sexta-feira, julho 18, 2008

Imagens

A crueza das imagens televisivas dos confrontos no bairro da Quinta da Fonte impele a que confundamos tudo.

Nestes momentos importa não ceder às primeiras impressões (como, por exemplo, a de tentar ligar os acontecimentos à "imigração", numa leitura precipitada e infundada...) e saber distinguir as manifestações exteriores e as causas dos acontecimentos.

Tratou-se de um grave problema de violação da ordem pública. Os seus responsáveis têm de ser identificados e punidos, independentemente da motivação dos confrontos. Quem viola a lei tem de ser responsabilizado.

A violência prende-se com a existência de um tráfico de armas. Há que prosseguir na aplicação da lei de recuperação e apreensão de armas, tendo sido confiscadas cerca de duas mil entre Janeiro e Abril deste ano, mais de 170 das quais na zona de Loures. Isso significa que esta é uma área prioritária de intervenção.

As causas dos confrontos prendem-se com a existência de grupos organizados ligados a formas de delinquência. Pois é então necessário reforçar o policiamento de proximidade para isolar os radicais e delinquentes (sempre uma minoria numa comunidade que na sua esmagadora maioria é respeitadora da lei e quer viver em tranquilidade e segurança) e prevenir estes actos actuando sobre as suas actividades criminosas.

Há questões de índole social que estão na base destes incidentes, sem dúvida. Mas a exclusão social não constitui causa de desculpa da violação da lei.

Tanto mais que a autarquia de Loures tem um vasto trabalho de combate à exclusão social há vários anos e muito especificamente junto das minorias religiosas e étnicas do concelho. Silenciar o mérito deste trabalho só por causa daquelas imagens de violência é acima de tudo uma grande injustiça e um desincentivo ao trabalho daqueles serviços sociais, da câmara e do Estado, que actuam no concelho.

Durante muito tempo pensámos que a sociedade, por si só, cuidaria da integração e do combate a fenómenos de exclusão relacionados com a diversidade étnica e cultural. É esse défice de anos que estamos agora a pagar. Tal como a pouca atenção dispensada a estas dimensões culturais nos planos de realojamento.

A aceitação das diferenças exige pedagogia cívica e mecanismos eficazes de integração social. As reacções racistas e xenófobas não estão indexadas a nenhuma cor de pele em especial. Os conflitos recentes na África do Sul falam, a este propósito, de forma eloquente.

Mas não se pode pedir às polícias que façam aquilo que não compete às polícias. Tem de ser o Estado no seu conjunto e também a sociedade civil, com a colaboração das associações representativas das comunidades em presença, a enfrentar o problema e a encontrar para ele soluções.

A mediação pública é, pois, um factor de apaziguamento das tensões e de incentivo ao diálogo e à concertação. Esse é o exemplo que merecia ser também traduzido em imagens televisivas.

António Vitorino in DN, 18 Julho 2008

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