sexta-feira, junho 06, 2008

"O Preto deslavado"

Aconteceu em 2008, numa escola da zona de Lisboa. Numa discussão entre um jovem de 13 anos e uma professora, esta chamou-lhe "preto deslavado". A mãe foi pedir explicações ao director da turma. Este desfez-se em desculpas e não houve queixa formal. Não foi a primeira vez que a mãe do rapaz se confrontou com o racismo mais descomplexado. Periodicamente, é mandada para a terra dela - ela, que nasceu aqui há 35 anos. Às vezes responde, outras encolhe os ombros. Mas não usa isso como desculpa para desistir ou para se encostar: "Aos que dizem que para os pretos não há hipótese, que não vale a pena esforçarmo-nos, respondo sempre que o deus é o mesmo para todos e que nada cai do céu, nem para brancos nem para pretos."

É certo - mas é certo também que no retrato de família das elites portuguesas, a ausência de diversidade, digamos, cromática não deixa de acalentar a perspectiva derrotista dos que falam em "tectos de vidro", as barreiras invisíveis que impedem a progressão de certos grupos na escala social. Tectos que se sustentam tanto nas condicionantes externas como na atitude de quem deles se sente vítima - a tal atitude de quem se condiciona à partida, e se certifica, na ausência de exemplos positivos, da impossibilidade de os atravessar.

Não é fácil, claro, perceber por que razão não temos mais negros entre as elites políticas, culturais e económicas do país. Por que motivo não há um único pivot negro na TV portuguesa, por que há apenas um negro no parlamento (Hélder Amaral, do PP), por que há tão poucos jornalistas e comentadores negros, ou, mais prosaicamente, por que razão um grupo de negros num centro comercial sobressalta os seguranças.

Mas, uma semana depois de uma mulher chegar enfim à liderança de um dos dois grandes partidos portugueses, um filho de um queniano perfila-se como candidato democrata à presidência dos EUA. Goste-se ou não de Barack Obama e de Manuela Ferreira Leite, este é um momento para celebrar. Porque prova que é possível, porque derruba preconceitos e combate estereótipos e porque mostra que o tecto de vidro pode estilhaçar-se. Não impede, claro, que tanta gente continue a achar que "o lugar das mulheres é em casa" ou que "os pretos devem ir para a terra deles", ou que uma professora faça uma piada insultuosa sobre a cor da pele de um aluno. Mas permite que o aluno possa perguntar à professora se não quer chamar isso ao homem que pode vir a ser o próximo presidente dos EUA. Daquela que costuma ser descrita como a mais poderosa nação do mundo - e que, por acaso, é também um dos lugares onde o racismo é mais discutido e denunciado, e onde os movimentos de emancipação étnica e de género são mais assertivos e vigilantes. Nos EUA, esta professora dar-se-ia muito mal (como se dariam os que usam, para referir Ferreira Leite, epítetos relacionados com o seu aspecto físico). E doravante, dar-se-ão também mal os que vivem de desculpas e ressentimento, os que repetem "para os pretos não há hipótese": Obama conseguiu. Pode não mudar mais nada, mas isso já mudou.

Fernanda Câncio in DN, 6/6/2008

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