terça-feira, dezembro 30, 2008

listas de fim de ano...

Adoro listas de fim de ano. Parte do meu subsídio de Natal vai para a aquisição de revistas gordas de balanços, seja o melhor de 2008, the best of 2008 ou le meilleur de 2008: avalio gostos e diversidades culturais, recupero títulos que me esqueci de comprar, descubro nomes de que nunca ouvi falar. É uma forma de combater o peso excessivo dos "clássicos", que sempre dominou a cultura da crítica - aquela tese perversa de que o melhor é sempre o que já foi feito há muito tempo, numa espécie de alergia à excitação do presente. Ora, eu sempre gostei do presente, que bom ou mau é aquele que nos foi dado habitar, e as listas de cada ano têm sempre essa virtude de sublinhar a ideia de que o génio humano nunca nos abandona. É uma forma de conforto existencial, se quiserem. Por isso, em homenagem a 2008, resolvi verter para aqui o meu best of pessoal, nas três áreas mais importantes da cultura pop contemporânea: os filmes, os livros e a música.

Filmes. Se escolhesse o filme da minha vida, o eleito teria de ser Magnólia, de Paul Thomas Anderson, porque, por muito que admire Hawks, Ford, Lang, Sirk e tantos outros, existe uma diferença substancial entre ir ver uma obra-prima à Cinemateca e descobrir uma obra-prima no cinema. O mesmo PT Anderson ofereceu-nos agora Haverá Sangue, épico de uma ambição gigantesca, só à altura de dois reclusos com egos desmesurados: o próprio Anderson e Daniel Day-Lewis. O resultado é um retrato assombroso da América e da sua fractura original - a luta eterna entre o amor que é devido a Deus e a paixão arrebatadora pelo dinheiro. No entanto, para quem preferir não descer aos abismos da alma humana, há uma empresa que continua a ser o sol cinematográfico das nossas vidas: a californiana Pixar. Este ano saiu o maravilhoso Wall.E, e a verdade é que nem nos seus tempos de glória a Disney conseguiu produzir em carreiro tantos filmes extraordinários. É mais um elogio ao nosso presente.

Livros. E agora, um elogio ao passado. O tempo tem sido de vacas gordas quanto à edição de clássicos, mas ainda assim foi um prazer ver chegar às livrarias tantos títulos de Machado de Assis. Depois da Cotovia, foi a vez de a Relógio d'Água apostar no génio brasileiro, permitindo-nos ter Dom Casmurro, Quincas Borba ou Memórias Póstumas de Brás Cubas ao alcance da mão. Disse "elogio do passado"? Errei: poucos escritores são tão contemporâneos, pelo estilo e pela avassaladora ironia, quanto o mulato oitocentista Machado de Assis.

Música. A boa surpresa: voltaram a aparecer portugueses com gosto de se exprimirem em português. Mesmo para quem o colectivo FlorCaveira possa soar demasiado atrevido, existe sempre o (justo) fenómeno Deolinda e a descoberta - ainda que tardia - de um cantor de excepção: António Zambujo, cuja música parece nascida de um affaire do fado com a bossa nova numa pensão de Beja. Ouçam Outro Sentido, que faz sentido. E tenham um óptimo 2009.

João Miguel Tavares in DN, 30 XII 2008

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