sexta-feira, junho 26, 2009

cá te espero...

Uma extravagância digital de 50 minutos concebida por Peter Greenaway a partir da tela "As Bodas de Canaã", de Paolo Veronese, está a dividir opiniões na 53ª edição da Bienal de Veneza. Na parede do refeitório do mosteiro beneditino da ilha veneziana de San Giorgio Maggiore, os visitantes podem ver uma réplica digital da imensa tela de Veronese, precisamente com as mesmas dimensões do original, que mede quase 67 metros quadrados, sobre a qual é projectado o filme de Greenaway, que abarca também o espaço ao redor da pintura.

A obra de Greenaway tanto se aproxima de uma lição sobre pintura servida por sofisticados meios tecnológicos, mostrando detalhes dos rostos ou servindo-se de diagramas para atestar a centralidade da figura de Cristo, como desliza para a ficção, assinalando com legendas os diálogos sussurrados entre as personagens da tela. Como nas filacteras da banda desenhada, linhas vermelhas unem cada deixa à respectiva personagem.

A tela de Veronese, concluída em 1562, retrata o primeiro milagre de Cristo - a transformação da água em vinho -, mas os diálogos que Greenaway escreveu (atribuídos a 126 figuras diferentes) tanto remetem para o tempo de Cristo como para a Veneza do século XVI. Muitas das falas são provocatoriamente banais e anacrónicas, como a de um conviva que, comentando o vinho milagrosamente produzido, diz: "Não há dúvida de que é encorpado; sabe a uvas plantadas numa encosta voltada a sul."

Antes deste trabalho, o realizador, em cuja filmografia a pintura sempre desempenhou um papel fundamental, já tinha criado obras equivalentes para "A Ronda Nocturna", de Rembrandt, e para "A Última Ceia de Leonardo". E o seu intento é prosseguir a série. "As Meninas", de Velásquez, e "Guernica", de Picasso, são algumas das obras que já anunciou que gostaria de acrescentar ao seu projecto.

in Público, 26 Junho 09

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