domingo, maio 31, 2009

o mais antigo dos conflitos (o ser e o nada)

1. a primeira função de qualquer forma é ocupar espaço, impedir o vazio.

2. a primeira função do vazio é ocupar o espaço impedindo a forma.

Gonçalo M. Tavares in O Senhor Swedenborg

milano memories

enciclopédia não-alinhada

Vinho
É o produto obtido exclusivamente por fermentação alcoólica, total ou parcial, de uvas frescas, esmagadas ou não, ou de mostos de uvas.
O processo de fabrico envolve vindima, pisa, fermentação, filtragem e envelhecimento.

Tipos de vinho:

Tinto: varia muito, entre o magnífico e o parece-vinagre. Quando é bom, não se quer outra coisa nem dá ressaca (até porque beber muito fica caro). Quando é mau, peça cerveja da boa que custa o mesmo.

Branco: as senhoras bebem-no fresco. A menos que seja a acompanhar peixe, não é de bom-tom ser bebido por homens.

Verde: há quem pense que vinho branco e vinho verde são a mesma coisa. Mas não. Vinho verde é um vinho novo, produzido no Noroeste de Portugal, entre Douro e Minho, podendo ser branco, tinto, rosé ou espumante. Haverá gente que, mesmo depois de ler isto, continuará a pensar que vinho verde e vinho branco são a mesma coisa.

Rosé: as senhoras bebem-no fresco. Nunca é de bom-tom ser bebido por homens.

Espumante: champanhe feito noutros sítios que não Champagne.

Espumante tinto: grande percentagem das pessoas estão a descobrir agora que isto existe. Bebe-se a acompanhar leitão.

Frisante: é vinho branco com gás metido, tipo o que se mete na seven up. Compradores menos atentos compram-no a pensar que é espumante.

Vinho da casa: é um vinho de qualidade entre relativa e duvidosa, de origem local ou indefinida (vide mistura de vários vinhos da Europa). É servido nos restaurantes ao copo ou em garrafa, embora venha sempre em garrafões ou pacotes tetra pak e engarrafado na hora com preciosa ajuda de um funil. Nas palavras do dono ou empregado do restaurante, é sempre bom. Tal como a mousse de chocolate, que é sempre caseira.

Vinho de missa: o único que ainda não provei. Antigamente, os leigos podiam bebê-lo no crisma. Mas hoje já só se comunga.

Vinho generoso: inclui porto, madeira, moscatel, xerez, etc. Apesar de docinho, não é de mau-tom ser bebido por homens.

Mistura de vários vinhos da Europa: vinho inqualificável, tanto na origem como no sabor. É servido nalguns estabelecimentos, como vinho da casa, e na tropa.

Rui Hugo in Cena - Sapos Vídeos

sábado, maio 30, 2009

três. três momentos. três momentos distintos.

1.
se isto é um jazigo aberto pelas dores das pessoas
se é uma podre gangrena feita de memórias
dolorosamente recordadas entre copos de meio-da-noite.
com aquelas palavras de cá. perto. e de lá. longe. sobre os momentos julgados
indescritíveis.
momentos com um novo significado.
é um momento duro. onde o pesar é a palavra mais dura.
e onde a tua palavra pode ser o momento mais doce.
guarda memória. guarda recordação. guarda dentro de ti.
um pouco dela.


2.
eu que enterrado até aos pés,
de pernas para o ar,
procuro um palco
por onde andar. onde me apresentar.
a quem trouxer a última pá.
a quem trouxer um último fôlego.
um último sufoco
antes de.


3.
a insónia.
o verbo dormir no presente do condicional do joão pestana.
uma brincadeira de crianças num sono de gente velha.

sexta-feira, maio 29, 2009

quinta-feira, maio 28, 2009

Legal, é. Mas é correcto?

