domingo, maio 25, 2008

Quarta a Quarto – Paris-Nantes em um quisto assim

Quarta começaram as dores no cóxis. Não liguei. Ou melhor liguei. Mas juro que dava para aguentar até Portugal, até Julho.

Quinta de manhã já se notavam dois pequenos inchaços na zona acima citada. A minha principal preocupação mais do que as dores era o meu aspecto visual que convinha que não começasse a ser o de um babuíno em idade adulta. Aguentei as aulas, fui a Paris levar o Luís ao TGV e no final do dia falei com a Goretti para ir ver o seu médico na segunda-feira seguinte.

Sexta. Aulas. Com alguma febre. Os alunos perceberam-no e estavam calmos. Parti depois para Nantes na esperança que o sr. Ben-u-ron cuidasse de mim. Ainda fiz uma bela passeata pela cidade enquanto o Luís estava no colóquio, e se não fosse a chuva chata as minha fisionomia de primata nem me incomodava muito. O jantar, muito agradável, foi num restaurante ao pé do hotel e em frente ao belo castelo de Nantes. Cama.

Sábado. Febre. Comprimidos. Acordar. Banho. Passear um pouco mais pela zona da ilha de Versalhes e almoçar num fast-food de massas.

Passeava pelas ruelas centrais de Nantes quando cerca de 40 a 50 marialvas se aproximaram, filando-me, para me sodomizarem à bruta. Lutei destemido, como é hábito aliás, e deixei-os de rastos num banho de sangue e ossos partidos. Dei-lhes uma lição e deixei-os gritando que ninguém se mete com “a verdadeira raça lusitana”. Foi nesse preciso momento que me apercebi que estaria gravemente doente e com febre pois fazer comparações e citações do mundo do hipismo só pode ser sinal de graves perturbações mentais e físicas.

Voltei para o hotel e dormi. Encharcado em febre. O Luís chegou ao final da tarde e apercebendo-se do meu estado chamou logo um médico. Conselho imediato. Hospital imediato. Parece que o quisto infectara e corria risco que a infecção se espalhasse a todo o organismo. Entrada de urgência na clínica de Saint Augustin, pelo que parece a 14º melhor em França. Sorte. Enfermeiras simpáticas que procuraram desde logo pôr-me a par de tudo o que tinha, e que me iria acontecer. As dificuldades habituais para encontrar as veias para meter soro e para tirar sangue. A febre continuava nos 39º e o meu ar era cadavérico, como se vê na foto seguinte.

Começaram a cair chamadas de diversos líderes mundiais desejando as minhas melhoras e as procissões em minha honra multiplicavam-se por toda a França. Liguei a TV e dava já um programa especial sobre a minha vida e como a minha morte poderia lançar a politica internacional num caos, num vazio sem precedentes, e poderia mesmo desviar ligeiramente a terra dos seus eixos. Achei melhor desligar. E adormeci sem dar por ela.

Domingo. Acordei às 5h30 com a anestesista para uma pequena entrevista. Logo nesse dia que tinha o fato para limpar na 5-a-sec. Paciência. Recebi-a numa esmerada bata branca aberta ligeiramente atrás. Deveras curiosa essa peça de roupa. Motivo, aliás, de longas reflexões na minha passagem pela clínica.
Depois, às 7h o médico veio dar-me algumas palavras. Umas 6. Era um homem de poucas palavras e muito bisturi.
Ás 9h tive direito a banho de betadine. Confesso que gostei de ver o bronzeado resultante. A repetir.
Pelas 10h, saí do quarto e fiz o “dead man in wheelchair walking” enquanto era reconfortado por senhoras próximas do Senhor. Confesso, no entanto, que não reconheci nenhuma da Última Ceia.
10h20 e duas enfermeiras falavam comigo sobre Lisboa.
Ás 11h40 (embora o relógio da máquina dos sinais vitais mostrasse que era uma hora antes) respondi algo ainda sobre Lisboa à enfermeira que passeava na sala. Eis que me apercebi que não era a mesma… enfermeira, sala, hora. Naturalmente pensei que tivesse morrido e que pudesse estar noutro estado. Mas não era o Céu porque chovia muito lá fora e não se ouvia o chilrear previsível. E o Inferno também não era porque a temperatura era amena e não cheirava a Chimarrão. Sala de recobro, talvez.
Ao meio-dia voltei para o meu quarto. Já sorria!
Ás 16h já comia umas bolachas que o Luís me trouxera e que naquela altura me pareceram divinais.
Duas horas depois via a Taça de Portugal num canal francês. A vida retomava os seus eixos… ou não… porque o Sporting ganhava jogando bem e o Tiui era o herói do jogo… teria eu entrado numa realidade paralela?

2 comentários:

Anónimo disse...

Bem... grande aventura. Coitadinho. espero que recuperes rapidamente. Beijinhos Grandes

christine disse...

Quelle aventure... bon courage


as melhoras... c'est comme ça qu'on dit

Beijinhos ao Luis