terça-feira, junho 03, 2008

O neto de Manuela Ferreira Leite

Não percebo porque é que toda a gente anda para aí a dizer que os 38% de votos que Manuela Ferreira Leite obteve nas eleições para líder do PSD são curtos, senão mesmo "insuficientes". Curtos? Insuficientes? A mim parece--me extraordinário que 17 342 pessoas tenham decidido votar na mais contrariada das candidatas contrariadas desde que os gregos inventaram a democracia. Se tivermos em conta a falta de empenho da senhora na campanha, a falta de jeito nos debates e o cultivo até ao extremo da pose que-chatice-estava-eu-aqui-tão-sossegada-a-ver-a-novela-e-agora-tenho-de-ir-mandar-no-PSD, Manuela Ferreira Leite saiu-se muitíssimo bem. E se no futuro as suas filhas deixarem de lhe dar netos em plena campanha eleitoral, talvez ela consiga realmente interessar-se pelo País e fazer dele a sua prioridade.

Eu gosto de Manuela Ferreira Leite, OK? Se eu fosse militante do PSD era certamente nela que teria votado. E pelo andar da carruagem nacional, é cada vez mais provável que seja nela que eu vou votar em 2009. Mas o seu alegado "desinteresse" pelo cargo, cujo cume foi atingido pela história do nascimento do neto, destrambelha-me a pituitária. É muito comovente uma avó largar tudo para ir a Londres fazer cutchi-cutchi numas bochechas ainda por estrear. Mas o que eu espero de uma candidata a primeiro-ministro de Portugal é a capacidade de colocar o País à frente da família. Com certeza que o último dia de campanha de umas eleições do PSD não é propriamente um grande assunto de Estado, mas é toda a rábula - incluindo a versão "olhem que se calhar não posso ir ao debate" - que torna a coisa tão irritante. Porque não se trata apenas de um fait-divers: o alegado desinteresse pessoal de Ferreira Leite é mais uma derivação cavaquista do homem (neste caso, da mulher) providencial, que estava ali pela Figueira a rodar o carro e ficou uma década a mandar no País. Não porque lhe apetecesse - que horror! -, mas porque teve de ser.

Ora, Cavacos já temos dois: um em Belém e outro, mais desbotado, em São Bento. Não precisamos de um terceiro à frente do PSD. Manuela Ferreira Leite tem um caminho duríssimo pela frente, desde logo porque um partido que volta a dar 30% ao desvairado Santana Lopes e produz um líder como Luís Filipe Menezes, que até na altura do adeus se limita a destilar ódios e ressabiamentos, não pode estar bom da cabeça. E para fazer face a isto é preciso uma genuína vontade de pôr senso na moleirinha dos indígenas e algum prazer em fazer política. Se os portugueses sentirem que Manuela Ferreira Leite tem tanto desejo de liderar a oposição como Amy Winehouse teve de subir ao palco do Rock in Rio, então ela não irá longe. Manuela Ferreira Leite ganhou. Está de parabéns. Se ela mostrasse, já não digo um sorriso, que seria muita loucura, mas um mínimo de contentamento, a honra não lhe caía na lama e eu dormiria bastante mais descansado.

João Miguel Tavares in DN, 3 Junho 2008

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