Há uns anos, quando Paulo Portas apareceu como Zorro na política, nunca lhe perguntaram o que deviam perguntar. Para aquele justiceiro de quem se sabia que tinha um Jaguar como parte do ordenado da Universidade Moderna (sobre o qual, assim, não pagava impostos) havia duas perguntas. A primeira: "O Jaguar?" A segunda, já que não responderia à primeira: "E o Jaguar?" Nestas eleições europeias, eu tenho uma pergunta para as candidatas socialistas, Ana Gomes e Elisa Ferreira. Para a primeira: "Sintra?" Para a segunda: "Porto?" E não saio daí. Tenho também uma pergunta para Paulo Rangel, o cabeça de lista do PSD. Foi notícia ele ter suspendido o mandato em 2007 e 2008, durante meses (tendo continuado a trabalhar como jurista), mas ter voltado sempre na véspera das férias, para receber o ordenado quando o Parlamento estava parado. Evidentemente, isto é legal. Como o Jaguar, Sintra e Porto. Como era legal aquele deputado inglês fazer-se reembolsar pelo combate às doninhas no seu quintal... Mas legal não é suficiente. A pergunta que tenho para Rangel: "É correcto?"

Ferreira Fernandes in DN, 28 V 09

o regresso da sra Justiça

A TVI, mais concretamente algumas das suas emissões do Jornal da Noite de sexta-feira, foi condenada pelo Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social por “desrespeito de normas ético-legais aplicáveis à actividade jornalística”.

A deliberação divulgada hoje toma posição sobre um conjunto de queixas apresentadas contra aquele canal de televisão, em concreto contra o jornal televisivo semanal que Manuela Moura Guedes apresenta à sexta-feira.

Todas as queixas versam o tratamento dado ao Governo e, sobretudo, à figura do primeiro-ministro, José Sócrates, sendo que a maioria se reporta ao processo Freeport.

Ao todo entraram na ERC dez queixas, apresentadas por cidadãos entre 16 de Fevereiro e 30 de Março de 2009, que visavam, entre outras, as edições do Jornal da Noite de 30 de Janeiro, 13 de Fevereiro, 1 de Março e 27 de Março. Uma destas queixas foi apresentada por José Arons de Carvalho, deputado socialista e antigo secretário de Estado para a Comunicação Social dos Governos de António Guterres.

Os membros da entidade reguladora não foram unânimes no voto do parecer. Favoravelmente à condenação da TVI votaram José Alberto de Azeredo Lopes, Elísio Cabral de Oliveira, Maria Estrela Serrano e Rui Assis Ferreira, tendo estes dois últimos decidido apresentar uma declaração de voto. Já Luís Gonçalves da Silva votou contra, tendo também apresentado uma declaração de voto.

Não é aplicada nenhuma sanção ou coima mas os membros do Conselho Regulador concluem que é seu dever “instar a TVI a cumprir de forma mais rigorosa o dever de rigor e isenção jornalísticas, aqui se incluindo, nomeadamente, o dever de demarcar ‘claramente os factos da opinião’ (artigo 14.º, n.º 1, alínea a) do Estatuto do Jornalista)”.

Os membros da ERC consideram também “verificada, à luz da análise efectuada, a possibilidade de a TVI ter posto em causa o respeito pela presunção de inocência dos visados nas notícias (tal como resulta do artigo 14.º, n.º 2, alínea c) do Estatuto do Jornalista)”.

O parecer reafirma ainda, “sem prejuízo do antes exposto, o papel desempenhado pelos órgãos de informação nas sociedades democráticas e abertas como instâncias de escrutínio dos vários poderes, designadamente políticos, sociais e económicos”.

in Público, 28 V 09

obs: aos pouco vai-se fazendo justiça... já era hora de algo mudar...

quarta-feira, maio 27, 2009

M. de Vitória

M. de Michelle. Michelle de Vitória...
Ela é jovem e tem muito caminho pela frente. Discute-se mesmo que já prometeu mais do que demonstra... que estará a estagnar... Talvez... Mas o resultado de hoje foi provavelmente o melhor resultado da história do ténis português. O 6-4 e 6-3 à 15ª melhor jogadora do mundo é motivo de Parabéns!... ao ténis americano e ao que ele tem feito pela nossa promessa... a Portugal e ao que apoia uma menina que teve que sair para crescer enquanto atleta.
Quanto ao resto do Roland Garros... sejamos realistas a história não se fará naturalmente de Michelle mas sim de Nadal...

domingo, maio 24, 2009

Cine Qua Non

Uma das principais características da modernidade talvez seja o paradoxo de os projectos e sonhos de uma vida estarem ao alcance de cada um. À distância de uns cliques. Se por um lado é cada vez mais fácil, e até mais barato, disponibilizar textos, imagens, música a mil e uma pessoas. Conhecidas e desconhecidas. Por outro é cada vez maior a pressão, senão mesmo competição. Ou seja, encontramo-nos hoje a viver uma absurda contradição: o fácil está mais difícil.

