quinta-feira, janeiro 15, 2009

"crónica da condição suburbana"

"Dois terços dos inquiridos num estudo que fiz demonstraram ter uma apreciação tendencialmente negativa da mudança de espaço. Preferiam a barraca à nova casa". Porquê? As razões são inúmeras, às vezes óbvias, outras ínvias. Desde logo, a concentração de famílias em condições de precariedade económica e desqualificação social que, num efeito de espelho, exponencia a tendência para uma auto-imagem negativa. Depois, aquilo que se chama "a ausência de equipamentos" - culturais, desportivos, comerciais, outros. E ainda e talvez acima de tudo essa ideia circular, dificilmente desmontável, de que a casa nova, de que se reclamou incessantemente o direito adquirido, não é a "sua" casa, mas aquela que uma sociedade sem rosto entrega como penhor da "culpa" e do alívio das consciências. Uma casa não escolhida, uma esmola que, ao invés de colmatar a exclusão, a confirma. Um círculo vicioso que se dá a ver, à chegada, na degradação física, social e simbólica do habitat que os próprios habitantes operam, ostentando a sua indiferença e separação emocional face ao que lhes foi "atirado".

Fernanda Câncio in
Cidades Sem Nome, Tinta da China, Lisboa, 2008

1 comentário:

il _messaggero disse...

A ausência de equipamentos de apoio apenas propicia a criação de autênticos guetos. A geração destas autênticas ilhas, isoladas de todo o resto, acaba em última anaálise por contribuir para o tal ciclo vicioso que o excerto fala.

A integração deve assim passar pela requalificação desses espaços, ligando-os convenientemente á restante urbe, criando espaços lúdicos de convívio, criando espaços de identificação com o local (muitas vezes diferentes comunidades são atiradas para bairros isolados não se trabalhando a interacção entre as mesmas), criando áreas para serviços de apoio, pequeno comércio, etc...

Nos dias que correm, olhando às sucessivas políticas falhadas que têm vindo a ser testadas (na maioria das vezes, por importação de modelos exógenos já testados - e falhados - noutros países), creio que este passo, será uma saída airosa que minorará certos erros entretanto cometidos...