segunda-feira, maio 04, 2009

Enquanto a tosse não vem

O problema com a parábola do Pedro e os lobos - ele grita "lobos!", as pessoas assustam-se, e era mentira; ele grita "lobos!", as pessoas assustam-se, e era mentira; ele grita "lobos!", as pessoas já não se assustam, mas era verdade... - o problema não é com as vezes que ele grita sem razão. O que me preocupa, mesmo, é que os lobos sempre vieram. Para lá da histeria dos jornais e telejornais, o problema é se a tal gripe sempre vem.

Sim, eu sei que, nisto de surtos, se um jornal diz "tosse!", o outro diz "esfola" (sobretudo se for tablóide e confunde análises com autópsias). Sim, eu sei que pedir contenção a um especialista de gripes, por uma vez que lhe prestam atenção, é como esperar um bocejo do João Garcia sobre as dificuldades do alpinismo. Claro que a situação é grave, tão grave quanto o Anapurna é íngreme. Dizer o contrário seria retirar o fascínio dos microfones estendidos, tão prontos a irem embora se os ameaçarmos com a normalidade.

Daí a comparar com a "pneumónica", de 1918? Não sei. Mas não fui eu que a trouxe à baila, foram responsáveis da OMS: pode acontecer "o pior dos cenários". Ora o pior dos cenários foi essa, a gripe espanhola logo a seguir à I Guerra Mundial, que matou quatro vezes mais do que a própria guerra. Se quiserem uma estatística: 40 milhões de pessoas. Se quiserem uma tragédia: os meus dois bisavós, pais da minha avó materna, mortos no mesmo dia, estendidos no chão do hospital de Braga porque não havia mais lugar.

Podemos chegar aí? Sei lá. Aquelas hesitações à volta do nome da gripe, aquela bizarria de o Tamiflu ter sido feito para a gripe H5N1 (a das aves) e não ser suficientemente bom para ela, e não ter sido feito para a H1N1 (ex-suína, actual gripe A) e ser ideal para esta, dá-me uma sensação de déjà-vu. Há meses, com a crise financeira, tirei duas conclusões: não sabia nada de economia e essa ignorância era partilhada pela generalidade dos economistas. Prefiro não confirmar, um dia destes, que os epidemiologistas são tão profissionais como os grandes financeiros que regulavam o meu mundo.

Como sempre que se anda às aranhas, estacionamos na fase 1. A fase 1, em todas as crises, é dedicada à semântica. Não, a gripe já não é suína porque se transmite de homem para homem. Não, não vale a pena assustarmo-nos com a palavra "pandemia", esta só define uma generalização e não um estatuto de gravidade (por exemplo, desde há um ano, há uma pandemia de Obama, o que até é bom). Já agora, também tenho um contributo semântico: não apanhamos gripe, a gripe é que nos apanha.

Mas o que me preocupa mais é o alerta: "Vais ao México? Cuidado com a gripe.".É que já estive em Tijuana. E se o pior que posso trazer de lá é a gripe, então, esta não é de brincadeiras.

Ferreira Fernandes in DN, 03 Maio 09

obs: via João Tomé

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