terça-feira, julho 08, 2008

ainda a entrevista de M. Ferreira Leite...

APONTAR NA AGENDA: NÃO DIZER PRO-CRI-A-ÇÃO

Cara Manuela Ferreira Leite, apesar da sua idade e da sua experiência, deixe-me dar-lhe um conselho: nunca - mas nunca - utilize a palavra "procriação". Ninguém, a não ser padres e freiras, pode usar a palavra "procriação" e sair de mansinho de uma conversa, como se não fosse nada. Procriação cheira a incenso. Procriação cheira a naftalina. A rebuçados do dr. Bayard. A Farinha 33. Aos tempos em que só havia a A1 e a A2. Para sua informação, cara Manuela, Portugal já vai na A44. Portanto, ponha um post-it no porta-moedas: "procriação, não." Se de repente estiver no meio de uma entrevista à TVI e começar a pensar "ah, e tal, a procriação" - shut, ponha logo a mão na boca. Procriação, não.

Se começar por arrecadar esta palavra numa prateleira da cabeça onde só chegue de escadote, evitará dizer barbaridades como aquela da família "ter por objectivo a procriação", mais os comentários destrambelhados sobre os homossexuais. O que me assusta em si, cara Manuela Ferreira Leite, é o seguinte. Pegue num rapaz como eu, que já votou em vários partidos, mas que tudo somado terá votado mais vezes no PSD do que nos outros. Este rapaz tem, à partida, boa impressão sua: senhora séria, que demonstrou tenacidade enquanto ministra das Finanças, avessa às alucinações do PSD, enfim, alguém capaz de ficar com o seu voto. Mas depois, a Manuela ou está calada ou começa a falar e diz isto: 1) Que o Estado tem de se preocupar mais com os pobres do que com o TGV, e 2) que os homossexuais não podem procriar, logo não podem ter uma família, logo não podem casar. E é neste ponto que o meu coração começa a bater pum, pum, pum, pum.

É que para um rapaz como eu, que está mais para a direita do que para a esquerda nas políticas mas que é liberal nos costumes, a Manuela Ferreira Leite está a defender o reforço de um estado social e da subsidiodependência, que é coisa de PCP, para depois se mostrar altamente conservadora em matérias individuais, que é coisa de CDS-PP. E assim, de repente, olho para si e vejo-me no pior de dois mundos. Estamos trocados, eu e você. Por um lado, quando se mostra muito preocupada com o estado do país, parece que se lhe poderia aplicar, com o devido twist, a blague de Nani Moretti: "Uma coisa de direita, por favor, diz uma coisa de direita." Por outro, quando fala de família e homossexuais, levo com um uppercut do punho destro que me deixa estendido no tapete.

E é no tapete que me encontro neste momento, a ver "procriações" a rodar à volta da minha cabeça e à espera que alguém me estenda a mão. Este país anda a ficar esquisito. Eu ouço Sócrates, eu vejo-a a si, e, muito francamente, é demasiada confusão ideológica para a minha camioneta. Eu sei que esquerda e direita são categoriais movediças - mas também não vale a pena exagerar. Como costumam dizer os colunistas inteligentes: voltaremos a este assunto.

João Miguel Tavares in DN, 8 Julho 2008

obs: partilho em grande parte esta visão... excepto a parte do voto à direita... mas como Schopenhauer dizia: para ter sempre razão convém saber pegar no que outro diz...só na parte que nos interessa...

Sem comentários: