sexta-feira, janeiro 30, 2009

e a chave do euromilhões é...

A Islândia poderá aderir à União Europeia(UE) em 2011, ao mesmo tempo que a Croácia, naquela que seria a mais rápida adesão de sempre de um Estado à União, revela a edição de hoje do diário britânico Guardian.

in Público, 30 Jan 2009

Parece que a minha opinião e previsão sobre o futuro da crise na Islândia, como foi indicado neste post, tem mesmo bases fundamentadas... para breve prometo novos exercicios de tarot, astrologia e outras ciências ocultas...

"como uma longa excursão"


“A memória é o maior tormento do homem.”

Friedrich Nietzsche

Se a vida fosse tão simples como nos filmes contratávamos sempre uma equipa de “apagadores de memória” e erradicávamos para sempre as terríveis desfeitas amorosas e todas as outras desavenças vividas.

Mas, o despertar da mente existe na nossa capacidade de criar e recriar a informação perdida na nossa memória e transforma-la em algo tormentoso. Podem ser 26 cães danados ou um repetitivo levantar das águas, mas a memória estará sempre lá a abrir a ferida esquecida.

Foi assim com o massacre de Wiriamu, em 1972, e em muitas outras atrocidades em que jovens militares portugueses participaram sem saber bem como tudo aconteceu. Foi assim, em 1982, no massacre de Sabra e Shatila. Em ambos a inocência que se perdia a cada tiro disparado. Uma maturidade agarrada pelos colarinhos do amigo morto nos braços. Em ambos o doce sabor do esquecimento auto-infligido.

Ari Folman nasceu em 1962. Era criança quando nas colónias portuguesas se matava sem razão. Ou só com a razão de alguns. Era jovem, talvez demasiado criança, quando foi enviado para o Líbano. Com razão? Talvez…

E qual a razão para o completo esquecimento de tudo o que foi vivido naqueles dias? Entre amigos, companheiros de guerra, psicólogos, uma resposta: cada um lida à sua maneira com a dor. Podem ser pesadelos, ataques de raiva, esquecimentos, crises de choro, tudo faces da mesma dor. A de recordar.

Ari Folman terá afirmado que este filme nunca poderia ser filmado com actores. E não podia mesmo. Perderíamos aquela ténue dança entre o mundo onírico e terreno que os traços de David Polonskey e Yoni Goodman souberam criar. Não teríamos os jogos de cores e tons que tão acutilantemente transpuseram ambientes dicotómicos de guerra e paz, selva, cidade e praia, noite e dia, sonho e vida. Mas, continuaríamos a ter o trabalho excepcional de Max Richter, discípulo de Luciano Berio, a criar atmosferas únicas e a transmitir uma imensidão de sensações que nunca trouxeram verdadeiramente paz a Ari Folman.

Uma paz que nunca chega a quem viveu morte e dor. De perto. Mas, pode chegar a redenção e este filme é um pouco disso. Dessa demanda que é muito mais profunda do que uma crise de meia idade de Boaz Rein Buskila e de Ari Folman. Nas conversas, ou desabafos sem divã, com Ori Sivan, o melhor amigo, encontramos a procura de respostas de um país e de uma geração que, tal como muitas outras, se vê arrastada para guerras sem sentido. No conforto das palavras de Ori há um apoio que parece falhar no pragmatismo de Dror Harazi, Shmuel Frenkel ou mesmo Carmi Cna’an. Se todos eles viveram a guerra e vivem-na ainda hoje, cada qual à sua maneira a verdade é que uns vivem com arrependimento, outros com pragmatismo. É exactamente nessa comparação que reside parte do fascínio e beleza deste filme.

Mas, há ainda outro nome que marca esta valsa e mais do que isso a história recente de Israel. Com a inversão dos papéis, em que entrevistador é entrevistado, temos acesso à visão de um homem que esteve por perto do massacre e dos círculos de poder e decisão. Nas entrevistas com Ron-Bem-Yeshai há a culpa de um povo que não se pode desculpar com a ingenuidade dos jovens que a tudo assistiram sem nada fazer. Mas, há também uma imputação de culpa a Ariel Sharon e à forma como o poder político fechou os olhos ao massacre naquela noite. A mesma culpa que o mundo ocidental partilhou aquando do genocídio do Ruanda e dos crimes no Kosovo, os quais Ron Yeshai sempre assistiu e sempre testemunhou para não deixar esquecer.

Para não deixar esquecer e para que tudo não passe de uma “longa excursão” pela qual passamos feitos mortos-vivos temos aqueles últimos momentos. Sem animação. Apenas a cruel realidade dos sem memória tirada dos arquivos.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Divulgação ecológica

A Quercus e a empresa Águas do Oeste estão a iniciar um projecto na área do uso eficiente da água no sector doméstico, o EcoCasa-Água, que prevê o desenvolvimento de várias actividades com vista à sensibilização dos consumidores para a necessidade de reduzir os consumos de água.

Saiba mais como participar!


O Programa EcoFamílias - Água consiste no acompanhamento, durante um ano, dos consumos reais de água de famílias na região do Oeste no sentido de obter informação relativa aos diferentes usos domésticos. A metodologia que será utilizada permitirá avaliar comportamentos, hábitos de consumo e identificar oportunidades de poupança de água.


