sábado, março 28, 2009

Hora do Planeta 2009


Traz as velas e vamos mudar algo...

raivinha

Ontem foi dia mundial do teatro... 
Ontem foi um dia horrível...

Estive 45 minutos à espera de um bilhete à torreira do sol porque havia uma fila enorme. Cheguei às 13h, quando a bilheteira abria mas no entanto não vendia logo os bilhetes. Só a partir das 15h... fui dar uma volta e voltei às 14h45. Por essa hora a fila já dava meia volta ao D. Maria II. E porquê? Porque uma escola tinha levado duas turmas que varreram os bilhetes quase todos. Sobretudo levaram-me os bilhetes d'A Noite.

Mais tarde soube que por volta da hora do espectáculo conseguia-se arranjar novamente bilhetes... infelizmente a essa hora estava a ver os vencedores jovens criadores da EDP. Que diga-se a verdade, de maneira geral, eram um conjunto de nulidades. Ou quase. Impressionante como o nível das instalações é tão baixo. Acima de tudo é evidente como estes jovens criadores passam os dias no seu cubículo sem verem o que já se fez ou o que se faz actualmente noutros países. Garanto que evitavam fazer coisas com aroma a plágio ou a exercícios que mais parecem o b-a-bá da produção artística... Assim se ganha prémios em Portugal.

Valeu a conversa com um amigo...

segunda-feira, março 23, 2009

Zoologia Marinha

As coisas limitam-se a ser o que são
quando as olhamos de frente, como esse cão
que enfrentou o céu e não teve resposta.

Outras coisas são mais simples do que
pensamos, quando as definimos entre o
que são e o que não sabemos delas.

O cão perdido no areal pode ser uma dessas
coisas, quando transforma as ondas na
sua matilha, e elas vão atrás dele.

Como se as ondas fossem animais,
e o mar respirasse pelas suas bocas
quando perseguem o cão que as espera.

Nuno Júdice

for those who have to wear that stupid hat


via Os Tempos Que Correm

momento zen de puro benfiquismo

Os sportinguistas estão indignadíssimos com um penálti mal assinalado pelo sportinguista Lucílio Baptista. Concordo com eles, mas pecam por defeito! Eu estou revoltado com a incompetência que esse sportinguista tem demonstrado ao longo de TODA a sua carreira.

Vejamos a estatística: ao longo da carreira, assinalou 3 grandes penalidades a favor do FCPorto e 3 grandes penalidades contra o mesmo clube regional; assinalou (contando com a de sábado) 6 grandes penalidades a favor do Benfica e 6 grandes penalidades contra o Glorioso; assinalou 3 grandes penalidades contra o Sporting e 8 a favor!! Expulsou 8 futebolistas do Benfica e 6 dos adversários. Expulsou 4 jogadores do Sporting e 10 dos adversários. Este árbitro apitou 39 jogos do Benfica, ganhámos 18… menos de 50%. Não me esqueço das expulsões ridículas de Valdo, Poborsky, Simão ou Ricardo Rocha (este, então, foi de antologia). Lembro-me, e bem, da forma espúria como Lucílio expulsou duas vezes o Léo .

Portanto, eu vejo os sportinguistas a, finalmente, exigirem o que há muito tempo tenho pedido: que este senhor não apite nem mais um jogo! Mas peçam-no não em nome de uma grande penalidade mal assinalada, mas sim em nome de uma carreira de vergonhosa dualidade de critérios.

Tal como os sportinguistas esperam há 48 horas por um pedido de desculpas, também eu espero, há muitos anos, pelo mesmo acto de contrição. Nunca chegou! (...)

Pedro Ferreira in Tertúlia Benfiquista

sexta-feira, março 20, 2009

Como eu não possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá-Carneiro

nota: bom dia da Poesia!

"Che"

Chega hoje a Portugal "Che - o Argentino", primeira parte dos dois mais recentes filmes de S. Soderbergh e B. de Toro. Confesso que nunca usei t-shirts do Che. Não uso e nunca usarei. Mas, li muitos dos seus textos e algumas biografias e minha opinião é a mesma de sempre.

