segunda-feira, dezembro 15, 2008

O PAÍS ONDE COM 700 EUROS SE COMPRAM 2100 PEDRAS

Imaginemos um pequeno país da Europa do Sul, com pouco mais de dez milhões de habitantes. Um país com uma história admirável que, aliada ao clima solarengo e à beleza da sua costa, atrai todos os anos milhões de turistas. Um país onde apesar dessas generosas divisas trazidas pelo turismo (que se somam às remessas da emigração), a economia é ainda frágil. E que, antes do grande alargamento a Leste em 2004, fazia parte do habitual trio dos mais pobres da União Europeia.

Imaginemos um país onde a Igreja tem uma tradição de grande influência, que só se libertou da ditadura em 1974 e que viu o seu processo de democratização legitimado pela integração europeia na década seguinte. Um país onde subsistem as desigualdades sociais, em que se calcula que um quinto da população seja pobre e onde os jovens, mesmo com estudos superiores, têm pela frente a ameaça do desemprego ou do trabalho precário com os famosos salários na casa dos 700 euros.

Imaginemos um país que se habituou a ser admirado pelas glórias do passado, mas que, num esforço de transmitir uma ideia de modernidade, organizou em 2004 uma grande competição desportiva internacional. Um país que nos últimos anos, graças em boa parte a um seleccionador estrangeiro, causou surpresa no mundo futebolístico e que exporta agora estrelas - a mais conhecida joga num clube que veste de vermelho.

Imaginemos um país membro da NATO, onde duas forças políticas (uma socialista, a outra conservadora) alternam há três décadas no Governo, mas que continua a ter um partido comunista que resistiu à queda do Muro de Berlim e obtém votações de 8%.

Se já respondeu Portugal, errou, mas não se desiluda. Podia perfeitamente ser. Na realidade trata-se da Grécia, um país que nos últimos dias tem sido assolado por uma vaga de violência que está a chocar a Europa. Depois de um grupo de jovens lançar pedras à polícia, e na resposta um agente ter matado um rapaz de 15 anos, a revolta saiu à rua em Atenas. E na contestação, com destruição de lojas e bancos e carros, juntaram-se todos os descontentes, desde os anarquistas aos sindicatos, passando por muita gente nova que não vê perspectivas de emprego e aqueles que culpam o Governo conservador pela crise. No caos, houve até quem usasse a imaginação para ganhar dinheiro: há jornalistas que viram jovens a vender pedras (três a um euro).

A Grécia, apesar das óbvias semelhanças, não é Portugal, e nada indica que exista um efeito de contágio de Atenas para Lisboa. Mas convém estar atento. Sobretudo aos tais 700 euros que se pagam hoje em muitos empregos para licenciados (para os outros ainda é pior, basta ver os classificados dos jornais). É que 700 euros não dão para nada em Portugal. Mas na Grécia já pagam 2100 pedras.

Leonídio Paulo Ferreira in DN, 15 Dezembro 2008

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