quarta-feira, junho 25, 2008

Polémica a caminho?

Encontrei isto no blog Spectrum...

Foi em Rio-de-Mouro City que conheci os fantásticos momentos das amizades infantis e da adolescência. No fim do século passado, o prédio onde morava foi alvo de uma mudança radical de população. Os apartamentos ocupados outrora pelas classes médias, são agora habitados pelas classes populares (terminologia “classista” que pode ser discutida). Grosso modo, os sacos de lixo começaram a voar pelas janelas, a música pimba começou a reinar, as discussões familiares tornaram-se públicas, enfim, toda uma panóplia de situações que nenhum sociólogo ousaria referir na Academia. Como “cidadã” sublinho estas situações, sem contudo ignorar, por um lado, de onde vêm estes habitus de classe, e, por outro lado, num sentido mais prático, o ambiente tenso e hipócrita de alguns prédios burgueses!
Na minha família criámos um ritual que consiste na etiquetagem dos diferentes clãs da vizinhança. Metemos, por exemplo, as seguintes etiquetas: “Os Quiquis”, “Os Cuscos”, Os Mongos”, “Os Racistas”, “Os Pequenotes”, “Os Trongas”. O meu clã, deveria ser chamado por sua vez “As Arrogantes (no feminino pois éramos todas mulheres)”. O clã dos Mongas era o alvo das críticas mais acutilantes, alimentadas por toda a arrogância de clivagem de classe existente entre nós e eles. Certo dia uma das minhas gatas arrogantes atirou-se às pernas da mãe Monga, por esta trazer consigo o seu cão Monga histérico. Foi a ocasião para a Monga de fazer uma grande peixeirada contra o clã das Arrogantes. Foi igualmente o início oficial do nosso mau estar habitat. Há cerca de um ano e meio, a mãe Arrogante não conseguiu aguentar o melting pot classista e étnico do prédio e lá teve que se fazer mudanças.
Este prédio já fazia parte do passado do clã das Arrogantes, quando recebemos a seguinte notícia: O pai Monga, com um cancro já avançado, matou a mãe Monga à facada em frente do filho mais novo. Foi este último, com nove anos, que telefonou para a polícia.
Parece-me agora sórdido pensar que pude ter pensamentos tão negativos em relação a esta família. Será esta família um simples produto de um Portugal de Miséria sem perspectivas optimistas de futuro? Não gostaria de entrar em argumentos miserabilistas de certas culturas populares, mas que sentido faz viver 20, 40, 60, 80 anos embriagado em valores estritamente materialistas de sobrevivência básica? Gramsci diria que todo o individuo é um filósofo, artista, uma pessoa de gosto requintado, participando assim numa determinada concepção do mundo. Mas... certas linhas de conduta só me apetece afastar do meu quotidiano... primeiro que se inventem meios de possibilitar a maximização dos recursos intelectuais de toda gente. E num país castrado culturalmente, como Portugal, é uma missão quase impossível! O “quase” é o meu resto de esperança no que diz respeito a um eventual aparecimento dos “tais” “intelectuais orgânicos”, no sentido de se salvar, entre outros, todas as famílias Mongas do inferno obscurantista da actualidade.

Aqui fica a minha resposta...

Num mundo perfeito, acho que podemos sempre sonhar com isso, não haveria subúrbios, nem "mongas", nem mesmo alcunhas, haveria só uma sociedade sem classes onde todos seríamos iguais.

Alias, já que estamos numa de sonhar podíamos mesmo pedir que fossemos todos ricos e vivessemos em belos edifícios construídos por S. Calatrava ou J. Nouvel.

Nesse mesmo mundo todos seriam multiculturais, cosmopolitas e mesmo interculturais... e viveríamos felizes com todas as outras comunidades, mesmo com aquelas que têm comportamentos "curiosos" como mandar o lixo pela janela porque como o mundo era perfeito nem isso fariam.

E claro que todos podemos falar livremente e de consciência descansada sobre a nossa relação com o Outro porque gostamos muito dele...

somos os primeiros a levantar os bracinhos, bater palmas e dançar no festival de Sines e nas festas politicamente correctas...

somos os primeiros a criticar a violência policial sobre o Outro, excepto quando rouba o nosso irmão mais novo...

somos os primeiros a criticar o Estado e o sistema politico vigente, mas nunca apresentamos propostas concretas que saiam da mesa de café ou do blog...


Não! O problema não está nas "classes populares" que tanto assustam com os seus hábitos, gostos e modos aparentemente incompreensíveis, nem nos académicos que criam e renovam conceitos sociológicos para explicar este mundo constantemente em mudança... o problema está nessas cabeças que dizem... "primeiro que se inventem meios de possibilitar a maximização dos recursos intelectuais de toda gente."...

Sim! Primeiro os Outros que façam algo para mudar este mundo de loucos que não compreendo...que depois eu cá estarei para recolher os louros na minha bela e mais segura casa em “Telheiras”.

Espero ansiosamente polémica...

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