Ele foi um grande homem e um bravo lutador pela liberdade. Teve a sorte de ser de uma família com posses e cultura. Mas, quis sempre a liberdade e a independência através das armas e isso para mim pesa. Ao contrário do seu fiel amigo Alberto Granado, que pudemos conhecemos noutras das obras cinematográficas sobre a sua vida "Diários de motocicleta", que advogava uma luta sem armas, nem sangue, nem violência, Che sempre considerou essa opção como a única exequível. E foi essa mesma violência que o matou. A violência que se encontrava e encontra em tantos políticos um pouco por todo o mundo. A violência que faz o mundo girar. O que este novo filme parece mostrar é que há uma face negra e menos negra em Che, como em todo o mundo. Ninguém é perfeito, mas isso não o torna menos capaz de ser uma referência e herói para tantas pessoas.

Mas, sinceramente, se me perguntarem o que penso das t-shirts... duvido que ele gostasse de se ver retrato em t-shirts, canetas, canecas e outros produtos de marshendising.

Referência para a interessante entrevista de B. de Toro no Ípsilon (link). Mas, também era obvio que com ele seria sempre interessante.

quinta-feira, março 19, 2009

intersecção de momentos

no verbo escrever,
os momentos guardados.
nas notas de glass,
os momentos recordados.
na aragem da maresia,
apagadas tuas pegadas.

no verbo escrever,
passadas a limpo as folhas. amontoadas.
nas notas de glass,
passadas as horas de reflexão. imundas.
na aragem da maresia,
sentidas as agruras de um pôr-do-sol. recorrente.

no verbo escrever,
passadas as notas que custam a sair. de uma e outra folha.
nas notas de glass,
escritos ritmos de azul e melancolias avermelhadas. dum sol que fere.
na aragem da maresia,
um fétido cheiro a lixo que se amontoou. pelas correntes e correntezas.

no verbo escrever,
nas notas de glass,
na aragem da maresia,
um sem número de momentos que não descrevo. não o faço. não o sei. não o quero. não o quero fingir.não vou fazer esse jogo. não hoje. não amanhã. não-sob-a-forma-de-um-poema-improvisado-não-improvisado.

porque não há intersecção de momentos,
quando nada se sente. apenas se escreve. com o verbo escrever.

nota: ao som de philip glass - solo piano - metamorphosis two

still twitter

The Daily Show With Jon StewartM - Th 11p / 10c
Twitter Frenzy
comedycentral.com
Daily Show Full EpisodesImportant Things w/ Demetri MartinPolitical Humor

@ Daily Show

terça-feira, março 17, 2009

As duas faces da maioria absoluta

Em princípio, só um Governo apoiado por uma maioria absoluta de deputados estará em condições de cumprir, de forma coerente, estável e eficaz, o programa que o respectivo partido submeteu ao eleitorado. Sendo assim, essa evidência torna-se ainda mais flagrante em tempos de crise profunda como aqueles em que vivemos. Governar com maioria relativa ou em coligação tenderia, pelo contrário, a fragilizar a coerência e a estabilidade políticas e a comprometer a própria governabilidade, prejudicando as medidas necessárias para ultrapassar as gravíssimas dificuldades que atravessamos. No limite, poderia até chegar-se a situações de bloqueio e paralisia que tornariam o país ingovernável.

Eis a face positiva da maioria absoluta – pela qual o PS e José Sócrates se voltam a bater. Sucede, porém, que a maioria absoluta é uma moeda com duas faces.

A estabilidade e a governabilidade são valores de importância indiscutível, mas reduzidos a si mesmos e a uma pura lógica pragmática podem conduzir a fenómenos de desertificação da vida democrática e partidária. Foi precisamente o que aconteceu durante as duas maiorias absolutas de Cavaco e voltou a ser agora confirmado no Congresso do PS que entronizou Sócrates como líder absoluto do partido.

Tem sido abundantemente glosada a frase de Manuela Ferreira Leite sobre as vantagens de uma suspensão temporária da democracia. Mas sem irmos tão longe na ironia inábil ou no acto falhado, será oportuno saber se o nosso sistema democrático não vive já hoje suspenso do mero formalismo dos seus rituais representativos, como demonstram os debates parlamentares – designadamente aqueles a que comparece o primeiro-ministro – ou se pôde constatar no último Congresso socialista.