Tendo em conta que os consumos de água ao nível doméstico não são constantes, pretende-se caracterizar os hábitos de consumo ao longo de um ano, para assim avaliar também até que ponto a mudança de estações influencia a procura de água para uso doméstico. Para além deste factor, os consumos domésticos de água variam ainda em função da tipologia das habitações, dos dispositivos existentes e número dos elementos do agregado familiar. Após a fase de caracterização dos consumos na habitação, serão delineados planos de poupança de água para as famílias e promovida a sua implementação, através de um aconselhamento directo e personalizado.

O objectivo é, portanto, actuar directamente nas habitações através da sensibilização das famílias para as questões ligadas ao consumo de água no sector doméstico, nomeadamente a racionalização e a redução desses consumos através da alteração de comportamentos.

Estão abertas inscrições para os seguintes concelhos:

- Azambuja

- Lourinhã
- Óbidos
- Rio Maior
- Torres Vedras

Se pertence a estes concelhos e pretende participar neste projecto pode inscrever-se através do e-mail ecofamilias@quercus.pt ou pelos telefones 213462210/960020900, fornecendo os seguintes dados:

- Nome e contacto mais directo;
- Concelho de residência;
- Número de elementos do agregado familiar;
- Tipologia da habitação.

Contamos com a sua participação!

via Quercus

decididamente o jornalismo em Portugal continua em crise...

Islândia deverá ter a primeira chefe de Governo lésbica do mundo (???)

A Islândia deverá ser o primeiro país a ter um político assumidamente homossexual como primeiro-ministro: Johanna Sigurdardottir, de 66 anos, da Aliança Social Democrática, que deverá formar governo com o Movimento Verde-Esquerda. A composição do novo Executivo era esperada para hoje, e a tomada de posse poderia acontecer já no sábado.

Sigurdardottir, que era ministra dos Assuntos Sociais no Governo de Geir Haarde, que se demitiu na segunda-feira, é a política mais popular do país. Num momento de grande impopularidade de políticos e financeiros, desde que a crise económica mundial levou ao afundamento das contas da Islândia em Outubro, ela conseguiu a proeza de ter a aprovação de 73 por cento dos islandeses.

O seu Governo, no entanto, vigorará apenas até às eleições legislativas antecipadas, cuja data falta marcar. A mais falada é 9 de Maio. O partido que as sondagens dizem reunir mais preferências dos eleitores é o Movimento Verde-Esquerda, que formará coligação com os sociais-democratas de Sigurdardottir.

Uma das primeiras acções esperadas do novo Governo deverá ser o afastamento do actual governador do banco central islandês, David Oddson. A medida foi até já preconizada pelo Presidente da República, Oláfur Ragnar Grímsson, em declarações à BBC.

in Público, 29 Jan 2009

O jornal Público continua cada vez mais a surpreender-me pela negativa... Agora decidiu puxar para título de uma notícia um dado estatístico de elevado interesse: a escolha sexual de um político.
Ah, esperem! Já no passado haviam garantido que Sócrates também "jogava no outro lado"?... Se calhar ele é um mau politico por causa das pessoas com quem se deita... e se calhar a nova primeira-ministra também não vai recuperar a Islândia porque faz noitadas a ver a letra L...
Assim se finge fazer jornalismo de referência em Portugal...

já vale tudo?

A suspensão por um jogo de Katsouranis por, segundo a Liga, ter proferido palavras insultuosas sobre o árbitro Pedro Henriques, após o Benfica – Nacional, dava para rir, se não fosse mais um grave sinal do estado comatoso em que definha o futebol nacional.
Katsouranis, segundo relatos públicos (como o relatório do árbitro), terá dito: “Penso que eles nos roubaram dois pontos”. O “eles” foi entendido pelo Conselho de Disciplina da Liga como dirigido aos árbitros, pelo que está fora de causa o jogador grego estar a referir-se aos jogadores do Nacional.
Mas, o mais engraçado, é que hoje ficou também a saber-se que o CD da Liga mandou arquivar uma queixa do árbitro Artur Soares Dias relativa a palavras, também consideradas insultuosas, de Derlei. O avançado do Sporting, segundo o árbitro, disse “isto é uma palhaçada”, mas o CD da Liga apenas deu como provado que a frase foi “isto é uma brincadeira”.
Tem razão Derlei, na versão CD da Liga: “Isto é uma brincadeira”. Paulo Bento, o acusador- mor dos árbitros, que chegou ao ponto de pedir ambientes hostis em Alvalade, continua impune. Jesualdo Ferreira e o seu adjunto José Gomes, que não se cansaram de criticar o árbitro no final do FC Porto – Trofense, e pasme-se do árbitro do Benfica – Braga, continuam impunes. Jorge Jesus, António Salvador e Mesquita Machado, depois das violentas e justas afirmações no final do Braga – FC Porto (e o mesmo se passou no final do Benfica – Braga), continuam impunes.
O bode expiatório foi Katsouranis. Porque será? Citando Derlei: “isto é uma palhaçada/brincadeira”. O problema é que qualquer dia o circo tem de encerrar por falta de palhaços.

in O Inferno da Luz

obs: Ainda pensei em comentar o jogo de ontem da Taça e a constância como as faltas dúbias foram sempre marcadas a favor do Porto... Acho que nem vale a pena... A porcaria veio mesmo para ficar...

quarta-feira, janeiro 28, 2009

go Veg



Parece que as castas mentalidades dos EUA acham este anúncio uma pouca-vergonha mas todo e qualquer clip da Beyonce ou da Britney uma lufada de ar fresco cheia de sensualidade e nível... critérios!

nem vale a pena dizer mais nada @ freeport

by Bandeira

Em declarações à SIC Notícias, Freitas do Amaral estranhou que um projecto que passou pelas mãos de diversos partidos esteja agora a ser usado contra o primeiro-ministro, José Sócrates.


