terça-feira, julho 29, 2008

Uma viagem memorável

1 . A viagem de Barack Obama pelos cenários da guerra do Médio Oriente (Afeganistão, Iraque e Israel) e pela Europa (Alemanha, França, Reino Unido) foi uma volta triunfal digna de um chefe de Estado em exercício. Assim foi vista pelos presidentes e primeiros-ministros que o receberam e por 200 mil entusiásticos apoiantes, em Berlim, onde pronunciou um discurso histórico, dirigido especialmente aos europeus. Fez lembrar o célebre discurso de John Kennedy, nas portas de Brandeburgo, junto do Muro de Berlim, quando disse: "Somos todos berlinenses..."

Obama fez bem em começar a sua viagem pelo Afeganistão, a que chamou, sem rigor, quanto a mim, "guerra certa". Fez bem porquê? Porque é a guerra mais perigosa, cuja retirada é mais complexa, visto ter tido o aval das Nações Unidas (infelizmente, do meu ponto de vista) e ter contado com o envolvimento da NATO, indevidamente, como escrevi, na altura própria, num artigo intitulado "Um precedente perigoso". Tão perigoso que poderá conduzir, se as coisas se complicarem, como receio, ao descrédito e à implosão da própria NATO.

Dali seguiu para o Iraque, a "guerra errada", como disse - e bem. Voltou a falar em 16 meses para a retirada das tropas americanas e a prometer a paz na região. Tarefa difícil.

Obama não tem, como alguns americanos têm sublinhado, grande experiência nas relações internacionais. Mas tem uma visão do mundo de hoje e da América, no contexto global, que o situa nos antípodas da política seguida pelo Presidente Bush. No discurso de Berlim, pediu aos aliados europeus para "ajudar a América" num "mundo multilateral, sujeito a enormes desafios", pretendendo retomar, como disse, a missão pioneira da América, com humildade, reforçando o papel das Nações Unidas, como instância necessária à paz, e as "relações transatlânticas", sem impor nada, mas, pelo contrário, negociando os consensos alargados necessários. Apelou em favor de um mundo "desprovido de armas nucleares", tendo aproveitado as cinco horas que esteve em Paris para fazer uma séria advertência ao Irão. E, finalmente, não se esqueceu de insistir nos problemas ecológicos, na questão das perigosas alterações climáticas e na necessidade de ir além dos Acordos de Quioto, que Washington não subscreveu até agora. Uma aproximação significativa das posições do seu correligionário democrata Al Gore, que pode ter um sentido político, em termos da escolha do seu vice-presidente...

Com alguns acentos religiosos, caros aos americanos médios, Obama citou Franklin D. Roosevelt, falando da necessidade "de combater os demónios imediatos e da promoção do bem definitivo". A desilusão dos europeus em relação à política externa americana actual resulta, segundo ele (cito), "das altas expectativas em relação a nós". O actual Presidente - disse - "ocupou, nos últimos sete anos, a Casa Branca, mas o posto do líder do mundo livre esteve desocupado".

A maneira como Barack Obama foi recebido - e falou - no Médio Oriente e na Europa, nesta sua viagem memorável, não pode deixar de ter impressionado os eleitores americanos.

Revelou ter por toda a parte redes de apoiantes, espontaneamente recrutados, como na América, capazes de criar um movimento altamente dinâmico que não vai parar de crescer até ao dia das eleições e que não deixarão de o condicionar - espero - depois delas.

2.Nelson Mandela celebrou 90 anos, perante os aplausos unânimes do mundo inteiro. Antigo "terrorista" - assim considerado pelos sul-africanos brancos - na luta anti-apartheid, pelo que sofreu 27 anos de prisão, é hoje uma referência ética e ideológica em todas as latitudes. Pela sua vida, pelo seu idealismo, pelas suas profundas convicções humanistas e pelo seu carácter e personalidade. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente. Assisti à sua posse como presidente e visitei-o depois, longamente, nessa qualidade. Sempre o admirei e admiro. Bem como a sua mulher, Graça, uma pessoa superior. Felicito ambos. Fazem falta neste mundo tão conturbado e egoísta.

3.Reuniu-se em Lisboa a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no final da semana passada, sem que os portugueses dessem muito por isso. A comunicação social, ao referir e comentar o acontecimento, ocupou-se, como de costume, do acessório, deixando escapar o essencial. E o essencial é a importância que tem para Portugal - e para o seu futuro como país membro da União Europeia - uma organização de defesa da língua portuguesa que conta mais de 240 milhões de falantes portugueses espalhados por cinco continentes.

Mas não só pela língua - o que, em si mesmo, é importantíssimo - como instrumento de comunicação, em grande expansão. Mas também por ser uma Comunidade de afectos, e solidariedade - no domínio cultural, político e económico - e de paz, no plano estadual internacional.

Trata-se de uma organização entre Estados soberanos - e, portanto, dos respectivos governos -, mas também, a meu ver, das respectivas sociedades civis, nos planos da cooperação cultural, científica, tecnológica, energética, alimentar, ambiental e da luta contra as grandes pandemias, como a sida, a malária e a tuberculose.

A Cimeira de Lisboa inicia a presidência portuguesa por dois anos, que espero sejam fecundos para o desenvolvimento de um melhor conhecimento entre as populações e no domínio da cooperação entre todos os Estados membros, o que inclui uma protecção especial aos emigrantes que habitam noutros Estados membros, designadamente em Portugal.

À cimeira faltaram, lamentavelmente, os chefes de Estado dos dois maiores Estados membros africanos: Angola e Moçambique. Foi pena, sobretudo quando Angola, que se prepara para realizar eleições em breve - as primeiras, depois de um longo período de guerra - de que, por sinal, a imprensa portuguesa, estranhamente, tem falado muito pouco. E são importantíssimas, se forem livres, como esperam os observadores internacionais e como sublinhou, recentemente, o grande escritor angolano Pepetela.

Na cimeira esteve, felizmente, muito empenhado e activo, em grande destaque, o Brasil (e o seu tão prestigiado Presidente, Lula da Silva): o maior país da CPLP, tanto em potencial demográfico e extensão, como quanto à criatividade das suas elites culturais e científicas e ao seu actual dinamismo económico, como grande potência emergente nos nossos dias. Esperemos que a CPLP, seja, para a presidência portuguesa, uma das grandes prioridades da nossa política externa e siga o exemplo do Brasil, nomeando junto da CPLP um dos seus mais competentes e empenhados embaixadores.

Mário Soares in DN, 29 Julho 2008

1 comentário:

Dani disse...

Fortaleza, Salvador, Morro de São Paulo, Porto Alegre, isso tudo e muito mais você encontra no site www.rbhpraias.com.br
É só clicar para reserva seu hotel. E não deixe de conferir os excelentes preços, um ótimo atendimento e com total segurança!