sexta-feira, maio 23, 2008

Os estrangeiros nas artes em Portugal - perspectiva das entidades artísticas

O estudo do OI (Observatório da Imigração) cruza diferentes estudos sobre esta temática como os de Pinto Ribeiro, Gomes, Lourenço, Martinho e sobretudo de Cláudia Madeira com um conjunto de entrevistas a entidades artísticas portuguesas e artistas imigrantes.
Estas entrevistas tiveram dois tipos de critério:
primário – domínio artístico, sectores de actividade, e localização;
secundários – decision makers, origem estrangeira).
Em termos de concretização da entrevista esta teve quatro blocos orientadores:
caracterização institucional da entidade;
capital humano da entidade, em geral
;
capital humano da entidade, especifico;
representações sobre imigrantes no campo artístico português.
Na distribuição das áreas de actividade dos entrevistados é natural o predomínio do sector terciário, mais especificamente Dança, Musica e Pluridisciplinar.
Quando analisadas as motivações artísticas Portugal só é visto como um pólo atractivo para PALOP (a vida cultural nestes é reduzida); e países do leste europeu no âmbito da dança (pela existência de uma linguagem quase universal de expressão corporal).
A Música e a Dança são as áreas culturais onde mais uma vez devido à questão da língua/linguagem universal se denota uma maior abertura e a existência de menos entraves aos artistas imigrantes.
Pelo contrário no Teatro e Artes Visuais são notórios os impedimentos à entrada de imigrantes no mercado cultural. Um mercado já por si só saturado e evidentes diferenças no plano estéticas são algumas das explicações possíveis.
As redes artísticas de trabalho internacional como a Magicnet, para o teatro, possibilitam a troca de actores, personagens, experiências mas sobretudo permitem um diálogo intercultural entre as diferentes entidades artísticas.
A contratação de artistas estrangeiros depara-se regularmente com um problema na demora burocrática da legalização dos mesmos. Um período que pode ir até os seis meses pode facilmente ser entrave para a celebração de contratos de trabalho.
A produção artística tende, tal como na sociedade civil, a cair em preconceitos em relação ao Outro, e mais especificamente à atribuição de certas características a certas nacionalidades. A titulo de exemplo a imagem do Brasil do futebol, samba e Carnaval foi substituído na peça Em Brasa pela realidade resultante da viagem, e dos constrangimentos da língua.
O Teatro ao Largo e Teatro da Serra de Montemuro são projectos pioneiros e paradigmáticos do empreendorismo cultural de imigrantes. Estes projectos promovem uma clara vantagem competitiva para quem acolhe e para quem é acolhido porque origina a troca de ideias, imagens, técnicas e procedimentos e posteriormente uma melhoria do resultado final.
O público português é, de acordo com este estudo, tendencialmente favorável aos projectos artísticos interculturais, embora seja também evidente que a volatilidade e inconstâncias do mesmo podem dificultar a programação artística e que por vezes há um total desconhecimento em relação ao Outro.
A questão dos incentivos à produção artística é, provavelmente, a mais problemática. O estudo aponta que não há discriminação negativa em relação a imigrantes mas indica igualmente que há grande desconhecimento dos mesmos em relação aos seus direitos e procedimentos. A possibilidade de uma discriminação positiva divide, notoriamente, os artistas e entidades com os argumentos da necessidade de uma pretensa igualdade entre agentes, ou de que nada iria alterar o status quo vigente.
As conclusões principais apontam no sentido de as iniciativas de carácter intercultural e de integração imigrante terem uma maior causalidade na escolha dos programadores do que nas próprias entidades e estruturas, o que aparenta uma falta de visão global.
Fica também evidente que as diferentes áreas culturais originam diferentes comportamentos dos seus agentes, sendo que as artes performativas e dança são as áreas onde há maior abertura aos artistas imigrantes. Há um especial realce para a necessidade dos imigrantes tal como os nacionais conhecerem previamente o meio cultural, os seus agentes, leis e regras. Finalmente, a figura do imigrante, e o que este pode trazer enquanto agente de mudança, influi directamente na reconstrução identitária da cultura portuguesa nesta fase pós-colonial em que ocorre uma viragem para um mundo globalizado e multicultural.

2008 – É o ano Europeu do Diálogo Intercultural, e um pouco por todo o lado se encontrarão experiências culturais que procurarão retratar a realidade que se cria entre autóctones e imigrantes. - APROVEITE!

Sem comentários: