sexta-feira, junho 19, 2009

o deus das moscas mortas

Bandeira in Bandeira ao Vento

Moscas Mortas
Obama está a dar uma entrevista de TV na sala oval - se não é na sala oval faz de conta - quando aparece uma mosca gorducha. Ninguém quer aparecer na TV com uma mosca, bzzz-bzzz, às voltas. E, zás, Obama dá-lhe uma palmada. E gaba-se, com um sorriso feliz: "Foi bastante impressionante, não foi? Matei a sacaninha." Apontando para o bicho de pernas para o ar na alcatifa, acrescenta: "Querem filmar? Está ali."

E filmam mesmo. E mais, passam mesmo a cena na TV. A coisa vai parar ao YouTube num piscar de olhos - o tempo que leva a matar uma mosca. O mundo fica extasiado com a pinta do Presidente - a matar uma mosca. Os pivots dos principais canais americanos descrevem o gesto como "fixe", "felino", "ninja", em suma, qualquer coisa de fantástico. Uma pessoa olha para aquilo e pensa: por que carga de água estou a olhar para isto? Por que raio alguém passa isto na TV e - não despiciendo, em nome de quê (liberdade de aparvalhação?) o Presidente aceitou que isto fosse para o ar? Há alguma coisa de relevante no facto de o Presidente dos EUA, como qualquer pessoa não budista nem fanática dos direitos dos animais, dar um piparote numa chata duma mosca? É o facto de o fazer ele próprio em vez de chamar um segurança para lhe dar um tiro? É porque o faz com grande à-vontade e se ri? É porque é bizarro e inédito ver-se tal coisa na TV, e o que é bizarro e inédito, por mais destituído de interesse, tem de passar na TV?

Bom, imagine-se a cena com o presidente não se sabe se reeleito do Irão, aquela simpatia de pessoa. Está Ahmadinejad a dar uma entrevista, por exemplo a propósito do que se passa nas ruas do Irão, onde gente é perseguida, espancada e morta por protestar contra ele, e esborracha uma mosca. Dir-se-ia "ele mata aquela mosca com a indiferença com que manda atirar sobre as multidões", ou coisa parecida. Um torcionário a executar uma mosca durante uma entrevista: todo um programa. E Bush? Bush, o bronco, o homem que invadiu o Iraque, que fez Guantánamo e Abu Ghraib, a matar uma mosca e a rir-se da proeza? E Palin, a tonta evangélica caçadora de alces? E Clinton, o cínico aldrabão adúltero de queixo tremeluzente e voz rouca? E Obama daqui a uns anitos? Pois.

Esta coisa do amor do povo é tramada - como o amor em geral, de resto. No período de enamoramento, nada há que o ser amado faça que não deslumbre - até matar uma varejeira com a mão. Uns tempos depois e aparecem os defeitos: "Viram como ele matou a mosca com a mão e nem sequer a foi lavar, ficou ali sentado? Que nojo." Ou: "Que pessoa insensível e casca grossa, olhem o exemplo que dá às crianças, matar assim um animal e rir-se por cima." E no fim: "Quer tanto saber daquela mosca como de nós. Só pensa nele"; "É mesmo típico, mata uma mosca e pensa que fez uma grande coisa"; "Aposto que fez questão de que aquilo passasse na TV para mostrar ao povo que é uma pessoa normal, mata ele as suas próprias moscas, pffff." Isto tudo com a mesma mosca morta. E talvez a mesma pessoa.

Fernanda Câncio in DN, 19 Junho 09

1 comentário:

Marina disse...

Clap Clap Clap! Muito bem escrito e hilariante! Acrescentando ser uma boa verdade.