O antigo governante afirmou que «o decreto-lei, que tem sido apontado como a grande causa de culpabilidade de José Sócrates, foi promulgado pelo Presidente da República» Jorge Sampaio e «referendado pelo primeiro-ministro Durão Barroso». (link)

O resto da noticia da TSF (link) avança ainda na ideia que todo este ataque pode ser uma "campanha de raiva" contra a figura do primeiro-ministro no intuito de descredibiliza-lo. Será que a figura de Freitas do Amaral é suficiente isenta ou é apenas mais um dos tentáculos do polvo?

segunda-feira, janeiro 26, 2009

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União Europeia à vista?

O primeiro-ministro islandês Geir Haarde anunciou hoje a demissão imediata do seu governo, consequência da crise económica que abala o país há quatro meses.

O Partido da Independência, formação de centro-direita do primeiro-ministro, partilhava o poder com o partido social-democrata desde Maio de 2007.

A demissão do governo, hoje anunciada em conferência de imprensa, era já expectável, depois de Geir Haarde ter marcado, na passada sexta-feira, eleições antecipadas para o próximo dia 9 de Maio, em vez de manter o Executivo em funções, como seria se esperar, até 2011. Na mesma ocasião, o primeiro-ministro indicou que não se iria apresentar às eleições, revelando que sofre de um cancro no esófago.

A medida foi tomada sob pressão da população islandesa, que reclama há mais de um mês a demissão do governo, após o início da crise económica mundial que lançou aquele país nórdico para a bancarrota.

No sábado saíram às ruas cerca de 5000 pessoas, a fim de reclamar a demissão imediata do governo.

A Islândia, ilha de 320 mil habitantes que não faz parte da União Europeia e que baseou a sua prosperidade num sector bancário hipertrofiado, viu a sua economia devastada pela crise financeira internacional que apanhou o mundo de surpresa no último Outono.

in Público 26 Jan 2009

obs: E agora restarão muitas soluções à Islândia? Parece certo que o futuro da Islândia passa também pela Noruega e pelo papel que os opositores à integração europeia noruegueses podem ter... porque é certo que a integração na UE permitiria aos islandeses "despachar" os seus peixes e águas a portugueses e espanhois...

@ freeport

Afinal, pela boca do próprio Smith -- o tal intermediário que se terá queixado de lhe terem exigido o pagamento de "luvas" -- ficou a saber-se que nunca houve nenhum encontro (aliás de todo inverosímil) entre ele e o então ministro Sócrates (como, aliás, este já tinha asseverado de forma categórica).
Como toda a especulação mediática contra o Primeiro-Ministro destes últimos dias se baseou nesse fictício encontro, será que os média vão corrigir esse pseudofacto com a mesma ênfase, ou, como é hábito, vão deixar permanecer na opinião pública a impressão que deliberadamente criaram e exploraram?!

Vital Moreira in Causa Nossa

obs: A politica em Portugal tem sido feita nos últimos anos de coincidências, prova disso são os sempre curiosos momentos em que surgem novos, ou não, casos envolvendo políticos... curiosamente sempre em anos de eleições.
Embora o PS não seja sempre o único visado, é por norma o que mais ataques sofre, e estes variam entre acusações de pedofilia, homossexualidade ou corrupção. Vamos acreditar que todo o mal do mundo se encontra num partido só... e não que há manipulação clara dos media para interesse de alguns.

ao deambular

em espiral.
círculos desenhados por uma mão de cima.
cimento. betão. ferro. rodeando o olhar em cada passo.
arquitectura do pós-moderno
no meu presente,
passeado na cidade.
se a luz falta,
a sombra no cinzento das paredes
é um fosso sem fim.
a negritude.
uma companhia
das sombras presentes.
a triste cidade que já me acompanhou.
antes.

domingo, janeiro 25, 2009

bye mr. Bush


Bandeira in DN, 21 Jan 2009

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Começam as mudanças...

Pouco depois de ter tomado posse, o novo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tomou uma das suas primeiras medidas e pediu a suspensão dos processos judiciais por terrorismo na base naval norte-americana de Guantánamo, em Cuba, durante 120 dias.

Segundo a CNN, citando documentos oficiais, esta medida foi tomada "no interesse da justiça".

"No interesse da justiça e a pedido do Presidente dos Estados Unidos e do secretário da Defesa, Robert Gates, o Governo requer, respeituosamente, que as comissões militares autorizem uma suspensão dos processos (...) até 20 de Maio", segundo uma moção que será apresentada hoje a dois juizes em Guantánamo pelo procurador Clayton Trivett.

