terça-feira, fevereiro 03, 2009

A primeira-ministra da Islândia é lésbica, assumidamente. E isso interessa?

Toca o telefone. Atendo. É o Aires, companheiro e fundador do Bobina e Desbobina, aconselhando-me o Público de hoje. O suplemento P2.

Logo na capa, olhando-me do alto do cabeçalho, a referência a "Santa Joana" promete um momento único na história deste blog. Nas páginas 6 e 7, do suplemento P2, encontra-se o artigo "A primeira-ministra da Islândia é lésbica, assumidamente. E isso interessa?", de Maria João Guimarães, e ainda a procissão vai no adro e já temos a referência a um post antigo (link) deste mesmo blog.

O tema pode ser polémico e o mero facto de se dar a notícia de ser a primeira vez que um político assumidamente homossexual chega à chefia de um Executivo de um país deu azo a discussão.
Por exemplo: mal o PÚBLICO colocou on-line a notícia sobre a possibilidade de Sigurdardottir ser a próxima primeira-ministra da Islândia e de ser esta a primeira vez que um político assumidamente gay ocuparia esta função, houve logo um bloguista que criticou o jornal, questionando a menção da vida privada da política (o blogue chama-se Nem vale a pena dizer mais nada).
Um comentador contrapôs, em resposta ao comentário do blogue, que o facto de uma mulher assumidamente homossexual chegar pela primeira vez à chefia de um Governo era notícia, tal como o foi o facto de um negro chegar pela primeira vez à presidência dos EUA.

O que este artigo traz de novo, e sem dúvida de mais interessante, em relação ao anterior é a forma como ele é articulado em torno da história política das lutas dos homossexuais pelos seus direitos, e não tanto da referência a apenas uma pessoa.

Para se ter noção do que isto representa, pode olhar-se para o panorama europeu de políticos abertamente gays: desde 2001, há três presidentes de câmara, dois na Alemanha (os presidentes das câmaras de Berlim, Klaus Wowereit, e de Hamburgo, Ole von Beust), e um em França (Bertrand Delanoë, presidente da Câmara de Paris).
Delanoë - que é agora considerado um possível candidato às presidenciais de 2012 - foi atacado em 2002 por um homem que disse odiar "políticos, o Partido Socialista e homossexuais".

Apoiando-se noutros casos como o de Bertrand Delanoë - o qual tive a oportunidade de acompanhar o trabalho municipal enquanto estive em Paris no último ano - e na biografia possível da reservada primeira-ministra Sigurdardottir é nos apresentado um retrato apoiado em exemplos desta luta política pela verdadeira igualdade de oportunidades.

Mas, este artigo tem outro aspecto que é fundamental realçar: a forma como os blogs têm cada vez um lugar de maior destaque na imprensa escrita. Chegando mesmo a promover ou direccionar, mesmo que indirectamente, linhas editoriais. Elogie-se, por exemplo, o facto do jornal o Público ter uma pequena secção Blogues em Papel, onde são retiradas ideias-chave de blogosfera portuguesa.

Em suma, como Maria João Guimarães realçou logo no início do artigo este assunto pode ser polémico... E é... E continuará a sê-lo muito depois da tomada de mil e um primeiros-ministros homossexuais, porque Portugal continuará religiosamente a ser um país homófobico, onde se escondem conservadorismos por detrás da eterna justificação "a nossa cultura é assim/a nossa cultura não é assim" (riscar a que não interessa).

obs: no espaço de uma semana o jornal Público soube mostrar que tanto se pode fazer jornalismo de referência como o oposto... basta escolher o ângulo correcto para uma notícia.

1 comentário:

Héliocoptero disse...

Há obviamente um paradoxo no facto de os gays pedirem o direito à indiferença, mas depois chamarem a atenção para o facto de alguém ser lésbica. Mas há um motivo para isso: a Primeira-Ministra islandesa é assumidamente homossexual e não foi isso que a excluiu do cargo que agora ocupa; em Portugal, um político que saísse do armário arriscava-se a ser afastado.

Há dois tipos de indiferença: a que não julga e olha apenas ao mérito e a que diz não ser importante apenas para silenciar e menorizar. Na Islândia vive-se a primeira, em Portugal a segunda. E as coisas só mudam a partir do momento em que ser homossexual for não natural quanto o ser loiro ou ter olhos castanhos. Paradoxalmente, o caminho rumo a esse estado de coisas passa pelo seu oposto.

Quanto a Portugal continuar a ser sempre religiosamente homofóbico, só tens que olhar para o exemplo dos Estados Unidos, que há quarenta anos ainda segregava cidadãos apenas pela sua cor da pele. Não quer dizer que esteja tudo bem do outro lado do oceano, mas significa apenas que as coisas mudam. Por vezes mais depressa do que se pensa.