A mitificação da maioria absoluta como valor absoluto, em nome da estabilidade e da governabilidade, torna a democracia um valor instrumental e converte os partidos no poder em meras máquinas amorfas e caixas de ressonância da vontade absoluta dos seus líderes. Talvez seja uma daquelas heranças secretas, sublimadas por uma superficial boa-consciência democrática, da longa experiência de autoritarismo que moldou profundamente Portugal antes do 25 de Abril.

Apesar das discussões bizantinas que parecem entreter alguns politólogos sobre as diferenças entre Sócrates e Cavaco e as relações de cada um deles com os respectivos partidos, há uma evidência cristalina que se impõe ao olhar do mais inocente observador: em maior ou menor grau, é manifesto o desprezo de ambos pelas enfadonhas minudências da vida partidária. Para eles, os partidos são puros instrumentos de conquista do poder, retaguardas domesticadas de um poder executivo fortemente personalizado, quase exclusivo.

Pouco importa que Cavaco tenha sido um outsider em relação à máquina partidária (como o é também, de algum modo, Ferreira Leite) e Sócrates seja um produto com a marca de origem dessa máquina: a partir do momento em que assumem a liderança dos respectivos partidos e se vêem consagrados através de maiorias absolutas, as suas diferenças de comportamento são simplesmente de estilo e personalidade. Aliás, se Cavaco ‘governamentalizou’ o PSD, que fez Sócrates com o PS? E que significa o marketing da nova campanha socialista em que a referência ao PS é escamoteada e Sócrates aparece como vedeta solitária e homem providencial?

Obviamente, não há poder político sem personalização. O carácter e o carisma de quem encarna esse poder são indissociáveis da identificação do eleitorado com os programas e promessas eleitorais (como foi patente nos Estados Unidos com o fenómeno Obama). A personalização do poder não é um mal em si mesmo e esteve sempre no coração da política. O problema põe-se quando essa personalização se torna a tal ponto exclusiva e monopolizadora que produz o chamado ‘efeito eucalipto’: seca tudo à sua volta. Não apenas a vida interna dos partidos – como sucedeu ao PSD depois do consulado cavaquista e está a acontecer ao PS socrático de hoje – mas a vida democrática em geral.

A face positiva das maiorias absolutas esconde, muitas vezes, a sua face perversa: a de um poder que acaba por convencer-se da sua infalibilidade. Ora, para enfrentar tempos difíceis e até dolorosos como estes que estão aí, quando as verdades definitivas se tornaram incertas e precárias, a pior das soluções reside na arrogância do poder absoluto, o que confunde autoridade com rejeição do compromisso e do consenso, o que insiste em dividir em vez de unir por medo de passar por fraco. Hoje, os fracos são os que temem as virtudes da humildade democrática. Por sinal, as mesmas virtudes que Barack Obama não se cansa de promover.

Vicente Jorge Silva in SOL

obs: negritos de minha autoria

having fun

a lot of fun... with this great game (link)

sexta-feira, março 13, 2009

Rachmaninov - Concerto no. 3


Piano Concerto No. 3 in D minor, Op. 30
1. Allegro ma non tanto (excerpt)
Philadelphia Orchestra
Conducted by Eugene Ormandy
Sergei Rachmaninov, piano

Note: Rachmaninoff made two rather brief cuts of 4 and 2 bars in the first movement, 13 bars of the Intermezzo and made two large cuts, 23 and 13 bars, in the Finale.

A NOITE

a partir de Al Berto
e comencenação João Brites

João Brites encena A Noite, a partir do texto Apresentação da Noite, de Al Berto, uma montagem de excertos gravados entre 1981 e 1983, textos inéditos e outras obras como O Medo, Lunário ou À Procura do Vento num Jardim d'Agosto. Poeta surgido nos finais dos anos 70, Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948-1997), distingue-se por uma lírica confessional e reflexiva, marcada pelos afectos.

