terça-feira, maio 19, 2009

os Mexias e o mundo

1. Segundo o Correio da Manhã da última terça-feira, “Bela Vista custa 1 milhão em subsídio”. O valor estimado corresponderia ao recebido por cerca de 275 famílias beneficiárias do rendimento social de inserção. É uma maneira de fazer contas. Outra seria dizer que a Bela Vista custa 79% de um “mexia” por ano. O valor obtém-se relacionando o total dos subsídios recebidos pelas 275 famílias com a remuneração recebida em 2008 por António Mexia, enquanto presidente executivo da EDP (o gestor português com o salário mais elevado em 2008): 1,26 milhões de euros. Daí o título: “menos de um mexia por ano”.

2. Mexia podia mesmo deixar de ser nome próprio e passar a ser unidade monetária. Um por cento de um “mexia” seria considerado um centavo. Usando esta nova unidade, as 275 famílias da Bela Vista receberam quase 80 centavos e um salário mínimo nacional corresponderia a 0,5% de um “mexia”, ou seja, a meio centavo. Já a remuneração bruta anual de um professor catedrático do último escalão com dedicação exclusiva valeria 7% de um “mexia”, ou sete centavos. Ou apenas quatro centavos se fosse um professor auxiliar do primeiro escalão. Difícil sair dos centavos, com esta nova unidade.

3. Talvez os “mexias” sejam mais úteis para grandes valores. Por exemplo, se o novo aeroporto de Lisboa ficar em cerca de 6 mil milhões de euros (o valor mais alto que encontrei) e tiver um período de vida útil de 35 anos (o período mais curto referido na imprensa), custará 136 mexias/ano. Afinal é quase de borla! Manuela Ferreira Leite tem que rever o significado da palavra mega quando fala em megaprojectos.

4. Chato mesmo é António Mexia pagar a mesma taxa de IRS que paga quem ganha sete centavos em unidades mexias.

(...)

5. Em 1998, o holandês Jaap Stam, tornou-se o defesa mais caro de sempre da história do futebol ao ser transferido do PSV para o Manchester United por 10,6 milhões de libras. Lembro-me de uma entrevista do jogador em que este se pronunciava sobre a relação entre esse valor e o seu mérito enquanto jogador, controversa porque aqueles montantes apenas eram atingidos em transferências de avançados. Cito de memória (e portanto sem grande fidelidade formal). Entrevistador: acha que um defesa central merece mais de 10 milhões de libras? Stam: não (pausa), mas um avançado também não (pausa) e, pensando bem, ninguém merece 10 milhões de libras.

6. Recordei a entrevista na sequência de comentários críticos ao meu texto “Menos de um mexia por ano”. Argumentaram os críticos que o valor de um salário deve ter em conta o valor acrescentado pela actividade de quem recebe esse salário. Porém, o argumento meritocrático tem limites, em primeiro lugar porque a concretização de decisões meritórias requer o trabalho de outros, como recordava Brecht nas “Perguntas de um operário que lê”: “Quem construiu a Tebas das Sete Portas? / Nos livros constam nomes de reis. / Foram eles que carregaram as rochas? / […]”. Em segundo lugar, porque o sucesso de quem actua com mérito depende das condições colectivas que viabilizam essa actuação, o que significa que uma parte daquele valor acrescentado deve permitir não apenas a recompensa do mérito mas também a reprodução ampliada de tais condições. Finalmente, porque a justificação da recompensa material do mérito não pode ser socialmente desproporcionada tendo em conta a dispersão dos salários sem colocar em causa a legitimidade dessa mesma recompensa. Há outras formas, simbólicas, de recompensar o mérito para além do salário, na actividade empresarial como noutras actividades. Quando subalternizamos a recompensa simbólica do mérito é o próprio valor do mérito como qualidade a promover que desvalorizamos.

7. Em rigor, voltamos sempre ao mesmo: a efectividade e a valorização do mérito dependem de condições sociais que só podem ser mantidas se uma parte do valor acrescentado pelas actividades de quem tem mérito contribuir para reproduzir essas mesmas condições. Para isso a solução é simples e conhecida há muito: chama-se progressividade dos impostos. Essa progressividade tem ainda vantagens económicas tornada óbvias com a derrocada do modelo neoliberal: desincentiva o centramento da actividade empresarial na procura da máxima rentabilidade no curto prazo independentemente da sustentabilidade da economia a médio e longo prazo.

8. Fazem falta mais Stams.

Rui Pena Pires in o Canhoto

1 comentário:

Me, Ren and Stimpy disse...

Ou então ainda podíamos ir mais longe e viver simplesmente do mérito de sermos bons agricultores, e mesmo ai se calhar deveríamos partilhar o nosso mérito com a terra, pois sem a qualidade desta muito não seria alcançado!