É exactamente por isso que os projectos jovens dos jovens são e têm que ser sempre motivo de atenção e destaque. Revistas como a Bíblia ou a Callema têm sempre que ser referidas e relembradas. Para não desaparecerem no fundo baú do depois-logo-vejo-isso.
É exactamente por isso que o surgimento de uma nova revista tem que ser motivo de destaque. Cine Qua Non - é a jovem revista com nome de gente grande. Aqui fica ela à distância de um clique... http://www.cinequanon.pt


Ter uma publicação é um desejo de há muito tempo. Construir uma publicação como esta, numa nova era da sua possível reprodutibilidade digital, é consumar esse mesmo sonho mais antigo somado à forte vontade de reunir alunos de estudos artísticos.
Reunir artistas. Reunir as artes.
Das universidades, dos teatros, dos estúdios, dos ateliês, das salas de espectáculos, das salas de aula vêm alunos de mestrado e doutoramento, professores e artistas que aqui se reúnem na escrita.
Unidos pelas artes, aliando a teoria à prática, cá dentro ou lá fora,do palco ou do público, manifestam as suas ideias, as suas dúvidas,as suas certezas e incertezas. As suas inovações. Criações. Explicações. Interrogações.

Interrogada várias vezes sobre o título escolhido, sinto-me na obrigação de o explicar. O título tem uma história que se inicia o ano passado em Amesterdão com uma loja de cinema com o mesmo nome, passa por um título de um filme para um projecto
académico e, ganhando uma considerável e agradável saudade e afeição, fixa-se aqui. Cine Qua Non pode assim ser facilmente confundida, logo à partida, com uma revista dedicada ao cinema. Isso é um risco assumido, mas desde já, e para que não restem dúvidas, fica o esclarecimento.

Ana Luísa Valdeira da Silva in editorial

flash light

Serralves 2009

sábado, maio 23, 2009

os advogados afinal fazem mesmo justiça


O bastonário da Ordem dos Advogados acusou ontem a jornalista Manuela Moura Guedes de "envergonhar" a classe jornalística e de violar diariamente o seu código deontológico. Numa entrevista em directo no Jornal Nacional, que acabou por se transformar numa dura troca de acusações, Marinho Pinto afirmou ainda que a apresentadora faz "julgamentos sumários" nas suas entrevistas.
"Você é que podia fazer mais pela sua classe", disse António Marinho Pinto, depois de a jornalista ter afirmado que o bastonário faz pouco pelos advogados, quando denuncia na praça pública irregularidades cometidas pelos profissionais da ordem a que preside.
Manuela Moura Guedes referia-se às declarações recentes do bastonário no Dia do Advogado sobre a existência de advogados que ajudam os seus clientes a cometer crimes. "O senhor é um bufo", disse a jornalista, causando grande irritação ao seu convidado. Marinho Pinto começou então a acusá-la de "fazer um julgamento disfarçado de entrevista".
Durante mais de vinte minutos, os dois envolveram-se numa chuva de críticas, com a jornalista a defender-se das afirmações de Marinho Pinto.
Visivelmente incomodado com a situação, o bastonário acusou a apresentadora do jornal da TVI de "fazer um espectáculo degradante" e de "passar uma má imagem dos profissionais" da estação televisiva. Foi na sequência desta troca de acusações que Marinho Pinto disse que Manuela Moura Guedes "devia ter vergonha de fazer o que faz como jornalista".
Dirigindo-se ainda aos responsáveis da TVI,o porta-voz dos advogados disse: "Quem a põe aqui devia ter vergonha. Esta estação merecia uma jornalista com mais respeito pelas regras deontológicas". No final, a jornalista respondeu: "É o seu julgamento, e a sua opinião é uma coisa que não me incomoda, como deve calcular".

in DN, 23 Maio 09

sexta-feira, maio 22, 2009

out of line

Gaia 09

picar o ponto

hoje tens que picar o ponto, não falhar os teus compromissos, encontros, obrigações e horários definidos. escrupulosamente. e quando lá chegares dá um toque. como fazíamos antes. para eu saber que chegaste bem. a horas. não te esqueças. vai com tempo. que às vezes há atrasos. sempre. quando dá menos jeito. dizes que é azar. que a ti calha-te sempre a fava. talvez não. que o bolo foi comido há muito. e as migalhas varri-as para o chão para tu as limpares e depois dizeres que te atrasas sempre. por causa dessas migalhas. e de outras coisas. mínimas como a poeira. que limpas antes de saíres. para picar o ponto. cuidado. vê as horas. olha que te atrasas. deixa o pó para depois. de qualquer forma ele é só pó. restos. dalguma coisa que já não o é. agora. na hora de picar o ponto.

O João Bénard

O João Bénard é um amigo. É um amigo que, a cada momento da vida, faz sempre como se tivesse acabado de apaixonar-se por nós. Não lhe interessam nada as coisas que mudaram; as asneiras que fizemos; a decadência em que entrámos; a miséria que subjaz às nossas opiniões ou o grau de petrificação das nossas almas. Para ele, somos sempre os mesmos. É um leal. Está sempre connosco como se fôssemos tão frescos como ele. Puxa-nos pela manga da camisa; protege-nos da tempestade; desata a rir no meio das encrencas; arranja tabaco clandestino; deixa-nos subir para os ombros para vermos melhor; para saltar para o outro lado; mostra-nos fotografias nunca vistas, de actrizes lindas, escondidas debaixo da camisola - e faz tudo descaradamente; não se importa de ser apanhado; não tem vergonha nenhuma; é um prazer estar com ele; parece que todo o universo está em causa. É assim o João Bénard.
O João Bénard é uma alma. É uma alma que, a cada momento da vida, desde que nasceu, sempre fez pouco do corpo e das coisinhas de que o corpo precisa. Tinha um corpo transparente, com a alma a ver-se lá dentro. Ou então era a alma que projectava o corpo no ecrã da pele. É por isso que todos nós o conhecemos como conhece Deus.
Deus, apresento-Te João Bénard. João Bénard, apresento-te Deus.

Miguel Esteves Cardoso in Público, 22 Maio 09

momento zen da mãe natureza

quinta-feira, maio 21, 2009

Morreu o Sr. Cinema Português

João Bénard da Costa morreu hoje, aos 74 anos. Divulgador de cinema, director da Cinemateca Portuguesa desde 1980, Bénard da Costa nasceu a 7 de Fevereiro de 1935.

A notícia foi confirmada ao PÚBLICO pelo sub-director da Cinemateca, Pedro Mexia (cronista deste jornal). Mexia assumiu o cargo de director interino da Cinemateca, depois de Bénard da Costa se ter submetido a uma operação, no final do ano passado.

João Pedro Bénard da Costa, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi um dos fundadores da revista "O Tempo e o Modo", dirigiu o Sector de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presidia à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal.

João Bénard da Costa dedicou-se ainda à crítica e ao ensaio, tendo participado como actor em vários filmes, grande parte dos quais de Manoel de Oliveira.

Pelo trabalho à frente da Cinemateca, Bénard da Costa foi condecorado em Setembro passado pelo ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, com a medalha de mérito cultural.

Na última crónica que escreveu para o PÚBLICO, datada de 7 de Dezembro de 2008, João Bénard da Costa refere, em tom autobiográfico, já no final do texto, intitulado "Tempo Turvo: regresso a Crisitina Campo": "Nesta crónica, se falei noutra coisa, foi só porque me distraí muito. Dos meus defeitos, talvez seja o maior".

Reacções de pesar sucedem-se

O presidente do Centro Nacional de Cultura (CNC) classificou hoje de "perda irreparável" a morte de João Bénard da Costa, apontando-o como "uma referência fundamental da cultura portuguesa". Guilherme d´Oliveira Martins recordou que Bénard da Costa foi "um dirigente activo" do CNC no princípio dos anos 1970 e um "grande escritor"

"Era um homem de talento e sabedoria", sublinhou, lembrando ainda que foi, com Alçada Baptista, "uma das almas da revista 'O Tempo e o Modo'".

"A Cinemateca Portuguesa foi a sua paixão. Legou-nos aí um trabalho fundamental", sublinhou ainda, indicando que a "melhor homenagem que lhe devemos é não deixar cair os seus projectos ligados à aproximação do público em relação à história do cinema, que se confunde com a história do mundo no último século. Os seus textos sobre literatura e sobre as artes são referências. Era um grande amigo".

Também o realizador João Mário Grilo lamentou hoje a morte de João Bénard da Costa, "uma figura decisiva na preparação de Portugal para a democracia".

"Somos um país carenciado de exemplos de pessoas que sacrificaram a vida por uma causa pública e por valores essenciais", sublinhou João Mário Grilo, enaltecendo a importância de João Bénard da Costa para lá do cinema.

"A presença de Bénard da Costa não se esgota aí. Foi uma figura fundamental e insubstituível", referiu o realizador.

Para João Mário Grilo, a Cinemateca Portuguesa "é uma das heranças de João Bénard da Costa em Portugal e a nível internacional. Tudo o que aconteceu lá resultou de uma relação de amor".

O produtor Paulo Branco também lamentou, aos microfones da Antena 1, a morte de Bénard da Costa: "Ele foi um divulgador, um impulsionador, um protector. Ele foi tudo no cinema em Portugal. É uma pessoa que foi imprescindível para que possamos hoje em dia ter o conhecimento da obra cinematográfica da maior parte dos grandes autores do cinema mundial". "A minha existência no cinema deve-se a João Bénard da Costa", sublinhou o produtor, citado pela Lusa, referindo que foi graças a Bénard da Costa que "muitas gerações viram cinema em Portugal". "Ele institucionalizou a Cinemateca, que foi essencial no fascínio que o cinema exerceu sobre nós", disse ainda Paulo Branco, citado pela agência noticiosa.

O ensaísta Eduardo Lourenço lamentou igualmente o desaparecimento de João Bénard da Costa resumindo numa breve declaração a ideia que tinha do presidente da Cinemateca: "Morreu o senhor Cinema Português".

Eduardo Lourenço lembrou que conheceu Bénard da Costa quando colaborou na revista "O Tempo e o Modo", na qual o presidente da Cinemateca Portuguesa "era um dos principais animadores, ao lado de António Alçada Baptista". Desde então, o ensaísta, embora residindo em França há muitos anos, acompanhou o percurso de Bénard da Costa, e tornou-se amigo da família. Destacou ainda que Bénard da Costa "foi também um grande ensaísta e revelou-se, no últimos anos, um cronista de rara qualidade".

in Público, 21 Maio 2009

terça-feira, maio 19, 2009

os Mexias e o mundo

1. Segundo o Correio da Manhã da última terça-feira, “Bela Vista custa 1 milhão em subsídio”. O valor estimado corresponderia ao recebido por cerca de 275 famílias beneficiárias do rendimento social de inserção. É uma maneira de fazer contas. Outra seria dizer que a Bela Vista custa 79% de um “mexia” por ano. O valor obtém-se relacionando o total dos subsídios recebidos pelas 275 famílias com a remuneração recebida em 2008 por António Mexia, enquanto presidente executivo da EDP (o gestor português com o salário mais elevado em 2008): 1,26 milhões de euros. Daí o título: “menos de um mexia por ano”.

2. Mexia podia mesmo deixar de ser nome próprio e passar a ser unidade monetária. Um por cento de um “mexia” seria considerado um centavo. Usando esta nova unidade, as 275 famílias da Bela Vista receberam quase 80 centavos e um salário mínimo nacional corresponderia a 0,5% de um “mexia”, ou seja, a meio centavo. Já a remuneração bruta anual de um professor catedrático do último escalão com dedicação exclusiva valeria 7% de um “mexia”, ou sete centavos. Ou apenas quatro centavos se fosse um professor auxiliar do primeiro escalão. Difícil sair dos centavos, com esta nova unidade.

3. Talvez os “mexias” sejam mais úteis para grandes valores. Por exemplo, se o novo aeroporto de Lisboa ficar em cerca de 6 mil milhões de euros (o valor mais alto que encontrei) e tiver um período de vida útil de 35 anos (o período mais curto referido na imprensa), custará 136 mexias/ano. Afinal é quase de borla! Manuela Ferreira Leite tem que rever o significado da palavra mega quando fala em megaprojectos.

4. Chato mesmo é António Mexia pagar a mesma taxa de IRS que paga quem ganha sete centavos em unidades mexias.

(...)

5. Em 1998, o holandês Jaap Stam, tornou-se o defesa mais caro de sempre da história do futebol ao ser transferido do PSV para o Manchester United por 10,6 milhões de libras. Lembro-me de uma entrevista do jogador em que este se pronunciava sobre a relação entre esse valor e o seu mérito enquanto jogador, controversa porque aqueles montantes apenas eram atingidos em transferências de avançados. Cito de memória (e portanto sem grande fidelidade formal). Entrevistador: acha que um defesa central merece mais de 10 milhões de libras? Stam: não (pausa), mas um avançado também não (pausa) e, pensando bem, ninguém merece 10 milhões de libras.

6. Recordei a entrevista na sequência de comentários críticos ao meu texto “Menos de um mexia por ano”. Argumentaram os críticos que o valor de um salário deve ter em conta o valor acrescentado pela actividade de quem recebe esse salário. Porém, o argumento meritocrático tem limites, em primeiro lugar porque a concretização de decisões meritórias requer o trabalho de outros, como recordava Brecht nas “Perguntas de um operário que lê”: “Quem construiu a Tebas das Sete Portas? / Nos livros constam nomes de reis. / Foram eles que carregaram as rochas? / […]”. Em segundo lugar, porque o sucesso de quem actua com mérito depende das condições colectivas que viabilizam essa actuação, o que significa que uma parte daquele valor acrescentado deve permitir não apenas a recompensa do mérito mas também a reprodução ampliada de tais condições. Finalmente, porque a justificação da recompensa material do mérito não pode ser socialmente desproporcionada tendo em conta a dispersão dos salários sem colocar em causa a legitimidade dessa mesma recompensa. Há outras formas, simbólicas, de recompensar o mérito para além do salário, na actividade empresarial como noutras actividades. Quando subalternizamos a recompensa simbólica do mérito é o próprio valor do mérito como qualidade a promover que desvalorizamos.

7. Em rigor, voltamos sempre ao mesmo: a efectividade e a valorização do mérito dependem de condições sociais que só podem ser mantidas se uma parte do valor acrescentado pelas actividades de quem tem mérito contribuir para reproduzir essas mesmas condições. Para isso a solução é simples e conhecida há muito: chama-se progressividade dos impostos. Essa progressividade tem ainda vantagens económicas tornada óbvias com a derrocada do modelo neoliberal: desincentiva o centramento da actividade empresarial na procura da máxima rentabilidade no curto prazo independentemente da sustentabilidade da economia a médio e longo prazo.

8. Fazem falta mais Stams.

Rui Pena Pires in o Canhoto

Viceversa

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.
Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.
Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.
o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa

Mario Benedetti

domingo, maio 17, 2009

Mau negócio

Começaram a tirar a pele do porco para depois o comerem.
Mesmo antes de morrer o animal murmurou: Eu-não-sou-um-porco-sou-um-homem.
O casal ajoelhou-se e pôs-se a chorar.
-Este porco fala. Como seria rentável!

Gonçalo M. Tavares in O senhor Brecht

sábado, maio 16, 2009

gripe em desenhos

Protesta mas só um bocadinho

Há muito que eu topava a manobra. Manuel Alegre fazia-se de crítico, iludia os que estavam à esquerda do PS, deixava a direita aplaudir e, no momento de decidir, o costume: alinhava com a direcção do partido! A brilhante manobra desarmava os da esquerda ao PS e desarmava a direita. O balanço era óptimo para a direcção do PS (que se mostrava unificadora) e para Alegre (que se mostrava capaz de reforçar o partido)... O quê, não foi assim?... Eu sabia, há muito que sabia. Manuel Alegre criticava a direcção do seu partido em nome dos ideais, avisava que só se movia pelos ideais e, no momento de decidir, fazia mesmo o que disse, pelos ideais! O cortar a direito desarmava o oportunismo da direcção do PS e desarmava os que, à esquerda e à direita, se encostaram ao prestígio de Alegre... Desculpem, fazem-me sinais... Ah, também não foi assim... Eu sabia, agora a sério, eu sabia. Alegre não sai do PS mas não se candidata; não entra nas listas mas os seus entram. Uma decisão em forma de assim-assim. Pois, se aconteceu em Portugal, país das pegas de cernelha...

Ferreira Fernandes in DN, 16 Maio 09

quarta-feira, maio 13, 2009

Orgulho... e nem vale a pena dizer mais nada



Um sorriso de orelha a orelha encheu-me a cara.
Fico feliz.
Fico orgulhoso.
Quando o trabalho, esforço e dedicação dos meus amigos é reconhecido. Força, Mário! Um grande abraço!

segunda-feira, maio 11, 2009

Money-money-money-money

Tu
que com mais cinco és menos, Tu
Tu
que com cinquentas a mais és Tu a menos
Tu
que com quinhentos és o que eles querem que Tu sejas
Tu
que com cinco mil és o que fazem de Ti
Tu
que com cinquenta mil és apenas uma migalha, de Ti
Tu
Que com quinhentos mil já não és Tu.

Tu que és apenas uma nota de sorriso amarrotado.
Tu que não passas de uma moeda velha no meio disto tudo.
Desculpa, não há troco para ti. Hoje.

ao gosto de um bom karaoke caseiro


via ex-Ivan Nunes

Ode à Poesia

Perto de cinquenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela quotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensanguentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

Pablo Neruda
obs: tradução de Thiago de Mello

segunda-feira, maio 04, 2009

Enquanto a tosse não vem

O problema com a parábola do Pedro e os lobos - ele grita "lobos!", as pessoas assustam-se, e era mentira; ele grita "lobos!", as pessoas assustam-se, e era mentira; ele grita "lobos!", as pessoas já não se assustam, mas era verdade... - o problema não é com as vezes que ele grita sem razão. O que me preocupa, mesmo, é que os lobos sempre vieram. Para lá da histeria dos jornais e telejornais, o problema é se a tal gripe sempre vem.

Sim, eu sei que, nisto de surtos, se um jornal diz "tosse!", o outro diz "esfola" (sobretudo se for tablóide e confunde análises com autópsias). Sim, eu sei que pedir contenção a um especialista de gripes, por uma vez que lhe prestam atenção, é como esperar um bocejo do João Garcia sobre as dificuldades do alpinismo. Claro que a situação é grave, tão grave quanto o Anapurna é íngreme. Dizer o contrário seria retirar o fascínio dos microfones estendidos, tão prontos a irem embora se os ameaçarmos com a normalidade.

Daí a comparar com a "pneumónica", de 1918? Não sei. Mas não fui eu que a trouxe à baila, foram responsáveis da OMS: pode acontecer "o pior dos cenários". Ora o pior dos cenários foi essa, a gripe espanhola logo a seguir à I Guerra Mundial, que matou quatro vezes mais do que a própria guerra. Se quiserem uma estatística: 40 milhões de pessoas. Se quiserem uma tragédia: os meus dois bisavós, pais da minha avó materna, mortos no mesmo dia, estendidos no chão do hospital de Braga porque não havia mais lugar.

Podemos chegar aí? Sei lá. Aquelas hesitações à volta do nome da gripe, aquela bizarria de o Tamiflu ter sido feito para a gripe H5N1 (a das aves) e não ser suficientemente bom para ela, e não ter sido feito para a H1N1 (ex-suína, actual gripe A) e ser ideal para esta, dá-me uma sensação de déjà-vu. Há meses, com a crise financeira, tirei duas conclusões: não sabia nada de economia e essa ignorância era partilhada pela generalidade dos economistas. Prefiro não confirmar, um dia destes, que os epidemiologistas são tão profissionais como os grandes financeiros que regulavam o meu mundo.

Como sempre que se anda às aranhas, estacionamos na fase 1. A fase 1, em todas as crises, é dedicada à semântica. Não, a gripe já não é suína porque se transmite de homem para homem. Não, não vale a pena assustarmo-nos com a palavra "pandemia", esta só define uma generalização e não um estatuto de gravidade (por exemplo, desde há um ano, há uma pandemia de Obama, o que até é bom). Já agora, também tenho um contributo semântico: não apanhamos gripe, a gripe é que nos apanha.