Um desses juizes, Stephen Henley, deverá analisar até hoje o processo de cinco homens acusados de terem organizado os atentados do 11 de Setembro. O segundo, Patrick Parrish, vai estudar o caso de Omar Khadr, um canadiano detido em 2002 no Afeganistão, quando tinha 15 anos, pela morte de um militar norte-americano e cujo julgamento estava inicialmente previsto para segunda-feira. 

Nas palavras de Trivett, trata-se de "permitir ao novo Presidente e à sua administração reavaliar o sistema de comissões militares em geral e os dois processos em curso, em particular".

Segundo a moção, os procuradores militares receberam ordens directamente de Robert Gates para "dar tempo suficiente à nova administração para reavaliar os processos dos detidos actualmente em Guantánamo que não foram declarados libertáveis ou transferíveis". A nova administração deverá "determinar se podem ser acusados pelos delitos que terão cometido e qual a jurisdição mais apropriada para futuros processos".

Será aos juizes que caberá decidir suspender, ou não, as comissões militares. Durante a sua curta existência, estas comissões condenaram Salim Hamdan, antigo motorista de Ossama bin Laden, a cinco anos e meio de prisão, e Ali Hamza al-Bahlul, propagandista da rede Al-Qaeda, à prisão perpétua. Este sistema judiciário de excepção foi criado em 2006 pela administração Bush para julgar os detidos de Guantánamo, base naval em funcionamento desde 2002.

Contra todos os princípios do direito americano, estes tribunais aceitam como prova elementos recolhidos sob constrangimento e provas indirectas, abrindo mão da confirmação das testemunhas em tribunal.

Resta saber qual será o substituto para estas comissões militares.

Pode dizer-se que Guantánamo está envolta em polémica e enredada nas acusações feitas por defensores dos direitos humanos de que muitos dos seus 245 detidos estão presos sem acusação formal e que muitos sofrem maus tratos. Na realidade, o Pentágono reconhece que de momento existem apenas 21 incriminados, 14 dos quais já presentes a juízes.

Mas as acusações não se ficam pelas organizações não governamentais. Ontem, o relator especial das Nações Unidas para a tortura, Manfred Nowak, defendeu que os Estados Unidos devem acusar o Presidente cessante e o antigo secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, por tortura e maus tratos contra os presos de Guantánamo. Já na semana passada, Susan Crawford, responsável do Pentágono, tinha dito que um dos presos foi torturado.

Obama já tinha manifestado a sua vontade de encerrar Guantánamo. Mas se o seu pedido de hoje não vai tão longe, pelo menos suspende as condenações àqueles 21 detidos actualmente acusados de crimes de guerra.

in Público, 21 Jan 2009

terça-feira, janeiro 20, 2009

João Aguardela


Outro parvo no meu lugar


Foi ontem, no hospital da Luz, em Lisboa. João Aguardela, músico do grupo Sitiados nos anos 90 e, actualmente, membro do colectivo A Naifa, faleceu aos 39 anos, de cancro. A cerimónia fúnebre é amanhã, pelas 16h00, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

Aguardela fundou os Sitiados em l987, liderando, cantando e tocando baixo. Foi com esse projecto que começou a dar nas vistas na década de 90. Desde cedo ficou explícito que a sua ideia era combinar música tradicional portuguesa com linguagens como o rock ou a pop, um desígnio de fusão que nunca abandonou, como se constataria mais tarde com A Naifa e Megafone.

O músico Jorge Buco esteve com ele desde o início. “Trabalhei com ele 17 anos, era espontâneo, criativo, sempre insatisfeito. Com ele, ou era para fazermos alguma coisa nova ou mais valia estarmos quietos. Tive a felicidade de ajudá-lo a pôr de pé muitas dessas ideias.”

O amigo, e guitarrista dos Xutos & Pontapés, Zé Pedro, recorda-se dos primeiros tempos dos Sitiados. “Tiveram uma entrada de rompante e foram uma lufada de ar fresco”, diz, ao mesmo tempo que recorda alguém que “era entregue à causa” da música e que, em palco, era um “frenesim, aquilo a que se chama um 'animal de palco’.”

“Deixa um grande legado para a música portuguesa”, afirma Carlos Moisés, cantor dos Quinta do Bill, da mesma geração que Aguardela, tendo gravado com ele Senhora Maria do Olival, para a antologia Filhos da Nação.

“Teve um percurso singular, experimentando música tradicional portuguesa com outras roupagens. Tinha paixão pelo tradicional, mas vivência urbana”, diz, lembrando que quando começou Aguardela tinha 17 anos. “Era o mais novo de nós. Tinha um lado interventivo, inconformado.”

Em 1992, os Sitiados editaram o álbum homónimo de estreia com o tema "Vida de marinheiro", que conheceu enorme sucesso, conseguindo que o grupo vendesse cerca de 40 mil exemplares. O segundo álbum, "E Agora?", é editado no ano seguinte e em 1994 a banda integra o projecto de tributo a José Afonso, Filhos da Madrugada.