Em mais de vinte anos de actividade literária, a expressão poética assumida pelo autor é marcada pela disforia que parece cercar o homem num ambiente que lhe é hostil e que contamina a sua escrita. A palavra ganha um poder exorcizante mostrando-se necessário tornar audível o silêncio onde, como disse Al Berto, “se perde todo e qualquer desejo de escrever”.
Um longo e demorado gesto de despedida. Uma série de jogos, ornamentos inúteis, tentativas de adiar a inevitável ausência que pauta todas as relações. Talvez a vida seja a distracção antes da morte, como um espaço que vai diminuindo, desaparecendo. Talvez, como duas faces de um mesmo espelho que se acompanham nos últimos momentos, o masculino e o feminino se invertam, se desloquem, se dissipem nesta condição humana de sermos breves.”

interpretação Ana Lúcia Palminha e Pedro Gil; dramaturgia e espaço cénico João Brites; oralidade Teresa Lima; corporalidade Vânia Rovisco; figurinos e adereços Clara Bento;
desenho e operação de luz João Cachulo

co-produção Teatro O Bando e Teatro Nacional D. Maria II

em cena até 5 de Abril

simples

ontem fizeram-me um grande elogio, sobretudo porque foi sincero e sentido: és mesmo uma pessoa simples, não és como outros lisboetas. para quem como eu é lisboeta de gema isto foi um elogio ,porque mostra que não perdi a essência. porque a essência de ser lisboeta é ser-se um pouco de todo o lado. e isso obriga-nos a ser humildes e simples. desculpa, mas este foi mesmo dos elogios mais importantes que ouvi. sobretudo vindo de um sertaginense. ah. que bela terra. e o cheiro a campo que não tem igual...

eles não aprendem nada de nada

Lá saiu a habitual lista dos mais ricos, da revista Forbes. A deste ano traz uma novidade nacional: nos mil mais ricos do Mundo, comparando com a lista de 2008, saiu Belmiro e entrou Berardo. Ora acontece que, este ano, eu também mereço entrar numa lista: "Lista dos que deixaram de ser tansos e já não acreditam em tudo os que os especialistas de finanças dizem". Já fui crente, mas isso foi A.C. (Antes da Crise). Agora, quando vejo especialistas dizer que Berardo é mais rico do que Belmiro, compreendo que uma revista do capital social não está longe de uma revista do social. Esta entrevista famosos que são famosos porque são entrevistados e aquela faz contas com um calculadora que ignora números e só tem leves impressões. O director da Forbes julga ter lábia para me enrolar numa discussão sobre finanças, mas eu não deixo. Lembro: o essencial das finanças é a relação entre o deve e o haver. Pergunto ao director da Forbes: preferia ter o que tem Belmiro ou o que tem Berardo? Peço desculpa pela particularização da conversa, mas ela ilustra o essencial da crise: trataram os números como magia. E, como se vê pela lista da Forbes, insistem.

Ferreira Fernandes in DN, 13 março 09

segunda-feira, março 09, 2009

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recantos do mar e da terra

horário do fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


Mia Couto in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


obs:
agora, é hora de viver esse momento. uma dor a más horas.
amanhã será um novo dia. de muitas horas mais. boas e más.
amanhã cá estaremos todos para tornar os teus dias em mil e um bons momentos.
beijinho, amiga!

sábado, março 07, 2009

curtas

- Na quarta passada vi a ante-estreia do documentário Patti Smith - Dream of Life e confesso que esperava um pouco mais. Parece não haver uma linha orientadora que nortei o documentário além de simplesmente mostrar Patti na sua vida de casa, tours, ou vida com amigos. Se a narração feita por ela dá um ar mais real "à coisa", parece-me evidente que 11 anos de volta deste documentário e ainda mais tendo pleno acesso à sua vida devia ter resultado em algo mais... note-se que há uma ou duas passagens entre planos brilhantes.

- Já saiu o número 2 da Cumle Frase. A para mim desconhecida Filipa Leal é a escolhida para esta segunda edição. Obrigatório ler e reler esta nova publicação que surge na Turquia mas que promete mexer com o mundo da poesia também em Portugal.

- Destaque ainda, no mundo da poesia, para o novo visual do blog do Mário, ou M. Tiago Paixão para todos os outros. Será uma apologia aos caos urbanos que nos rodeiam ou mero design mais apelativo?

- Esta semana tivemos a estreia de Esta Noite Improvisa-se no teatro nacional D. Maria II. Para a semana lá estarei. Pirandello promete sempre...

cine limpo

Bem-vindos a “Cine Limpo”, a nova crónica semanal do CENA, onde a sétima arte será discutida de forma civilizada, asseada e sem fanatismos. Nesta semana de estreia, por razões pessoais (testemunha num processo de abuso de confiança), não pude ir ao cinema, de maneira que, ao invés de tecer um ensaio crítico a uma qualquer película actualmente em cartaz em pelo menos dez capitais de distrito nacionais, optei antes por abordar a cerimónia dos Oscar™ - que acompanhei pelo youtube passado uma semana em dezasseis bocados de cerca de nove minutos e 58 cada - e seus vencedores. Confesso que me fazem aflição os prémios que implicam a subida ao palco de mais que uma pessoa – sobretudo quando, apesar de subirem dezenas, só há um Oscar™ na mesma -, de maneira que vou comentar, antes de mais (mas também apenas), os prémios de representação.

