sexta-feira, maio 30, 2008

Introdução a uma arte poética

São como gotas

de água as palavras

pequenas células

que se estilhaçam

quando o silêncio

as toca de sombra

e claridade

palavras cujo eco

ressoa por abóbodas

e se desfazem

em coágulos vivos

de silêncio

ou se transmudam

em pedra

e são o que resta

de velhíssimas catedrais

submersas pelo tempo

a língua (e o poema)

estão nestas pedras

na grafia rigorosa do bolor

com que palavras

e pedras

se transfiguram

nos charcos de silêncio

onde se abem

os rios da lembrança

e do esquecimento

Luís Serrano, Poemas do tempo incerto, Vértice, Coimbra, 1983

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