O "Triunfo dos Electrodomésticos", em 1995, Sitiados, em 1996, e "Mata-me Depois", em 1999, foram os álbuns que se seguiram. Em 2000 dão por encerrado o grupo.

Para além dos discos, distinguiam-se pelos concertos foliões e por letras onde não se coibiam de comentar a realidade social portuguesa. Uma das suas canções mais emblemáticas, "A cabana do pai Tomás", apesar do tom de fábula, era sobre o escândalo Taveira.

Um ouvido no tecno, outro no folclore

Em 1996, numa entrevista ao PÚBLICO, Aguardela interrogava-se “porque raio não há em Portugal música de dança de raiz popular?”, numa alusão ao facto de haver quem não aceitasse que combinassem tipologias tecnológicas, como o tecno ou rap, com folclore.

Esse foi sempre o seu propósito. O projecto solitário, Megafone, voltava a denunciá-lo. O álbum homónimo, de 1997, era uma selecção de electrónicas acopladas a recolhas etnográficas – feitas por José Alberto Sardinha e Michel Giacometti – de cantos tradicionais. Era também uma aposta pessoal de Aguardela, que acreditava – antes do assunto se ter banalizado – que era possível lançar discos à revelia das editoras.

Os três álbuns seguintes de Megafone seguiram os mesmos pressupostos, misto de cidade e campo, música popular e urbana, actualização de recolhas de música tradicional portuguesa por via electrónica.

“Às vezes sinto que sou tradicional demais para o meio pop e que sou pop demais para o meio tradicional”, dizia ao PÚBLICO em 1997, a propósito de Megafone.

A sua outra obsessão era a palavra. Em 2002, na companhia de Luís Varatojo, e uma série de vocalistas convidados, criou o projecto Linha da Frente, na tentativa de musicar poetas. Entre essas vozes estava a de Viviane (ex-Entre Aspas) que recorda que “tinha uma forma inovadora de fazer música”, realçando que “deixa um vazio difícil de preencher porque associava, como ninguém, a cultura portuguesa com coisas recentes”.

Como consequência dos Linha da Frente, nasce em 2004 A Naifa, ao lado mais uma vez de Varatojo, com palavras de poetas portugueses para guitarra portuguesa e voz de fado melancólica sobre ritmos electrónicos lânguidos.

Com três álbuns – o último dos quais é "Uma Inocente Inclinação Para o Mal" de 2008 – o projecto impôs-se, apostando na recriação do fado, sacudindo mais uma vez as raízes e as memórias portuguesas.

Porquê essa obsessão? Talvez por isto: “se me perguntasse: 'gostava que Portugal fosse diferente?’ Sim, gostava, não me contento com o que é”, dizia ao PÚBLICO há dois anos.

in Público, 19 Jan 2009

E se houvesse outra forma de fazer isto?

Se eles não se acumulassem a um canto, ou outro, da cidade. Suja.

Se pudessem por um momento acreditar que há outra forma de fazer as contas.
Sem parênteses. Nem exclusão de dados.

Mortos de vida.
São lixo que a máquina não consegue limpar e os olhos não querem ver.
São a discussão estéril de oposições políticas. Que de política têm apenas a folha de inscrição e uma ambição monstra.
São restos. Como animais antes das férias. Queridos, com prazo de validade.
São coisas amontoadas a um canto.

No meio dos sacos.
Entre os cartões.
Sob a manta velha.
Comprimida ao pesos de umas arcadas de história.
Um sorriso quase finito, com a idade de contar histórias a crianças curiosas.
Na resposta: um pão com manteiga.
Como se pudesse barrar, assim, hipocritamente os meus outros dias.

obs: A angustia manteve-se muito para lá do momento em que lhe dei uma simples sandes. Falta fazer tanto para mudarmos alguma coisa.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Amsterdam na cabeça...

Passar-de-tempo

...últimos dias no oceanário esperando pelo inicio da investigação de Carnide...
...últimos dias no curso de folha de cálculo esperando pelo de tratamento de imagem...
...últimos dias antes de começar a tratar do físico antes que tenha "a" crise da quase meia-idade...
...últimos dias antes de me inscrever no mestrado... na Nova ou na Aberta?
...últimos dias de algum descanso antes de ter um ritmo de gente grande...
...últimos dias antes de apresentar o primeiro esboço ao Mário do Satyr da próxima Callema...
...fica a dúvida... faz sentido pensar em últimos ou primeiros? Se, no fundo, a vida segue apenas serenamente o seu caminho de sempre, ao ritmo de sempre...

Do princípio da ignorância

A conversa foi informal, pois foi. Uma tertúlia e não uma conferência, garantiu a conferência episcopal a propósito das desastradas declarações de D. José Policarpo. Compreende-se que a igreja tivesse querido suavizar as opiniões do seu cardeal sem, contudo, as desautorizar. De resto, é provável que a coisa fique por aqui, já que a comunidade muçulmana, ultra-minoritária na sociedade portuguesa, não tem qualquer vantagem em alimentar a polémica. Apesar disso, os crentes não se esquecerão. Nem os de Alá, nem os de Deus, que por acaso é o mesmo.

