quinta-feira, maio 21, 2009

Morreu o Sr. Cinema Português

João Bénard da Costa morreu hoje, aos 74 anos. Divulgador de cinema, director da Cinemateca Portuguesa desde 1980, Bénard da Costa nasceu a 7 de Fevereiro de 1935.

A notícia foi confirmada ao PÚBLICO pelo sub-director da Cinemateca, Pedro Mexia (cronista deste jornal). Mexia assumiu o cargo de director interino da Cinemateca, depois de Bénard da Costa se ter submetido a uma operação, no final do ano passado.

João Pedro Bénard da Costa, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi um dos fundadores da revista "O Tempo e o Modo", dirigiu o Sector de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presidia à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal.

João Bénard da Costa dedicou-se ainda à crítica e ao ensaio, tendo participado como actor em vários filmes, grande parte dos quais de Manoel de Oliveira.

Pelo trabalho à frente da Cinemateca, Bénard da Costa foi condecorado em Setembro passado pelo ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, com a medalha de mérito cultural.

Na última crónica que escreveu para o PÚBLICO, datada de 7 de Dezembro de 2008, João Bénard da Costa refere, em tom autobiográfico, já no final do texto, intitulado "Tempo Turvo: regresso a Crisitina Campo": "Nesta crónica, se falei noutra coisa, foi só porque me distraí muito. Dos meus defeitos, talvez seja o maior".

Reacções de pesar sucedem-se

O presidente do Centro Nacional de Cultura (CNC) classificou hoje de "perda irreparável" a morte de João Bénard da Costa, apontando-o como "uma referência fundamental da cultura portuguesa". Guilherme d´Oliveira Martins recordou que Bénard da Costa foi "um dirigente activo" do CNC no princípio dos anos 1970 e um "grande escritor"

"Era um homem de talento e sabedoria", sublinhou, lembrando ainda que foi, com Alçada Baptista, "uma das almas da revista 'O Tempo e o Modo'".

"A Cinemateca Portuguesa foi a sua paixão. Legou-nos aí um trabalho fundamental", sublinhou ainda, indicando que a "melhor homenagem que lhe devemos é não deixar cair os seus projectos ligados à aproximação do público em relação à história do cinema, que se confunde com a história do mundo no último século. Os seus textos sobre literatura e sobre as artes são referências. Era um grande amigo".

Também o realizador João Mário Grilo lamentou hoje a morte de João Bénard da Costa, "uma figura decisiva na preparação de Portugal para a democracia".

"Somos um país carenciado de exemplos de pessoas que sacrificaram a vida por uma causa pública e por valores essenciais", sublinhou João Mário Grilo, enaltecendo a importância de João Bénard da Costa para lá do cinema.

"A presença de Bénard da Costa não se esgota aí. Foi uma figura fundamental e insubstituível", referiu o realizador.

Para João Mário Grilo, a Cinemateca Portuguesa "é uma das heranças de João Bénard da Costa em Portugal e a nível internacional. Tudo o que aconteceu lá resultou de uma relação de amor".

O produtor Paulo Branco também lamentou, aos microfones da Antena 1, a morte de Bénard da Costa: "Ele foi um divulgador, um impulsionador, um protector. Ele foi tudo no cinema em Portugal. É uma pessoa que foi imprescindível para que possamos hoje em dia ter o conhecimento da obra cinematográfica da maior parte dos grandes autores do cinema mundial". "A minha existência no cinema deve-se a João Bénard da Costa", sublinhou o produtor, citado pela Lusa, referindo que foi graças a Bénard da Costa que "muitas gerações viram cinema em Portugal". "Ele institucionalizou a Cinemateca, que foi essencial no fascínio que o cinema exerceu sobre nós", disse ainda Paulo Branco, citado pela agência noticiosa.

O ensaísta Eduardo Lourenço lamentou igualmente o desaparecimento de João Bénard da Costa resumindo numa breve declaração a ideia que tinha do presidente da Cinemateca: "Morreu o senhor Cinema Português".

Eduardo Lourenço lembrou que conheceu Bénard da Costa quando colaborou na revista "O Tempo e o Modo", na qual o presidente da Cinemateca Portuguesa "era um dos principais animadores, ao lado de António Alçada Baptista". Desde então, o ensaísta, embora residindo em França há muitos anos, acompanhou o percurso de Bénard da Costa, e tornou-se amigo da família. Destacou ainda que Bénard da Costa "foi também um grande ensaísta e revelou-se, no últimos anos, um cronista de rara qualidade".

in Público, 21 Maio 2009

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