sexta-feira, maio 16, 2008

a hipocrisia à portuguesa...

Eu não sou homofóbico! E felizmente ainda há alguns como eu... eu sei que somos estranhos, quase uma raridade neste pais de machos latinos e Zézés Camarinhas... mas acredito que apesar de tudo as minorias são grande parte das vezes mais esclarecidas do que a maioria silenciosa que tudo critica, tudo despreza e nada faz... Eu não sou homofóbico! Eu sou a favor de casamentos com esse nome, porque claro que sou a favor dos direitos consagrados na Constituição Portuguesa... pelo fim das hipocrisias!

A pergunta é de Shakespeare, na peça Romeu e Julieta. É Julieta que a faz, a propósito do apelido de Romeu e do facto de fazer parte de uma família rival. Julieta só se dá conta disso depois de se sentir atraída por Romeu, talvez depois de se apaixonar - ou apaixona-se porque descobre que o amor é proibido. Porque, afinal, nunca sabemos porque nos apaixonamos. Da paixão como deslumbrante mistério faz parte a ideia do amor à primeira vista: incompreensível, irracional, tantas vezes inconveniente. Fatal, até, como na peça de Shakespeare - mas quem defenderá que Julieta e Romeu deveriam desistir um do outro, porque o seu amor estava condenado a ser clandestino e a existir contra tudo, apesar de tudo?

Sucede que, pelos vistos, uns 70% dos portugueses - a maioria dos quais chorará baba e ranho pela sorte de Julieta e Romeu e se indignará contra a incompreensão que os condena - consideram ter algo a decidir sobre as paixões dos outros. Estas almas acham, segundo o tal do inquérito requisitado pela Coordenação do HIV/sida ao Instituto de Ciências Sociais, que "as relações homossexuais são totalmente erradas". Desconte-se o facto de esta resposta corresponder a uma pergunta despropositada ("acha que as relações homossexuais são erradas?") - a resposta é deprimente. Tão deprimente que as perguntas seguintes deviam ser: "Acha que o sexo entre pessoas do mesmo sexo deve ser proibido?"; "Que pena acha que deveria ser aplicada a quem for apanhado?"

Haverá quem esteja já a dizer que "não tem nada a ver uma coisa com a outra". Mas "totalmente errado" não tem duas interpretações. E proibindo o artigo 13.º da Constituição portuguesa a discriminação em função da orientação sexual, parece que 70% dos portugueses não concordam com a Constituição. Sendo a Constituição a lei fundamental e tendo de ser respeitada por todos, temos aqui um problema - o da legitimidade das leis versus a opinião da maioria. Claro que não foi inventado agora, a propósito da homossexualidade: será que a abolição da pena de morte ou da escravatura teve em conta a opinião generalizada, ou uma ideia de bem e de certo, de justo? Será que a maioria dos portugueses é (ainda) hoje a favor da inexistência de pena de morte?

Há perguntas chatas de fazer. Mas parece que umas são mais chatas que outras. E quem embandeira em arco com este resultado do inquérito do ICS, que parece vir mesmo a calhar para negar uma alteração do Código Civil que permita o casamento das pessoas do mesmo sexo, deveria levar a coisa às últimas consequências e propor a alteração da Constituição. Acrescentar um artigo: é permitida a discriminação em função da orientação sexual. É permitido à maioria decidir por quem se devem apaixonar as pessoas, e como têm o direito de consagrar as suas paixões; é permitido à maioria banir os homossexuais para a clandestinidade. De uma vez por todas, assuma--se a homofobia como um valor da sociedade portuguesa. Propostas de um nome especial para os casamentos homossexuais são homofobia envergonhada, que não se assume. Assumam-se. Repitam comigo: eu sou homofóbico. As coisas devem ter os nomes certos, certo?

Fernanda Câncio, in DN 16 Maio 2008

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