terça-feira, abril 28, 2009

Do S. João ao Indie

Pensemos o actual Portugal cultural através do teatro e do cinema ou da oferta cultural de Porto e Lisboa e encontramos diferenças e semelhanças. No espaço de dois dias pude assistir a uma peça num dos principais teatros do país (S.João) e a um filme dum jovem cineasta promissor num já conceituado festival (Indie Lisboa) e que pontos de contacto pude encontrar entre estes dois eventos?

Na peça Tambores na Noite, de Brecht, por Nuno Carinhas, havia reminiscências do encenador alemão mas o trabalho do actor e dos personagens parecia pela metade. A qualidade das interpretações era mediana e só Paulo Freixinho sai da média. Para pior. Muito pior. Depois as escolhas cénicas excepto no terceiro acto (Marcha das Valquírias) tendiam para o old-school-piroso-banal. Mais do que isso, as tentativas de criar uma analogia entre o texto brechtiano e o 25 de Abril foram pouco mais do que um esforço estéril de umas notas no piano e uns cravos atirados à queima-roupa. Na minha opinião, exigia-se muito mais dos actores, do teatro e da primeira interpretação de Brecht. Ai, que saudades da Mãe de G. Amorim. Destaques ainda negativos para o calor infernal que se fazia sentir na sala, que só poderia fazer um sentido irónico no primeiro acto (África), e para o público labrego que enchia a sala mas que também podia estar a encher o Coliseu (os Produtores) ou o Sá da Bandeira (Peso Certo).

A minha estreia no Indie deste ano fez-se com Hulaloop soundings uma pavorosa curta indonésia, com a Nossa necessidade de consolo e Précis do Quotidien fastidiosas curtas portuguesa e canadiana, pela agradável surpresa dos Santos dos últimos dias de Leonor Noivo mas sobretudo pela deliciosa animação de La maison en petit cube. Após um jantar rápido como manda a lei de qualquer festival do género seguia-se o momento social da noite Birth of a City, primeira longa de João Rosas. O primeiro problema foi logo o conceito de longa-metragem... acima de tudo estávamos perante uma curta prolongada. A ideia tal como a da sua curta anterior era a de acompanhar um artista e o seu processo criativo, ou seja onde antes tínhamos uma pianista temos agora uma pintora. De grande qualidade, diga-se. Olhando os extremos pode-se dizer que o plano inicial e final deixam algo a desejar embora se compreenda a lógica de ambos. A viagem é o elemento central, tanto na sua visão da cidade enquanto corpo vivo de gentes, cheiros, e sons que João vive num questionamento de eterno adolescente, como na sua dimensão mais estrutural e material de linhas de arquitectura e mapas que Claire sente. É esta viagem constante que atravessa o filme que poderia ter sido mais trabalhada. Algo mais do que constantes planos-parados-retratos de ruas e gentes sempre de passagem. Falta ritmo. E não pode faltar ritmo numa cidade como Londres onde a cidade é sinónimo de mudança, de recriação, de reconstrução. Até pelas obras que se adivinham. Mas, não foi tudo negro. Longe disso. Alguns planos destacaram-se pela positiva, sobretudo depois da entrevista ao polaco com a simbiose entre a cidade que surgia das vigas e a dos pinteis. Os momentos do nascimento da cidade de Claire são aliás os mais bem conseguidos na obra, até pela qualidade da sua obra. Um último realce para o delicioso momento em que Claire afirma repetidamente que agora sim a obra esta acabada. Mentira. Nenhuma obra está definitivamente terminada. Talvez fosse melhor que assim fosse com Birth of a city.

E com todo este contexto passamos para um último ponto muito importante desta já longa análise... porque estou eu sempre tão desagradado com tudo?
Vivo a minha vida pessoal sempre com um sorriso na cara e uma visão positivista mas em contraste sou extremamente crítico com as minhas experiências culturais. E isto significa que saio regularmente desiludido ou pelo menos apreensivo de teatros, cinemas ou exposições. Será a culpa da qualidade média do que se apresenta pelas nossas bandas? Será que devia ter mais sentimentos e deixar-me ir pelo facto de ser um amigo meu que fez uma coisa, ou que a mãe dele morreu, ou que o gato está doente, ou que vem de um país sem produção cultural e relativizar as obras artísticas ao contexto do autor? Sinceramente não sei.

Até ver sinto-me apenas o velho rezingão que raramente fica feliz com o resultado final que é apresentado nos teatros, cinemas, exposições ou revistas deste nosso (re)canto.

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