quarta-feira, dezembro 17, 2008

Sociedade e cultura no século XIX – a Paris de Balzac a partir de Père Goriot

O realismo é provavelmente uma das estéticas literárias mais importantes na história contemporânea pela forma como retratou e reflectiu o seu tempo em termos sociais, mas também as novas concepções politicas, científicas e culturais. Nesse sentido, as obras de escritores como Balzac, Flaubert ou Zola têm o maior relevo pois espelhavam hábitos e costumes da sociedade francesa, sobretudo das classes mais desfavorecidas.

Père Goriot que foi escrito em 1834 e publicado um ano depois, é parte integrante da vasta obra Comédia Humana, e retrata com pormenor a Casa Vauquer e os seus locatários, sendo através destas pormenorizadas discrições que o leitor toma conhecimento de alguns quartiers parisienses mais populares no inicio do século XIX.
Nas cuidadas e extensas descrições da casa da Sra. Vauquer e do quartier envolvente fica patente a arquitectura e decoração típica destas pensões que recebiam estrangeiros como o marquês d’Ajuda-Pinto, franceses de outras regiões como Eugéne de Rastignac, pobres e delinquentes como Maxime de Trailles, ou os próprios trabalhadores da casa como a cozinheira Sílvia ou o moço dos recados Sebastião.

Esta obra atinge igualmente um valor significativo enquanto material histórico pelas abundantes descrições dos diferentes personagens. Nestas vemos reflectidos os diversos meios sociais e as diferentes origens das pessoas que em 1819 se deslocavam para Paris para trabalhar, estudar ou passear.

A titulo de exemplo, uma reflexão sobre o personagem do “tio” Goriot mostra-nos um antigo fabricante de aletria, massas e amido que pouco mais tinha para dar do que sessenta francos por mês para alimentação e alojamento , assim como muitos outros reformados que se instalavam nos bairros mais pobres de Paris. E tal como os outros moradores da pensão a sua indumentária mostrava as suas graves debilidades económicas com “sobrecasacas cuja cor se tornava indistinta, o calçado era igual ao que é abandonado às esquinas dos bairros elegantes, roupa branca no fio, o vestuário coçado.”

Também os trabalhadores fabris que no início do século XIX chegavam em grande número de outras zonas de França às zonas periféricas de Paris se encontram aqui fielmente representados pelo Sr. Poiret. Este mecânico com “a cabeça coberta com um boné quebrado, (…) deixando flutuar as abas amarrotadas da sobrecasaca, a qual mal ocultava um calção adejante, as meias azuis calçando pernas que vacilavam como as de ébrio, mostrando o colete branco-sujo e as pregas da grosseira musselina enrugada (…) é igualmente um excepcional retrato dessa massa amorfa que enchia as fábricas durante a jornada de trabalho e que posteriormente se perdia nas tabernas.

Outra das personagens que é importante destacar é de Eugéne de Rastignac, porque será um personagem que se encontra em outras obras de Balzac e porque é um exemplo da presença e comportamentos da aristocracia. Filho de um barão de Charente, Eugéne é ainda um jovem estudante que chegado à grande cidade, como tantos outros, se deslumbra por tudo o que o rodeia. Destaca-se a sua amizade com Vautrin, um antigo comerciante, e a sua paixão por Delphine de Nucingen, filha do “tio” Goriot. A sua caracterização física demonstra desde logo diferenças substanciais em relação aos outros personagens populares pois ele tinha “um rosto perfeitamente meridional: tez branca, cabelo preto, olhos azuis.” Mais do que isso o seu comportamento e maneiras eram de alguém de boas famílias e cuidada educação, e se o seu fato e casaca não eram por vezes novos a postura que tinha e a companhia de Vautrin davam-lhe um ar fino.

A referência a estes três personagens está longe de ser casual, eles testemunham e representam os indivíduos que neste período de alguma instabilidade politica com a segunda Restauração se deslocavam para a capital, porque esta era apesar disso um local mais apetecível em termos de trabalho e dinheiro do que o interior. Mas reflectem também as dificuldades económicas que se podiam sentir enquanto trabalhadores em sectores emergentes como a industria como o Sr. Poiret ou reformados como o “tio” Goriot. Através das diversas caracterizações e descrições presentes neste excerto fica também visível o pouco engajamento político dos personagens, o que leva a concluir que apesar da crise e instabilidade da época o interesse pela política em qualquer extracto social não era significativo.

Mais do que isso, não há quaisquer referências históricas aos acontecimentos políticos que varriam a França, como a inclusão na Santa-Aliança ou o congresso de Aix-la-Chapelle, o que parece apontar que Balzac, como outros realistas, procurava sobretudo representar a vida social e cultural dos personagens fazendo as suas criticas politicas através da descrição mais crua e real possível.

bibliografia: BALZAC, Honoré, Papá Goriot, Lisboa, edição Amigos do Livro, s/d

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