 

Kate Winslet arrebatou o galardão para melhor actriz, vestindo a pele de uma alemã que, no pós-Segunda Guerra Mundial, era pica do eléctrico e se enrola com um garoto que, uns tempos antes, tinha vomitado no hall de entrada de seu prédio. De notar que depois o garoto cresceu e ficou o Ralph Fiennes, ao passo que a Kate Winslet ficou na mesma a Kate Winslet, mas mais velha, com lenços na cabeça e xailes. Já o galardão de melhor actor, apesar de ter ido para Sean Penn e a sua interpretação de Harvey Milk (um activista homossexual que chegou a usar, em simultâneo, rabo de cavalo, calça e casaco de ganga, arrasando por completo a noção de que os gays primariam pelo bom gosto), deveria ter ficado com Frank Langella (fez de Nixon – uma pessoa que já morreu – e usou o verbo “Fornicate” no gerúndio, ainda que apenas por uma vez em todo o filme) ou Mickey Rourke (que pagou sessenta dólares por uma lap dance da Marisa Tomei – achei algo carote -, além de ter cortado um dedo na máquina de fazer fatias de fiambre).

 

Angelina Jolie é que, apesar de ter dito “this is not my son” algumas sete mil vezes, foi para casa de mãos a abanar, tal como o seu marido Brad Pitt, que foi protagonista dum filme onde mais parecia que o argumentista tinha feito uma aposta de dinâmica igual ou semelhante a “vejam como eu consigo pegar nesta premissa genial e, mesmo assim, escrever um dos guiões mais chatos de sempre”. Se fez, ganhou. Finalmente, o Oscar™ de melhor actor secundário foi para o malogrado Heath Ledger (“Eia, só porque morreu”, dirão as más línguas, “Eia, ganhava na mesma, dirão os fãs, “Eia, agora era tudo mentira e ele aparecia”, terão dito os que sobram), mas tive pena pelo Philip Seymour Hoffman, porque seria a primeira pessoa com fato de gala e gorro da Lightning Bolt a ir receber o galardão máximo da Academia. Máximo, é como quem diz, que até era o de actor secundário.

 

De notar ainda que o de melhor actriz de suporte foi para Penélope Cruz, e que, entre as suas palavras aparentemente inglesas ditas num sotaque espanhol que parecia a gozar, me lembrei duma aposta que fiz em 1997 com um vizinho: teimei eu que, Mimi Rogers à parte, todas as actrizes que mantiverem relações sérias com Tom Cruise ganharão um Oscar™ eventualmente, mas só depois de já não terem nada com ele. Apostámos um murro com força nos rins, que na altura me parecia a melhor coisa do mundo. Portanto, e logo após o discurso de Penélope, fiz fotomontagens da Katie Holmes a comer outros gajos (usei a série “Dawson Creek” como base e meti uma data actual nas fotos). Resta-me esperar pelo divórcio e que a Katie Holmes faça de Anne Frank. Depois disso, é o Tom Cruise morrer e vai haver um rim a sentir o meu punho fechado.


Voltarei para a semana com uma crónica analítica a incidir sobre um filme, o qual, para aquelas pessoas que não gostam de ler e só vêem as estrelinhas, classificarei com estrelinhas.


in Cena


obs: Bruno Aleixo já era... até porque agora já teve alta do hospital... agora esta crónica semanal promete muito, muito mais...

sexta-feira, março 06, 2009

Os jornais & eu

Em criança (e em adolescente, e em adulto) não havia jornais na minha casa mas havia jornais nas casas da minha família. Na do meu avô paterno lembro-me do Debate, monárquico, impossível de ler porque estava sempre dobrado e com a cinta posta. Na do meu tio Elói, aí sim, abertos, os semanários da sua terra, o Ecos de Pombal e o Notícias de Pombal.

