segunda-feira, junho 29, 2009

em busca da esquerda perdida

Na sua última crónica, José António Saraiva confessava a dificuldade em perceber o que se passou nas últimas eleições europeias, esperando que o tempo o ajudasse a encontrar uma explicação para o enigma. De facto, como entender que «numa altura em que a sociedade se abriga à sombra do Estado para se proteger da crise, os eleitores votem em partidos que são relapsos à intervenção estatal?» E «como é que, com o desemprego a aumentar, a direita ganha em quase 75% dos países da União, incluindo Portugal, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Polónia, etc.?».

Partilho largamente a perplexidade de Saraiva, no momento em que, como ele recorda, a América «salta da direita para a esquerda» transportada pelo ‘efeito Obama’. Mas talvez valha a pena retomar algumas reflexões que tenho feito sobre a questão.

Desde logo, não era plausível que o ‘efeito Obama’ pudesse contagiar uma esquerda europeia inerte, dividida, em profunda crise de identidade ideológica e, sobretudo, sem vontade para enfrentar tempos de mudança.

Obama chega à Casa Branca depois da calamitosa presidência de Bush, que conduzira a América a um beco sem saída. Ora, quando isso ocorre, já a esquerda europeia estava em contraciclo, na sequência do refluxo que a afastou do poder em grande número de países, incluindo os dois com maior peso económico e político: a Alemanha e a França.

A esquerda não soube reinventar-se após a queda do Muro de Berlim, quando a doutrina neoliberal se afirmou em força como única via supostamente pragmática para assegurar a prosperidade económica (o trabalhista Blair, no Reino Unido, e o social-democrata Schroeder, na Alemanha, limitaram-se, no fundo, a prosseguir o legado da era Thatcher-Reagan). Apesar das fórmulas retóricas – «sim à economia de mercado, não à sociedade de mercado», declarava Jospin, em França –, a verdade é que a esquerda se foi convertendo, nuns casos a contragosto, noutros de forma ostensiva, à nova doutrina triunfante.

Ora, a diluição da esquerda na grande vaga neoliberal dos anos 90 acabou por inibi-la de repensar-se e antecipar alternativas consequentes à actual crise internacional. Com a excepção mais notória de Gordon Brown – fortemente penalizado, nas eleições para o Parlamento Europeu, pelos recentes escândalos na Câmara dos Comuns –, foram os principais dirigentes da direita europeia que protagonizaram a intervenção estatal no combate à crise, recorrendo a meios tradicionalmente identificados com a esquerda e o modelo keynesiano.

Nada que se compare, é certo, à panóplia de medidas adoptadas pela Administração Obama, mas ainda assim com uma carga simbólica indiscutível: a direita aplicava, sem estados de alma, receitas de esquerda, e alguns dos seus líderes, como Sarkozy, não mostravam nenhum pejo em denunciar, com grande fervor moralista, os delírios neoliberais do capitalismo financeiro. A esquerda bem podia clamar contra o roubo dos seus ‘direitos de autor’, mas o que ficava no ar era o eco de uma retórica impotente.



Ironicamente – mas exemplificando a confusão em que mergulhou a esquerda europeia –, um dos políticos mais avessos às medidas de inspiração keynesiana foi o ministro das Finanças alemão, Frank-Walter Steinmeier, actual presidente do SPD e membro da coligação presidida por Angela Merkel. Recorde-se que os sociais-democratas alemães registaram, a 7 de Junho, o seu pior resultado eleitoral de sempre e todas as sondagens os dão como grandes derrotados nas legislativas deste ano.

Mas Steinmeier está longe de ser um caso original entre os sociais-democratas europeus: o nevoeiro da crise tende a apagar outros traços que distinguiam a social-democracia da direita conservadora. Na Holanda ou em alguns países nórdicos, responsáveis sociais-democratas não hesitam sequer em fazer declarações xenófobas contra a concorrência dos trabalhadores imigrantes para confortar parte do seu eleitorado ameaçado pelo desemprego.

E que dizer do Partido Democrático italiano, nascido da fusão entre os ex-comunistas e os democratas-cristãos afectos ao já reformado Romano Prodi? O esforço laboratorial para diluir, num centrismo asséptico, as matrizes de origem e os anticorpos ideológicos, levou o maior partido da esquerda italiana a tornar-se politicamente irreconhecível – e tão anónimo como o seu actual presidente, Dario Franceshini.

Asocial-democracia está órfã de verdadeiros protagonistas, como aqueles que marcaram a paisagem política continental e se reconheciam no espírito europeu (como Mitterrand, González, Soares, ou, recuando mais no tempo, Willy Brandt ou Olaf Palme). A essa geração seguiu-se uma outra de actores secundários ou simples figurantes, destituídos de pensamento político e irradiação europeia, meros produtos dos artifícios do marketing (como Sócrates ou Zapatero). É uma nova geração que foi incapaz de propor uma estratégia, um programa político e um candidato à presidência da Comissão, rendendo-se ao camaleonismo político de Durão Barroso.

O eleitorado popular desertou das urnas – ou preferiu mudar o seu sentido de voto – porque essa social-democracia sem norte não lhe inspirava confiança e merecia ser castigada. Com efeito, a actual esquerda europeia voga entre a nostalgia dos valores perdidos, um regresso ao passado glorioso do Estado Providência, e a incapacidade de produzir um paradigma político inovador, que corresponda à emergência da crise internacional e aos seus múltiplos desafios (nomeadamente, ecológicos, civilizacionais, da relação do Estado com o mercado).

É evidente que tudo isto não responde cabalmente à perplexidade de Saraiva nem à minha. Será apenas um princípio de resposta. Mas se a esquerda perde quando, supostamente, deveria ganhar, é talvez porque, entretanto, se perdeu pelo caminho.

Vicente Jorge Silva in Sol, 26 Junho 09

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