Mas o que me preocupa mais é o alerta: "Vais ao México? Cuidado com a gripe.".É que já estive em Tijuana. E se o pior que posso trazer de lá é a gripe, então, esta não é de brincadeiras.

Ferreira Fernandes in DN, 03 Maio 09

obs: via João Tomé

pensamento mindinho

A imaginação é o capital dos pobres.

sábado, maio 02, 2009

VERGONHA

Hoje tenho vergonha! Tanto de um país democrático onde se é agredido sem razão aparente como dos comentários que se seguem a esta situação.

Vital Moreira considera que os insultos e as agressões de que foi alvo esta tarde, depois de ter cumprimentado a direcção da CGTP, no Martim Moniz, configuram um acto de “animosidade contra um antigo militante do PCP que não enjeita o seu percurso político, mas também não renuncia às circunstâncias” que levaram ao seu abandono do partido.

Em declarações ao PÚBLICO, o cabeça de lista do PS às eleições europeias afirmou ter sido alvo de “sectarismo e intolerância”, salientando que a situação tem uma “clara leitura política”. “É uma das tragédias em Portugal esta do sectarismo, de utilizar as vias de facto. Acções destas não prestigiam as forças políticas a que aquelas criaturas pertencem”, disse, escusando-se a explicitar a que “forças políticas” se referia. E prosseguiu: “Acções destas não prestigiam a Intersindical, que não é propriedade do PCP, e também desprestigiam o 1º de Maio.”

Ouvido pela SIC Notícias, Vital Moreira disse ainda que só podia “deplorar estes desacatos” que, em seu entender, “degradam o sindicalismo e degradam o 1º de Maio”. E acrescentou: “Há partidos que julgam que são proprietários das pessoas, mesmo que elas tenham saído há mais de 20 anos, como eu.”

O secretário-geral do PCP não quis comentar as agressões e os insultos a Vital Moreira, alegando que não viu o incidente. “Não vou comentar aquilo que não vi”, disse, citado pela Lusa.

in Público

É muito grave que numa festa da liberdade de expressão e dos direitos dos trabalhadores como o 1º de Maio alguém tenha um gesto ignóbil daqueles.Felizmente não foi muito violento fisicamente, mas podemos sempre especular como teria acabado se não tivesse havido intervenção de outros populares. E nem eram do PS, eram apenas pessoas conscientes (link). Porque toda esta situação é bem superior aos partidos. A culpa não é do partido B ou C. A culpa é de uma clara desresponsabilização moral existente e de alguma comunicação social que incendeia conscientemente os seus espectadores com o intuito de promover situações de conflituosidade social e politica... para depois recolher os divendos jornalisticos.
São estes mesmos espectadores que perdem horas a comentar noticias nos jornais dizendo que tudo isto são maquinarias do PS... Agora que, supostamente, vão perder as eleições. Sim, o mesmo PS que foi responsável pelas agressões a Soares, Assis, etc... Sim, claro que foi.
Triste país onde não se percebe que a democracia não existe para se desancar no próximo. A democracia existe para que existe um próximo. A democracia existe para que possam perder horas a comentar noticias ou a pensar em slogans ofensivos para a próxima manifestação.
Vamos ter esperança... Isto há de melhorar... mas não é através do partido A ou D, é através do trabalho de cada um de nós no seu dia-a-dia. Pensar Global, Agir Local.

sexta-feira, maio 01, 2009

...foi há 15 anos

As imagens ficarão gravadas como um raio na memória dos brasileiros. Na sétima volta do Grande Prêmio de San Marino, no autódromo de ímola, na Itália, Ayrton Senna passa direto pela curva Tamburello, a 300 quilômetros por hora, e espatifa-se no muro de concreto. à 1h40 da tarde, hora do Brasil, um boletim médico do hospital Maggiore de Bolonha, para onde o piloto foi levado de helicóptero, anunciou a morte cerebral de Ayrton Senna. Não havia mais nada a fazer. Ayrton Senna da Silva, 34 anos, tricampeão mundial de Fórmula 1, 41 vitórias em Grandes Prêmios, 65 pole-positions, um dos maiores fenômenos de todos os tempos no automobilismo, estava morto.

in VEJA