segunda-feira, junho 16, 2008

O Café do Bairro

Eles encontravam-se sempre no café do bairro. No fundo, nem era o único café do bairro mas era assim conhecido por já lá estar antes mesmo do bairro se conhecer, quando eram só umas vivendas atravessadas por uma estrada poeirenta.
Eles encontravam-se sempre no café do bairro. E falavam horas sob o olhar atento do dono, que fazia anos que os via ali sentados na mesa de esquina, aquela perto da janela. E que via outros, que antes deles se sentavam naquelas mesmas mesas e cadeiras que doutros tempos vinham.
Eles encontravam-se sempre no café do bairro. E ele tentava sempre contar-lhes histórias do bairro, do café, dele mesmo. E eles, sempre, com as suas vidas ocupadas iam acenando que sim até mais não. Eles gostavam do velhote, afinal ele era o Café do Bairro, e era lá que eles se encontravam desde sempre.
Nesse dia estava calor, era daqueles fins de tarde de Junho que custavam a passar a caminho do Julho das férias. Eles haviam chegado cedo ao café e os temas de conversa haviam-se esgotado ao ritmo das moedas para matrecos e bilhar. Agora permaneciam calados, olhando em volta e trocando cumplicidades em relação às voltas perdidas do dono do Café do Bairro, às resmunguices da dona da loja de roupas que bebia religiosamente o seu café cinco minutos depois três, hora da morte do seu falecido, ou mesmo dos toques para o telefone da esposa do dono do café que estava sempre doente com uma doença estranha que ninguém conhecia e que provavelmente nem sequer existia. Tudo repetições e bizarrias que faziam daquele café o café deles.
Eles encontravam-se sempre no café do bairro. E conheciam já cada canto como se fosse uma continuação dos seus dedos, braços, corpos, mente. Nada lhes era estranho.
Conheciam de cor os três azulejos partidos aquando de uma briga de bêbedos entre o falecido coveiro e o vice-presidente da junta, que perdera as últimas eleições, por causa de uns negócios de terrenos.
Conheciam de cor a mesa ao pé da toilette, torta e desequilibrada pelas dentadas do cãozinho da mademoiselle Alice, que não era nenhuma menina apenas uma velha que ficara para solteirona.
Conheciam de cor, como ninguém, o roncar do ar condicionado que já não refrescava e apenas dava ares de aragem de primavera anunciada.
Conheciam de cor os matraquilhos onde faltava uma pega pelas brincadeiras do filho do bombeiro, que já era um rapaz crescido e trabalhava nos correios de uma cidade próxima.
Conheciam de cor tudo. E todos.
Nessa tarde, alias, nesse fim de tarde o dono do Café do Bairro desligou o som do telefone, e apenas a luz vermelha que piscava ritmada mostrava os toques da sua mulher, sentando-se na mesa deles.
- Bem… Meninos – ele chamava-lhes sempre assim.
- Tenho uma proposta a fazer-vos… Sabem que… Bom… Eu tenho pensado muito e… – o seu discurso era sempre tão desordenado como os seus passos perdidos à procura do pacote de leite para o meio-pingado do talhante.
- Eu quero deixar isto. Eu sei que não sou artífice ou artista mas sinto este sitio como algo único e gostava de o deixar a alguém… que perceba este café. Percebem?
- Sim. Claro. – responderam em uníssono.
- Afinal este é o café do bairro e bem… vocês… quer dizer devem saber, acho eu, ou se calhar foi à menina Jacinta, bom vocês devem saber que não tenho filhos por causa da minha esposa, uma querida, não os pôde ter por causa da doença. E sabem com que pena minha…
- Claro. Claro.
- Bem, vocês… Quer dizer… eu… queria dizer… pensei que poderia ser simpático… vocês e o café… – afirmou por fim, arregalando infinitamente os seus olhos.
- O café? – disse um deles com uma voz trémula.
- O Café do Bairro? – repetiu o outro. – Para nós?
- Sim!
Eles sorriram. O café já era deles. O que podia mudar agora? Compreensivelmente o dono do Café do Bairro só queria uma resposta mas era difícil para eles mudar para uma vida assim de certezas tão incertas. Era para eles estranho mudar para o outro lado do balcão, nunca tinham sequer pensado nisso. Eles que nunca seriam os donos do Café do Bairro pois não há espaço para donos num espaço daqueles.
- Deixe-nos pensar… um pouco, por favor.
- Mas claro, meus meninos. Claro que sim. A vida não acaba hoje… começa amanhã. – disse convicto.
Eles levantaram-se de imediato, pagaram, e saíram apressadamente despedindo-se com um olhar conivente do velho e descendo as escadas do café em silêncio.
Como sempre, caminhavam em direcção ao jardim passando pela loja dos sapatos da sra. Luz e pela loja dos animais do sr. Chico. Tudo aquilo era a história deles. Uma história de final aberto. Olharam um para o outro e um sorriso cúmplice e matreiro denunciava a resposta. Amanhã começava algo novo.
Amanhã eles iam encontrar-se como sempre no café do bairro…

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