Na secção necrológica do Ecos li uma ocasião uma notícia que começava assim: faleceu oportunamente no Brasil o senhor Fulano de Tal, tio do nosso estimado amigo Não Sei Quê Não Sei Quê. Na do meu outro avô, em Nelas, era o Diário de Notícias, que chegava no comboio da meia-noite e trazíamos, de bicicleta, da estação. O meu outro avô, de casaco de linho branco, passava horas a lê-lo na varanda para a serra. Depois do casaco de linho morrer a minha avó substituiu o Diário de Notícias pelo Almanaque da Sãozinha, cheio dos milagres da dita, relatados por crentes agradecidos. Num desses prodígios uma senhora contava que, de pobre que era, olhava em lágrimas as panelas vazias do almoço. Veio-lhe a Sãozinha à ideia, rezou com empenho, entrou-lhe de imediato uma lebre pela cozinha dentro, fechou a cozinha, matou a lebre à paulada e regalou-se a comer prodígio divino de cabidela. Confesso que esta dádiva da Sãozinha me fez um bocado de impressão, ao imaginar o assassinato do bicho. Até ao fim da sua vida a pagela da santa dos roedores ocupou um lugar importante no oratório da minha avó: uma adolescente de aspecto virtuoso, cheia de medalhas, que ofereceu a sua existência terrena em troca da conversão dos pais. Jesus fez-lhe a vontade arrebatando-a, estou a citar, ao nosso convívio, e os pais incréus descobriram o Altíssimo que, mesmo através da cabidela e do fricassé, se manifesta à gente, ou não mesmo, de preferência através da cabidela e do fricassé, misturando o Céu com o micro-ondas e os mandamentos com batatinhas salteadas.

Na ideia de entender o interesse do meu outro avô pelo Diário de Notícias comecei a folheá-lo, não era aos quadradinhos e portanto aborreceu-me. Troquei-o por pilhas antigas das Selecções do Reader's Digest em que achei nacos de prosa fascinantes: "Encontrei o Amor no Hospital Ortopédico", "Eu Sou o Testículo de João", "Ao Ficar Cega a Sua Existência Ganhou Sentido". Mais tarde A Bola e o Record, sobretudo A Bola onde trabalhavam grandes jornalistas

(Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Vítor Serpa, as extraordinárias reportagens da Volta à França de Carlos Miranda que bem mereciam estar reunidas em livro e nada devem às de Antoine Blodin) e quando esta geração deixou de escrever eu fui deixando de ler. Ao PÚBLICO devo o ter começado a ensaiar prosinhas em forma de crónica, graças ao convite de Vicente Jorge Silva, que eu não conhecia e me convidou para o suplemento dos domingos, salvando-me, porque a editora, à época, não pagava, de vender Bordas de Água nas pastelarias ou arrumar automóveis

- Trôça, troça

na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo à frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com umas tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado ao balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader's Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo de João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos, a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito

(não estou seguro)

que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos.

António Lobo Antunes in Editorial do XIX aniversário do Público, 5 Março 09

terça-feira, março 03, 2009

um pouco mais de céu

aqui.

e eu podia sentar-me
ali.
algures no espaço fofo de uma nuvem
que faz do frio
um abraço meigo.

um pouco mais de céu
aqui.

e eu recordo a viagem
eterna.
constante.
um cá-lá-cá-lá com um ano de distância.
que parece já perdido no passado.

um pouco mais de céu
aqui.

e ele não era meu.
era teu.
e dele.
e dela.
ela que gosta de o ver. de adormecer a contar as nuvens que escondem
as estrelas.
que contávamos à distância
de uma viagem. de um ano.
de um céu. só um pouco mais de céu.

boas novas cheias de atraso

Vem tarde e a más horas mas tinha que deixar um comentário a uma das melhores noticias da semana: a candidatura de Vital Moreira ao Parlamento Europeu.
É quase desde o inicio das minhas lides na internet um dos nomes que mais gosto de ler. Tal como o falecido Eduardo Prado Coelho, ou o Ferreira Fernandes. Há nomes que me acompanham todos os dias no meu ritual matinal de leitura.
Mas, mais do que isso Vital Moreira é um nome independente, mas não muito, que garante um carimbo de qualidade e trabalho a esta campanha. Fica aqui a sua declaração de candidatura.