terça-feira, junho 03, 2008

Poesia de Junho III

Velório

Quando eu morrer

quero o homem da lotaria

a vender a sorte grande

e quero fazer uma vaquinha

ou melhor não uma vaquinha

perderei a cabeça

um dia não são dias

e pedirei um bilhete inteiro

só de ida por favor

e a malta já sem os corpos

baterá com gosto nos copos

a pedir dis-cur-so dis-cur-so

mas eu ficarei calado, a rir

Não mais figura de urso.

Quando eu morrer

vai ser uma grande festa

anedotas de mau gosto

contadas por toda a mesa

e tu a pedir silêncio

a malta a bradar é desta

e eu todo contente

Ó meu rico relógio d’ouro.

Quando eu morrer

vai ser do bom e do melhor

nada vai faltar

e o mais melhor bom de tudo

é que só tu não vais lá estar

e alguém fará um brinde

e dirá uma mentira simpática

e o patrão roubará no preço

porque nem depois da morte

somos bons a matemática.

Rui Zink

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