homme, plus génie. Pour lui, la fonction doit être héroïque. Elle doit se faire mission. Elle doit être dirigée par la vertu.

(...)

Ces hommes-là, qui font ces choses, ces pères des chefs-d’oeuvre, ces producteurs de civilisation, ces hauts et purs esprits, quel moi ont-ils ? ils ont un moi incorruptible, parce qu’il est impersonnel. Leur moi, désintéressé d’eux-mêmes, indicateur perpétuel de sacrifice et de dévouement, les déborde et se répand autour d’eux. Le moi des grandes âmes tend toujours à se faire collectif. Les hommes de génie sont Légion. Ils souffrent la souffrance extérieure, nous l’avons dit ; ils saignent tout le sang qui coule ; ils pleurent les pleurs de tous les yeux ; ils sont autrui. Autrui, c’est là leur moi. Vivre en soi seul est une maladie. L’âme est astre, et doit rayonner.
L’égoïsme est la rouille du moi.
Le moi, nettoyé d’égoïsme, voilà le bon intérieur de l’homme. Ce moi-là donne deux conseils : Être, et devenir utile.
La pitié est juste, la pitié est utile. Quand le mot amour est dans la nuit, il se prononce pitié. Fraternité implique pitié, puisqu’il y a un grand frère et un petit.
Avoir pitié, cela suffit pour la plénitude d’une âme.
Avoir pitié, c’est probablement la plus grande fonction de Dieu.
La quantité de nécessité que Dieu subit, ne s’équilibre en lui que par une quantité égale de pitié.
Les génies ont pitié. C’est pour cela qu’ils sont les génies. Ils sont les grands frères. Les génies, au-dessus de l’humanité, ouvrent les ailes et joignent les mains.

(...)

Un génie est un fonctionnaire de civilisation.

(...)

Le génie est avant tout une bonne volonté.
Quoi ! à cette bonne volonté immense, pas de but !
Nous l’avons dit, et il faut le dire, le but, c’est le peuple.
Le but, c’est l’homme.

Victor Hugo (1802-1885) in Proses Philosophiques Des Années 1860-1865 (Publication Posthume)

Coincidências...

Curiosa esta noticia de mais um aumento da gasolina... curiosa porque realmente como já lera nalguns blogs parece haver uma coincidência, chamemos-lhe assim, no facto de todas as gasolineiras definirem os mesmos aumentos e ao mesmo tempo... como não acredito que estas se reunam num almoço ou jantar "off-the-record"... deve ser obra do Espírito Santo ou de um visionário conhecimento de toda a conjuntura internacional que se aproxima. Ou então é mesmo só coincidência, não é?...

Os preços dos combustíveis aumentaram esta madrugada pela 15ª vez desde o início do ano, subindo novos três cêntimos, em média, no espaço de uma semana para a gasolina e gasóleo, segundo números divulgados pela Associação Nacional dos Revendedores de Combustíveis (ANAREC) que considera nova subida "escandalosa".

Segundo o presidente da ANAREC, Augusto Cymbron, hoje ao início da madrugada, o preço do gasóleo passará dos actuais 1,339 euros para os 1,369 euros e a gasolina sem chumbo 95 passa dos 1,449 euros, para os 1,479 euros.

O responsável considera assim "escandaloso" que as gasolineiras insistam em aumentar o preço dos combustíveis, numa "especulação pura" do mercado, remetendo para o lucro reportado no primeiro trimestre pelas principais empresas do sector.

"Olha-se por exemplo para o resultado da BP no 1º trimestre, que obteve um lucro 63 por cento superior ao de igual trimestre do ano passado, e percebe-se. Como é que podem continuar a argumentar que os aumentos do combustível são motivados pela alta do petróleo", questionou.

Augusto Cymbron lembra ainda, a propósito, que o Ministério da Economia e da Inovação anunciou que pediu à Autoridade da Concorrência para que analise, com urgência, a formação do preço de combustíveis em Portugal, de forma a garantir que este reflicta os custos de produção. "É escandaloso que as subidas continuem a este ritmo, não sabemos como e quando isto vai parar", concluiu o presidente da ANAREC.

in Publico, 14 Maio 2008
obs: negritos de minha autoria

Mai 68 XIV

ILS POURRONT
COUPER TOUTES
LES FLEURS,
ILS N'EMPECHERONT
PAS LA VENUE
DU PRINTEMPS

terça-feira, maio 13, 2008

presos à forma...de letra em letra... os sentidos...

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Desci as escadas à pressa e pela janela
vi um Fiat Tipo,
que podia ser o teu,
e que podias ser tu lá dentro a esperar-me,
de braço na janela
brincando com as sobrancelhas ansiosas.
Não eras.
E fiquei mais triste.

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Apanhei o autocarro,
e entre pessoas, apertos e chegas-para-lá,
vi uns cabelos
que podiam ser os teus.
Essa cor de sonho sobre a forma de ondas
discretas e meigas
que me acariciam quando me adormeces.
Não eras.
E fiquei mais triste.

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Aulas e aulas,
sem a tua voz
entre vozes, gritos e sussurros.
Aulas e aulas,
e tu em lado nenhum...
E fiquei mais triste.

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Comboio de regresso a casa,
com um sol quente a dourar-me
como nas nossas praias preferidas,
dos verões que ainda estão por ser vividos,
a dois,
nós dois,
os dois.
E um cheiro ao teu perfume,
que me enrolava
os sentidos
naquele balanço doce do vai-vém.
Virei-me.
Não eras.
E fiquei mais triste.

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Estranha essa palavra saudade que rima com tantos sentidos,
quando eles já se perderam no seu próprio sentido de ser.

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Estranha essa palavra saudade que veste tantas formas,
e se despe ao meu primeiro olhar.

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Estranha essa palavra saudade que insiste em rimar
contigo, connosco e com ausência
e sobretudo sob a forma de amor
à distância...

Mas, eu lembro-me, o amor foi escrito naquele decreto-de-lei
que murmurávamos todas as noites
e que prometia que cada noite seria sempre a anterior da seguinte...

E que os teus pés frios
se enrolariam nos meus... como amantes...

Hoje...
estás em todo o lado...
como ontem...
e amanhã...

Está difícil...

Está difícil!
Tenho a fonte seca... Não há uma palavra que faça sentido. Escrita.Ou.Lida. E sinto um aperto. Sob a forma de garganta seca. Como a fonte. Dizem que quando se está triste se escreve mais. Mas nunca falaram, escreveram, cantaram de como custa quando se está sem força. E tudo custa. Quando a caneta pesa. Pesa como chumbo. E, desculpa, mas há quilos mais pesados do que outros. Este, está-me a custar (de)mais. E há um sol. Que queima. Um calor. Que embala. Um verde. Que refresca. Mas não há uma só palavra que me faça sentido neste caderno. Branco. Parece que a gramática virou a feitiçaria de alguns predestinados. E estas letras são seres demasiado solitários para quererem organizar a minha festa de despedida. Deixo-as, solitárias, nos livros da sala. Deixo-as, sós, na caneta. Que pesa. Desculpa.
Está difícil!

Paris, 09 V 08