Dom Policarpo lamentou a ignorância da sociedade portuguesa face ao Islão. É facto. Apenas não reparou que ela começa em casa própria. Não basta ler o Corão para se perceber “como pensam os muçulmanos”. Porque eles pensam e agem de modos muito diferentes, tal como os cristãos ou os judeus. Na amálgama, na generalização abusiva, começa a ignorância. O lugar da mulher não é o mesmo na Arábia Saudita ou no Líbano e na Síria, tal como é diferente em Portugal ou na Suécia, para falar de dois países de tradição cristã.

Dom Policarpo é um homem culto. Prevenir as mulheres cristãs contra o casamento com muçulmanos não é uma história nova. Tal tipo de preceitos encontram raízes no Velho Testamento. Mas convenhamos - e até o cardeal é capaz de concordar comigo -, as mensagens contra as misturas entre judeus e não judeus não foram das mais inspiradas. Ainda hoje, elas são invocadas em Israel contra os matrimónios entre judeus e muçulmanos, que são interditos. Ao contrário do que as pessoas por vezes julgam, há demasiadas parecenças entre Israel e o mundo que o envolve e nem todas são salutares. Eis porque tertúlias sobre assuntos sérios não exigem apenas bom senso; recomendam distância crítica do senso comum. Esta foi a segunda infelicidade do cardeal.

Dom Policarpo quis, obviamente, proteger as mulheres das piores práticas do patriarcado. Louvo-lhe a intenção. Em Portugal morreram, entre 1 de Janeiro e 18 de Novembro de 2008, pelo menos 43 mulheres, vítimas de violência doméstica. Apesar deste triste recorde, Portugal não é um país islâmico. É apenas parte de uma terra e de um mar, o mediterrâneo, que ainda não superou a sua cultura patriarcal. A terceiro equívoco do cardeal foi o de confundir cultura e religião. Não é nesta que mora a raíz do problema, mas nas práticas e comportamentos sociais de um mundo que, bem antes do monoteísmo, já praticava a separação entre espaço público – o dos homens – e espaço privado – o das mulheres. A inegável responsabilidade das religiões monoteístas foi a de terem dado fundamento divino a esta desgraça. Apesar disto, não me ocorre sugerir ao povo que pense muito seriamente, mesmo duas vezes, antes de aderir a uma religião.

Nalguns aspectos, o cristianismo é, até, mais limitativo do que o Islão e do que o judaísmo. O Islão e o judaísmo, por exemplo, consideram a sexualidade uma dádiva de Deus, embora a restrinjam à heterossexualidade. Roma, pura e simplesmente, desconfia do sexo e ainda hoje o liga intrinsecamente à procriação. Pior, as cristãs, à luz do Altíssimo, não se podem divorciar mesmo que o marido seja uma realíssima besta. Devem suportar a cruz porque é com ela que ganharão o céu, depois do inferno em terra. Contudo, no Islão e no judaísmo, o divórcio existe desde o início. O que dificulta o acesso das mulheres muçulmanas ao divórcio não é a religião, mas o regime patriarcal que discrimina e marginaliza as que ousam recorrer à instituição. Estes exemplos servem apenas para pedir a dom Policarpo que olhe para a sua casa enquanto invectiva a dos outros. Só lhe ficaria bem porque nenhum monoteísmo é particularmente famoso no capítulo das mulheres. Apressado, o deus único teve a péssima ideia de as fazer de uma costela do primeiro homem…

Já agora, José Policarpo podia aprender com os melhores dos outros, que é isso o ecumenismo. Em Setembro de 2008, o ayatollah do Líbano, Fadlallah, emitiu uma fatwa sobre a violência contra as mulheres. Situa-a nos diferentes domínios e contextualiza-a no mundo árabe e mediterrânico. Depois, seguem as instruções: direito das mulheres ao divórcio, ao trabalho e à instrução e à separação de bens; igualdade em casa e obrigação de delicadeza pelo esposo; finalmente, a fatwa invectiva a violência física e psicológica considerando uma e outra como pecados mortais. A linguagem é propositadamente incisiva, porque os homens de lá, como os de cá, têm cabeça dura. Se outro recurso não tiver, o líder xiita chega ao ponto de legitimar o direito da mulher a resistir violentamente à brutalidade que sobre ela exerça o marido.

São tramadas as generalizações, não é? No Líbano, os melhores cristãos gostariam de ter um patriarca parecido com o ayatollah e não um velhote do tempo da pedra lascada. Quanto às xiitas, agradecem a Alá o ayatollah que lhes caiu em sorte… Ele não usa a inspiração divina para invectivar a concorrência, mas para dar força e coragem à melhor parte da Humanidade.


Miguel Portas in Sem Muros

sexta-feira, janeiro 16, 2009

quinta-feira, janeiro 15, 2009

"crónica da condição suburbana"

"Dois terços dos inquiridos num estudo que fiz demonstraram ter uma apreciação tendencialmente negativa da mudança de espaço. Preferiam a barraca à nova casa". Porquê? As razões são inúmeras, às vezes óbvias, outras ínvias. Desde logo, a concentração de famílias em condições de precariedade económica e desqualificação social que, num efeito de espelho, exponencia a tendência para uma auto-imagem negativa. Depois, aquilo que se chama "a ausência de equipamentos" - culturais, desportivos, comerciais, outros. E ainda e talvez acima de tudo essa ideia circular, dificilmente desmontável, de que a casa nova, de que se reclamou incessantemente o direito adquirido, não é a "sua" casa, mas aquela que uma sociedade sem rosto entrega como penhor da "culpa" e do alívio das consciências. Uma casa não escolhida, uma esmola que, ao invés de colmatar a exclusão, a confirma. Um círculo vicioso que se dá a ver, à chegada, na degradação física, social e simbólica do habitat que os próprios habitantes operam, ostentando a sua indiferença e separação emocional face ao que lhes foi "atirado".

