segunda-feira, janeiro 19, 2009

Do princípio da ignorância

A conversa foi informal, pois foi. Uma tertúlia e não uma conferência, garantiu a conferência episcopal a propósito das desastradas declarações de D. José Policarpo. Compreende-se que a igreja tivesse querido suavizar as opiniões do seu cardeal sem, contudo, as desautorizar. De resto, é provável que a coisa fique por aqui, já que a comunidade muçulmana, ultra-minoritária na sociedade portuguesa, não tem qualquer vantagem em alimentar a polémica. Apesar disso, os crentes não se esquecerão. Nem os de Alá, nem os de Deus, que por acaso é o mesmo.

Dom Policarpo lamentou a ignorância da sociedade portuguesa face ao Islão. É facto. Apenas não reparou que ela começa em casa própria. Não basta ler o Corão para se perceber “como pensam os muçulmanos”. Porque eles pensam e agem de modos muito diferentes, tal como os cristãos ou os judeus. Na amálgama, na generalização abusiva, começa a ignorância. O lugar da mulher não é o mesmo na Arábia Saudita ou no Líbano e na Síria, tal como é diferente em Portugal ou na Suécia, para falar de dois países de tradição cristã.

Dom Policarpo é um homem culto. Prevenir as mulheres cristãs contra o casamento com muçulmanos não é uma história nova. Tal tipo de preceitos encontram raízes no Velho Testamento. Mas convenhamos - e até o cardeal é capaz de concordar comigo -, as mensagens contra as misturas entre judeus e não judeus não foram das mais inspiradas. Ainda hoje, elas são invocadas em Israel contra os matrimónios entre judeus e muçulmanos, que são interditos. Ao contrário do que as pessoas por vezes julgam, há demasiadas parecenças entre Israel e o mundo que o envolve e nem todas são salutares. Eis porque tertúlias sobre assuntos sérios não exigem apenas bom senso; recomendam distância crítica do senso comum. Esta foi a segunda infelicidade do cardeal.

Dom Policarpo quis, obviamente, proteger as mulheres das piores práticas do patriarcado. Louvo-lhe a intenção. Em Portugal morreram, entre 1 de Janeiro e 18 de Novembro de 2008, pelo menos 43 mulheres, vítimas de violência doméstica. Apesar deste triste recorde, Portugal não é um país islâmico. É apenas parte de uma terra e de um mar, o mediterrâneo, que ainda não superou a sua cultura patriarcal. A terceiro equívoco do cardeal foi o de confundir cultura e religião. Não é nesta que mora a raíz do problema, mas nas práticas e comportamentos sociais de um mundo que, bem antes do monoteísmo, já praticava a separação entre espaço público – o dos homens – e espaço privado – o das mulheres. A inegável responsabilidade das religiões monoteístas foi a de terem dado fundamento divino a esta desgraça. Apesar disto, não me ocorre sugerir ao povo que pense muito seriamente, mesmo duas vezes, antes de aderir a uma religião.

Nalguns aspectos, o cristianismo é, até, mais limitativo do que o Islão e do que o judaísmo. O Islão e o judaísmo, por exemplo, consideram a sexualidade uma dádiva de Deus, embora a restrinjam à heterossexualidade. Roma, pura e simplesmente, desconfia do sexo e ainda hoje o liga intrinsecamente à procriação. Pior, as cristãs, à luz do Altíssimo, não se podem divorciar mesmo que o marido seja uma realíssima besta. Devem suportar a cruz porque é com ela que ganharão o céu, depois do inferno em terra. Contudo, no Islão e no judaísmo, o divórcio existe desde o início. O que dificulta o acesso das mulheres muçulmanas ao divórcio não é a religião, mas o regime patriarcal que discrimina e marginaliza as que ousam recorrer à instituição. Estes exemplos servem apenas para pedir a dom Policarpo que olhe para a sua casa enquanto invectiva a dos outros. Só lhe ficaria bem porque nenhum monoteísmo é particularmente famoso no capítulo das mulheres. Apressado, o deus único teve a péssima ideia de as fazer de uma costela do primeiro homem…

Já agora, José Policarpo podia aprender com os melhores dos outros, que é isso o ecumenismo. Em Setembro de 2008, o ayatollah do Líbano, Fadlallah, emitiu uma fatwa sobre a violência contra as mulheres. Situa-a nos diferentes domínios e contextualiza-a no mundo árabe e mediterrânico. Depois, seguem as instruções: direito das mulheres ao divórcio, ao trabalho e à instrução e à separação de bens; igualdade em casa e obrigação de delicadeza pelo esposo; finalmente, a fatwa invectiva a violência física e psicológica considerando uma e outra como pecados mortais. A linguagem é propositadamente incisiva, porque os homens de lá, como os de cá, têm cabeça dura. Se outro recurso não tiver, o líder xiita chega ao ponto de legitimar o direito da mulher a resistir violentamente à brutalidade que sobre ela exerça o marido.

São tramadas as generalizações, não é? No Líbano, os melhores cristãos gostariam de ter um patriarca parecido com o ayatollah e não um velhote do tempo da pedra lascada. Quanto às xiitas, agradecem a Alá o ayatollah que lhes caiu em sorte… Ele não usa a inspiração divina para invectivar a concorrência, mas para dar força e coragem à melhor parte da Humanidade.


Miguel Portas in Sem Muros

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