Fernanda Câncio in
Cidades Sem Nome, Tinta da China, Lisboa, 2008

gold journalism

Poderá esta vergonha mudar?

Ehud Olmert, primeiro-ministro israelita, afirmou ontem num discurso que foi um telefonema seu para George Bush que forçou a secretária de Estado, Condolezza Rice, a abster-se durante a votação de quinta-feira, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, de uma resolução que pedia um cessar-fogo imediato para a Faixa de Gaza, deixando Rice “envergonhada”.

Olmert disse que exigiu falar com Bush apenas dez minutos antes da votação no Conselho de Segurança da resolução à qual Israel se opôs. “Quando vimos que a secretária de Estado, por razões que não percebemos, queria votar a favor da resolução... Procurei entrar em contacto com o Presidente Bush e eles disseram-me que ele estava em Filadélfia a fazer um discurso”, disse Olmert. “Disse-lhes: ‘não me interessa. Tenho de falar com ele agora’.”

O primeiro-ministro israelita caracterizou Bush como um “amigo sem paralelo” de Israel. “Eles tiraram-no do palco, levaram-no para outra sala e eu falei com ele. Disse-lhe: ‘não pode votar a favor desta resolução’. E ele respondeu-me: ‘Escute, eu não sei nada sobre isso, não o vi, não estou familiarizado com a forma como está formulado’.” Olmert contou que disse então a Bush: “‘Eu estou familiarizado com ele. Não pode votar a favor’. “Ele deu a ordem à secretária de Estado e ela não votou a favor – a resolução que ela própria concebeu, formulou, organizou e manobrou para ser aprovada. Ela ficou bastante envergonhada e absteve-se na resolução que ela própria criou.”

Dos 15 membros do Conselho de Segurança, 14 votaram a favor da resolução, com a abstenção dos Estados Unidos. No entanto, isso não foi suficiente para parar a ofensiva israelita na Faixa de Gaza nem o lançamento de rockets por parte do Hamas.

Ehud Olmert, sob investigação devido a alegados casos de corrupção, demitiu-se do cargo de primeiro-ministro no dia 21 de Setembro, mas ainda permanece em funções, liderando um Governo de transição.

in Público 13 Janeiro 2009

quarta-feira, janeiro 07, 2009

um doce aniversário com sabor a mousse lacónica

Há 1096 dias ou 616 posts atrás surgia o nem vale a pena dizer mais nada... Na altura não houve nenhuma lista de razões ou motivações da sua génese. Na realidade nem tinha que haver...
O meu primeiro post era sobre o presente, que nem sequer chegou a virar futuro. Podemos mesmo dizer que esse futuro virou à direita. Mas, esse presente passado continua presente, hoje, em cada post que religiosamente posto dia-sim dia-não ou dia-sim dia-sim ou dia-não dia-não.
Porque o blog está sempre presente na minha cabeça mesmo quando não lhe chega nenhuma palavra. Mesmo quando não sei quem o lê. Mesmo quando não sei quantos o lêem. Pois se fosse mesmo acreditar nestas ferramentas de contagem há muito que pensaria que era mais famoso que o "zé dos plásticos".
O que conta neste blog é ter um espaço para que me leiam os textos, os poemas, as fotos ou os textos, poemas e fotos doutros. Mas, acima de tudo serve para que escreva e que leia o mundo todos os dias. O meu mundo e o doutros.
Desculpem, mas hoje sinto-me de parabéns. Por não ter deixado cair mais este "projecto" na caixa dos "já volto" sem fim...

domingo, janeiro 04, 2009

Se fosse para acabar com o Hamas seria bom...

Ontem, os tanques israelitas entraram em Gaza. Saeb Erakat, um dos mais conhecidos negociadores da Fatah, disse à CNN: "Com o quê querem eles [os israelitas] acabar? Não temos [os palestinianos] Exército. Não temos Marinha. Não temos Força Aérea (...). Este problema exige soluções políticas, não soluções militares." Erakat não falou para a CNN em Gaza. É que ele, sendo da Fatah, não conseguiu encontrar soluções políticas para estar em Gaza. O Hamas arranjou soluções militares para expulsar Saeb Erakat e os da Fatah de Gaza.

O escritor Amos Oz é israelita e não é um falcão, foi um dos fundadores da organização pacifista Schalom Achschaw (Paz Agora). Dias antes da actual ofensiva terrestre israelita, Oz também foi entrevistado: "Vai haver muita pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar. Israel é um país; o Hamas é um gangue. Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel deve agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção", disse Amos Oz.

Dois discursos de gente de braços atados, do palestiniano Saeb Erakat e do israelita Amos Oz. Um sabe que o seu povo vai apanhar com tanques (como esteve, durante dias, apanhando com bombardeamentos aéreos), sem ter Exército, Marinha e Força Aérea para se defender. O outro sabe que o seu país tem direito a defender-se, mas teme que essa defesa aumente a força do inimigo.

Não estou aqui a fazer de Pilatos, não lavo as mãos da questão. Estou absolutamente ao lado de Amos Oz. E sobre a intervenção dos tanques israelitas julgo-a pela eficácia que venha a ter. Se ela acabar com a flagelação (70 rockets e mísseis diários sobre cidades de Israel), irei considerá-la, à ofensiva israelita, uma boa acção. Se ela acabar de vez com o Hamas, o gangue, hei-de considerá-la uma excelente acção. Mas, infelizmente, temo que os tanques não venham a ser eficazes. Conheço a táctica do gangue. Refugiam-se atrás dos homens, mulheres e crianças inocentes, cuja morte - com os corpos passeados em histeria - é a sua melhor propaganda.

Reparo que Saeb Erakat não faz, como previu Amos Oz, pressão sobre o Hamas. Na verdade, eu também, como se viu acima, não faço pressão sobre Israel - sou solidário com ele. E, sobretudo, estou incondicionalmente ao lado de gente como Amos Oz, dos que consideram que morrerem israelitas e palestinianos inocentes é mau. Sabendo, digo-o com cálculos simples, cínicos e não pérfidos, que essas mortes inocentes só cessarão quando se matarem alguns, ou muitos (os que forem preciso), maus.

Ferreira Fernandes in DN 04 I 2009

sábado, janeiro 03, 2009

maus augúrios para 2009

... Decididamente começa tudo mal neste novo ano...
E não falo da "eterna" crise económica que bem vistas as coisas sempre nos afectou ou não fossemos um pequeno país periférico com uma malha industrial retardada. Não me refiro ao galopante desemprego entre jovens e menos jovens com habilitações, que até a mim me atinge. E procuro recordar a suposta crise de valores das pessoas ou as "pseudo-derivas" fascistas do governo...

Tudo isso, meus caros, são fait divers!

O que realmente me preocupa é que neste novo ano que ainda só leva três míseros dias há já uma série de factores que infelizmente se encontram em sintonia:
1. A continuidade dum ambiente económico internacional débil e sensível, o que poderá levar a novas medidas proteccionistas dos principais governos. A ter em conta as recentes indicações que a China poderá também optar por essa solução isso pode provocar uma enorme contracção da economia mundial com efeitos superiores aos de 1929, pois o grau de interdependência na actualidade é superior;
2. Um novo avanço militar de Israel sobre a faixa de Gaza. Este ocorre sem as menores preocupações humanitárias nem tem em conta a elaboração dum projecto político que ultrapasse o objectivo de humilhar e aniquilar o Hamas. Todo este contexto naturalmente aumentará ainda mais a base de recolha de fanáticos religiosos para a Al-Qaeda;
3. Verifica-se a manutenção das principais directrizes da política externa americana em relação ao conflito israelo-árabe apesar da "lufada de ar fresco" de Obama. Fica a questão: são os interesses instalados ou pouca vontade de mudar realmente e confrontar lobbys?
4. E finalmente confrontamo-nos com a presidência da União Europeia por um eurocéptico. Num contexto internacional de instabilidade politica e económica a UE tinha que aproveitar estes seis próximos meses para reforçar o seu papel de motor político mundial. Infelizmente, por diversas vezes, Mirek Topolánek admitiu que pouco mais pretende fazer nos próximos tempos do que deixar passar os seis meses calmamente e se tivermos em conta a estrutura político-administrativa da UE isso significa que dependemos sobretudo das iniciativas politicas de Durão Barroso. Simplesmente preocupante…

Conceptualismo


Fernando Calhau (1948-2002)

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Rebeldes com boa causa

Os Educadores (no original, alemão, Die Fetten Jahre sind vorbei) é de 2004, a história de três jovens rebeldes e pacifistas. Assaltam casas de ricos, só para ensiná-los. Mudam-lhes as mobílias, põem a aparelhagem no frigorífico, coisas assim. De cada vez, deixam um bilhete: "Os vossos dias de fartura estão contados. Assinado: Os Educadores." Fim de ficção. Passemos à vida real, se se pode chamar isso a Palm Beach, a das mansões milionárias na Florida. Aí, foi encontrada uma estatueta roubada a Bernard Madoff, o autor da vigarice à maneira de D. Branca que abalou a alta finança mundial. A estatueta tinha um cartaz ao pescoço: "Bernie, Vigarista. Lição: devolve a propriedade roubada aos seus donos. Assinado, Os Educadores." A relação com o filme é evidente: o bilhete e, sobretudo, essa ingénua crença que a coisa vai lá com lições. No filme, os três rebeldes, apanhados num acaso, sequestram um ricaço. Tentam também educá-lo e aprendem que ele foi um esquerdista violento dos anos 70, que se reciclou, cínico, em milionário. Evidentemente, não o educam. Libertam- -no. É bom saber que ainda há quem tente, sem cair em actos irremediáveis.|

Ferreira Fernandes in DN 2 I 2009